Um pouco do seu sangue e outras histórias
Nove
14 de abril: Sessão de terapia. Manhã.
P. George, você confia em mim, não confia?
R. Hum-hum, acho que sim.
P. Por que será tão difícil conversar com você?
R. É difícil?
P. Lembra-se quando estávamos fazendo o Temático, aquelas figuras sobre as quais você inventou as histórias? Você falava pelos cotovelos.
R. Não me lembro bem.
P. Se você pudesse conversar comigo assim sem constrangimento nós chegaríamos bem depressa ao fim disto.
R. Bem, a gente pode experimentar.
P. Bravos! Menino, como gosto de trabalhar com você... Então vamos ver. George..
R. Hum?
P- Que é que estava escrito na carta que você escreveu do ultramar para Anna?
R....
P. George? R....
P. George, eu pensava que você ia me ajudar.
R. É que eu não me lembro. (Muito ríspido.)
P. Muito bem, vamos deixar isso. George, quando você vai caçar...
R. Ahhhh!... Não venha com isso de novo.
P. (Depois de prolongada pausa.) Está vendo como tem uma coisa que faz você se fechar? George, essa coisa não é sua amiga. Essa coisa não quer que você saia daqui.
R. (Tom queixoso.) Bem, eu não posso fazer nada.
P. (No tom mais amigo possível.) Eu sei que você não pode, George... mas eu posso.
R. Pode o quê?
P. Conheço um meio de fazer com que você se lembre melhor, para poder falar com mais facilidade.
R. Como? (Desconfiado.)
P. Tire os sapatos.
R. Meus sapatos?! (Mas vai tirando-os.)
P. Bravos! Agora deite no catre. Não, de costas.
R. (Relutante.) Bem... vá lá.
P. Feche os olhos.... Você está todo retesado. Afrouxe as mãos. Isso. Deixe os pés à vontade.
R. Você vai me fazer dormir?
P. Não. Eu lhe prometo. Vai ficar todo o tempo acordado e a todo momento saberá que pode levantar e acabar com isto se quiser. Feche os olhos de novo. Isso. Agora as mãos e os pés. Você não está com sono, está só à vontade, com todo o corpo relaxado. Veja como os seus dedos dos pés, os seus tornozelos estão frouxos. Não, não mexa com eles. Deixe que fiquem, frouxos, sinta como estão frouxos. Agora essa mesma frouxidão nas barrigas das pernas e nos joelhos, parecem azeitados de tão frouxos que estão. Abra esse punho, assim, sinta os seus dedos — não, não mexa com eles. O polegar é Um, o indicador é Dois; agora sinta todos eles afrouxar enquanto eu vou contando, Um, Dois, Três, Quatro, Cinco. Um, Dois, Três, Quatro, Cinco. Um Dois... Como se sente?
R. (Apaziguado.) Bastante bem. Muito bem. Como na fazenda de minha tia.
P. Agora vou lhe mostrar como você pode se lembrar bem das coisas. Aposto como posso lhe fazer lembrar alguma coisa que tinha esquecido e nem sabia que tinha esquecido... George, você se lembra de um tempo feliz, quando era gurizinho? Por exemplo, quando tinha quatro anos. Quatro anos de idade. Quatro anos de idade. Lembra-se um dia sossegado em casa, na cozinha, quem sabe? Antes de sua mãe ter ficado muito doente?
R. (Cheio de satisfação.) Mmm...
P. Você tem quatro anos. Na cozinha, em casa. Quatro anos de idade. Sua cabeça alcança o tampo da mesa?
R. (Admirado) N-não...
P. Está quentinho na cozinha quando você tem quatro anos?
R. Quentinho.
P. Agora olhe em redor de si. Devagar. Olhe as prateleiras. Olhe a cadeira. Olhe as frestas no assoalho. Olhe em redor de si, quatro anos de idade. Olhe o que você esqueceu durante todos estes anos. Espie no peitoril da janela. Olhe em redor do seu...
R. (Em voz baixa, expressão de absoluto assombro.) Ali está... o meu... prato! (Salta do catre, teso como uma estaca, o semblante inflamado, a boca aberta. Ri e grita:) Eu vi o meu maldito prato!
P. Ah! sim?
R. Olhe, quando eu era garotinho tinha um prato, era azul na beirada e branco por dentro, no fundo tinha a figura de uma vaca azul. Puxa, eu não me lembrava desse maldito prato desde que a baleia vomitou Jonas!
P. Muito bem, ótimo! Agora volte para o catre.
R. Vi tão bem que cheguei a enxergar a racha em roda do fundo, junto da beira.
P. Psss. Agora sossegue e feche os olhos. Isto é uma espécie de jogo, e uma da regras é que se eu lhe faço voltar aos quatro anos tenho que tirar você de lá depois. Agora, psss... Você tem quatro anos e está na cozinha. Veja como está quentinho na cozinha, quatro anos de idade. Você é um garotinho de quatro anos de idade. Bem, fique aí na cozinha, mas não procure nada. É só sentir o calorzinho. Daqui a pouco vou bater palmas. Assim que você ouvir as palmas terá vinte e três anos. Terá vinte e três anos, agora, neste quarto comigo. Vou contar de trás para diante, de cinco até um, e então bato as palmas. Você entendeu?
R. Hum-hum...
P. Cinco, Quatro, Três, Dois, Um. (Palmas) Muito bem. Pode abrir os olhos. Como está se sentindo?
R. Como se tivesse dormido duas horas. Que foi que você fez, Phil?
P. É um jogo de lembrar, nada mais. Você foi muito bem.
R, É a coisa mais esquisita que eu vi até hoje. O meu prato, você faz idéia?
