Um pouco do seu sangue e outras histórias

Alfred Hitchcock · Capítulo 18 de 20

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Um pouco do seu sangue e outras histórias

Ia por Aquela Rua suja e escura,…

OTÁRIO ESPERTO

RICHARD WORMSER

IA POR AQUELA RUA suja e escura, decidido a fazer duas visitas mais, antes da hora em que os escritórios fechavam o expediente. Jornais rasgados e carteiras vazias de cigarros corriam ao longo da sarjeta e um magro gato preto, não de todo sarnento, escapuliu-se por um estreito corredor entre dois edifícios.

Quando levantou os olhos para ver se estava próximo do número 1262 a Merser Printing Company, o vento carregado de umidade apanhou-lhe o chapéu novo por baixo da aba e ele, mais que depressa, calcou a copa com a mão para impedi-lo de voar. O vento era bastante forte para fazer com que a pasta, que carregava na outra mão, lhe causasse embaraço.

Chamava-se Henry Croft, vendia artigos de escritório e acreditava que o trabalho perseverante, uma boa aparência e a atenção às necessidades individuais dos clientes o tornariam rico um dia. Tinha esposa, um filho e sete nonos, morava nos subúrbios — não, porém, numa casa tão boa como a que esperava ;;inda possuir — e era, em geral, considerado um ótimo sujeito.

Uma rua como essa Slack Street não era ambiente para ele, a não ser como passagem, para vender algumas fitas de máquina de escrever e talvez um ou dois arquivos de aço. E era isso o que o levava ali.

De repente a chuva começou a cair, em grandes gotas preguiçosas que rolavam na poeira da Slack Street sem se partirem. Homem parcimonioso que era, seu primeiro pensamento foi para o chapéu novo, a fatiota recém-passada a ferro. Refugiou-se num vão de porta.

Foi então que a chuva mudou, tornando-se miúda e batida pelo vento, o tipo de chuva que promete durar. Henry Croft passou a pasta de uma mão para outra e correu os olhos em volta.

No outro lado da rua, os anúncios de néon de duas cervejarias brilhavam através de umas vitrinas poeirentas. Um bar, mas de classe tão modesta que nem sequer tinha nome — apenas BAR & GRILL em letras que deviam ter nascido douradas sobre um fundo outrora preto.

Esperou que o vento abrandasse um instante e atravessou correndo a rua, na direção dos anúncios de néon.

Ao penetrar no bar, o vento arrebatou-lhe da mão a pesada porta e bateu-a com força às suas costas. Sorriu com o ar conciliador de um intruso.

Ninguém lhe devolveu esse sorriso.

Havia seis pessoas no bar, contando o dono: quatro homens e duas mulheres. Ou melhor, quatro rapazes e duas raparigas, pois todos eles tinham rostos sem rugas de pouco mais de vinte anos, apesar dos seus olhos quase qüinquagenários.

Bolhas de ar perseguiam-se sem cessar na orla brilhantemente iluminada da vitrola automática, fora de ritmo com o número de "rock-and-roll" que esta tocava.

Henry Croft depositou a pasta sobre um tamborete, enxugou-.i com o lenço e descansou cuidadosamente o chapéu sobre a superfície seca.

— "Scotch on the rocks" — disse ao homem do bar.

O homem do bar alisou o cabelo com as duas mãos, sem necessidade.

— Não estou pescando nada, meu.

— Uísque escocês no gelo. Sem água, sem soda. >;

— Por que não disse logo?

Henry Croft encarapitou-se no tamborete ao lado da sua pasta e do seu chapéu. O moço sentado à sua direita cheirava levemente a suor e mais que levemente à pomada. A rapariga instalada mais além puxou languidamente a saia e cocou uma coxa branca como cal. O homem do bar largou um copo de servir cerveja diante do freguês e esperou que este o pagasse com uma nota de dólar; deu o troco atirando-lhe uma moeda de 25 "cents".

O vento rondou e a chuva bateu furiosa nas vitrinas.

Aquele "scotch" nunca havia atravessado o mar. Tinha um sarro que se lhe grudou à língua, um aroma particularmente acre que lhe subiu ao nariz, dando-lhe a sensação de quem tivesse dormido a noite inteira num quarto pintado de fresco.

A vitrola automática parou e um dos jovens anciãos despegou-se do balcão para ir colocar outra moeda na fenda. O mesmo disco começou de novo a tocar; ninguém parecia estar escutando a música.

— Você acha que ele é um tira, Juney? — perguntou o dono do bar.

Juney era o que tinha ido pôr a moeda na máquina.

— Vamos descobrir isso — respondeu. Devagar, com passos elásticos, caminhou na direção de Henry Croft, sem olhar para ele. Quando chegou à altura de Henry, Juney atirou ao chão a pasta e o chapéu, com um só movimento da mão, e escorregou para o tamborete que esses objetos haviam ocupado, debruçando-se no balcão.

— Cerveja — pediu.

Aberta a garrafa e servida a cerveja, provou-a e disse:

— Não é tira, não, Carley. — E, sorrindo para Henry: — Pegue o seu chapéu, homem. De que está tão assustado?

