Sonetos Completos

Antero de Quental · Capítulo 12 de 72

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Sonetos Completos

A M.C.

 

 

Poz-te Deus sobre a fronte a mão piedosa: O que fada o poeta e o soldado

Volveu a ti o olhar, de amor velado,

E disse-te: «vae, filha, sê formosa!»

E tu, descendo na onda harmoniosa,

Pousaste n'este solo angustiado,

Estrella envolta n'um clarão sagrado,

Do teu limpido olhar na luz radiosa…

Mas eu… posso eu acaso merecer-te?

Deu-te o Senhor, mulher! o que é vedado, Anjo! Deu-te o Senhor um mundo á parte.

E a mim, a quem deu olhos para ver-te,

Sem poder mais… a mim o que me ha dado? Voz, que te cante, e uma alma para amar-te!

 

A Santos Valente

Estreita é do prazer na vida a taça:

Largo, como o oceano é largo e fundo,

E como elle em venturas infecundo,

O cális amargoso da desgraça.

E comtudo nossa alma, quando passa

incerta peregrina, pelo mundo,

Prazer só pede à vida, amor fecundo,

É com essa esperança que se abraça.

É lei de Deus este aspirar immenso…

E comtudo a illusão impoz à vida.

E manda buscar luz e dá-nos treva!

Ah! se Deus accendeu um foco intenso

De amor e dor em nós, na ardente lida,

Porque a miragem cria… ou porque a leva?

 

Tormanto do Ideal

 

Conheci a Belleza que não morre

E fiquei triste. Como quem da serra

Mais alta que haja, olhando aos pés a terra E o mar, vê tudo, a maior nau ou torre,

Minguar, fundir-se, sob a luz que jorre:

Assim eu vi o mundo e o que elle encerra Perder a côr, bem como a nuvem que erra Ao pôr do sol e sobre o mar discorre.

Pedindo à fórma, em vão, a idea pura,

Tropéço, em sombras, na materia dura.

E encontro a imperfeição de quanto existe.

Recebi o baptismo dos poetas,

E assentado entre as fórmas incompletas Para sempre fiquei pallido e triste.