Sonetos Completos

Antero de Quental · Capítulo 6 de 72

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Sonetos Completos

Os Vencidos

 

 

Tres cavalleiros seguem lentamente

Por uma estrada erma e pedregosa.

Geme o vento na selva rumorosa,

Cae a noite do céo, pesadamente.

Vacilam-lhes nas mãos as armas rotas,

Têm os corceis poentos e abatidos,

Em desalinho trazem os vestidos,

Das feridas lhe cae o sangue, em gotas.

A derrota, traiçoeira e pavorosa,

As fontes lhes curvou, com mão potente. No horisonte escuro do poente

Destaca-se uma mancha sanguinosa.

E o primeiro dos tres, erguendo os braços, Diz n'um soluço: «Amei e fui amado!

Levou-me uma visão, arrebatado,

Como em carro de luz, pelos espaços!

Com largo vôo, penetrei na esphera

Onde vivem as almas que se adoram, Livre, contente e bom, como os que moram Entre os astros, na eterna primavera.

Porque irrompe no azul do puro amor

O sopro do desejo pestilente?

Ai do que um dia recebeu de frente

O seu halito rude e queimador!

A flor rubra e olorosa da paixão

Abre languida ao raio matutino,

Mas seu profundo calix purpurino

Só reçuma veneno e podridão.

Irmãos, amei—amei e fui amado…

Por isso vago incerto e fugitivo,

E corre lentamente um sangue esquivo

Em gotas, de meu peito alanceado.»

Responde-lhe o segundo cavalleiro,

Com sorriso de tragica amargura:

«Amei os homens e sonhei ventura,

Pela justiça heroica, ao mundo inteiro.

Pelo direito, ergui a voz ardente

No meio das revoltas homicidas:

Caminhando entre raças opprimidas,

Fil-as surgir, como um clarim fremente.

Quando ha de vir o dia da justiça?

Quando ha de vir o dia do resgate?

Trahio-me o gladio em meio do combate

E semeei na areia movediça!

As nações, com sorriso bestial,

Abrem, sem ler, o livro do futuro.

O povo dorme em paz no seu monturo,

Como em leito de purpura real.

Irmãos, amei os homens e contente

Por elles combati, com mente justa…

Por isso morro á mingoa e a areia adusta Bebe agora meu sangue, ingloriamente.»

Diz então o terceiro cavalleiro:

«Amei a Deus e em Deus puz alma e tudo. Fiz do seu nome fortaleza e escudo

No combate do mundo traiçoeiro

Invoquei-a nas horas affrontosas

Em que o mal e o peccado dão assalto.

Procurei-o, com ancia e sobresalto,

Sondando mil sciencias duvidosas.

Que vento de ruina bate os muros

Do templo eterno, o templo sacrosanto?

Rolam, desabam, com fragor e espanto,

Os astros pelo céo, frios e escuros!

Vacila o sol e os santos desesperam…

Tedio reçuma a luz dos dias vãos…

Ai dos que juntam com fervor as mãos!

Ai dos que crêem! ai dos que inda esperam!

Irmãos, amei a Deus, com fé profunda…

Por isso vago sem conforto e incerto, Arrastando entre as urzes do deserto

Um corpo exangue e uma alma moribunda.»

E os tres, unindo a voz n'um ai supremo,

E deixando pender as mãos cançadas

Sobre as armas inuteis e quebradas,

N'um gesto inerte de abandono extremo,

Sumiram-se na sombra duvidosa

Da montanha calada e formidavel,

Sumiram-se na selva impenetravel

E no palor da noite silenciosa.