O que respondia ao nome de Carley ajuntou: — Um chapéu tão bom, homem! É uma judiaria ficar largado no chão.

Henry Croft baixou-se vagarosamente para reaver o chapéu e a pasta. Sentiu uma dor na nuca durante todo o tempo em que esteve curvado, esperando a cacetada, a fina lâmina de faca, o desconhecido. Nada aconteceu, porém.

— Tome a sua bebida — disse Juney. — Você vai ofender o Carley.

Henry Croft apanhou o copo. Tinha-o quase chegado aos lábios quando a rapariga estendeu o braço e arrancou-lho da mão com um tapa. O detestável uísque, o gelo, o próprio copo rolaram-lhe pela roupa abaixo. A rapariga soltou uma risada.

— Vamos trocar de lugar, Juney. Estou gostando deste quadrado.

Carley começou a rir. Era um riso esquisito, vazio de qualquer humor ou amizade.

— Cuidado, meu — disse ele. — Quando Gwen pega fogo. é pra valer.

Juney abandonou o tamborete e a rapariga veio tomar-lhe o lugar. Posou a mão no ombro de Henry Croft e deixou-a escorregar vagarosamente pelo braço abaixo, até segurar-lhe o pulso. Sua mão era mais forte do que aparentava; a mulher tinha uma tez mortiça e doentia. De idade, orçava pelos vinte anos.

— Você tem nome? — perguntou.

— Henry.

— Me pague uma bebida, Henry. Eu me chamo Gwen.

Ele acenou com a cabeça para Carley. O dono do bar arreganhou os dentes e serviu um puro a Gwen, despejou alguma coisa em cima do gelo para Henry. A rapariga esvaziou o seu copo de um só trago e transferiu a mão do pulso para a coxa de Henry.

— Que é que você quer aqui, Henry?

Ele teve de pigarrear duas vezes para encontrar a voz.

— Um "drink". Escapar da chuva — disse.

Gwen tornou a rir o seu riso surdo.

— Puxa, que chuva!

Aquilo não fazia sentido. Henry Croft agarrou o seu copo e dessa vez Gwen deixou-o engolir o líquido oleoso. Acariciou-lhe suavemente a coxa.

— Você gosta de mim, Henry?

— Pois claro, Gwen. Claro.

— É um mango e cinqüenta, major — disse Carley.

Henry Croft sacou a carteira do bolso traseiro das calças. Largou no balcão duas notas de um dólar e dispôs-se a guardar de novo a carteira. Gwen estendeu a mão, tomou-lha e enfiou-a sob a blusa.

— Você quer ser bonzinho comigo, não é, Henry?

Ele recuou o corpo, depois investiu para o decote da rapariga. No momento em que tocava no tecido, Juney descarregou-lhe um murro no queixo. Henry bateu de encontro ao balcão e Carley quebrou-lhe uma garrafa na cabeça. Henry aquietou-se, imobilizou-se na escuridão.

Quando voltou a si, estava dentro de mm automóvel. Continuava a chover; quase a primeira coisa que percebeu foi o rangido monótono dos limpadores de pára-brisa. Soltou um gemido e apalpou a cabeça, confusamente; não fazia a menor idéia de onde estava, por que estava ali e como ali fora parar.

De repente, todo o episódio do bar lhe voltou à recordação. Carley, o dono do bar, dirigia, e a rapariga chamada Gwen ia ao seu lado no assento da frente. Voltara-se para trás e Henry ouviu-lhe dizer:

— Juney, ele está se mexendo.

A voz de Juney soou ao lado dele, nas sombras:

— Que se mexa. Se começar a incomodar, eu o faço dormir de novo.

Henry Croft perdeu todo desejo de mover-se. Chegou a prender a respiração até sentir seus olhos esbugalharem-se. Por fim soltou o ar dos pulmões com um silvo profundo, e Juney riu-se. — Está muito bem-comportado. Até faz força para não respirar.

— Pode respirar, otário — disse Gwen. — Aproveite. Não será por muito tempo.

— Bico calado! — atalhou Carley.

O automóvel seguia rodando na chuva. Henry Croft não reconheceu nenhuma das ruas que eles dobravam sucessivamente, num constante ziguezaguear. Era uma zona residencial, entretanto, e Henry não conhecia nenhum dos subúrbios, a não ser aquele em que morava.

— Lá estão eles — disse Carley afinal, diminuindo a marcha. — É Paul — ajuntou.

Henry Croft avistou o homem, um dos rapazes do bar, sinalizando com os braços no meio da chuva. Carley estacionou o carro atrás de um outro, seguindo as instruções de Paul, e encostou no pára-choque dianteiro ao traseiro no outro carro.

— Vigiem o meu otário — disse Juney, descendo. Caminhou para a frente, sentou-se ao volante do primeiro carro e desapareceu — agachado, sem dúvida, em baixo do painel. Gwen virou-se para trás e disse: — Estou vigiando você, Henry.

