Sonetos Completos

Antero de Quental · Capítulo 19 de 72

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Sonetos Completos

Ad Amicos

 

 

Em vão luctamos. Como nevoa baça,

A incerteza das cousas nos envolve.

Nossa alma, em quanto cria, em quanto volve, Nas suas proprias redes se embaraça.

O pensamento, que mil planos traça,

É vapor que se esvae e se dissolve;

E a vontade ambiciosa, que resolve,

Como onda entre rochedos se espedaça.

Filhos do Amor, nossa alma é como um hymno Á luz, á liberdade, ao bem fecundo,

Prece e clamor d'um presentir divino;

Mas n'um deserto só, arido e fundo,

Ecchoam nossas vozes, que o Destino

Paira mudo e impassivel sobre o mundo.

 

A um crucifixo

Ha mil annos, bom Christo, ergueste os magros braços E clamaste da cruz: ha Deus! e olhaste, ó crente, O horizonte futuro e viste, em tua mente, Um alvor ideal banhar esses espaços!

Porque morreu sem eccho o eccho de teus passos, E de tua palavra (ó Verbo!) o som fremente? Morreste… ah! dorme em paz! não volvas, que descrente Arrojáras de nova á campa os membros lassos…

Agora, como então, na mesma terra erma, A mesma humanidade é sempre a mesma enferma, Sob o mesmo ermo céo, frio como um sudario…

E agora, como então, viras o mundo exangue, E ouviras perguntar—de que servio o sangue Com que regaste, ó Christo, as urzes do Calvario?—

 

Desesperança

 

Vae-te na aza negra da desgraça,

Pensamento de amor, sombra d'uma hora, Que abracei com delirio, vae-te, embora, Como nuvem que o vento impelle… e passa.

Que arrojemos de nós quem mais se abraça, Com mais ancia, á nossa alma! e quem devora D'essa alma o sangue, com que vigora,

Como amigo commungue á mesma taça!

Que seja sonho apenas a esperança,

Emquanto a dor eternamente assiste.

E só engano nunca a desventura!

Se era silencio soffrer fôra vingança!..

Envolve-te em ti mesma, ó alma triste,

Talvez sem esperança haja ventura!