Um pouco do seu sangue e outras histórias
Os Veranistas
SHIRLEY JACKSON
A casa de campo dos Allisons, a sete milhas da vila mais próxima, aninhava-se em bonita posição sobre uma colina. Por três lados, olhava do alto para uma repousante vista de árvores e de capim que raras vezes, mesmo no rigor do verão, se apresentava imóvel e seco. Do quarto lado havia o lago, tocando no trapiche de madeira que os Allisons tinham de consertar todos os anos; esse lago oferecia um aspecto tão atraente a quem o contemplava da varanda da frente como da varanda lateral ou de qualquer altura na escada de madeira que levava da varanda à beira d'água. Conquanto os Allisons adorassem o seu chalé de veraneio, contando os dias que faltavam para deixarem a cidade nos começos do verão e relutando em deixá-lo no outono, não se haviam dado ao trabalho de introduzir-lhe melhoramentos, pois consideravam a própria casa e o lago como melhoramento suficiente para os anos de vida que lhes restavam. Não tinha calefação nem água corrente, salvo o precário abastecimento por meio da bomba instalada no quintal dos fundos, nem mesmo eletricidade. Durante dezessete verões Janet Allison havia cozinhado e fervido toda a água quente de que necessitavam num fogão de querosene: todos os dias Robert Allison trazia a água da bomba em baldes, e à noite lia o jornal à luz de um lampião de querosene. Ambos, apesar de seus hábitos higiênicos de moradores da cidade, tinham-se tornado calejados e prosaicos no que dizia respeito à casinha dos fundos. Nos dois primeiros verões haviam esgotado o repertório de pilhérias de vaudeville e de revista sobre esse gênero de comodidade; mas, agora que já não tinham visitas freqüentes a quem impressionar com tais gracejos, haviam recaído num confortável sentimento de segurança que fazia da casinha, assim como da bomba e do querosene, uma das indefiníveis vantagens de sua vida de verão.
Em si mesmos, os Allisons eram pessoas comuns. Janet tinha cinqüenta e oito anos e Robert, sessenta. Haviam visto seus filhos abandonar o chalé para constituir família e passar a veranear nas praias. Seus amigos ou estavam mortos ou instalados em cômodas residências de todo o ano; seus sobrinhos e sobrinhas eram figuras distantes « vagas. No inverno diziam um ao outro que podiam suportar seu apartamento de Nova Iorque enquanto aguardavam o verão; no verão, diziam um ao outro que valia bem a pena passar o inverno esperando o momento de partir para o campo.
Como eram bastante velhos para não se envergonharem de manter hábitos regulares, os Allisons invariavelmente deixavam seu chalé de veraneio na terça-feira após o Dia do Trabalho* e invariavelmente se lastimavam quando o mês de setembro e os começos <le outubro transcorriam com bom tempo, mas num ambiente de aridez quase insuportável na cidade. Todos os anos confessavam que não havia nada a chamá-los de volta para Nova Iorque, mas só no fim desse verão venceram sua tradicional inércia resolvendo continuar no chalé após o Dia do Trabalho.
*Nos Estados Unidos, o Dia do Trabalho incide na primeira segunda-feira de setembro. — N. do Trad.
— A verdade é que não temos nada que fazer na cidade — disse a Sra. Allison a seu marido com toda a seriedade, como quem sugeria uma idéia nova; e ele lhe respondeu, como se nenhum fios dois houvesse jamais pensado nisso:
— Sim, o melhor é gozarmos o campo enquanto pudermos. Por conseguinte, com grande deleite e uma ligeira sensação de aventura, a Sra. Allison foi até a vila na terça-feira após o Dia do Trabalho e anunciou aos habitantes da terra com quem tinham transações, assumindo um bonito ar audacioso de quem rompe com a tradição, que ela e seu marido haviam resolvido ficar ao menos um mês ainda no chalé.
— Afinal, não temos nada que fazer na cidade — disse ao Sr. Babcock, seu armazeneiro. — Para que não gozar o campo enquanto pudermos?
— Até hoje ninguém ficou no lago depois do Dia do Trabalho — respondeu o Sr. Babcock, que estava acondicionando as compras da Sra. Allison numa grande caixa de papelão e se deteve um instante para considerar pensativamente um pacote de bolinhos. — Ninguém — repetiu.
— Mas a cidade! — A Sra. Allison sempre falava da cidade ao Sr. Babcock como se o sonho da vida deste fosse ir lá. — É um calor que o senhor não pode mesmo fazer idéia. Sempre nos arrependemos depois de partir.