P. Formidável... Feche os olhos.
R. Vai fazer de novo?
P. Não já. Você está se sentindo tão à vontade agora... Leve na moleza, como diz o outro. Você está levando na moleza. Na calma.
R. É...
P. A xepa que ganha aqui é boa?
R. A xepa é boa. Já comi pior e pagando.
P. Pois leve na moleza, assim na calma, você pode conversar muito bem comigo, sabe?
R. Pois é, parece.
P. Você gosta de cinema?
R. Há muito tempo que não vejo um filme. Sim, gosto de cinema.
P. Qual é a espécie que gosta mais?
R. Filmes do Oeste.
P. Eu também... George, você sabe que sempre se pode ver a diferença entre o mocinho e o bandido?
R. Sim. Quando o mocinho é baleado, é sempre no peito ou no ombro, mas quando é o bandido que leva um balaço, é sempre na barriga.
P. (Riso prolongado.) Caramba, George, nunca pensei nisso! E sabe duma coisa? Agora que estou pensando, acho que você tem razão. Eu ia falar no bigode.
R. Ah! sim, é.
P. George, feche os olhos. Vá com calma, com toda a calma. Quero que você lembre alguma coisa desagradável por que tenha passado, mas vamos ver se lembra com calma, sem se exaltar.
R. Ah!... Está bem.
P. Feche os olhos. Vá com calma. Quero que lembre aquele dia que mandaram lhe chamar e você foi ao gabinete do major, aquele que tinha a sua carta. George, você está com a testa franzida aí em cima do nariz. Alise a testa. Não se pode ir com calma quando se tem a testa franzida. Muito bem. Ótimo! Agora quero que você se lembre daquela ocasião, como foi que aconteceu. O que você sentiu. A raiva que lhe deu. Quando pegou o copo. Quando quebrou o copo.
R. (Levanta-se de repente, fechando o punho direito. Os músculos retesam-se por baixo da camisa. Rosto contorcido. Respiração sibilante.)
P. Você não teve uma chance de fazer o que queria, George. Que é que você queria fazer naquele momento? Supondo-se que tivesse a chance, que não houvesse ninguém perto senão você e ele?
R. Matar ele. Tinha matado ele.
P. Como? Que é que você faria? E ele, que ia fazer?
R. Eu pegava um caco do copo quebrado ou uma faca e sapecava nele. Ele...
P. Continue.
R. Ele ia tratar de fugir, mas eu ia atrás. Dava-lhe um talho bem grande e o sangue espirrando para todos os lados.
P. Hum-hum. E então...
R. Então o velho olhava para mim com uma cara sarapantada. Ficava maluco. Os olhos saltavam, com um medo de morte... Não adianta ficar furioso comigo agora. Está tão fraco que não pode ficar mais em pé. Quando se vê está caído no chão, sufocando, sem poder respirar. Sacode um pouco a cabeça pra direita e pra esquerda... E pronto. Finalmente levou a sua conta!
P. (!) E depois o quê, George?
R. Acho que é só. Ele não ia me amolar mais. E deixaria minha mãe sossegada, também.
P. Sim.
R. Sim.
P. George, você já viu alguma vez um homem morrer desse jeito, com o sangue espirrando para todos os lados?
R. (Sem hesitar.) Aquele velho guarda. Perto da fábrica de caixas de papelão.
P. Foi um acidente?
R. Que esperança! Comecei dando na cabeça dele com um cano. Deve ter chegado pra ele, porque não lutou. Ou quem sabe se estava muito bêbedo. Então cortei o peito dele, tal qual um coelho. O velho vagabundo não tinha muito sangue.
P. George, onde foi que você cortou o guarda? Me mostre exatamente o lugar onde meteu a faca.
R. Bem aqui. (Segura o peito com a mão direita, entre a teta direita e a axila.)
P. Que foi que você fez depois que o velho morreu?
R. Empurrei para trás da caixa-d'água.
P. E depois, que foi que fez?
R. Me meti de novo pela mata. Mas estava muito escuro para poder enxergar. Acho que andei meio perdido. (Introduz as mãos espalmadas em baixo da cinta e desce com elas por dentro das calças.) Sinto um fogo quando penso nisso.
P. Um fogo? Quer dizer que precisa de mulher?
R. (Bufando com desdém.) Que nada! Aqui... aqui! (Segura a pele do baixo ventre.)
P. Que é que acontece quando você sente esse fogo, George?
R. Me dá vontade de caçar. Coelho, abre o olho!
P. Como quem tem fome?
R. É diferente.
P. (Consulta o relógio.) Isto me lembra que é melhor pararmos aqui, senão vou ficar sem almoço. Já perdi as duas primeiras mesas.
R. Eu também, quem me dera um cavalo, já não falo em coelho!
P. (Bate na porta chamando o guarda.)
R. Que fome, que fome!
P. Vá com calma, sossegue.
R. Você me deixou todo alvorotado, Phil.
P. (Malha com os punhos na porta.)
R. Eles foram todos almoçar. Não tem ninguém por aqui agora, só você e eu.
P. (Continua malhando na porta.)
R. (Amassando o baixo ventre.) É medonho isto que eu sinto, não se pode matar um gambá ou um coelho.
P. Tenha calma, George... Aí vem Gus. Gus, pensei que você nunca fosse chegar!