Um pouco do seu sangue e outras histórias

Alfred Hitchcock · Capítulo 13 de 20

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Um pouco do seu sangue e outras histórias

Doze

Uma carta...

Casa Maluca de Sir Philip N-O

Praecox, Cal. 8 maio

Querido Al:

Incluo o incluso, uma monumental missiva de sua Lucy Quigley, que é, como você de um modo ou de outro disse, uma garota e tanto. Que aparência tem ela?

Envio a carta porque acho que você gostará de lê-la, embora contenha informações que sei já terem chegado ao seu conhecimento através do relatório que ela lhe enviou e das quais, portanto, você não necessita; e alguns embriagadores cumprimentos dirigidos à minha pessoa, os quais, você há de pensar, eu deveria ter guardado modestamente para mim mesmo.

E, com toda a seriedade, quero que você reflita na hipótese de Lucy sobre a natureza não-sexual, ou talvez seja melhor dizer pré-sexual, do distúrbio de George. No momento não me sinto inclinado a confirmar nem a negar, mas isto me emociona e estou pronto a rebater a bola quando ela vier daí.

Você gostará de saber que obedeci suas ordens de cinco meses atrás e dormi um pouco, cerca de quatorze horas consecutivas, e depois disso trabalhei quarenta horas consecutivas pondo em dia o serviço que se amontoou devido ao sono e às minhas preocupações com George. E assim tudo voltou à normalidade. Neste intervalo, só me avistei com George uma vez — casualmente estava sondando o miolo de um seu vizinho de corredor, metido numa camisa-de-força — e não fiz mais do que bater um papo. Um pedaço da nossa conversa vai lhe interessar: eu disse a ele que respeitaria o seu desejo de não discutir sua conduta específica com Anna, bem como o conteúdo da carta aérea que foi o estopim desta bomba; preveni-o além disso, de que ia fazer uma pergunta que ele não era obrigado a responder. Aí perguntei por que não queria falar nessas coisas.

Pois o nosso George, sentado na beira do catre, cocou a bela cabeça loura e afinal me dirigiu um sorriso encabulado dizendo: "Eu só não queria que você me tomasse por fresco."

Quais são as novidades?

Phil.

Palácio da Patologia N-O

New Rosis, Ore. 10 maio

Meu caro Phil:

Li e reli a carta de Lucy, que lhe devolvo aqui. Você tem toda a razão: ela é uma garota e tanto. Ou teria sido eu quem disse isso? Vá lá, eu tenho razão: ela é uma garota e tanto. Quanto à sua aparência, você a verá com seus próprios olhos. Ela chega amanhã. Vamos pegar um helicóptero e sulcar os ares para jantar com você. Tá bem?

Quanto a uma opinião sobre a hipótese de Lucy você vai me desculpar, caro amigo, mas não tenho nenhuma, e se tivesse não lhe diria. Por favor, me encare sempre como uma espécie de agente de empresa aérea. Sei das idas e vindas dos passageiros e providencio sobre as suas viagens; mas não me pergunte nada sobre inovações. Portanto, nada de opinião. Quanto à segunda cláusula acima, em que declaro que não lhe daria opinião se a tivesse, quero deixar bem claro desde já que considero você um grande homem.

Um homem inteligente. Um homem de valor em vários sentidos. Mas de tempos a tempos sou dominado por uma certa inquietação. Todas as vezes que lhe expresso uma opinião, três meses depois vai se ver que lhe mandei fazer isto ou lhe permiti fazer aquilo, e o pior é que você pode prová-lo.

Tenho duas notícias para lhe dar. Uma delas é que quando lá chegar lhe entregarei uma caixinha com algumas bijuterias, creio que umas barrinhas de prata, um papel com uma mensagem própria para ser emoldurada, digamos uma promoção, e um vale de capitão pagador, correspondente aos soldos a contar de seu 25.° aniversário. Se puder, justifique perante a sua consciência o fato de haver captado a confiança de George sob a capa de sargento, quando na realidade já era oficial desde o primeiro dia.

Minha segunda notícia diz respeito ao falecido Major Manson, oxalá a sombra dele esteja debruçada no seu ombro a ler este meu sincero ato de contrição. (Lembra-se de que eu o chamei de pacóvio, concluindo que ele pespegara em George o rótulo de "psicose não classificada; Violento" só porque George lhe dera um murro no nariz?) Pois bem, após a honrosa morte de Manson o nosso eficiente Exército separou os seus objetos pessoais das propriedades do governo e enviou os primeiros ao seu sobrevivente, uma filha. Como é natural, esta deixou transcorrer algum tempo antes de passar revista às coisas dele. Entre os seus papéis havia uma carta aérea não postada. Incluo-a aqui e acho que ninguém se admirará de ela ter intrigado suficientemente o censor de correspondência para levá-la ao conhecimento do major e de o major ter mandado chamar George. Salte o almoço. Isto é uma ordem. Você, Lucy e eu vamos comer como abades.

'la vista, AL

Incluso: uma fórmula de carta aérea não enviada. Traz o número de identidade do soldado, uma agência do Correio Militar como endereço, e a indicação de uma unidade de combate. Segue na íntegra, o texto da carta:

Querida Anna:

Sinto muita falta de você.

Quem me dera ter um pouco de seu sangue.

Feche a pasta. Você já leu tudo.

Você está sentado no lago de luz sob a lâmpada de mesa do Dr. Outerbridge. Já ê tarde. Mas fique sentado mais um pouco. Não será interrompido pelo psiquiatra fictício, que afinal de contas só existe para você, o Leitor.

Portanto, descanse as mãos na face lisa e macia da pasta fechada, cerre os olhos e medite tranqüilamente.

Uma vez que isto é e deve ser ficção, o que lhe agradaria mais?

O Dr. Outerbridge achou Lucy Quigley simplesmente fascinante e a seu tempo ela se tomou a Sra. Outerbridge. Trabalharam junto egregiamente e alcançaram a unidade de vistas e a fama. Isso o faz feliz?

George foi transferido para um hospital de veteranos, atacando-se a sua persona emocional retardada com, narcossíntese, reserpina e choques elétricos sob a orientação de um analista compreensivo, e, em três anos e cinco meses teve alta como curado. Casou com, Anna, herdou a fazenda da tia, e vivem, felizes perto da mata e um, do outro. Ele aprendeu a gostar de crianças. Está bem assim?

Ou, se criaturas como George ainda lhe causam revolta, é « coisa mais fácil deste mundo fazer falhar a terapia e emparedá-lo para sempre. Poderia também ser "morto numa arruaça de prisão ou escapar e ser abatido pelas balas da polícia. Você gostaria que o baleassem, no peito? Ou na barriga? Ah! sim? Que representa ele para você?

Mas convém devolver a pasta ao seu lugar na gaveta, dar o fora. Se o Dr. Outerbridge voltar de repente você terá de reconhecer que ele ê real e que portanto, tudo isto também o é. R seria o diabo, não lhe parece?