Um pouco do seu sangue e outras histórias

Alfred Hitchcock · Capítulo 14 de 20

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Um pouco do seu sangue e outras histórias

Um Pulo em Casa

F. SCOTT FITZGERALD

Eu ESTAVA perto dela, pois me deixara ficar para trás a fim de fazermos juntos o breve trajeto do living room à porta da rua. Isso era muito; Ellen havia desabrochado de repente, e eu, sendo homem e apenas um ano mais velho, não desabrochara de modo algum, mal ousara me aproximar dela durante os dez dias que tínhamos passado em casa. Tampouco ia dizer qualquer coisa naquela caminhada de três metros, ou tocá-la; mas tinha a vaga esperança de que ela fizesse algo, um pequeno gesto alegre ou o que quer que fosse, pessoal unicamente pelo fato de estarmos sós.

De um momento para outro, encontrava um encanto especial nas palmas rosadas das suas mãos, no reluzir dos cabelinhos da nuca, na segura e clara confiança que por volta dos dezoito anos começa a amadurecer e a cantar nas moças americanas bonitas. Estava quase completa, mas coberta de orvalho.

No entanto já então ia deslizando para um outro mundo — o mundo de Joe Jelke e Jim Cathcart, que nesse momento nos aguardavam no carro. Dentro de mais um ano estaria fora do meu alcance para sempre.

Enquanto eu esperava, sentindo os outros lá fora na noite nevada, sentindo a excitação da semana natalina e a excitação da presença de Ellen, uma criada veio da sala de jantar, falou baixinho a Ellen e lhe entregou um bilhete. Ellen leu-o e seus olhos clarearam como as lâmpadas de uma casa de campo quando há um salto de voltagem, e esse clarão se projetou no espaço. Lançou-me, então, um olhar esquisito — que, provavelmente, não me incluía — e, sem dizer palavra, acompanhou a criada à sala de jantar e mais além. Sentei-me e fiquei folhando uma revista durante um quarto de hora.

Joe Jelke entrou, a cara vermelha de frio, a manta de seda branca brilhando na gola do casaco de pele. Era um veterano em New Haven e eu, um segundanista. Era um estudante de projeção, membro do "Scroll and Keys" e, a meus olhos muito elegante e distinto.

— Ellen não vem?

— Não sei — respondi discretamente. — Já estava pronta.

— Ellen! — chamou ele. — Ellen!

Deixara aberta a porta da rua e uma imensa nuvem de ar gelado veio lá de fora. Subiu até o meio da escada — tinha familiaridade na casa — e tornou a chamar, até que Mrs. Baker chegou ao corrimão e disse que Ellen estava em baixo. Aí a criada, um tanto nervosa, apareceu na porta da sala de jantar.

— Mr. Jelke — chamou ela em voz baixa.

O rosto de Joe murchou ao voltar-se para ela, pressentindo más notícias.

— Miss Ellen mandou dizer que o senhor vá para a festa. Ela irá mais tarde.

— Que aconteceu?

— Ela não pode ir agora. Irá depois.

Joe hesitou, sem saber o que fazer. Era o último grande baile das férias e estava doido por Ellen. Tentara lhe dar uma aliança no Natal e, na impossibilidade disso, conseguira fazê-la aceitar uma bolsinha de malha de ouro que devia ter-lhe custado uns duzentos dólares. Não era o único — havia uns três ou quatro nas mesmas condições de descontrole, e isso tudo nos dez dias que ela passara em casa; mas ele estava em primeiro lugar, pois era rico, simpático e "de grande futuro" — no momento, o rapaz mais cobiçado de St. Paul. A mim me parecia impossível que ela pudesse preferir outro, mas comentava-se que descrevera Joe como "perfeito demais". Suponho que lhe faltasse o ingrediente de mistério, e quando um homem enfrenta esse obstáculo com uma jovem que não pensa em casamento...

— Ela está na cozinha — disse Joe, com raiva.

— Não está, não. — A criada tinha um ar de desafio e parecia um pouco assustada.

— Está, sim.

— Ela saiu pelos fundos, Mr. Jelke.

— Vou verificar.

