Sonetos Completos
Capítulo I
Dixit insipiens in corde suo: non est Deus.
I
Sae das nuvens, levanta a fronte e escuta O que dizem teus filhos rebellados,
Velho Jehovah de longa barba hirsuta,
Solitario em teus Céos acastellados:
«—Cessou o imperio emfim da força bruta! Não soffreremos mais, emancipados,
O tyranno, de mão tenaz e astuta,
Que mil annos nos trouxe arrebanhados!
Emquanto tu dormias impassivel,
Topámos no caminho a liberdade
Que nos sorrio com gesto indefinivel…
Já provámos os fructos da verdade…
Ó Deus grande, ó Deus forte, ó Deus terrivel. Não passas d'uma van banalidade!—»
II
Mas o velho tyranno solitario,
De coração austero e endurecido,
Que um dia, de enjoado ou distrahido,
Deixou matar seu filho no Calvario,
Sorrio com rir extranho, ouvindo o vario
Tumultuoso côro e alarido
Do povo insipiente, que, atrevido,
Erguia a voz em grita ao seu sacrario:
«—Vanitas vanitatum! (disse). É certo
Que o homem vão medita mil mudanças, Sem achar mais do que erro e desacerto.
Muito antes de nascerem vossos paes
D'um barro vil, ridiculas crianças,
Sabia em tudo isso… e muito mais!—»
Mors liberatrix
(A Bulhão Pato)
Na tua mão, sombrio cavalleiro,
Cavalleiro vestido de armas pretas,
Brilha uma espada feita de cometas,
Que rasga a escuridão como um luzeiro.
Caminhas no teu curso aventureiro,
Todo involto na noite que projectas…
Só o gladio de luz com fulvas betas
Emerge do sinistro nevoeiro.
—«Se esta espada que empunho é coruscante, (Responde o negro cavalleiro-andante)
É porque esta é a espada da Verdade.
Firo, mas salvo… Prostro e desbarato,
Mas consólo… Subverto, mas resgato…
E, sendo a Morte, sou a Liberdade.»
O Inconsciente
O Espectro familiar que anda commigo,
Sem que podesse ainda ver-lhe o rosto,
Que umas vezes encaro com desgosto
E outras muitas ancioso espreito e sigo.
É um espectro mudo, grave, antigo,
Que parece a conversas mal disposto…
Ante esse vulto, ascetico e composto
Mil vezes abro a bocca… e nada digo.
Só uma vez ousei interrogal-o:
Quem és (lhe perguntei com grande abalo) Phantasma a quem odeio e a quem amo?
Teus irmãos (respondeu) os vãos humanos, Chamam-me Deus, ha mais de dez mil annos… Mas eu por mim não sei como me chamo…