Um pouco do seu sangue e outras histórias

Alfred Hitchcock · Capítulo 2 de 20

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Um pouco do seu sangue e outras histórias

Um

Eis aqui uma carta escrita à máquina, em papel que mostra sinais de ter sido cortado no alto com o auxílio de uma régua, como para suprimir um cabeçalho. O N-O por cima da data foi escrito a tinta, em letras de imprensa, grandes e claras.

Q. G. do Hospital de Base,

Portland, Ore., também conhecido como:

Departamento da Pouca Gente N-O

Freudsville, Oregon. 20 jan.

Meu querido Phil:

Em primeiríssimo lugar, queira reparar na notação N-O acima. Ela significa não-oficial, e com isto quero dizer: não mesmo. Se e quando você tornar a vê-la no futuro, não necessitará de explicações. Tudo quanto possa ser comunicado por meio de siglas e em código é para mim uma dádiva do céu, especialmente depois que me deram esta fábrica de malucos para administrar, sem me dispensarem dessa casa de orates em que você trabalha. Desculpe os vulgarismos de leigo, caro doutor; pode crer que eles me fazem bem.

Em envelope separado e altamente oficial, você receberá ordens minhas relativas a um dossiê AX 544. Eu sou o coronel e você é o sargento. Eu sou o administrador e você, um mero subordinado. Daí as ordens. Por outro lado, somos velhos amigos e você me é superior em sua especialidade seis vezes n elevado ao quadrado. O fato — não mencionado nas ordens — é que nós demos uma dessas mancadas que não se pode apagar dizendo "oh! perdão". Este soldado foi retirado de uma área de estágio no além-mar e recambiado para cá com uma etiqueta de "psicose, não classificada" e o qualificativo de "violento, perigoso", por um major boboca do Serviço Médico. Pode tratar-se de uma simples vingança, decorrente do fato de ter-lhe o pracinha esmurrado o nariz. Criminoso talvez seja — de acordo com as distinções em vigor no momento — mas louco é o que não é. A mim quer me parecer que o que ele fez estava muito acertado; mas, no juízo nebuloso do major, afigurou-se loucura bater num oficial, e por isso foi ele enviado para a sua academia de riso em vez de sê-lo para uma estacada.

O que vem complicar a situação é termos perdido de vista esse camarada. Por efeito da escassez de pessoal, das transferências do comando e da confusão geral, há três meses que o pracinha está trancafiado numa solitária acolchoada sem diagnóstico e, se não se habilitava como um de seus pupilos quando lá chegou, agora com toda a certeza há de habilitar-se.

Como quer que isso tenha acontecido, assume o aspecto de uma negligência da pior espécie, para não falar em injustiça. Portanto, o que as palavras "diagnosticar e tratar" significam na ordem oficial é por favor, Phil, de joelhos lhe peço que tire esse homem daí e o exclua do Exército de maneira que não haja conseqüências lamentáveis, ações judiciais nem manchetes de jornais. E, pondo de lado os méritos do caso em si, precisamos livrar-nos desses casos insignificantes. Precisamos do leito. Eu preciso do leito, ou hei de precisar em breve se este gênero de coisa tornar a acontecer.

Conto com você para dar um jeito nisso, Philip. Não apenas um diagnóstico bem-fundado, mas também convincente. E depois, a alta. A compensação que daremos a ele, saiba ou não apreciá-la, poderá ser a de ficarem por conta da casa os soquetes que aplicou na pessoa daquele major aranha.

Do seu senhorio ausente,

AL.

P. S.: Para reforçar a pilhéria, acabam de me informar de que o mencionado major, por nome Manson, marchou para o outro mundo no cumprimento do dever, na queda de um C. 119. Foi a notícia que recebi em resposta a um pedido para que me fossem remetidos os documentos adicionais que ele tivesse em seu poder, sobre o paciente em questão. De documentos, nada.

A. W.

Eis aqui a cópia de uma carta a carbono.

Hospital de Campo N.° 2

Smithton Township, Cal.; também chamado:

Secretaria das Aparadeiras N-O

Fazenda Reik, Cal. 14 jan.