Segui-o. As criadas suecas que lavavam a louça enviesaram os olhos para nós ao ver-nos chegar e um interessado entrechocar de panelas marcou a nossa passagem pela cozinha. A porta externa, desaferrolhada, batia com o vento, e ao sairmos para o pátio coberto de neve avistamos a lanterna traseira de um carro que dobrava a esquina da viela dos fundos.

— Vou atrás dela — disse Joe, falando devagar. — Não estou entendendo nada.

Eu ficara tão abalado pela calamidade que não tive forças para discutir. Corremos para o auto dele e nos atiramos num fútil e desesperado ziguezague por toda a zona residencial, a espiar cada carro que encontrávamos nas ruas. Só meia hora depois ele começou a compreender a inutilidade daquilo — St. Paul é uma cidade de quase trezentos mil habitantes — e Jim Cathcart lembrou-lhe que tínhamos de ir buscar outra moça. Como um animal ferido, ele encolheu-se melancòlicamente a um canto, formando uma bola peluda, e dessa posição endireitava-se de instante a instante num movimento brusco, balançando um pouco o corpo para diante e para trás era sinal de protesto ou desespero.

A pequena de Jim estava pronta e impaciente, mas depois do que acontecera a sua impaciência não parecia ter importância. Apesar de tudo, estava linda. É uma dessas coisas que acontecem nas férias de Natal — excitação do crescimento, da mudança e da aventura em terras estranhas transformando as pessoas que a gente conheceu toda a vida. Joe Jelke foi delicado com ela a despeito da sua perturbação — soltou uma breve e áspera risada à guisa de conversa — e tocamos para o hotel.

O chofer chegou pelo lado errado — o lado em que a fila de automóveis não desembarcava convidados — e por isso esbarramos de repente com Ellen Baker, que descia naquele momento de um pequeno coupé. Antes mesmo de pararmos, Joe Jelke saltara alvoroçado do carro.

Ellen virou-se para nós com um ligeiro sobressalto — talvez de surpresa, mas certamente não de susto; na verdade, não parecia dar-se bem conta da nossa presença. Joe aproximou-se dela com um ar de censura austera, digna, ofendida e, segundo me pareceu, perfeitamente correta. Segui-o.

Sentado no coupé — não desembarcara para ajudar Ellen a descer — estava um homem de cara magra e dura, cerca de trinta e cinco anos, um ar como que traumatizado e um sorriso algo sinistro. Seus olhos eram uma espécie de desafio a toda a raça humana — os olhos de um animal sonolento e imobilizado na presença de uma outra espécie. Eram inermes e no entanto brutais, desesperançados mas confiantes. Dir-se-ia que esses olhos se sentiam impotentes para gerar atividade, mas infinitamente capazes de se aproveitar do menor gesto de fraqueza nos outros.

Vagamente o identifiquei como um daqueles "desocupados" a quem eu conhecia desde a adolescência — sujeitos com o cotovelo apoiado em balcões de tabacarias, a observar, sabe Deus por que frincha do pensamento, as pessoas apressadas que entram e saem. íntimos nas garagens, onde faziam vagos negócios em voz baixa, em barbearias e nas salas de espera de cinemas — em tais lugares, pelo menos, eu localizava o tipo, se é possível dar-lhe o nome de tipo, que ele me lembrava. Por vezes o seu rosto saltava numa das caricaturas mais selvagens de Tad, e desde a mais tenra infância eu lançara olhares nervosos para a imprecisa fronteira em que ele se mantinha, e o vira observar-me com desprezo. Certa vez, num sonho, ele dera alguns passos para mim, jogando a cabeça para trás e murmurando: "Escute, garoto" num tom que pretendia ser tranqüilizador, e eu fugira, aterrorizado. Era esse tipo de homem.

Joe e Ellen encaravam-se silenciosamente: esta última parecia aturdida, como já disse. Fazia frio, porém ela não notou que o vento lhe abrira o casaco; Joe estendeu os braços, fechou-o, e ela prendeu-o maquinalmente com a mão.

De repente o homem do coupé, que estivera a observá-los em silêncio, riu. Era escassamente um riso — antes um bufido, uma simples sacudidela ruidosa da cabeça — mas era um insulto, quanto a isso não havia engano possível: um positivo insulto, que não se podia tolerar. Não me surpreendi quando Joe, que tinha o sangue quente, se voltou irado para ele e disse:

— Que há consigo?