Juney tornou a surgir e abanou com a mão. Carley fez avançar o carro em marcha reduzida e o de Juney deslizou uns três ou cinco metros sobre o pavimento molhado. Então Juney tornou a abanar com a mão e Carley apagou o motor. Paul aproximou-se e abriu a porta de trás.

— Desça, otário. Agora está por pouco.

Espichou o braço para dentro e puxou Henry Croft, que desceu todo inteiriçado.

Sentiu com prazer a chuva fria caindo-lhe nos ferimentos da cabeça.

Carley desembarcou e tomou posição no lado oposto de Henry Croft. Ele e Paul meio o conduziram, meio o arrastaram para o carro da frente.

— Vamos nos raspando — disse Paul. — Mesmo sem o arranque, às vezes um desses cidadãos que morrem de amores pelo seu carro desperta quando ouve o barulho do motor.

Dessa vez Carley sentou-se no assento de trás com Henry Croft. Recostou-se de viés no canto e enfiou a mão debaixo do sobretudo, tirando dali um revólver. Equilibrou-o folgadamente na mão e arreganhou os dentes para Henry. No assento dianteiro, Gwen largou de súbito a rir, dizendo:

— Oh! Paul, acabe com isso!

— Sabe o que é isto aqui, Henry? — perguntou Carley. Henry Croft fez que sim com a cabeça.

— Pois então me diga. — Carley esperou alguns instantes c, como Henry Croft não abrisse a boca, deu-lhe repentinamente um raspão na barriga com as miras da arma. — Desate essa língua, otário.

Henry Croft engoliu em seco com dificuldade e disse:

— Um revólver.

Carley sacudiu a cabeça com ar entendido, enquanto Gwen falava a Paul:

— Você está me machucando, que diacho! — Mas riu de novo.

— Garotos — disse Carley. — Não podem ver mulher sem botar as mãos... Sim, Henry, isto é um revólver. Você sabe o que um revólver faz? — E aguardou mais uma vez a resposta.

— Atira na gente — disse Henry.

Carley tornou a sacudir a cabeça com aquele jeito de mestre-escola.

— Sim. Um revólver. E atira na gente. Mata gente. O mesmo faz o revólver de Paul, e o de Juney também... Você tem um revólver, Gwen?

— Se tivesse, matava este Paul — respondeu ela, ainda a rir.

— Garotos — repetiu Carley. — Sempre tenho de trabalhar com garotos. De modo que Gwen não tem revólver e nós ficamos só com três. Você já recebeu dezoito furos no corpo?

Henry abanou a cabeça. Depois caiu em si e disse:

— Não, nunca.

— Então imagino que não saiba qual é a sensação. Pois, para falar a verdade, nem eu tampouco. Mas posso fazer idéia, e um otário esperto como você também pode, tenho certeza. Portanto, acho que fará o que nós lhe mandarmos. Que é que você diz?

— Sim, claro que farei — respondeu Henry.

— Otário esperto — foi de novo o comentário de Carley, que mergulhou em silêncio enquanto o carro dobrava mais algumas esquinas e atravessava um pequeno parque, as rodas esparrinhando água para os lados, os limpadores de pára-brisa guinchando docemente. Os do outro carro não tinham guinchado assim

Quando pararam, Juney apagou os faróis e disse:

— É aqui, pessoal. O otário já sabe o que tem de fazer, Carley?

— Não, mas vai fazer — respondeu Carley. — Ê um otário muito camarada. — E, rindo-se: — Escute, Henry. A coisa não é difícil. Basta ir até aquela casa, está vendo ali? e tocar a campainha. Fale com jeito, Henry. Eles têm uma corrente grossa na porta. Faça com que a abram.

— E se ele avisar essa gente para que chamem a polícia: — lembrou Paul.

— Ora, acho que é o que ele vai fazer mesmo — tornou Carley. — É um dos meios mais rápidos que conheço de fazer as pessoas abrirem a porta da casa. Quem não confia num otário que está dando o estrilo?

— Isto não me agrada — insistiu Paul. — Gosto das coisas simples.

— Agora ele quer me ensinar — disse Carley. — Meu companheiro, o homem forte e silencioso! Pois muito bem, então vá Você. Mostre a eles com toda a simplicidade a sua cara. Vai fazê-los muito felizes. Ou quem sabe se não é melhor pôr uma máscara? Todo mundo abre a porta a um sujeito que usa máscara. Especialmente de noite. Especialmente um cara que tem em casa a bolada para pagar os trabalhadores.

— Está bem, está bem — disse Paul, entregando os pontos. E Carley:

— Agora você está sabendo de tudo, Henry.

Vá andando.

Henry abriu a porta do automóvel vagarosamente, a dizer consigo: Agora minhas impressões digitais vão ficar num carro roubado. E, ao mesmo tempo em que o pensava, dava-se conta de que era uma idéia tola. Atravessou a rua com os sapatos chiando no asfalto molhado. Sentia-se muito só, gelado e doente. Vou pegar uma pneumonia, pensou; e, lembrando-se do que Carley tinha dito sobre os -dezoito furos, também isso lhe pareceu uma grande tolice.