Prezado Al:

Você diagnostica muito bem por correspondência. Deve ter estudado aquela técnica dos charlatães que mandam à gente uma toalha de papel, pela qual cobram dez dólares, para o paciente enxugar o rosto com ela, mandá-la de volta e o homem lhe dizer que seu mal é inflamação dos joelhos. Passei, hoje meia hora com o tal sujeito — juro por Deus, Al, que foi o máximo de tempo que lhe pude dispensar. Fui encontrá-lo no último andar, sozinho numa cela bem aferrolhada. Muito cortês, muito calado. Embora não fale espontaneamente, responde bem. Não hesitei em acenar-lhe com alguma esperança. Como tudo que ele quer é sair incuti-lhe a idéia de que poderá talvez consegui-lo se cooperar comigo. Seu empenho em agradar foi tocante. Por uma vez, e provavelmente a única, me alegro de não ser oficial. Ele não gosta de oficiais. E, como você diz, se metêssemos na solitária todos os pracinhas que nutrem esse sentimento, teríamos de evacuar todo o Estado da Califórnia para arranjar acomodações.

Como não tinha nada comigo nessa primeira visita para tomar testes — inclusive tempo, diabos o levem — pedi a Gus que trouxesse um caderno de composições e algumas canetas esferográficas, e disse ao paciente que escrevesse a história de sua vida, da maneira que mais ' lhe agradasse, sugerindo que o uso da terceira pessoa poderia facilitar o seu trabalho. Isso lhe dará uma ocupação até que eu possa visitá-lo de novo, o que será dentro em breve — mais breve ainda, se você aprovar minha requisição de um dia de trinta horas e um eliminador de sono para mim.

Do seu esfalfado

Phil.

A terceira ou quarta cópia a carbono de uma transcrição datilografada.

NARRATIVA DE GEORGE

A primeira vez que ouviram falar nesse George foi numa bigue área de estágio perto de Tóquio e o pessoal lá andava tão atarefado que empurrava um montão de trabalho para as costas dos outros, que em geral não faziam o que lhes mandavam fazer. Esse é o costume no Exército, milhares de caras sentados, esperando, enquanto algumas dúzias dão murro. Uma das coisas era a correspondência. A correspondência tinha de ser censurada mas só os assuntos militares, e nessa guerra, só assuntos militares muito especiais. O resto não era da conta de ninguém, só de quem tinha escrito a carta.

Apesar disso, algum tenente por lá, que devia conhecer melhor as suas obrigações, bem, talvez conhecesse, mas assim mesmo se meteu no que não lhe dizia respeito. Esse tenente ficou muito intrigado com uma da cartas que estava encarregado de censurar e mostrou a carta a um amigo que era major no Serviço Médico, mas esse major não era um simples doutor, era um psiquiatra. Olhou a carta e disse ao tenente que não tinha motivo para se preocupar com aquilo, pois não era assunto militar, o que o tenente aliás já sabia. Mas isso não adiantou nada porque a carta estava agora com o major, que ficou tão preocupado como o outro, de modo que mandou chamar o soldado que tinha escrito a carta.

No outro dia o major juntou a papelada que tinha em cima da escrivaninha e foi abrir a porta da salinha da frente, onde esse soldado estava esperando. O major tinha na mão uma pasta dobrada para fora, juntando as capas uma com a outra, e uma porção de papéis dentro.

— Entre, ôôô... — disse ele, e olhou os papéis, — ô Smith. O soldado entrou e o major fechou a porta. O soldado estava em posição de sentido mas se virou para trás quando ouviu fechar a porta. O major passou sem olhar para ele por enquanto, mas, olhava os papéis.

— Está bem, soldado — disse. — Fique à vontade.

Não parecia muito durão. Sentou, botou os papéis em cima da escrivaninha, arrumou tudo bem direitinho e finalmente se encostou para trás na sua lustrosa cadeira giratória marrom e começou a estudar o soldado.

O que ele viu foi um rapagão taludo, de cabelo amarelo, cara avermelhada e uns ombros e um peito que faziam com que a camisa parecesse ter crescido em cima dele, de tão bem que sentava. Tinha braços e pernas grossas e conservava a cara fechada.