O homem esperou um instante, os olhos a furtar-se de um lado para outro e todavia atentos, sem perder nada. Depois tornou a rir da mesma maneira. Ellen mexeu-se, inquieta.

— Quem é este... este... — A voz de Joe tremia de raiva.

— Tome cuidado — disse o homem vagarosamente. Joe virou-se para mim.

— Eddie, leve Ellen e Catherine para dentro, sim? — disse em voz rápida. — Ellen, acompanhe Eddie.

— Tome cuidado — repetiu o homem.

Ellen fez um pequeno muxoxo, mas não resistiu quando a tomei pelo braço e a conduzi para a porta lateral do hotel. Pareceu-me esquisito que ela se mostrasse tão passiva, a ponto de aquiescer pelo silêncio nessa rixa iminente.

— Deixe isso, Joe! — gritei por cima do ombro. — Venha conosco!

Ellen fez força no meu braço, obrigando-me a estugar o passo. Ao sermos apanhados pela porta giratória tive a impressão de que o homem estava descendo do coupé.

Dez minutos depois, enquanto eu esperava pelas moças em frente do toucador das senhoras, Joe Jelke e Jim Cathcart saíram do elevador. Joe estava muito pálido, os olhos fixos e vidrados, e um fio de sangue lhe corria da testa para a manta branca. Joe trazia na mão os chapéus de ambos.

— Ele bateu em Joe com uma soqueira — disse Jim em voz baixa. — Joe perdeu os sentidos durante cerca de um minuto. Veja se manda um pajem buscar um pouco de hamamélide e tafetá-inglês.

Já era tarde e o saguão estava deserto; fragmentos metálicos de música chegavam até os nossos ouvidos, vindos de baixo, como pesadas cortinas que fossem agitadas pelo vento e voltassem depois ao seu lugar. Quando Ellen surgiu à porta, conduzi-a diretamente para o andar inferior. Evitando a fila de recepção, entramos numa sala semi-obscura, com desgrenhadas palmeiras de hotel, onde os pares vinham sentar-se às vezes durante o baile; ali lhe contei o que havia sucedido.

— Foi culpa de Joe — disse ela, surpreendentemente. — Eu avisei para não se meter.

Isto não era verdade. Ellen não tinha dito nada, limitara-se a fazer um esquisito muxoxo de impaciência.

— Você fugiu pela porta dos fundos e desapareceu durante quase uma hora — protestei eu. — Depois surge com um tipo mal-encarado, que ri nas barbas de Joe.

— Um tipo mal-encarado — repetiu ela, como procurando tomar o gosto das palavras.

— E não era? Onde foi que conheceu esse sujeito, Ellen?

— No trem — respondeu, e imediatamente pareceu arrepender-se dessa confissão. — É melhor não se envolver em coisas que não são da sua conta, Eddie. Já viu o que aconteceu a Joe.

Por um instante, faltou-me literalmente o fôlego. Tê-la ali, ao meu lado, luminosa na sua imaculada alvura, seu corpo a irradiar frescor e pureza — e ouvi-la falar assim!

— Mas esse homem é um criminoso! — exclamei. — Nenhuma moça pode estar em segurança com ele. Usou uma soqueira para bater em Joe... Uma soqueira!

— Isso é muito grave?

Fez-rne esta pergunta como poderia tê-la feito alguns anos atrás. Olhou finalmente para mim, pedindo uma resposta; foi, por um instante, como se ela estivesse tentando recapturar uma atitude que havia quase desaparecido: depois tornou a fazer-se rígida. Digo "rígida" porque começava a notar que quando se falava naquele homem ela baixava um pouco as pálpebras, excluindo as outras coisas — todas as outras coisas — do seu campo de visão.

