Um pouco do seu sangue e outras histórias
Enquanto ele passava o tempo nessas caçadas,…
TRÊS
Enquanto ele passava o tempo nessas caçadas, ia à escola e tudo mais, a situação ia piorando em casa. A mãe ficou pior da artrite e não demorou muito parou quase de fazer a limpeza da casa e mal podia cozinhar. Isso deixava o pai furioso e foi ficando pior do que nunca. Às vezes passava a noite inteira fora de casa e ia trabalhar bêbedo de manhã. Era um bom trabalhador, forte, mas às vezes respingava quando o capataz lhe dizia alguma coisa, começava a discutir, e uma vez sentou-lhe um soco mas não com muita força. Por isso vivia sendo suspenso. Quando isso acontecia, recebia o seu salário e tomava um bruto porre até gastar todo o dinheiro. Não era tão ruim quando ficava por fora nessas ocasiões, mas quando vinha para casa era horrível. George e a mãe sempre procuravam não dizer nenhuma palavra que fosse capaz de fazer ele enraivecer, mas qualquer palavra bastava. Então batia na mãe, dava-lhe socos na cara, o sangue corria e ela gritava, mas nunca muito alto por causa da vergonha que sentia. Também batia em George, mas quando George ficou bastante grande para poder fugir, punha sebo nas canelas assim que começava a baderna e até antes, logo que o pai chegava em casa. Só voltava quando o pai estivesse dormindo. Depois que pegava no sono se acabavam as encrencas e quando acordava nunca parecia se lembrar de nada. George nunca corria para os vizinhos porque os vizinhos não queriam saber de nenhum deles, nem para os tiras porque o pai tinha raiva dos tiras e ele nunca achou que isso fosse errado, não tinha ninguém para lhe ensinar coisa diferente. Ia direito para a mata e se encostava numa árvore ou caçava se fizesse luar, ou mesmo ficava por perto de casa até tudo se acalmar, e então ia espiar na janela para ver se ele estava dormindo, e se estivesse entrava e ia para a cama.
E às vezes já estava na cama e mesmo dormindo quando o pai chegava, e era nessas noites que ele acordava ouvindo a mãe a chorar, primeiro "Não, não, agora não, o menino, o menino", e O pai rosnava que o mesmo estava dormindo. George fechava bem os olhos e ficava sem se mexer, como na mata quando esperava os coelhos, e a mãe chorando, "não, não", até que soltava um gritinho e dizia "As minhas mãos, ai as minhas mãos", porque era isso que ele fazia, apertava as mãos dela até que ela cedesse por não poder mais com a dor da artrite, porque dizia que ela não tinha nada de sério, estava só manheirando. Então a mãe parava de dizer "não, não" mas continuava chorando até que ele pegasse no sono. Essa coisa tinha de bom, sempre pegava no sono em seguida.
Quando George fez treze anos tinha o tamanho de um homem. Era tão grande como o pai e talvez mais forte, embora não parecesse saber disso. Seu pai era um homem de cabelo amarelo com uma porção de dentes estragados e umas pelancas debaixo dos olhos como se fossem umas pequenas redes de dormir vermelhas de sangue, e as calças lhe sentavam melhor quando deixava a barriga cair por cima da cinta, de modo que sempre usava elas desse jeito, bem caídas. Quando George era garotinho procurava usar as calças assim, mas nunca teve bastante barriga para isso. Quando ficou mais crescido deixou de procurar fazer as coisas como o pai fazia. E quando ele tinha treze anos aconteceu uma coisa que veio mudar tudo.
Havia bastante tempo que o pai vinha trabalhando firme. Em casa não faltava de comer e George ajudava o mais que podia na limpeza e no resto. Porque o pai vinha para casa e quando estava são e encontrava a casa bem limpinha e o jantar cozinhando nas panelas, pode ser que ele não fosse o tipo do marido bom e amoroso dos filmes, mas pelo menos chegava, se lavava, comia, sentava na porta cortando algum pau e ia para a cama sem berrar nem bater em ninguém. E de vez em quando olhava alguma coisa que George fazia, como criar uma parede ou consertar os balaústres rebentados do pórtico ou um degrau ou qualquer coisa, olhava para o trabalho, olhava para George e dizia "Orra muito pem!" com aquele sotaque estrangeiro, e George nessas ocasiões seria capaz de fazer tudo por ele. E ainda se lembrava de uma vez que ele entrou, tomou o cheiro da cozinha e disse; "Puxa, que chérro pom!" e a mãe chegou a chorar, sentada na sua cadeira de rodas, linha ganho essa cadeira do padre que vinha nos visitar, acho que para ver se com o presente de uma cadeira de rodas conseguia levar ela ou George ou mesmo o pai à igreja de vez em quando. Mas nunca foram. O pai disse que não fossem e durante um mês rogava pragas toda vez que via a cadeira, mas assim mesmo deixou que a mãe ficasse com ela.