— Detestam partir — disse o Sr. Babcock. Um dos mais irritantes vezos que a Sra. Allison havia observado nos nativos. da terra era o de apanhar no ar um comentário trivial para simplificá-lo, reformulando-o em termos ainda mais triviais. — Eu mesmo detestaria partir daqui — continuou o Sr. Babcock depois de refletir, e tanto ele como a Sra. Allison sorriram. — Mas até hoje nunca ouvi dizer que alguém tivesse ficado no lago depois do Dia do Trabalho.
— Pois nós vamos fazer a experiência — disse a Sra. Allison, e o Sr. Babcock retrucou em tom grave:
— Nunca se pode saber antes de experimentar. Fisicamente, decidiu a Sra. Allison, como sempre fazia ao deixar o armazém depois de uma palestra inconcludente com o Sr. Babcock — fisicamente, o Sr. Babcock podia servir de modelo para uma estátua de Daniel Webster, mas mentalmente... Era horrível observar a degeneração que se operara na velha cepa ianque da Nova Inglaterra. Foi o que disse a seu marido quando embarcou no carro, e ele respondeu:
— São essas numerosas gerações de cruzamentos consangüíneos. E também a má qualidade do solo.
Como estavam fazendo sua grande viagem à vila, que só realizavam de duas em duas semanas para comprar as coisas que não lhes podiam ser entregues em casa, demoraram-se o dia inteiro, parando para comer um sanduíche no bar e agência de jornais e deixando os pacotes amontoados no assento traseiro do carro. Se bem que a Sra. Allison pudesse fazer suas encomendas para entrega regular a domicílio, jamais conseguia formar pelo telefone, uma idéia exata sobre as novidades que o Sr. Babcock tinha para oferecer e suas listas de compras eram sempre acrescidas, quase além das necessidades do casal, pelas hortaliças frescas que o armazeneiro vendia periodicamente ou pelos doces em pacotes que acabavam de chegar. Nessa viagem, a Sra. Allison foi também tentada por um jogo de formas de pirex para fornos que encontrou por pura casualidade na loja de ferragens, roupas e gêneros, e que parecia estar ali à espera de ninguém mais senão a Sra. Allison, já que a gente do campo, com sua desconfiança instintiva para com tudo que não parecesse tão permanente quanto as árvores, as rochas e o céu, só recentemente havia começado a trocar as panelas de ferro pelas de alumínio, e havia habitantes do lugar que se lembravam ainda de ter visto as. panelas de barro serem abandonadas em favor das de ferro.
A Sra. Allison mandou embrulhar cuidadosamente as formas de pirex a fim de suportarem a incômoda viagem de regresso pela estrada pedregosa que conduzia ao chalé dos Allisons, e enquanto o Sr. Charley Walpole, que, com seu irmão caçula, Albert, explorava o armazém de ferragens, roupas e gêneros — por sinal, era este conhecido como "Johnson's" por se encontrar no local da velha cabana dos Johnsons, destruída por um incêndio cinqüenta anos antes do nascimento de Charley Walpole — enquanto este, diligentemente, desdobrava jornais para forrar com eles as formas, a Sra. Allison comentou de passagem:
— Naturalmente, eu poderia ter esperado para comprar estas formas em Nova Iorque, mas este ano não vamos voltar já.
— Ouvi dizer que iam ficar — disse o Sr. Charley Walpole, cujos dedos se atrapalhavam de maneira exasperante com as finas folhas de papel de jornal, procurando com todo o cuidado, separar uma de cada vez. E prosseguiu sem levantar os olhos para a Sra. Allison: — Não sei de ninguém que tenha ficado lá cm cima, no lago, depois do Dia do Trabalho.
— Bem, o senhor sabe — volveu a Sra. Allison, como se ele merecesse uma explicação, — a nós nos pareceu que todos os anos temos muita pressa de voltar para Nova Iorque, e que no fundo não há nenhuma necessidade disso, O senhor sabe como é a cidade no outono.
E sorriu para o Sr. Charley Walpole com um ar de confidencia. Ritmicamente, ele passou um barbante em volta do pacote. "Está me dando um pedaço bastante grande para guardar", pensou a Sra. Allison, desviando vivamente os olhos a fim de não deixar transparecer nenhum sinal de impaciência.