Foi um momento em que eu poderia ter falado, suponho, mas a despeito de tudo não conseguia estabelecer contato com ela. Estava todo absorvido pela fascinação da sua beleza e do seu sucesso. Pus-me até a procurar desculpas para ela: talvez o homem não fosse o que parecia ser; ou talvez — mais romanticamente — Ellen se tivesse envolvido com ele contra a sua vontade, a fim de proteger uma terceira pessoa. Nesse ponto vi entrar algumas pessoas na sala, pessoas que se dirigiam a nós para nos falar. A conversa se tornou impossível: entramos, pois, no salão de baile e nos curvamos diante das damas de companhia. Abandonei-a então ao mar cintilante e agitado da dança, onde ela passou a mover-se num turbilhão particular, entre as amenas ilhas de rosetas coloridas espalhadas sobre as mesas e as lufadas tropicais dos instrumentos de metal que gemiam através do salão. Volvido algum tempo enxerguei Joe Jelke sentado a um canto, com um retalho de tafetá-inglês na testa, acompanhando Ellen com os olhos como se tivesse sido ela quem o pusera por terra. Não fui falar com ele, porém. Eu mesmo tinha uma sensação esquisita — a mesma que tenho quando acordo após dormir uma tarde inteira, estranha e portentosa, como se durante esse intervalo se tivesse passado algo sem que eu o percebesse, algo que viera alterar os valores de todas as coisas.

A noite foi escorrendo através de sucessivas fases — chapéus de papel e cometas de cartolina, quadros-vivos amadorísticos, "flashes" para os jornais matutinos. Houve uma marcha solene, seguida pela ceia, e por volta das duas horas alguns membros da comissão, vestidos como agentes do imposto de renda, vieram arrancar dinheiro aos bailantes, e foi distribuído um jornalzinho faceto onde eram caricaturados os episódios da noite. A todas essas, eu seguia com o rabo do olho a vistosa orquídea no ombro de Ellen, movendo-se de cá para lá no salão como o penacho de Stuart. Observei essa orquídea com um positivo mau pressentimento até que os derradeiros grupos sonolentos encheram os elevadores e, mergulhados até os olhos em imensos e disformes casacões de pele, desapareceram na clara e seca noite de Minnesota.

 

II

Há em nossa cidade uma seção mediana, em plano inclinado, que fica entre o bairro residencial sobre uma colina e o distrito comercial ao nível do rio. É uma zona indistinta, cuja escalada é interrompida por triângulos e esquisitas formas — existem nomes como Sete Esquinas — e não acredito que uma dúzia de pessoas fossem capazes de traçar um mapa exato daquela região, se bem que todo mundo a atravessasse duas vezes por dia de bonde, automóvel ou sola de sapato. E, embora fosse uma zona de grande atividade, eu não poderia indicar a espécie de negócio a que se dedicava. Havia sempre longas filas de bondes à espera para partir numa direção ou noutra; havia um grande cinema e muitos pequenos, com cartazes de Hoot Gibson, de Cães Prodígios ou Cavalos Prodígios na fachada; havia lojinhas com "Old King Brandy" e os "Liberty Boys" de 76 nas vidraças, e bolitas, cigarros e caramelos no interior; e — um lugar bem definido, esse! — um costumier a quem todos nós visitávamos pelo menos uma vez no ano. Na minha meninice eu me dera conta, por vezes, de que uma certa rua obscura naquelas paragens era profundamente suspeita, e, semeados por todo o distrito, havia bricabraques, joalherias ordinárias, pequenos clubes esportivos- e salas de ginástica, e bares cujo estado de decadência era por demais visível.

Na manhã seguinte ao baile do Cotillon Club acordei tarde e cheio de preguiça, pensando com satisfação que, por um ou dois dias ainda, estava livre da capela e das aulas, nada tinha que fazer senão esperar por outra festa naquela noite. Era um dia frio e luminoso — um desses dias em que a gente esquece o frio que faz, até sentir as faces geladas — e os acontecimentos da noite anterior pareciam vagos e distantes. Depois de almoçar desci a pé para o centro, sob uma leve e alegre nevada que provavelmente continuaria a cair toda a tarde. Ia mais ou menos a meio caminho por aquela seção da cidade — que eu saiba, ela não tem nome — quando, de repente, os pensamentos ociosos que me bailavam na cabeça me foram arrancados pelo vento como um chapéu, e pus-me a refletir seriamente sobre Ellen Baker. Estava preocupado com ela como nunca me preocupara com coisa alguma, exceto a minha própria pessoa. Diminuí a marcha, indeciso, com um instinto que me aconselhava a subir novamente a ladeira, ir procurá-la e falar com ela; mas lembrei-me de que Ellen devia ter ido a um chá e segui meu caminho, sempre a pensar nela e mais preocupado do que nunca. Foi nesse momento preciso que a história recomeçou.