E como as coisas corriam bem, naturalmente George e a mãe se viravam em quatro para trazer tudo em condições de modo que aquilo durasse o máximo possível e o pai se sentisse contente em casa. E nessa noite o pai devia passar pelo armazém quando voltasse para casa porque a comida que tinham era bastante pouca, só umas costelas de porco e umas ramas de nabo. A mãe guardou essas coisas para outro dia e ela e George aprontaram tudo para quando o pai chegasse com a comida e ficaram falando no que iam fazer conforme o que ele trouxesse, para poderem aprontar bem depressa, como por exemplo, se ele trouxesse carne de paleta bateriam rapidamente com a beira de um prato para fazer bifes de panela com cebolas se ele trouxesse cebolas, e se trouxesse couve não iriam ferver mas dar só uma ligeira passada na banha quente. George sempre se sentiu muito chegado à mãe, mas com u-ria impressão esquisita de desapontamento ou coisa parecida. Como quando ela começava a se queixar da sorte, a chorar e a lhe dizer como tinha apanhado a artrite depois que ele nasceu e batia com a mão no peito magro e dizia quanto tinha se esforçado para lhe dar de comer com o seu próprio corpo mas não podia, porque ele era muito grande e ela estava muito doente, e o desejo que tinha de poder fazer isso. Era como se tivesse sempre alimentado George com o seu próprio corpo e o que dava a ele lhe custava muito, deixava ela fraca e doente, mas ainda assim continuava a dar. Para ele. E ao mesmo tempo era como se Ele precisasse alguma coisa dela, e assim aceitava o que ela lhe dará, mas nunca era bastante e nunca era bem a coisa que queria. Isto é muito difícil de explicar. Mas em todo caso sempre sentia a mãe dando de si mesma sem parar, e sempre precisava alguma coisa dela e andava em roda dela para conseguir essa coisa, só que o que ela lhe dava a todo instante não era aquilo que ele queria. Às vezes esse sentimento se tornava tão forte nele que tinha de voltar a caçar. E depois de caçar em geral se sentia melhor.
Mas nessa noite em que estavam esperando que o pai voltasse e planejando todas as coisas diferentes que poderiam fazer para preparar depressa um jantar de que ele gostasse, foi ficando cada vez mais tarde e eles conversaram ainda um pouco para passar o tempo, depois se calaram e ficaram esperando, ela na cadeira de rodas olhando as suas mãos que tinham ficado escuras e todas torcidas como galhos de cipreste. E George estava sentado no degrau da porta olhando o caminho das vacas que descia até a estrada por onde o pai teria de vir. E quando escureceu a mãe disse com o ar mais alegre que pôde:
— Já sei! Você corta umas lascas de carne daquelas costelas e nós vamos fritar como "bacon" para fazer sanduíches de "bacon", e podemos cozinhar um pedaço da costela com as ramas de nabo. Acho que temos também um pouco de feijão por aí. Um jantar completo, e podemos esperar com ele pronto.
Então George se levantou da porta, pois de qualquer modo estava ficando escuro demais para poder enxergar, e acendeu o candeeiro do querosene, atiçou as brasas no fogão e caminhou para a mesa com a faca e a costela de porco para cortar as lascas de carne. Era por isso que estava com a faca na mão. Não foi buscar a faca nem teria pensado em fazer isso, mas aconteceu de estar com ela na mão por casualidade.
Chega o pai chumbado como nunca, olha em roda e diz "Tiabo leve aquele polóco". Não era preciso mais nada para saber que ele tinha brigado com o capataz, tinha sido suspenso, recebido o seu dinheiro e se embebedado. E a mãe não pôde se agüentar, soltou um choro comprido, atirou para cima as pobres mãos tortas e se pôs a exclamar "oh, oh"; ele então correu para onde ela estava e aplicou-lhe um soco no nariz com tanta força que se ouviu o osso quebrar e o sangue espirrou antes que ele tivesse retirado a mão. Então George, do outro lado do quarto (depois, nunca conseguiu se lembrar de como tinha feito isso) George atirou a faca.