Já havia alcançado os degraus, em número de quatro, que conduziam a um pequeno pórtico com alpendre, de modo que não era preciso esperar na chuva até que abrissem a porta. Grama à direita e à esquerda do caminho lajeado e dos degraus, bonita casinha, às escuras, nenhuma luz acesa. Respirou fundo e apertou o botão da campainha. O retinir nas entranhas da casa parecia assustadoramente estrondoso.

Ficou à espera, com a sensação de que ia vomitar, de que <a desmaiar. Ao invés disso, espirrou. Julgou sentir um movimento repentino bem perto dele, no ar da noite, quando fez aquele ruído involuntário; mas não podia ter certeza. Pela segunda vez, premiu o botão.

Uma luz acendeu-se no "hall", uma voz disse: "Já vai, já vai", e uma espreitadeira abriu-se na porta. Tudo que pôde ver foi uma sobrancelha hirsuta e um olho estremunhado e remeloso, mas a voz era masculina e falava em tom irritado:

— Que é que quer?

— Eu fui... Chame a polícia — disse Henry Croft.

A espreitadeira fechou-se e ouviu-se o ruído da chave girando na fechadura. Mas a porta se abriu apenas um ou dois centímetros, deixando ver uma forte corrente, com um brilho de latão, que tilintou.

— Caramba o senhor está esculachado! — disse a voz no interior da casa. Pertencia ela, conforme Henry pôde ver então a um homem reforçado que vestia um pijama ridiculamente vistoso de listas azuis. — Que foi que lhe aconteceu?

— Fui assaltado — disse Henry. — Me deram um passeio. Eu...

— Está bem — disse o homem troncudo. — Espere aí no pórtico. Vou telefonar à comissária.

As pistolas na noite eram bem reais. Se aquela porta se fechasse na sua cara ia levar bala. Dezoito furos. Mais uma vez a sua mente refugiou-se no ridículo, fugindo à realidade da morte, e um silencioso compasso da canção Sixteen Tons acudiu-lhe à memória.

Mas sabia o que era necessário fazer. Jogou-se para a frente, agarrando-se à beira da porta entreaberta, com o risco de ter os dedos esmagados contra o marco pelo pesado batente de madeira.

— Deixe-me entrar, pelo amor de Deus! Eles podem voltar. O homenzarrão hesitou.

— Não posso... Ora, bobagem! Vá lá. O senhor vai morrer aí fora, e não tem cara de quem seja capaz de me fazer mal.

Mais ruído — o ruído da corrente ao ser retirada do encaixe, e a porta abriu-se um pouco mais, uai braço de pijama listado de azul projetou-se, rápido, a fim de puxar Henry para dentro de casa e mais que depressa, tornar a fechar a porta.

Não deu certo. Corpos humanos chocaram-se em Henry Croft pelas costas, atiraram-no de roldão, a ele, à porta e ao homem troncudo, para o interior do "hall"; pés correram lá fora, mais corpos vieram acrescentar-se à confusão, e por fim a porta cerrou-se e o pequeno "hall" de entrada encheu-se de revólveres, de rostos mascarados e de terror.

— Você é Joe Wheeler — disse um indivíduo de máscara roxa.

— E daí? — retrucou o homem troncudo.

Lá em cima, uma voz feminina gritou: "Joe, Joe, que foi?" O da máscara roxa fez um gesto. Dois outros mascarados correram escada acima. Henry supôs que fossem Paul e Juney, mas não podia ter certeza. Que importava isso?

A voz de Carley falou por trás de uma máscara de seda preta.

— Você foi cem por cento, Henry. — E, com um riso desagradável: — Dêem um revólver a Henry. Ele fez bem a sua parte.

O terceiro homem que ficara no "'hall" tinha uma máscara de seda branca enfeitada com cequins, uma dessas coisas que as senhoras usam nos bailes para fazer companhia ao seu traje de noite. Meteu um revólver nas mãos de Henry, dizendo:

— Ajude a cobrir aí o Sr. Wheeler, Henry. Wheeler olhou para Henry e disse:

— Você me levou no embrulho. Me logrou bem logrado. Henry Croft nunca tinha ouvido alguém dirigir-lhe a palavra com tanto ódio. — Mas eu... — ia respondendo, quando o cano de uma arma lhe raspou as costelas por detrás.

— Você é Joe Wheeler — tornou a dizer Máscara Roxa. —. Está empreitando uma construção cá por estas bandas. Hoje tirou do banco o dinheiro para pagar os operários, mas deixou o pagamento para amanhã. Portanto, o dinheiro está aqui na sua casa.

— Ficou lá no barracão — disse Joe Wheeler. — Deixei-o no local de trabalho.

— Sim? — Máscara Roxa não parecia convencido. — Você acredita nisso, Henry?

— Eu... — começou Henry.

Máscara Roxa, porém, havia alteado a voz:

— Andem depressa lá em cima! Vocês não vieram aqui para brincar! — E, curvando-se diante de Joe Wheeler: — Uns gaiatos estes meus companheiros.

