Sonetos Completos

Antero de Quental · Capítulo 48 de 72

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Sonetos Completos

Capítulo I

Dixit insipiens in corde suo: non est Deus.

 

I

 

Sae das nuvens, levanta a fronte e escuta O que dizem teus filhos rebellados,

Velho Jehovah de longa barba hirsuta,

Solitario em teus Céos acastellados:

«—Cessou o imperio emfim da força bruta! Não soffreremos mais, emancipados,

O tyranno, de mão tenaz e astuta,

Que mil annos nos trouxe arrebanhados!

Emquanto tu dormias impassivel,

Topámos no caminho a liberdade

Que nos sorrio com gesto indefinivel…

Já provámos os fructos da verdade…

Ó Deus grande, ó Deus forte, ó Deus terrivel. Não passas d'uma van banalidade!—»

 

II

 

Mas o velho tyranno solitario,

De coração austero e endurecido,

Que um dia, de enjoado ou distrahido,

Deixou matar seu filho no Calvario,

Sorrio com rir extranho, ouvindo o vario

Tumultuoso côro e alarido

Do povo insipiente, que, atrevido,

Erguia a voz em grita ao seu sacrario:

«—Vanitas vanitatum! (disse). É certo

Que o homem vão medita mil mudanças, Sem achar mais do que erro e desacerto.

Muito antes de nascerem vossos paes

D'um barro vil, ridiculas crianças,

Sabia em tudo isso… e muito mais!—»

 

Mors liberatrix

(A Bulhão Pato)

 

Na tua mão, sombrio cavalleiro,

Cavalleiro vestido de armas pretas,

Brilha uma espada feita de cometas,

Que rasga a escuridão como um luzeiro.

Caminhas no teu curso aventureiro,

Todo involto na noite que projectas…

Só o gladio de luz com fulvas betas

Emerge do sinistro nevoeiro.

—«Se esta espada que empunho é coruscante, (Responde o negro cavalleiro-andante)

É porque esta é a espada da Verdade.

Firo, mas salvo… Prostro e desbarato,

Mas consólo… Subverto, mas resgato…

E, sendo a Morte, sou a Liberdade.»

 

O Inconsciente

 

O Espectro familiar que anda commigo,

Sem que podesse ainda ver-lhe o rosto,

Que umas vezes encaro com desgosto

E outras muitas ancioso espreito e sigo.

É um espectro mudo, grave, antigo,

Que parece a conversas mal disposto…

Ante esse vulto, ascetico e composto

Mil vezes abro a bocca… e nada digo.

Só uma vez ousei interrogal-o:

Quem és (lhe perguntei com grande abalo) Phantasma a quem odeio e a quem amo?

Teus irmãos (respondeu) os vãos humanos, Chamam-me Deus, ha mais de dez mil annos… Mas eu por mim não sei como me chamo…