Bem, aquele quarto ficou silencioso e o silêncio durou tanto que ninguém acreditaria. Depois o pai tirou a camiseta que era tudo que ele tinha no corpo além das calças, porque fazia muito calor naquele dia, e olhou o talho e o sangue que corria dali. E a mãe tinha as mãos no rosto escorrendo sangue, arregalando os olhos entre os dedos para o pai. E o pai afastou George com uni empurrão, pegou o pano de pratos, enxaguou o peito com água fria, secou com pano de pratos, tirou a outra camiseta do cabide por cima da cama, pegou um pano limpo, botou em cima do talho, enfiou a outra camiseta e saiu. Ninguém tinha dito uma palavra depois que ele disse "Tiabo leve polóco".
Bem, depois disso nada continuou como dantes. O pai ainda tinha dinheiro quando saiu, gastou todo esse dinheiro na mesma noite. No outro dia quando pegou George sozinho falou com ele e disse que tinha se emborrachado primeiro porque estava furioso por ter sido suspenso e depois do que aconteceu se emborrachou porque se sentia muito arrependido. Parecia fazer questão de que George entendesse isto, mas George não entendeu e tudo que fez foi sacudir os ombros. E não disse que estava arrependido de ter atirado a faca ou qualquer outra coisa, aliás o pai não tocou nesse assunto e nunca falou na faca ou outra coisa qualquer.
Mas nunca mais tornou a pôr as mãos na mãe. Vivia quase sempre sentado no degrau da porta, olhando o caminho das vacas. Dentro de um ou dois dias toda a costela de porco e as ramas de nabo tinham se acabado, e também o feijão e um canto de pão, mas o pai continuava sentado na porta e a mãe na cadeira de rodas com uma compressa úmida no nariz. Como ninguém se animava a falar ao pai para lhe pedir que arranjasse comida ou que fosse trabalhar, no terceiro dia George voltou da escola trazendo um enorme saco de comidas. Entrou passando pelo pai e largou o saco no chão. Na parte do saco que George tinha carregado do lado do peito estava escrito em letras grandes com creiom: "Morosch", que era o nome de um empregado nos escritórios na mina. George tirou logo tudo para fora e meteu o saco no fogão para queimar. Depois escondeu tudo, uma galinha limpa, duas libras de "hamburger", um pão dormido para recheio, um pão fresco, dois litros de leite, cenouras frescas, uma libra de manteiga, um boião de geléia de morangos, uma libra de café e umas bananas.
A mãe com certeza estava muito doente para reparar naquilo, com os olhos azuis inchados e fechados e o nariz três vezes maior do que o tamanho natural. O pai veio para dentro e olhou as coisas que George estava escondendo.
— Ónte focê arranjo isso? — perguntou.
Pela primeira vez na vida George se virou e olhou para ele bem nos olhos.
— Afanei na camioneta de entrega do Acme.
E era verdade. Naquele momento pouco lhe importava que o pai berrasse ou lhe sentasse um soco ou não dissesse nada ou fosse para a lua. O pai ficou muito tempo sem falar, depois fez um sorrisinho esquisito e disse:
— Quem sabe, focê ainda pode ser alguma coisa na fida, rapaz.
E sabem de uma coisa? George nunca se sentiu mais contente em toda a sua vida do que quando ouviu isto. E é uma coisa absurda, porque se odiava alguém era o pai. Se havia um homem para cuja opinião ele não estava ligando o mínimo, era o pai. Mas quando o pai sorriu e disse aquilo ele sentiu um calor por dentro e sua cara ficou vermelha no espelho em cima da pia e nem que lhe encostasse uma faca no pescoço teria podido deixar de sorrir também.