Nevava, como já disse, e eram quatro horas de uma tarde de dezembro, quando já anda no ar uma promessa de escuridão e as lâmpadas da rua vão se acendendo. Passei por uma combinação de "snooker" e restaurante, com uma estufa repleta de cachorros-quentes na vitrina e alguns ociosos parados à porta. As luzes estavam acesas no interior — não luzes brilhantes, mas apenas algumas lâmpadas amarelas e pálidas, lá no teto — e o clarão que projetavam no crepúsculo gelado não era tão forte que excluísse a tentação de olhar lá para dentro. Enquanto passava, sempre a refletir profundamente sobre Ellen, tomei nota do quarteto de desocupados com o canto do olho. Meia dúzia de passos mais além, ouvi um deles dirigir-se a mim, não pelo nome, mas de um modo que evidentemente se destinava aos meus ouvidos. Julguei que fosse um tributo ao meu casaco de "raccoon" e não liguei, mas ao cabo de um momento o homem, fosse lá quem fosse, tornou a me chamar num tom peremptório. Aborrecido, voltei-me para trás. No meio do grupo, a menos de três metros de distância, olhando-me com o mesmo risinho de mofa com que olhara para Joe, estava o sujeito de cara magra e dura da noite anterior.

Vestia um sobretudo preto de feitio fantasia, abotoado até o pescoço como se sentisse muito frio. Tinha as mãos afundadas nos bolsos, usava chapéu de coco e botinas de abotoar. Senti um choque e por um instante hesitei, mas acima de tudo estava enraivecido; e, sabendo-me mais ligeiro com as mãos do que Joe, dei um passo na sua direção. Os outros homens não estavam olhando para mim — não creio sequer que me tivessem visto — mas eu tinha certeza que esse me reconhecera; nada havia de fortuito no seu olhar, nenhum engano possível.

"Cá estou eu. Que é que você vai fazer agora?" pareciam dizer és seus olhos.

Dei mais um passo na sua direção; ele riu silenciosamente, mas com marcado desprezo, e recolheu-se ao meio do grupo. Segui-o. Estava decidido a falar com ele, embora não soubesse ao certo o que lhe dizer, mas quando alcancei a porta ele havia mudado de idéia e desistido, ou então queria atrair-me para dentro, pois escapulira-se. Os três homens observavam com curiosidade a minha resoluta aproximação. Eram homens do mesmo tipo — com aspecto de malandros, mas, à diferença dele, antes jeitosos do que truculentos; não notei nenhuma malquerença pessoal no seu olhar coletivo.

— Ele entrou aí? — perguntei.

Os três se entreolharam com aquele ar dissimulado. Trocaram uma piscadela e, depois de uma pausa perceptível, um deles retrucou:

— Quem foi que entrou?

— Não sei o nome dele.

Outro piscar de olho. Agastado e decidido, entrei na sala de "snooker". Havia alguns homens sentados a um balcão de lanche, num dos lados da sala, e alguns mais jogando bilhar, mas ele não estava ali.

Hesitei de novo. Se a sua intenção era atrair-me para algum lugar escuro do estabelecimento — havia várias portas entreabertas no fundo — eu precisava de ajuda. Dirigi-me para o homem da caixa.

— Onde foi se meter o sujeito que entrou aqui há pouco?

O homem se pôs imediatamente em guarda — ou seria mera imaginação minha?

— Que sujeito?

— Cara magra... chapéu de coco.

— Há quanto tempo?

— Oh... Um minuto, se tanto. Ele tornou a abanar a cabeça.

— Não conheço.

Esperei. Os três homens da porta haviam entrado, alinhando-se ao meu lado diante do balcão. Percebi que todos me olhavam com um ar esquisito. Sentindo-me desamparado e cada vez mais apreensivo, virei as costas e ganhei a porta da rua. Depois de dar alguns passos voltei-me e tomei nota cuidadosamente da casa, a fim de gravá-la na memória e poder localizá-la de novo se fosse preciso. Na primeira esquina deitei a correr impulsivamente, tomei um táxi em frente do hotel e subi novamente a colina.

