Sonetos Completos

Antero de Quental · Capítulo 9 de 72

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Sonetos Completos

A Fada Negra

 

Uma velha de olhar mudo e frio,

De olhos sem cor, de labios glaciaes,

Tomou-me nos seus braços sepuleraes.

Tomou-me sobre o seio ermo e vasio.

E beijou-me em silencio, longamente,

Longamente me unio á face fria…

Oh! como a minha alma se estorcia

Sob os seus beijos, dolorosamente!

Onde os labios pousou, a carne logo

Myrrou-se e encaneceu-se-me o cabello, Meus ossos confrangeram-se. O gelo

Do seu bafo seccava mais que o fogo.

Com seu olhar sem cor, que me fitava,

A Fada negra me qualhou o sangue.

Dentro em meu coração inerte e exangue Um silencio de morte se engolfava.

E volvendo em redor olhos absortos,

O mundo pareceu-me uma visão, Um grande mar de nevoa, de illusão,

E a luz do sol como um luar de mortos…

Como o espectro d'um mundo já defuncto, Um farrapo de mundo, nevoento,

Ruina aerea que sacode o vento,

Sem cor, sem consistencia, sem conjuncto…

E quanto adora quem adora o mundo,

Brilho e ventura, esperar, sorrir,

Eu vi tudo oscilar, pender, cahir,

Inerte e já da cor d'um moribundo.

Dentro em meu coração, n'esse momento, Fez-se um buraco enorme—e n'esse abysmo Senti ruir não sei que cataclismo,

Como um universal desabamento…

Razão! velha de olhar agudo e cru

E de halito mortal mais do que a peste!

Pelo beijo de gelo que me deste,

Fada negra, bemdita sejas tu!

Bemdita sejas tu pela agonia

E o lucto funeral d'aquella hora

Em que eu vi baquear quanto se adora,

Vi de que noite é feita a luz do dia!

Pelo pranto e as torturas bemfazejas

Do desengano… pela paz austera

D'um morto coração, que nada espera,

Nem deseja tambem… bemdita sejas!

*1860—1862*