Joe Wheeler não respondeu. Parecia ter-se fixado numa política de ódio silencioso para com Henry Croft.

Paul e Juney tornaram a descer a escada, segurando pelos braços uma mulher de seus trinta anos, nada feia malgrado a falta de pintura, bem-feita de corpo, vestida apenas com uma fina camisola de dormir.

— Não me deixaram pôr um chambre, Joe — disse ela.

— Não tenha medo, dona, mulheres não nos faltam — acudiu Carley. — Onde está o dinheiro, Joe Wheeler?

— Na construção — respondeu Wheeler. — No barraco.

— Soltem a madama, rapazes — disse Máscara Roxa. Paul e Juney detiveram-se no meio da escada e empurraram, ambos ao mesmo tempo. A Sra. Wheeler despencou-se no "hall", onde foi parar de joelhos, levando as irmãos à frente a fim de amortecer a queda. Um de seus seios libertou-se da camisola de dormir e Joe Wheeler deixou escapar um pequeno gemido.

Paul e Juney continuaram a descer a escada, sem se apressar. Ela fez um movimento para erguer-se, mas Carley levantou o pé e, suavemente, obrigou-a a manter-se no mesmo lugar.

— O dinheiro — disse ele.

E Joe Wheeler:

— Rapazes, eu...

Carley curvou-se para a frente, fazendo pesar o seu corpo sobre o pé que mantinha a Sra. Wheeler presa ao chão. Seus olhos cintilaram nos buracos da máscara, observando Joe Wheeler. A esposa deste soltou um grito agudo quando o outro pé de Carley e ergueu do chão.

— Na cozinha — disse Joe Wheeler. — Na arca da farinha.

Carley pousou ambos os pés no chão. — Venha nos mostrar, otário.

Wheeler afastou-se, seguido de Carley. Paul e Juney haviam parado no sopé da escada, ora olhando a mulher seminua no chão, ora alçando os olhos para Henry Croft. Paul inclinou-se para examinar a Sra. Wheeler mais de perto.

— Nada má — disse ele. — Para uma noite de chuva.

— Desistam disso — atalhou Máscara Roxa. — Desistam disso.

Nem um só instante tirara os olhos de cima de Henry Croft.

— Ora, afinal, é muito velha — disse Juney. — Tem as juntas emperradas. Não é mesmo, dona?

Pigarreou e cuspiu no chão perto da mulher.

— Agora pode se levantar — disse Máscara Roxa. — Se ainda precisarmos da senhora, será fácil pô-la de novo no chão.

Carley voltou sozinho, com as mãos e as mangas do casaco brancas de farinha, que formava uma pasta nas mangas molhadas pela chuva. Trazia um saquinho bojudo que bateu de encontro ao pilar da escada, fazendo voar uma nuvem de farinha. A Sra. Wheeler estava pondo-se de joelhos. Com as mãos trêmulas, ajustou sobre os seios « decote rendado em V.

— Onde está ele? Onde está Joe?

—' Quem foi que lhe mandou levantar? — disse Carley, vibrando no ar o saco de dinheiro. Atingiu a mulher na nuca e tornou a estatelá-la no chão, violentamente. Henry teve a impressão de que ouvia quebrarem-se-lhe os ossos do nariz, mas não pôde certificar-se disso, pois Carley tinha os olhos fitos nele.

— Derrubei a velha. Ele está na cozinha, mas não está cozinhando. Vamos rodar.

Henry Croft arredou-se para deixá-los — pelo amor de Deus! — rodar. Que rodassem para longe da casa, daquela rua, da sua vida! Mas Carley fez um gesto com o revólver. — Henry vai junto.

Haviam-no transformado num menino muito bem-comportado. Saiu para o frio, para a lúgubre mas não solitária chuva. Companhia não lhe faltava.

Gwen estava sentada ao volante do segundo carro. Carley indicou a Henry o assento ao lado do chofer e escorregou para trás do volante, apertando Gwen contra Henry. Largou o saco sujo de farinha no colo de Gwen.

Outros caras saltaram para o assento de trás e o automóvel arrancou velozmente; Gwen conservava o motor em funcionamento. Henry recostou-se nas almofadas com um arrepio.

Sentiu de novo a mão de Gwen na sua coxa. A rapariga respirava com força.

— Isso é que é sensação — disse ela. — Isso é que é gostoso, ohhhh! — E deixou escapar o ar num longo suspiro.

Carley martelou na mesma tecla:

— Garotos! Sou obrigado a trabalhar com garotos. Transviados... Henry!

— Sim? — disse este.

— Vamos ter que despachar você, Henry?

Os dedos de Gwen correram para cima e para baixo na coxa de Henry, crispados, extáticos.

— Vamos! Vamos despachar Henry, Carley. Não precisamos mais dele.

— Cale o bico — disse Carley. — Você já teve sensações que cheguem por esta noite, Gwen... Henry, enquanto você dormia nós revistamos a sua carteira. Nós o conhecemos, sabemos onde você mora. Retratos na carteira, a esposa, um garoto.