— Tenho a impressão de sermos desta terra, por ficarmos depois de todos os outros terem partido — continuou ela. E, para provar o que dizia, sorriu alegremente para uma mulher de rosto conhecido, no outro lado do armazém. Podia ser a mulher que um ano vendera frutas silvestres aos Allisons, ou a mulher que de quando em quando ajudava a atender os fregueses da mercearia e que era provavelmente uma tia do Sr. Babcock.
— Bem — disse o Sr. Charley Walpole. Empurrou levemente o pacote sobre o balcão, na direção da cliente, para significar que o trabalho estava terminado e que por uma venda bem feita, um pacote bem embrulhado, de bom grado aceitaria remuneração. — Bem — repetiu, — até hoje nunca houve veranistas no lago, depois do Dia do Trabalho.
A Sra. Allison deu-lhe uma nota de cinco dólares e ele contou o troco metòdicamente, até o último "cent".
— Nunca depois do Dia do Trabalho — disse, fazendo uma inclinação de cabeça para a Sra. Allison, e afastou-se comedidamente para ir atender duas mulheres que estavam examinando uns vestidos caseiros de algodão.
A Sra. Allison, de saída, passou pelo grupo e ouviu uma das mulheres dizer em voz aguda:
— Por que é que pedem um dólar e trinta e nove "cents" por um desses vestidos e esse outro aqui custa só noventa e oito?
— São uma grande gente — disse a Sra. Allison ao marido enquanto caminhavam juntos pelo passeio, depois de se haverem encontrado à porta da loja de ferragens. — São tão sólidos, tão sensatos, tão honestos!
— Conforta a gente saber que ainda existem cidadezinhas como esta — disse o Sr. Allison.
— Olhe, em Nova Iorque — disse a Sra. Allison, — eu teria pago talvez alguns "cents" menos por estas formas, mas não haveria nada de pessoal, por assim dizer, na transação.
— Vão continuar no lago? — perguntou aos Allisons a Sra. Martin, no bar e agência de jornais. — Ouvi dizer que iam ficar,
— Resolvemos aproveitar o tempo magnífico que está fazendo este ano — disse a Sra. Allison.
A Sra. Martin era relativamente nova na vila. Viera de uma fazenda dos arredores ao casar com o proprietário da lojinha e permanecera à frente do negócio após a morte do marido. Servia refrigerantes engarrafados e sanduíches de ovos fritos com cebola sobre grossas fatias de pão, que ela mesma preparava no fogão dos fundos da loja. De quando cm quando os sanduíches da Sra. Martin traziam consigo a suculenta fragrância de ensopado ou das costeletas de porco que cozinhava ao lado para o seu jantar.
— Acho que até hoje ninguém ficou tanto tempo lá em cima — disse a Sra. Martin. — Em todo caso, ninguém fica depois do Dia do Trabalho.
— É no Dia do Trabalho que eles costumam ir embora — disse-lhes mais tarde o Sr. Hall, o vizinho mais próximo dos Allisons, cm frente ao armazém do Sr. Babcock, onde os Allisons estavam embarcando no seu automóvel para voltarem. — Me admira que tenham resolvido ficar.
— Ficamos com pena de partir tão cedo — disse a Sra. Allison. O Sr. Hall morava a três milhas do chalé. Fornecia manteiga e ovos aos Allisons, e de quando em quando estes avistavam luzes em sua casa, nas primeiras horas da noite, antes de irem os Halls para a cama.
— Em geral, partem no Dia do Trabalho — disse o Sr. Hall.
A viagem de volta foi longa e dura. Começava a escurecer e o Sr. Allison precisava dirigir com muito cuidado na estrada de terra solta à margem do lago. A Sra. Allison ia recostada no assento, gozando o bem-merecido repouso após esse dia. de compras que, em confronto com a existência rotineira do casal, parecia um verdadeiro furacão. Levava, semi-oculta em seus pensamentos, a agradável imagem das formas novas de pirex, do meio "bushel" de maçãs vermelhas de mesa e da caixa de percevejos coloridos com que se propunha prender as novas rendas de papel nas prateleiras da cozinha.
— Que bom estar de novo em casa! — disse ela docemente ao avistarem o chalé que se destacava em silhueta no alto, contra o céu.
— Ainda bem que resolvemos ficar — concordou o Sr. Allison.
