Sonetos Completos

Antero de Quental · Capítulo 16 de 72

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Sonetos Completos

A M.C.

 

 

No céo, se existe um céo para quem chora. Céo, para as magoas de quem soffre tanto… Se é lá do amor o foco, puro e santo,

Chama que brilha, mas que não devora…

No céo, se uma alma n'esse espaço mora. Que a prece escuta e encharga o nosso pranto… Se ha Pae, que estenda sobre nós o manto Do amor piedoso… que eu não sinto agora…

No céo, ó virgem! findarão meus males:

Hei-de lá renascer, eu que pareço

Aqui ter só nascido para dôres.

Ali, ó lyrio dos celestes valles!

Tendo seu fim, terão o seu começo.

Para não mais findar, nossos amores.

 

A João de Deus

Se é lei, que rege o escuro pensamento,

Ser vã toda a pesquisa da verdade,

Em vez da luz achar a escuridade,

Ser uma queda nova cada invento;

É lei tambem, embora cru tormento,

Buscar, sempre buscar a claridade,

E só ter como certa realidade

O que nos mostra claro o entendimento.

O que ha-de a alma escolher, em tanto engano? Se uma hora crê de fé, logo duvida:

Se procura, só acha… o desatino!

Só Deus póde acudir em tanto damno:

Esperemos a luz d'uma outra vida,

Seja a terra degredo, o céo destino.

 

A Alberto Telles

 

Só!—Ao ermita sósinho na montanha

Visita-o Deus e dá-lhe confiança:

No mar, o nauta, que o tufão balança,

Espera um sopro amigo que o céo tenha…

Só!—Mas quem se assentou em riba estranha, Longe dos seus, lá tem inda a lembrança: E Deus deixa-lhe ao menos a esperança

Ao que á noite soluça em erma penha…

Só!—Não o é quem na dor, quem nos cançaços, Tem um laço que o prenda a este fadario. Uma crença, um desejo… e inda um cuidado…

Mas cruzar, com desdem, inertes braços, Mas passar, entre turbas, solitario,

Isto é ser só, é ser abandonado!

 

A J. Felix dos Santos

 

Sempre o futuro, sempre! e o presente

Nunca! Que seja esta hora em que se existe De incerteza e de dor sempre a mais triste, E só farte o desejo um bem ausente!

Ai! que importa o futuro, se inclemente

Essa hora, em que a esperança nos consiste, Chega… é presente… e só á dor assiste?… Assim, qual é a esperança que não mente?

Desventura ou delirio?… O que procuro,

Se me foge, é miragem enganosa,

Se me espera, peor, espectro impuro…

Assim a vida passa vagarosa:

O presente, a aspirar sempre ao futuro:

O futuro, uma sombra mentirosa.