— Quadrados — disse Gwen.

— Devolva a carteira a ele, Gwen. Pode ficar com o dinheiro.

— Eu quero os retratos. Para o meu álbum — retrucou a rapariga. Mas Carley rosnou e ela enfiou a mão no "soutien", sacou a carteira, sacudiu fora as notas e entregou-a a Henry. Tornou a pousar a mão nele.

— Deixe o homem em paz — disse Carley. — Henry, vamos soltar você. Perto de sua casa. Conhece os polacos, Henry, gente da Polônia?

— Alguns — disse Henry.

— Eles têm um costume interessante. Sentam os defuntos no caixão para tirar o retrato. Esses serão os retratos que você carregará na sua carteira se der com a língua nos dentes, Henry.

Dobrou uma esquina derrapando no asfalto úmido, depois outra.

— Você me entendeu, Henry? Henry Croft respondeu:

— Entendi.

— Ah! o rio, Carley — disse Gwen. — Vamos jogá-lo no rio. Podemos amarrar o macaco do automóvel nos pés dele. — Seus dedos buliçosos cravaram-se na carne de Henry.

— Um dia vou dar o fora em você, Gwen — disse Carley. — E em Juney, por sua causa. Você não tem senso comum. Por enquanto tudo corre bem para nós. Se matarmos este trouxa, as coisas vão ferver.

— Eu gosto quando as coisas fervem — respondeu Gwen simplesmente. — É quando as coisas fervem que a gente vive de verdade.

Carley parou habilmente o carro, fazendo deslizar sem ruído.

— Dê o fora, Henry. Costure essa boca. Um cara que passou o dia inteiro fora de casa, um vendedor, com uma esposa, E um garoto. Continue se comportando bem, Henry, como fez esta noite.

Henry abriu a porta. Tinha certeza de que isso não podia ser o fim, de que o pesadelo não havia terminado, de que um tiro partiria do automóvel, um cassetete surgiria da noite. Mas tudo que aconteceu foi a voz zombeteira de Gwen, vinda do automóvel que começava a distanciar-se:

— Você não me deu um beijo de despedida, Henry.,.

E foram-se. Rumo a algum ignorado ponto de encontro, onde se desfariam do carro, para voltarem depois à Slack Street... Uma rua em que ele nunca mais tornaria a pôr os pés, um bairro que evitaria daí em diante. A conta da Merser teria de ser descurada, outra firma podia ficar com esse negócio.

Essas reflexões sobre a conta da Merser, sobre os negócios, o fizeram retornar um pouco à realidade. Olhou em redor de si. Estava a apenas três quadras de sua casa.

Sua excitação foi morrendo, e com ela os últimos resquícios de energia. As três quadras foram intermináveis, e mais tarde não saberia dizer se as tinha percorrido sob a chuva ou se esta já havia terminado.

Quando deu conta de si estava no pórtico do prédio, procurando o buraco da fechadura com a sua chave, um tanto surpreendido por encontrá-la no bolso do casaco, mas em casa! Entrou no "hall" e tornou a fechar a porta. Precisava arranjar uma corrente como a de Joe Wheeler. Todo mundo devia ter uma corrente na porta da rua...

E ali vinha Peggy, sua esposa, descendo a escada. Tinha posto um chambre comprido e soerguia-o de leve, os olhos ansiosos, com olheiras escuras no rosto pálido.

— Henry! Oh! Henry, graças a Deus por você ter voltado! Ele resmungou algumas palavras incompreensíveis. Peggy acendeu a luz do "hall" e soltou um grito abafado. Henry olhou as suas roupas. Estavam encharcadas de chuva, a camisa suja, e, a despeito de toda aquela água, ainda se desprendia dele um bafo alcoólico. Ergueu lentamente a mão e seus dedos tocaram no galo que lhe tinham feito ao deitarem-no por terra no bar da Slack Street.

Faltavam dois botões no casaco e a gravata empapada torcera-se sobre si mesma, como uma corda.

— Não me pergunte nada, Peggy — disse, com grande esforço. — Nunca me faça perguntas sobre esta noite. Estive no inferno.

Ela era uma excelente criatura. Ao pensar na sua bondade, as lágrimas vieram-lhe aos olhos. Peggy curvou-se, passou-lhe um braço por baixo dos ombros e ajudou-o a pôr-se em pé.

— Está bem. Não farei perguntas.

Começaram a subir a escada. Ele fazia uma heróica tentativa de voltar à normalidade, lembrar-se dos negócios e do que precisaria fazer amanhã. Toda a sua relação de contas estava dentro da pasta, que lhe haviam tirado. O chefe de vendas ia deblaterar contra ele, talvez até perdesse o emprego... A carteira continha quarenta dólares, de que Gwen se apoderara. Perdera também o chapéu, teria de comprar um novo, provavelmente a fatiota estava inutilizada.

No patamar do meio da escada Peggy parou e lhe disse:

— Descanse um pouco...