A Sra. Allison passou a manhã do dia seguinte lavando com amor as formas de pirex, se bem que, em sua inocência, Charley Walpole não reparara na beira lascada de uma delas. Num ímpeto de prodigalidade, decidiu ela usar algumas das maçãs de mesa na confecção de uma torta para o jantar e, enquanto a torta cozia no forno e o Sr. Allison descia para ir buscar a correspondência, foi sentar-se no pequeno gramado que os Allisons haviam plantado no alto da colina e ficou a contemplar as mutações de luz no lago, alternadamente cinzento e azul de acordo com o perpassar das nuvens velozes sobre o sol.
O Sr. Allison voltou um pouco aborrecido. Sempre se irritava quando, depois de percorrer a milha de distância até a caixa do correio, na estrada estadual, voltava com as mãos a abanar, embora convencido de que a caminhada lhe fazia bem à saúde. Nessa manhã não encontrara nada, a não ser uma circular de um grande magazine de Nova Iorque e o jornal nova-iorquino que assinavam e que o correio trazia com bastante irregularidade de um a quatro dias de atraso, acontecendo, destarte, que os Allisons podiam receber três números de jornal de uma vez só e freqüentemente nenhum. Embora compartilhasse o aborrecimento do marido por não terem recebido as cartas que ansiosamente esperavam, a Sra. Allison percorreu com um olhar afetuoso a circular do magazine, formando o projeto de passar por lá quando finalmente voltassem a Nova Iorque para dar uma olhada à liquidação de cobertores de lã; era difícil, atualmente, encontrar bons cobertores de cores bonitas. Queria guardar a circular como lembrete, mas depois de pensar em levantar-se e entrar no chalé para pô-la em lugar seguro deixou-a cair na grama ao lado da cadeira e reclinou-se nesta, entrecerrando os olhos.
— Está com jeito de chover — disse o Sr. Allison enviezando os olhos para o céu.
— É bom para as plantações — respondeu laconicamente a Sra. Allison. E riram ambos.
O homem do querosene veio na manhã seguinte, enquanto o Sr. Allison estava lá em baixo, buscando a correspondência A reserva de querosene da casa ia minguando e a Sra. Allison acolheu jubilosa o homem. Vendia ele querosene e gelo, e durante o verão levava o lixo dos veranistas. Um lixeiro só era necessário para a impróvida gente da cidade; os habitantes do campo não têm lixo para pôr fora.
— Que bom o senhor ter vindo! — disse-lhe a Sra. Allison — Estamos com pouco querosene.
O homem, cujo nome ela nunca havia aprendido, tinha uma mangueira para encher o reservatório com uma capacidade de vinte galões que fornecia aos Allisons luz, calor e meios de cozinhar; nesse dia, contudo, em lugar de descer do caminhão para tirar do gancho a mangueira afetuosamente enrolada em volta da cabina do caminhão, o homem fitou a Sra. Allison com um ar contrafeito, sem parar o motor.
— Pensei que iam embora — disse ele.
— Vamos ficar mais um mês — respondeu alegremente a Sra. Allison. — O tempo está tão bonito que nos pareceu uma pena...
— Foi o que me disseram — tornou o homem. — Mas não tenho querosene para lhe dar.
— Como assim? — A Sra. Allison alçou as sobrancelhas. — Vamos continuar recebendo como antes...
— Depois do Dia do Trabalho — disse o homem. — Eu mesmo recebo pouco querosene depois do Dia do Trabalho.
A Sra. Allison advertiu a si mesma, como freqüentemente era obrigada a fazer em seus desentendimentos com os vizinhos, de que os processos citadinos não produziam efeitos com a gente do campo. Não se podia esperar que um trabalhador do campo se deixasse sujeitar como um empregado da cidade. Portanto, disse com um sorriso cativante:
— Mas o senhor não pode conseguir algum querosene extra, pelo menos enquanto ficamos aqui?
— O negócio é o seguinte — disse o homem, pondo-se a bater de maneira exasperante com o dedo na roda da direção enquanto falava. — O negócio é o seguinte — continuou em voz lenta. — Este querosene é encomendado. Vem de um lugar que fica a umas cinqüenta, talvez cinqüenta e cinco milhas daqui. Encomendo ele em junho, na quantidade que vou precisar para todo o verão. Depois encomendo de novo... lá por novembro, mais ou menos. Nesta altura, já estou com bastante pouco.
E, como se o assunto estivesse encerrado, deixou de bater com o dedo na roda e segurou-a com as duas mãos, preparando-se para arrancar.
— Mas não pode nos deixar um pouco? — disse a Sra. Allison. — Não há mais ninguém que tenha querosene?