Bem, passados uns dias o pai voltou para o trabalho como apagador no montão de escórias onde nunca puderam conservar um operário durante muito tempo, quem é que quer se matar trabalhando num inferno? Mas o pai estava sempre disposto a voltar para lá. E a vida continuou sossegada, os porres tinham acabado, pouco se conversava, vieram as férias da escola e a mãe vivia na sua cadeira de rodas, cada vez mais calada. Parecia que tinha desistido, não queria mais lutar, nem contra ele, nem contra a vergonha, nem contra a sujeira em casa e tudo mais. Ficou magrinha e leve como um gambá morto, com a maior facilidade George carregava ela para a casinha e deixava lá em pé. Devagarzinho ela fechava a porta e depois de muito tempo chamava, ele vinha, encontrava ela em pé e carregava de novo para a cadeira de rodas. George tratava de limpar um pouco a casa quando se lembrava disso. Agora andava quase sempre com vontade de caçar, mas fazia finca-pé e não ia, passava o dia inteiro por ali rodeando a mãe. Depois que passaram os olhos pretos e o inchu-mc do nariz, que só ficou torto, chamaram a enfermeira do distrito e ela veio, olhou para as mãos, se exclamou e disse que a mãe devia ter ido há muito para o hospital em Mountaindale, mas a mãe disse "não!" muito decidida, a primeira vez que fazia isso há muito tempo. A enfermeira pegou o braço, arregaçou a manga e olhou. Parecia duas varas de salgueiro descascadas e coladas uma na outra. Procurou dobrar o braço devagarinho e depois endireitar, mas ele só se mexia um pouco tanto para um lado como para o outro e a mãe segurava a respiração e mordia a língua para não gritar. Então a enfermeira tornou a sacudir os ombros e deixou uns comprimidos para ela tomar quando sentisse dor. A mãe morreu uns quatro meses depois de ter levado aquele soco no nariz. O pai foi trabalhar nesse dia mas George ficou por ali e quando o carro veio buscar o corpo quis ir junto, mas não deixaram, então foi correndo atrás dele até o necrotério e ficou por lá até ser enxotado. De noite esperou que todos fossem embora, deu volta pelos fundos, arrombou uma porta e entrou para dizer adeus à mãe lá à sua moda. Jurou que ficariam juntos de um jeito ou de outro, não importava como fosse. De manhã estava do lado de fora esperando e ficou por ali até que terminaram o que tinham de fazer com ela e levaram para o cemitério. O pai veio também. Ficaram juntos olhando enquanto enchiam a sepultura e alguém disse que eles pareciam não entender aquilo e não entendiam mesmo. Ninguém chorou. Depois o pai voltou para a mina e George devia ir para a escola, mas em vez disso foi caçar. Não pegou nada, e essa, foi a parte pior.
A vida continuou, George passava muito tempo caçando e o pai trabalhando. O engraçado é que o pai começou a dar um jeito na vida, pelo menos quanto à bebida. Trabalhava firme e conseguiu um emprego na boca da mina controlando as ferramentas, e se continuasse assim acabaria lá em baixo ganhando dinheiro grosso para variar. Mas não queria isso, ou pelo menos não se esforçou. O mais espantoso é que pela primeira vez de que a gente podia se lembrar começou a fazer coisas em casa. Não era muito, mas todo o tempo que sua mulher viveu ele nunca tinha pegado uma vassoura a não ser para dar em alguém, nem nunca tinha molhado as mãos senão para se lavar. Agora que ninguém se importava com isso ele começou a varrer o cisco e as latas de cerveja para o pátio mais ou menos todos os dias, até raspava e enxaguava os pratos. Uma vez ele disse a George que seria muito bom terem uma horta para plantar milho, rabanetes etc, mas não tinha enxada, e assim George afanou uma enxada para ele na exposição de calçada em frente da loja de ferragens Mountain Hardware, e o pai pegou a enxada, rogando uma porção de pragas, mas abanando a cabeça e arreganhando os dentes. Devia saber que George tinha afanado ela, pois onde é que George ia arranjar o dinheiro? Mas nunca perguntou. Ficou todo contente e chegou a preparar um canteiro e George foi ao mercado Acme, fingiu que estava estudando as sementes e afanou oito pacotes, milho, melão, girassol e pimenta, e o pai plantou tudo.