A campainha do telefone soou. Entreolharam-se, ele com um sentimento de culpa, ela com uma expressão que Henry não soube interpretar. Continuou a tocar, a tocar, e finalmente Peggy deu de ombros e desceu para atender. Pareceu referir-se ao ruído da campainha, que podia acordar a criança, mas ele não podia ter certeza... Sua gravidez já ia adiantada, o segundo filho viria dentro de dois meses, não devia ter permitido que o ajudasse a subir a escada... Era uma mulher franzina.

A voz de Peggy atravessou os anéis concêntricos de fadiga que lhe embotavam os sentidos:

— Sim, ele voltou... Faz poucos minutos... Não, não disse... Não será preciso... Bem, se tem de ser assim...

E, tornando a subir a escada:

— A polícia. Como você não aparecia, eu dei parte.

— Não devia... — murmurou ele. Mas Peggy o estava ajudando novamente a subir a escada, e quando deu conta de si achava-se no quarto de dormir e ela começara a despi-lo, soltando pequenas exclamações ao ver as contusões que tinha no corpo.

Ficou muito tempo debaixo do chuveiro, apoiando a cabeça à parede, deixando a água morna correr-lhe pelas costas. Quando saiu, havia um pijama limpo estendido na cama. Vestiu-o, e quando ia erguer as cobertas Peggy tornou a aparecer.

— A polícia. Lá em baixo. Eu disse a eles... Bem, se você prefere eles virão cá em cima.

— Não — disse Henry. — Eu desço. Menos barulho... a criança.

Assim que ele entrou no "living", de robe de chambre e chinelos, Joe Wheeler saltou da cadeira e disse:

— Ê ele! É esse cafajeste!

O mais velho dos policiais segurou Joe Wheeler pelo braço. — Vamos com calma. Eu sou o Comissário Myers e este é o inspetor Sloan, que vai tomar nota de suas declarações. Sr. Croft, a descrição que sua esposa deu quando nos telefonou era tão parecida com a que o Sr. Wheeler nos fez do sujeito que...

— Sim — disse Henry Croft. — Eu estava lá quando assaltaram o Sr. Wheeler.

— É preciso contar-nos — volveu o Comissário Myers.

Henry Croft contou. Contou tudo, menos duas coisas: os nomes — os simples prenomes — que tinha ouvido, e a localização do bar onde encontrara os homens.

— Isso tudo parece encaixar-se — disse Joe Wheeler. — Ele não usava máscara, como os outros. Pensando bem, acho que estava sendo levado à força... Preciso voltar para casa. Minha mulher quebrou o nariz, o doutor está lá.

— Lamento muito o que aconteceu — disse Henry Croft. E Joe Wheeler, seco e carrancudo:

— O senhor não tem cara de quem esteve nadando num mar de rosas, tampouco. — Virou-se e saiu batendo com a porta.

— Não nos quer dizer os nomes, nem onde encontrou essa gente? — perguntou o Comissário Myers.

— Eles sabem onde eu moro — respondeu Henry Croft. — Viram os retratos de minha mulher e de meu filhinho na minha carteira. Pelo amor de Deus, Comissário...

O outro sacudiu a cabeça devagar.

— Está bem. Não posso obrigá-lo a falar. Talvez o Promotor Público pudesse, mas provavelmente não quererá fazê-lo. Se precisar do senhor, tornarei a procurá-lo.

Henry Croft não foi trabalhar no dia seguinte. Mas no outro foi, e não teve uma acolhida muito animadora. Peters, o chefe de vendas, mostrou-se irritado com a perda da relação de contas, irritado com a falta ao serviço... Tirou Henry Croft da zona em que trabalhava para dá-la a outro homem, colocou Henry num território que, no máximo, poderia render uns três quartos do que rendia o anterior.

Teve de comprar um chapéu, uma pasta, uma roupa nova. Seu seguro hospitalar pagaria as despesas de maternidade, mas não uma acompanhante para o seu filho enquanto Peggy estivesse hospitalizada. A casa estava em grande necessidade de uma pintura nova. E tinha certeza de que o corretor de seguros tornaria a apresentar-se quando nascesse a segunda criança. Com mais um filho — acreditava ele sinceramente, tal como havia dito o corretor — um homem tinha perante sua mulher e seus pequenos a obrigação moral de aumentar os seguros de vida.

Uma semana depois de todas essas ocorrências estava ele sentado à sua escrivaninha, preparando o relatório do dia, mas com o pensamento no dinheiro. As perdas de Joe Wheeler deviam estar cobertas pelas companhias de seguro e na realidade ele, Henry Croft, é que fora o roubado. Os malfeitores o tinham chamado de otário, e não sem razão. Ao perceber que concordava com o nome que lhe tinham posto, enrubesceu de cólera.

Atirou o lápis na mesa e afastou de si os papéis do relatório. Essa atitude de revolta o surpreendeu, mas também lhe trouxe uma esquisita alegria.

— Eles me tiraram quarenta dólares — disse energicamente no seu íntimo. — Vou obrigá-los a devolver.