— Não sei se a senhora poderá conseguir querosene em algum outro lugar agora — volveu o homem depois de refletir. — Eu não tenho nenhum para lhe dar. — Antes que a Sra. Allison pudesse falar, o caminhão pôs-se em movimento; depois parou um instante e o homem olhou-a pela janela traseira da cabina. — Gelo? — gritou. — Tenho algum gelo para lhe vender.
A Sra. Allison abanou negativamente a cabeça. Não lhes faltava gelo e ela estava bastante zangada. Deu alguns passos a correr, a fim de alcançar o caminhão, gritando:
— Veja se nos arranja um pouco! Na semana que vem?
— Não sei se poderei — disse o homem. — Depois do Dia do Trabalho é mais difícil.
O caminhão afastou-se e a Sra. Allison, consolando-se em parte com a idéia de que poderia talvez conseguir querosene com o Sr. Babcock ou, em último recurso, com os Halls, viu-o afastar-se com raiva. "No verão que vem", dizia a si mesma. "Só quero ver esse tipo passar por aqui no verão que vem!"
Novamente, não havia correspondência — só o jornal, que parecia fazer questão, agora, de chegar com pontualidade. O Sr. Allison estava francamente mal-humorado quando voltou. Ao ouvir sua esposa falar no homem do querosene, não se mostrou muito impressionado com o caso.
— Sem dúvida está guardando todo o querosene que tem para conseguir preço mais alto durante o inverno — foi o seu comentário. — Que terá acontecido com a Anne e Jerry? Você faz idéia?
Anne e Jerry eram seus dois filhos, ambos casados, ele vivendo em Chicago e ela no Oeste. Suas cartas de todas as semanas, sempre pontuais, estavam atrasadas; tão atrasadas, mesmo, que a irritação do Sr. Allison com a falta de correspondência pôde concentrar-se num motivo legítimo de queixa.
Eles deviam saber o que essas cartas significam para nós — disse. — Filhos desatenciosos, egoístas. Deviam compreender.
— Mas, meu querido... — A Sra. Allison tratou de aplacá-lo, A irritação com Anne e Jerry não aliviava o que sentia com respeito ao homem do querosene. Após alguns instantes, prosseguiu: — o nosso desejo não fará com que as cartas venham, querido. Vou telefonar ao Sr. Babcock para pedir que mande um pouco de querosene com a minha encomenda.
— Ao menos um postal — disse ainda o Sr. Allison, enquanto ela se afastava.
Como sucedia com quase todos os demais desconfortos do chalé, os Allisons já não prestavam nenhuma atenção especial ao telefone, cedendo às suas excentricidades sem protestar conscientemente. Era um telefone de parede, de um tipo que só se vê ainda em pequenas comunidades. A fim de alcançar a telefonista, a Sra. Allison precisava dar uma volta à manivela lateral e tocar uma vez a campainha. Em geral, tinha de repetir o processo duas ou três vezes para forçar a telefonista a responder e, ao fazer qualquer espécie de chamado, a Sra. Allison aproximava-se do aparelho com resignação e uma espécie de paciência encarniçada. Desta vez teve de rodar três vezes a manivela antes que a telefonista respondesse e de esperar ainda mais tempo até que o Sr. Babcock apanhasse o receptor de seu telefone instalado no canto ao armazém, por trás da mesa de carnes.
— Armazém? — disse ele, com aquela entonação ascendente que parecia indicar desconfiança para com todas as pessoas que tentavam comunicar-se com ele por meio desse precário instrumento.
— Aqui fala a Sra. Allison, Sr. Babcock. Achei que convinha fazer-lhe meu pedido com um dia de antecedência, para ter certeza de arranjar um pouco de...
— Como foi que disse, Sra. Allison?
A Sra. Allison elevou um pouco o tom da voz e viu seu mando, lá no gramado, virar-se na sua cadeira e olhá-la com uma expressão de simpatia.
— Eu disse, Sr. Babcock, que resolvi fazer meu pedido mais cedo para que o senhor me mandasse também...
— Sra. Allison? — disse o Sr. Babcock. — Os senhores virão buscar o pedido?
— Buscá-lo? — Na sua surpresa, a Sra. Allison tornou a baixar a voz para o tom normal e o Sr. Babcock perguntou, alteando ainda mais a sua:
— Como foi, Sra. Allison?
— Pensei que fosse mandar, como de costume — disse esta.
— Bem, Sra. Allison — tornou o armazeneiro; e houve uma pausa enquanto a Sra. Allison esperava, fitando o céu com um olhar que tangenciava o telefone e passava por cima da cabeça de seu marido. — Sra. Allison — continuou finalmente o Sr.
