Um pouco do seu sangue e outras histórias

Alfred Hitchcock · Capítulo 1 de 20

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Um pouco do seu sangue e outras histórias

Um Pouco do Seu Sangue

THEODORE STURGEON

 

...mas, antes de tudo uma palavra:

Você conhece o caminho. Tem, a chave consigo. E o privilégio é seu.

Vá à casa do Dr. Philip Outerbridge. Entre — você tem a chave. Suba a escada, siga pelo corredor até o fim e dobre à esquerda. Este é o gabinete do Dr. Phil, por sinal que muito confortável e muito bem provido. Livros, sofá, livros, escrivaninha, lâmpadas, livros, livros. Aproxime-se da escrivaninha e sente-se: não faz, mal. Abra a gaveta de baixo, à direita. Ê uma dessas gavetas fundas, dobradas. Está chaveada? Mas você tem a chave: não hesite.

Puxe-a... Mais um pouco. Puxe-a toda para fora. Assim. Está vendo todas essas pastas de cartolina, formando um montão compacto? Reparou que estão todas acomodadas numa espécie de caixa de madeira? Pois tire essa caixa da gaveta. (Convém levantar-se: a caixa é pesada.) Isso.

Em baixo, achatadas pelo peso, há uma meia-dúzia de pastas — simples pastas-arquivo. Talvez tenham sido postas aí para soerguer a caixa de madeira; e é verdade que têm essa serventia. Mas também é possível que estejam escondidas, ocultas, por serem secretas. Ambas as possibilidades podem ser verdadeiras. E talvez estejam aí por serem valiosas, agora ou mais tarde. Valor é dinheiro, valor é conhecimento, valor é recreação... sentimento, nostalgia. Acrescente, talvez, esta possibilidade às outras. Ela não as destrói. E não esqueça que, das seis pastas, cada uma pode ser qualquer dessas coisas, ou todas juntas. Você pode olhar uma delas. A segunda a partir de cima. Note que, como as outras, ria traz o nome do Dr. Outerbridge e, em grandes maiúsculas traçadas a tinta vermelha: PESSOAL — CONFIDENCIAL — PRIVADO. Mas não se acanhe. Prossiga. Tire a pasta da gaveta, recoloque a caixa no lugar, feche a gaveta, acenda a lâmpada, ponha-se à vontade. Pode ler todos os papéis contidos nesta pasta.

Mas primeiro descanse as mãos na lisa cartolina de cor amarelo-creme, cerre os olhos e pense nessa pasta que traz a marca CONFIDENCIAL e que está escondida numa gaveta fechada à chave. Pense em como ela se encheu alguns anos atrás, quando o Dr. Phil era um jovem psicólogo agregado ao corpo medico de um grande hospital neuropsiquiátrico militar. Sucede que, naquela ocasião, lhe faltavam dois meses para atingir a idade mínima que lhe daria direito a uma patente de oficial, de modo que. tinha o posto de sargento. No entanto, desde calouro havia treinado e trabalhado como interno em diagnóstico e tratamento psicológico numa famosa clínica universitária, onde obtivera um, diploma em clínica psicológica.

Era em tempo de guerra, ou coisa muito parecida. 0 hospital estava repleto, abarrotado, inundado. 0 pessoal hospitalar tinha de aprender tantos truques novos, dispensar as formalidades cortando por tantos atalhos inéditos, fazer plantões tão intermináveis como em qualquer outro estabelecimento consagrado aos afazeres da guerra, quer se tratasse de construtores navais, quer de professores de línguas bálticas. E alguns integrantes do pessoal, como alguns construtores e professores por toda parte, estavam sobrecarregados pelo excesso de horas de trabalho, pela falta de auxiliares e de recursos, pelos entraves da tradição, e no entanto o 'ônus mais pesado para eles era a constante, tirânica, excruciante míngua de qualidade. Alguns homens, nas fábricas de tanques, apertavam, conscienciosamente cada parafuso; alguns soldadores realmente se preocupavam com as juntas que tapavam. Alguns médicos, pois, pertenciam, a essa classe e nunca cessavam, de preocupar-se com o que faziam., quer fosse enfadonho, quer fosse difícil, quer mesmo, o mundo inteiro de repente se voltasse contra eles e contra-atacasse dizendo: desista, largue disso, está se esforçando em vão.

Portanto, talvez o valor destas pastas, o seu segredo, esteja na capacidade de relembrar. Abra uma delas, torne a vivê-la. Veja, esta foi um triunfo. Veja, aqui está uma tragédia. Veja, aqui está um terrível engano que nunca poderá ser reparado... mas que, pelo fato de ter sido cometido, jamais tornará a sê-lo. Veja, este foi o caso que me matou; embora eu não tenha morrido, quando morrer será por obra dele. Veja, esta foi a -minha grande intuição, a -minha inspiração, que um dia será o meu livro e a minha imortalidade. Veja, aqui está *um fracasso; creio que qualquer um teria fracassado neste caso, rogo a Deus nunca venha a descobrir que outro médico poderia ter obtido êxito com alguma coisa. Alguma coisinha pequenina que eu deveria ter feito e que omiti. Veja... há algo que dizer sobre cada uma destas pastas, guardadas primeiramente por uma fechadura, segunda vez pela ocultação e mais uma vez pela palavra "privado".

Mas agora abra os olhos e considere a pasta que tem sobre os joelhos. Na orelha está escrito

"GEORGE SMITH"

As aspas foram desenhadas com traços grossos e com todo o capricho, quase como um 66 e um 99.

Avante!.

Abra-a.

Você sabe o caminho. Tem a chave consigo. E o privilégio é seu. Deseja saber por quê? É porque você é o Leitor, e isto é ficção. Sim, pode ter certeza, é ficção. Quanto ao Dr. Outerbridge, ê ficção também e não se importará com isso. Comece, pois — ele não lhe dirá nada. Você não corre nenhum risco.

É ficção, garanto-lhe, é de fato ficção...