Ellen não estava em casa. Mrs. Baker desceu e falou comigo. Parecia perfeitamente livre de cuidados, orgulhosa com a beleza de Ellen e ignorante de qualquer anormalidade ou qualquer fato insólito que tivesse ocorrido na noite anterior. Congratulava-se por ver chegar o fim das férias: estas representavam uma agitação constante e Ellen não era muito forte. Disse então alguma coisa que me causou imenso alívio. Estava contente com a minha vinda, pois naturalmente Ellen desejaria ver-me e o tempo era muito escasso. Sua filha ia regressar às oito e meia nessa noite.

— Esta noite! — exclamei. — Pensei que seria depois de amanhã.

— Vai visitar os Brokaws em Chicago — disse Mrs. Baker. — Eles querem a sua presença para uma festa qualquer. Isso foi decidido hoje. Ellen viajará esta noite com as pequenas Ingersoll.

Tão grande foi a minha alegria que mal pude conter o ímpeto de apertar-lhe a mão. Ellen estava fora de perigo. Afinal, tudo não passara de uma aventura momentânea, a mais insignificante das aventuras. Senti-me um idiota, mas percebi o quanto queria a Ellen e quão intolerável seria para mim ver acontecer-lhe algo de terrível.

— Ela não demora a chegar?

— Está para chegar a qualquer instante. Telefonou há pouco do Clube Universitário.

Eu disse que viria mais tarde. Morava quase ao lado e queria ficar só. Depois de sair lembrei-me de que não levava a chave comigo e fui pelo caminho da garagem dos Bakers para tomar um velho atalho que usávamos em crianças, através do pátio intermediário. Ainda nevava, mas os flocos agora eram maiores contra o fundo negro do céu, e enquanto procurava localizar o caminho sepultado sob a neve reparei que a porta dos fundos da casa dos Bakers estava entreaberta.

Mal sei explicar por que me virei e entrei naquela cozinha. Houve tempo em que eu conhecia as criadas dos Bakers pelo nome. Agora não era assim, mas elas me conheciam, e notei uma repentina suspensão à minha entrada — não só uma suspensão, da conversa, mas de alguma disposição de ânimo ou expectativa de que estavam possuídas. Puseram-se a trabalhar com excessiva pressa, fazendo movimentos e produzindo um clamor desnecessários — todas as três. A criada de sala me deitou um olhar assustado e de súbito adivinhei que ela estava esperando para transmitir outro recado. Fiz-lhe um sinal para que viesse ter comigo na copa.

— Eu sei de toda essa história. É um caso muito sério. Você quer que eu vá falar agora a Mrs. Baker ou prefere passar a chave nessa porta dos fundos?

— Não conte nada a Mrs. Baker, Mr. Stimson!

— Então não quero que incomodem Miss Ellen. Se ela for incomodada — e se for, eu hei de saber.

Formulei alguma ameaça absurda, prevenindo-a de que iria a todas as agências de empregos para fazer com que ela não fosse mais aceita em casa alguma da cidade, ou coisa semelhante. Estava completamente intimidada quando saí, não tardou muito que a porta dos fundos fosse fechada à chave e trancada às minhas costas.

Simultaneamente ouvi um carro grande parar diante da casa, ruído de correntes a triturar a neve fofa. Trazia Ellen para casa, e entrei para dizer-lhe adeus.

Faziam-lhe companhia Joe Jelke e dois outros rapazes. Nenhum dos três pôde tirar os olhos de cima dela, sequer para me dizer "alô". Ellen tinha uma dessas delicadas peles rosadas, freqüentes na nossa região, e belíssimas até que as veiazinhas começam a romper-se por volta dos quarenta anos; e o frio a incendiava com uma chama adorável, como o rubor formigante das crianças depois do banho frio, à noite. Ela e Joe tinham efetuado uma espécie de reconciliação, ou pelo menos ele estava por demais apaixonado para recordar-se da noite anterior; mas vi que, embora ela risse muito, na realidade não estava prestando muita atenção a qualquer dos três. Queria vê-los pelas costas, para receber de uma vez a mensagem da cozinha, mas eu sabia que não haveria nenhuma mensagem e que ela estava fora de perigo. Conversou-se sobre o Baile Caipira de New Haven e o Baile dos Universitários de Princeton, e por fim, em variadas disposições de ânimo, despedimo-nos os quatro homens e rapidamente nos separamos na rua. Caminhei para minha casa tomado de uma certa depressão e me estirei durante uma hora no banho quente, pensando que as férias tinham se acabado para mim e que ela se fora- sentindo, ainda mais intensamente do que na véspera, que ela desaparecera da minha vida.