Babcock — vou lhe explicar. O meu menino, que trabalha para mim voltou ontem para a escola e agora estou sem entregador. É só no verão que tenho um menino para fazer as entregas, compreende ?
— Eu julgava que sempre fizesse as entregas em casa — disse a Sra. Allison.
— Depois do Dia do Trabalho, não, Sra. Allison — respondeu em tom firme o Sr. Babcock. — Até agora, a senhora nunca ficou aqui depois do Dia do Trabalho, e assim é natural que não saiba
— Bem — volveu a Sra. Allison, desanimada. Mentalmente, dizia e repetia a si mesma que as maneiras da cidade não davam, resultado com a gente do campo, que não adiantava zangar-se. — O senhor tem certeza? — perguntou para finalizar. — Não poderia mandar entregar um pedido, por hoje só, Sr. Babcock?
— Para dizer a verdade, acho que não posso, Sra. Allison Não compensaria fazer entregas em casa quando não há ninguém mais aí no lago.
— E o Sr. Hall? — lembrou-se de repente a Sra. Allison — A família que mora para estes lados, a umas três milhas de nosso chalé? O Sr. Hall poderia trazer o pedido quando viesse
— Hall? — disse o Sr. Babcock. — John Hall? Foram visitar os parentes da mulher dele no interior do Estado, Sra. Allison.
— Mas é deles que sempre compramos a manteiga e os ovos — disse a Sra. Allison, apavorada.
— Partiram ontem — disse o Sr. Babcock. — Com certeza pensaram que os senhores não iam ficar lá em cima.
— Mas eu disse ao Sr. Hall... — ia insistindo a Sra. Allison; desistiu, porém. — Amanhã mandarei o Sr. Allison buscar algumas coisas aí — concluiu.
— Até então, não lhe faltará nada — respondeu o Sr, Babcock, satisfeito. Não era uma pergunta, mas uma confirmação.
Depois de repor o fone no gancho, a Sra. Allison saiu vagarosamente para tornar a sentar-se na sua cadeira, junto ao marido.
— Não quer fazer a entrega em casa. Amanhã você terá de ir lá. O querosene que temos só dá para durar até a sua volta
— Ele devia nos ter avisado antes — disse o Sr. Allison. Não era possível permanecer preocupado num dia como aquele. O campo nunca lhes parecera mais convidativo e o lago
OS VERANISTAS agitava-se brandamente lá em baixo, entre as árvores, com a suavidade quase inacreditável de uma paisagem de verão nas telas. A Sra. Allison soltou um profundo suspiro, no contentamento de possuírem só para si aquela vista do lago, com as distantes colinas verdes mais além e a doçura da brisa entre as árvores.
O tempo manteve-se bom. Na manhã do dia seguinte o Sr. Allison, armado de uma lista de artigos a adquirir no armazém, com a palavra "querosene" no alto, em letras graúdas, desceu pelo caminho que levava à garagem e a Sra. Allison iniciou a confecção de uma segunda torta nas formas novas de pirex. Havia misturado a massa e estava descascando as maçãs quando o Sr. Allison voltou rapidamente pelo caminho e abriu de supetão a porta de tela da cozinha.
— O maldito motor não quer pegar — anunciou com a voz exasperada de um homem que depende de seu automóvel como de seu braço direito.
— Que é que há com ele? — indagou a Sra. Allison, parando de descascar com a faca numa das mãos e a maçã na outra. — Estava em perfeitas condições na terça-feira.
— Pois na sexta não está em perfeitas condições — respondeu o Sr. Allison falando entre os dentes.
— Você pode consertar?
— Não, não posso. Acho bom chamar alguém.
— Quem é que vai chamar?
— Creio que o homem da bomba de gasolina. — O Sr. Allison caminhou para o telefone com passo resoluto. — Ele já o consertou uma vez, no verão passado.
Um tanto apreensiva, a Sra. Allison continuou distraidamente a descascar maçãs enquanto escutava o Sr. Allison ao telefone, chamando, esperando, ao cabo dando o número à telefonista, para de novo esperar, de novo dar o número, dá-lo uma terceira vez, e finalmente bater com o fone no gancho.
— Não há ninguém lá — anunciou entrando na cozinha.
