Sonetos Completos
Ad Amicos
Em vão luctamos. Como nevoa baça,
A incerteza das cousas nos envolve.
Nossa alma, em quanto cria, em quanto volve, Nas suas proprias redes se embaraça.
O pensamento, que mil planos traça,
É vapor que se esvae e se dissolve;
E a vontade ambiciosa, que resolve,
Como onda entre rochedos se espedaça.
Filhos do Amor, nossa alma é como um hymno Á luz, á liberdade, ao bem fecundo,
Prece e clamor d'um presentir divino;
Mas n'um deserto só, arido e fundo,
Ecchoam nossas vozes, que o Destino
Paira mudo e impassivel sobre o mundo.
A um crucifixo
Ha mil annos, bom Christo, ergueste os magros braços E clamaste da cruz: ha Deus! e olhaste, ó crente, O horizonte futuro e viste, em tua mente, Um alvor ideal banhar esses espaços!
Porque morreu sem eccho o eccho de teus passos, E de tua palavra (ó Verbo!) o som fremente? Morreste… ah! dorme em paz! não volvas, que descrente Arrojáras de nova á campa os membros lassos…
Agora, como então, na mesma terra erma, A mesma humanidade é sempre a mesma enferma, Sob o mesmo ermo céo, frio como um sudario…
E agora, como então, viras o mundo exangue, E ouviras perguntar—de que servio o sangue Com que regaste, ó Christo, as urzes do Calvario?—
Desesperança
Vae-te na aza negra da desgraça,
Pensamento de amor, sombra d'uma hora, Que abracei com delirio, vae-te, embora, Como nuvem que o vento impelle… e passa.
Que arrojemos de nós quem mais se abraça, Com mais ancia, á nossa alma! e quem devora D'essa alma o sangue, com que vigora,
Como amigo commungue á mesma taça!
Que seja sonho apenas a esperança,
Emquanto a dor eternamente assiste.
E só engano nunca a desventura!
Se era silencio soffrer fôra vingança!..
Envolve-te em ti mesma, ó alma triste,
Talvez sem esperança haja ventura!