Mas havia um pequeno detalhe de que não conseguia lembrar-me, alguma coisa que era preciso fazer, algo que eu deixara escapar entre os acontecimentos da tarde, prometendo a mim mesmo voltar depois para apanhá-lo e acabando por descobrir que me fugira por completo. Associava a coisa vagamente com Mrs. Baker, e agora me pareceu lembrar que aquilo tinha surgido durante a conversa com ela. No meu sentimento de alívio com relação a Ellen, esquecera-me de lhe fazer uma pergunta a respeito de uma coisa que ela dissera.

Ah! sim: os Brokaws — a família que Ellen ia visitar. Bill Brokaw era muito meu conhecido, pertencia à minha classe em Yale. Lembrei-me, então, e sentei de repente o corpo dentro da banheira. Os Brokaws não estavam em Chicago nesse Natal, tinham ido a Palm Beach!

Pulei para fora da banheira, pingando água, lancei uma insuficiente camiseta sobre os ombros e corri para o telefone do meu quarto. Consegui a ligação imediatamente, mas Miss Ellen já tinha partido para a estação.

Por sorte o nosso carro estava em casa, e ao mesmo tempo que eu me enfiava nas roupas, ainda molhado, o chofer o trouxe para a porta da frente. A noite estava fria e seca, e pudemos ir depressa sobre a neve endurecida. Eu tinha uma esquisita sensação de insegurança ao partir desse modo, mas ao avistar a estação, nova e brilhante de luzes no ar escuro e frio, recuperei um pouco de confiança. Durante cinqüenta anos o terreno em que ela fora construída pertencera à minha família e isso, de certo modo, parecia justificar a minha temeridade. Havia sempre a possibilidade de me estar aventurando num terreno que os anjos receariam pisar, mas esse sentimento de ter sólidas raízes no passado me encorajava a correr o risco de fazer papel de tolo. Era uma história errada, terrivelmente errada. Qualquer idéia acalentada por mim de que aquilo tudo fosse inofensivo, se evaporara agora; entre Ellen e alguma vaga mas esmagadora catástrofe, o único obstáculo que se levantava era eu, ou então a polícia e o escândalo. Não sou nenhum moralista — havia ali um outro elemento, tenebroso e aterrador, e eu não queria que Ellen passasse por aquilo sozinha.

De St. Paul a Chicago há três trens que se fazem concorrência, partindo todos por volta das oito e meia com poucos minutos de diferença. O dela era o Burlington. Ao atravessar correndo a estação vi fecharem o portão e apagar-se a luz de teto que o iluminava. Sabia, porém, que ela tomara um salão com as pequenas Ingersoll, porque sua mãe havia mencionado a compra do bilhete, de modo que Ellen estava, literalmente falando, de molho até o amanhecer.

O portão da "C. M. & St. P." continuava aberto na outra ponta da estação. Larguei numa corrida para lá e consegui alcançá-lo. Tinha esquecido uma coisa, porém, e isso bastou para me tirar o sono e me manter preocupado durante metade da noite. Meu trem chegava a Chicago dez minutos depois do outro. Ellen dispunha desse tempo para desaparecer numa das maiores cidades do mundo.

Dei ao cabineiro um telegrama para transmitir de Milwaukee à minha família, e às oito horas da manhã rompi caminho violentamente pelo meio de uma fila de passageiros que reclamavam aos gritos as suas malas empilhadas no vestíbulo, e saí como uma bala pela porta, meio saltando por cima das costas do porteiro. Por um momento, fiquei irresoluto diante da confusão da imensa gare, entre os volumosos sons, ecos, badaladas de sinos e nuvens de fumaça que partiam de todos os lados. Arremessei-me então para a saída e para a única chance que tinha de encontrá-la.

Meu palpite dera certo. Encontrei-a diante do balcão do telégrafo, mandando sabe Deus que grossa mentira para a mãe, e ao dar comigo seus olhos revelaram uma espécie de terror misturado com a surpresa. Havia neles, também, um toque de astúcia. Ela pensava depressa. Gostaria de sair andando como se eu não estivesse ali, mas não podia. Eu era um objeto demasiado familiar na sua vida. Ficamos a nos contemplar em silêncio, enquanto nossos cérebros trabalhavam.