— Com certeza ele saiu por alguns instantes — disse a Sra. Allison, nervosa. Não saberia dizer exatamente o que a inquietava, a não ser que fosse a possibilidade de seu marido perder de todo as estribeiras. — Está lá sozinho, suponho eu, de modo que quando sai não há ninguém para atender o telefone.
— Deve ser isso — disse o Sr. Allison com pesada ironia. Arriou-se numa das cadeiras da cozinha e ficou a observar sua esposa descascando maçãs. Após um minuto a Sra. Allison perguntou em voz melíflua:
— Por que não aproveita para descer e ir buscar a correspondência? Depois tornará a chamar a bomba.
O Sr. Allison pensou um pouco e disse:
— Talvez não seja má idéia. — Levantou-se pesadamente e ao alcançar a porta da cozinha virou-se para acrescentar: — Mas se não houver cartas...
E, deixando atrás de si um temeroso silêncio, começou a descer pelo caminho.
A Sra. Allison apressou os preparativos da torta. Por duas vezes foi à janela para olhar o céu e ver se não apareciam nuvens. A cozinha parecia ter escurecido inesperadamente e ela própria sentia-se nesse estado de tensão que precede as trovoadas, mas nas duas vezes que foi olhar estava o céu claro e sereno, a sorrir indiferentemente sobre o chalé de veraneio dos Allisons como sobre o resto do mundo. Quando a Sra. Allison, já pronta a torta para pôr no forno, foi olhar pela terceira vez lá fora, viu seu marido que subia pelo caminho. Parecia mais animado e, ao avistá-la, abanou vivamente a mão, agitando uma carta no ar.
— De Jerry — gritou assim que a distância lhe permitiu ser ouvido por ela. — Até que afinal... uma carta! — A Sra. Allison notou, cheia de solicitude, que ele já não podia subir a suave ladeira do caminho sem que sua respiração se tornasse ofegante. Mas pouco depois ele surgiu à porta, estendendo a carta. — Poupei-a para quando tivesse chegado — disse.
A própria Sra. Allison surpreendeu-se da avidez com que olhou a letra bem-conhecida de seu filho. Não sabia explicar por que a carta a emocionava dessa forma, a não ser que fosse por ser a primeira que recebiam depois de tanto tempo. Seria uma carta gentil e conscienciosa, repleta das atividades de Alice e dos pequenos, narrando os progressos de Jerry no seu emprego, comentando o tempo que fazia em Chicago e terminando com os afetuosos abraços de todos. Tanto o Sr. como a Sra. Allison poderiam, se quisessem, recitar uma carta-padrão do filho ou da filha.
O Sr. Allison rasgou o envelope com grande circunspeção, abriu a carta sobre a mesa da cozinha e ambos se curvaram para lê-la juntos.
"Queridos Pais", começava ela na letra familiar e um tanto infantil de Jerry, "Tenho muita satisfação em saber que esta irá para o lago como de costume, sempre achamos que vocês voltavam cedo demais e que deviam ficar aí mais tempo que pudessem. Diz Alice que agora, que já não são muito moços e não têm nada para lhes tomar o tempo e menos amigos, etc, na cidade, deviam aproveitar enquanto pudessem as ocasiões que têm de gozar a vida. Como ambos se sentem felizes lá em cima, tiveram uma ótima idéia em ficar!'
Contrafeita, a Sra. Allison olhou de esguelha para o marido, que continuava a ler atentamente. Estendeu a mão e apanhou o envelope vazio, sem saber ao certo o que queria com ele. Trazia o endereço de costume, na letra de Jerry, e o carimbo de Chicago. Evidentemente que trazia o carimbo de Chicago, apressou-se a dizer lá consigo; por que haveriam eles de enviar a carta de outro lugar? Quando tornou a olhar para a carta, seu marido havia virado a página e ela continuou a ler com ele: "...e naturalmente, se apanharem a,gora o sarampo, etc, será melhor para eles mais tarde. Alice vai bem, é claro, e eu igualmente. Temos jogado muito bridge nestes últimos tempos com uma gente que vocês não conhecem, os Carruthers. Um casal moço e muito simpático, 'mais ou menos da nossa idade. Bem, vou, fazer ponto aqui porque imagino que seja aborrecido para vocês ouvir falar de coisas tão distantes. Diga a Papai que o velho Dickson, do nosso escritório em Chicago, faleceu. Ele sempre perguntava por Papai. Divirtam-se bastante aí no lago e não tenham pressa de voltar. Abraços de todos nós, Jerry."
— Esquisito — comentou o Sr. Allison.