Até então o major não tinha dito ao soldado que a carta estava com ele. E assim o soldado não sabia por que tinha sido chamado.

O major falou:

— O escrevente da companhia diz que você gosta muito de andar só, Smith. Não se mistura muito com os outros.

Tudo que o soldado respondeu foi "Sim, senhor". Sempre preferia deixar que as outras pessoas falassem quanto quisessem.

— Quais são os seus passatempos?

— Gosto de caminhar. Na minha terra pesco um pouco, caço. — Como o major não dizia nada, o soldado teve de continuar: — Por aqui não tem muito disso. Guaxinim, marmota, coelho...

O major olhou os papéis e disse:

— Você sente muita falta dessas coisas?

— Sim senhor, sinto.

— Tem uma garota na sua terra, George? (Desta vez o major chamou ele de George.)

— Ah! tenho, sim senhor.

— Vai de vez em quando à cidade, não vai?

George sabia muito bem o que ele queria dizer com isso e fez que não com a cabeça.

O major pegou um papel e olhou para ver se tinha alguma coisa escrita no outro lado, que aliás não tinha. Era um papel azul com duas linhas escritas. Foi só então que George começou a olhar fixo para o papel. Ficou com os olhos cravados nele durante o resto do tempo que passou naquela sala, tal e qual o major, só que de mais longe. O major pareceu querer falar alguma coisa sobre o papel, mas não falou. O que disse foi:

— Por que é que você caça, George? Quero dizer, qual é o resultado que tira disso?

Ficou esperando com os olhos no papel, e como não ouvia resposta levantou a cabeça para olhar a cara do soldado. Então disse, baixinho e numa,voz espichada: "Eeeei..." e levantou da cadeira. Foi depressa ao canto da sala, mas meio se esgueirando e, sem tirar os olhos da cara do soldado, pegou um copo, encheu de água no filtro, voltou e ofereceu o copo ao soldado.

— Olhe aqui, beba isto.

A cara do soldado estava branca como cal e toda coberta de gotinhas de suor. Tremia e tinha os olhos meio fechados, vidrados como se costuma dizer. Pegou o copo, mas parecia não saber O que estava fazendo. Ficou com o copo na mão sem beber. Não tirava os olhos do papel. O major olhou também para aquele lado, e foi então que houve a explosão.

O copo pareceu explodir, mas isso foi porque o soldado apertou ele na mão. Estava pronto para saltar em cima do major e o major percebeu isso, porque ficou tão branco como o soldado. Mas o que salvou a vida dele foi a mão do soldado, que continuava estendida para a frente. Primeiro escorria água e depois escorria sangue. O sangue pingando foi o que salvou o major, porque quando o soldado viu aquilo se esqueceu de tudo mais. Levantou devagar a mão para o rosto. Os dedos se abriram e os cacos de vidro ensangüentado caíram no chão. Ele fechou o punho, chegou perto do nariz e começou a cheirar. Depois tornou a abrir. Pela beirada de fora da mão, debaixo do dedo mindinho, o sangue borbotava de uma pequena artéria cortada. George botou a boca naquele lugar.

O major devia ter apertado um botão debaixo da escrivaninha ou coisa que o valha porque a porta se abriu de supetão sem que ninguém batesse e dois P-Es entraram correndo e agarraram George. Um pouco depois o major veio ajudar, entraram mais dois P-Es e então foi a conta. O nariz do major começou a sangrar e um dos P-Es ficou estendido no chão sem se mexer. George levou de novo a mão à boca e ficou resfolegando como um touro pelo nariz e olhando o sangue no rosto do major.

— Esperem um instante — disse o major quando os P-Es começaram a arrastar George para fora. Os homens pararam. Ele olhou George Smith bem nos olhos e falou para ele com bondade. Respirava forte e sangrava, mas foi muito delicado.

— Que foi isso, soldado? Que foi que eu disse?

George olhou a pasta em cima da escrivaninha, depois olhou o nariz sangrando do major, chupou o sangue da mão e não disse nada. Durante três meses não disse nada, porque achava que já tinha dito demais.

Então eles pegaram a pasta e o soldado e mandaram os dois de volta para os Estados.