Mas no mesmo instante a coragem o abandonou como o ar que se esvai de um balão estourado. Como era mesmo que sua mãe sempre lhe dizia? Que mais valia ser um cachorro com vida do que um leão morto...

O telefone chamou. Era sua mulher.

— Henry, eu não queria lhe telefonar, mas...

— Que foi que aconteceu? — A imagem do corpo de Peggy, deformado pela gravidez, tombado ao chão, atravessou-lhe o cérebro como um relâmpago. — Você está bem?

— Eu estou bem, meu amor. Não é nada comigo.

Era o filho que adoecera com uma infecção qualquer de vírus, obrigando-a a chamar o médico. Não pudera evitá-lo, a criança tinha muita febre. Ele encarregava-se de ir buscar a receita?

Henry Croft respondeu que não, que talvez chegasse um pouco tarde. Que pedisse para trazerem em casa e desse uma gorjeta de dez "cents" ao entregador. E desligou.

Ela não devia ter preocupações no estado em que se achava, disse consigo. Dinheiro... Uma visita médica a domicílio custa mais caro. Tornou a ser invadido por aquela onda ardente de cólera e fechou involuntariamente o punho.

Eram quatro e meia da tarde. Henry Croft disse à telefonista que ia sair para fazer uma visita. E não mentia. A telefonista olhou para ele com uma expressão esquisita ao vê-lo caminhar para a porta.

A rua não parecia melhor que da outra vez, muito embora não chovesse nem ventasse nesse dia. O ar estava tépido, anunciando a entrada do verão.

Henry Croft atravessou a rua e entrou no bar. No primeiro instante o interior sombrio. lhe pareceu deserto. A vitrola automática avultava no seu canto escura e muda. Pelo espaço de um momento ele sentiu-se aliviado com o fato de não haver ninguém ali. Carley surgiu à porta do banheiro, enxugando as mãos no avental.

— Pronto — disse ele, encaminhando-se para o balcão. E ao defrontar-se com o freguês, reconheceu-o.

Henry Croft pôs o chapéu em cima do balcão.

— "Scotch" — disse ele. — Onde estão os outros? A rapariga e os; outros? Eu quero os meus quarenta dólares.

— Você está com o miolo mole! — Carley não tirava os olhos de cima dele enquanto servia o uísque.

Paul, Gwen e Juney entraram displicentemente pela porta da rua.

— Sabem o que quer aqui o nosso otário? Quer os; quarenta ferros dele — disse Carley, soltando uma cachinada.

— Não brinque! — disse Juney. Paul riu-se.

Gwen segurou o braço de Henry Croft com ambas as mãos, chegou-se a ele e aplicou-lhe os lábios à garganta.

— Isso! — estimulou-a Carley. — Isso! Pode ser que ele aceite os quarenta que está reclamando em mercadorias.

— Este é o seu chapéu? — perguntou Paul, tirando o chapéu de Henry Croft de cima do balcão.

Com uma violenta torcidela dos ombros, Henry Croft jogou Gwen para longe.

— Largue esse chapéu — ordenou a Paul, com os músculos do pescoço saltados feito umas cordas, os braços em posição de ataque, os punhos cerrados. — Largue-o, seu filho daquela, senão eu o mato!

Silêncio demorado. Paul fazia girar o chapéu na ponta do indicador.

— Largue! Com exagerada cautela, Paul tornou a pôr o chapéu em cima do balcão, deu de ombros e disse:

— Ele quer que eu largue o chapéu dele.

Todos riram. Todos, menos Henry Croft. Sacou do bolso o revólver que lhe tinham dado em casa de Joe Wheeler e exigiu:

— Agora vamos ver os meus quarenta dólares.

— Meu Deus, que homem! — disse Gwen. Todos tornaram a rir.

Henry Croft fez um gesto com o revólver e, falando a Gwen: — Bem no meio da cara. Por Deus, uma bala bem no meio da cara!

Silêncio profundo no bar. Henry sentia o seu próprio tremor. Mas não era de medo que tremia. A raiva apagara todo o medo.

Finalmente Juney abriu a boca.

— O homem está danado, mas danado mesmo. —- E riu-se, mas foi um riso amarelo.

Gwen estava branca como cera.

Carley abriu a caixa registradora. Enquanto tirava algumas cédulas, disse:

— Ele não foi se queixar para a polícia. Aqui não esteve nenhum tira. Henry é legal. — Falava num tom quase apazigua-dor. — Vocês, seus filantes, paguem a sua parte. E andem duma vez, antes que ele quebre tudo aqui no meu bar.

Paul virou o chapéu de boca para cima e cada um depositou nele a sua contribuição, rindo, dizendo piadas, mas pagando.

Henry Croft contou o dinheiro antes de se retirar. Bebeu todo o seu uísque, puro. Depois saiu calmamente, não de costas, mas direito para a rua.

Amanhã, por Deus, iria ao gabinete de Peters para exigir que lhe devolvesse a sua zona. Peters não tinha o direito de tirar-lhe. Tomara que a febre do garoto houvesse baixado...