— Não parece ser de Jerry — disse a Sra. Allison numa vozinha apagada. — Ele nunca escreveu nada que se parecesse...
E calou-se.
— Com quê? — indagou o Sr. Allison. — Nunca escreveu nada que se parecesse com quê?
A Sra. Allison virou e revirou a carta, com a testa franzida. Era impossível encontrar uma frase, uma palavra mesmo, que não se assemelhasse às das cartas habituais de Jerry. Talvez fosse apenas pelo fato da carta ter chegado com tanto atraso, ou por trazer o envelope tantas marcas de dedos sujos.
— Não sei!... — disse ela com impaciência.
— Vou tentar telefonar de novo — volveu o Sr. Allison. A Sra. Allison leu a carta mais duas vezes, buscando uma frase que lhe soasse mal. Então o Sr. Allison voltou e disse, em tom comedido:
— O telefone está mudo.
— O quê? — exclamou sua esposa, largando a carta.
— O telefone está mudo — repetiu ele.
O resto do dia transcorreu rápido. Após um almoço de biscoitos com leite foram sentar-se na grama, lá fora, mas logo vieram pôr fim à tarde de sol as nuvens de tormenta que se acumulavam pouco a pouco, avançando sobre o lago em direção ao chalé, de modo que pelas quatro horas estava tão escuro como ao anoitecer. A tempestade, no entanto, demorava a vir, como se preparasse com amor, antegozando-o, o momento em que iria desabar sobre a casa de veraneio. De tempos a tempos luzia um relâmpago, mas a chuva não caía. Quando anoiteceu, o Sr. e a Sra. Allison, sentados junto um do outro no interior da casa, ligaram o rádio de bateria que tinham trazido de Nova Iorque. Não acenderam os lampiões. A única luz vinha dos relâmpagos e do pequeno dial quadrado do aparelho de rádio.
A leve estrutura do chalé de madeira não era suficientemente forte para conter os ruídos da cidade, a música e as vozes que partiam do rádio, e os Allisons ouviam-nas ecoar lá longe, na outra margem do lago, os saxofones da orquestra de dança de Nova Iorque a planger sobre a água, a voz abemolada da cantora escoando-se inexoravelmente no puro ar do campo. O próprio locutor, a louvar em termos magnificentes as virtudes de uma marca de lâminas de barbear, não passava de uma voz desumanizada que emanava do chalé dos Allisons e era devolvida pelo eco, como se o lago, as árvores e as colinas a rejeitassem como inútil.
Durante uma pausa entre anúncios, a Sra. Allison virou-se para o marido com um sorriso pálido.
— Será que nós devíamos... fazer alguma coisa?
— Não — respondeu o Sr. Allison depois de refletir. — Não me parece. Só esperar.
Ela tomou precipitadamente o fôlego e ele acrescentou, sob a melodia banal da orquestra de dança que começara de novo a tocar: — Andaram mexendo no carro, você sabe? Até eu pude perceber isso.
A Sra. Allison deixou passar um minuto e disse, baixinho:
— Suponho que tenham cortado os fios do telefone.
— Creio que sim — respondeu o Sr. Allison.
Depois de algum tempo a orquestra silenciou e o casal escutou atentamente um noticiário. A voz sonora do locutor esbofava-se, falando-lhes de umas núpcias em Hollywood, dos últimos resultados do basebol, da alta prevista nos preços dos gêneros alimentícios durante a próxima semana. Falava-lhes, ali no chalé de varão, como se ainda merecessem ouvir notícias de um mundo que já não chegava até eles senão através das precárias pilhas do rádio, já fracas — quase como se ainda estivessem ligadas, embora pelo mais tênue dos fios, ao resto do mundo.
A Sra. Allison olhou pela janela a superfície lisa do lago, as massas negras das árvores, a tempestade iminente, e disse num tom de palestra comum:
— Sinto-me mais tranqüila a respeito daquela carta de Jerry.
— Eu compreendi na noite passada, quando vi luz na casa de Hall — disse o Sr. Allison.
O vento, arremetendo de súbito por sobre o lago, envolveu o chalé e sacudiu com fúria as janelas. Instintivamente, o Sr. e a Sra. Allison aproximaram-se ainda mais um do outro e, ao primeiro ri-bombo do trovão, ele adiantou a mão e tomou a da esposa. E, enquanto o relâmpago clareava lá fora e a voz do rádio se ia apagando entre crepitações, os dois velhos, bem juntinhos um do outro cm seu chalé de veraneio, ficaram à espera.