Uma noite George vinha voltando da pedreira velha no outro lado da cidade, onde tinha umas bigues rãs, e bem no meio da vila alguém saiu de um beco e pegou ele pelo braço. George ia aplicar um murro no sujeito quando viu que era o pai. O pai foi caminhando com ele e começou a falar umas coisas, que não precisavam mais viver como porcos, que se não tivesse de gastar todo o seu dinheiro na comida poderia comprar por exemplo um tapete para botar no assoalho, uns pratos novos e uma tina para lavar esses pratos, e talvez outra lâmpada, umas latas de tinta etc. Quando chegaram na esquina o pai fez George dar volta e vieram pelo mesmo caminho, o pai sempre resmungando aquelas coisas, e quando alcançaram o beco ele olhou para cima, para baixo, para todos os lados e de repente puxou George para o beco. Foram até o meio mais ou menos. Estava escuro como carvão e o pai pegou o pulso de George e fez ele tocar com a mão numa dessas portas inclinadas de porão que existem nalgumas casas. O pai puxou a porta para cima, ela se abriu um pouco e George viu que não estava chaveada. O pai tornou a baixar a porta com todo o cuidado para não fazer barulho e foi embora no escuro deixando George ali. George esperou um pouco, depois experimentou também a porta, ela se abriu e ele desceu uns degraus. Lá em baixo não pôde enxergar nada mas sentiu o cheiro da farinha, das ameixas secas e de tudo mais que tinha ali, pois era o porão do mercado Acme.
No dia seguinte pegou uma caixa de fósforos e de noite voltou lá e encheu os bolsos com duas latas de leite, um abridor de lata, umas velas de sebo, mas o melhor de tudo foi uma lanterna elétrica de brinquedo com as pilhas, uma coisinha de nada mas era justamente o que ele precisava naquele porão. Então começou a ir lá quase todas as noites e trouxe uma porção de coisas para casa, mas foi esperto, só tirava coisas das caixas abertas e nunca deixava sinais como papéis rasgados dos pacotes ou fósforos queimados e nunca se esquecia de ficar algum tempo sentado debaixo da porta que dava para o beco, sem fazer barulho nenhum e escutando como fazia na mata. 0 pai nunca disse nada enquanto ele ia enchendo a casa de coisas, comidas enlatadas, mistura para panqueca, arroz, lentilhas e não sei o que mais em todos os armários e debaixo da pia. O pai e ele quase não falavam sobre isso, mas agora se acertavam como nunca tinham se acertado, e a verdade é que o pai guardou algum dinheiro e comprou um tapete pequeno para o assoalho e uns pratos no bazar popular.
Então ele descobriu que o mercado de carnes também tinha uma porta de porão no lado, só que essa estava fechada. Andou una dois dias pela cidade até chegar o caminhão de entrega e ajudou o chofer a descarregar caixas de "bacon", quatro quartos de boi e quatro metades de porco, e na terceira viagem descendo e subindo as escadas descobriu que podia deixar aberto o trinco de mola metendo um pedaço de papelão na fresta da fechadura, e foi o que fez. Naquela noite desceu para o porão, subiu para o mercado, espiou com todo o cuidado a rua e foi abrir a sala do frigorífico. Quando abriu a porta, uma luz forte se acendeu lá dentro e ele levou um susto tão grande que se esgueirou para dentro e bateu a porta para esconder a luz. Assim que a porta se fechou a luz apagou. Ele se virou para a porta e procurou um trinco para abrir, mas não encontrou nenhum. Se fosse num sábado, na certa estaria morto na segunda-feira de manhã. Como não era, estava vivo mas duro como um picolé quando abriram a porta na manhã seguinte, e o mais gozado é que a porta se abria com um pedal que tinha do lado para o açougueiro poder sair com as mãos ocupadas, mas como é que a gente ia ver isso na mais completa escuridão, porque ele tinha esquecido de levar a lanterna.
Botaram ele no xadrez, fizeram descongelar e poucos dias depois o Juiz Manorora deu-lhe dois anos por arrombamento e tentativa de furto. O pai estava lá com a mesma cara do dia do enterro como se não entendesse o que estava acontecendo e o Juiz cochichava apontando a mão e sacudindo a cabeça com o padre que tinha dado a cadeira de rodas e a enfermeira do distrito, que também apareceu. O pai ouvia tudo sentado na sua cadeira e provavelmente não entendia uma palavra em dez. George não dizia nada tampouco, porque depois que tinha sido descongelado não estava ligando para coisa nenhuma. Os dois anos afinal de contas não eram um castigo tão duro porque ia tirar numa espécie de orfanato em vez de na cadeia. Ninguém nunca descobriu o que ele tinha feito no mercado Acme.