— Os Brokaws estão na Flórida — disse eu ao cabo de um minuto.

— Muita gentileza sua fazer uma viagem tão longa para me dizer isso.

— Uma vez que você já sabe, não acha melhor continuar viagem e ir para a escola?

— Por favor, me deixe em paz, Eddie — disse ela.

— Irei até Nova York com você. Resolvi voltar mais cedo também.

— Acho bom você me deixar em paz.

Seus belos olhos se estreitaram e uma resistência muda, animal, transpareceu no seu rosto. Fez um visível esforço, a expressão de astúcia reapareceu, depois ambas se apagaram, substituídas por um sorriso alegre e tranqüilizador que por pouco não me convenceu.

— Eddie, seu tolinho, não acha que já tenho idade bastante para saber me dirigir? — Eu não respondi. — Vou me encontrar com um homem, entende? Tudo que quero é me avistar com ele hoje. Já tenho minha passagem para o Leste no trem das cinco. Se não acredita, veja aqui na minha bolsa.

— Acredito.

— O homem não é ninguém que você conheça e... francamente, acho que você está sendo muito impertinente e insuportável.

— Sei quem é o homem.

Novamente ela perdeu o controle do seu rosto. Aquela terrível expressão tornou a aparecer e Ellen falou quase a rosnar:

— Acho bom você me deixar em paz.

Tirei-lhe a fórmula da mão e rabisquei um telegrama explicativo para sua mãe. Depois virei-me para ela e disse com certa aspereza:

— Tomaremos juntos o trem das cinco para Leste. Até lá, você vai passar o dia comigo.

O simples som da minha voz dizendo isso com tamanha ênfase me encorajou, e creio que a impressionou também; de qualquer forma, submeteu-se — pelo menos temporariamente — e me acompanhou sem protesto enquanto eu comprava minha passagem.

Quando procuro juntar os fragmentos daquele dia, começa uma espécie de confusão, como se minha memória não quisesse entregar tudo ou minha consciência se negasse a deixar passar qualquer coisa. Foi uma manhã clara e inclemente, durante a qual rodamos pelas ruas num táxi e fomos a um grande magazine, onde Ellen disse que queria comprar alguma coisa e depois tentou fugir por uma porta dos fundos. Pelo espaço de uma hora tive a impressão de que alguém nos seguia num táxi ao longo do Lake Shore Drive. Eu tentava surpreendê-lo virando-me depressa ou olhando subitamente pelo espelho do chofer, mas pude ver que o rosto de Ellen se contorcia num riso forçado e triste.

Toda a manhã soprou um vento áspero e gelado, vindo do lago, mas quando fomos almoçar no Blackstone começou a nevar de leve diante das janelas, e conversamos quase com naturalidade sobre nossos amigos e coisas triviais. De repente o tom dela mudou- ficou séria e me olhou bem nos olhos, franca e sincera.

— Eddie, você é o amigo mais antigo que eu tenho e não lhe devia ser difícil confiar em mim. Se eu lhe prometer, sob palavra de honra, apanhar esse trem das cinco, você me deixará sozinha algumas horas esta tarde?

— Para quê?

— Bem... — Ela hesitou e deixou pender um pouco a cabeça. — Acho que todo mundo tem o direito de... se despedir.

— Você quer se despedir daquele...

— Sim, sim — disse ela muito depressa; — umas poucas horas apenas, Eddie, e prometo fielmente que tomarei esse trem.

— Bem, imagino que em duas horas nada poderá acontecer de muito grave. Se você quer mesmo se despedir...

Levantei os olhos repentinamente e surpreendi no seu rosto uma expressão de astúcia tão intensa e palpável que fiquei arrepiado. Ellen tinha os cantos dos lábios encrespados e os olhos novamente reduzidos a um traço; não havia nas suas feições o mais leve toque de franqueza ou sinceridade.

Discutimos. A discussão foi vaga da parte dela e um tanto dura e reticente da minha. Estava resolvido a não me deixar mais levar por lábias a cometer um ato de fraqueza, nem contaminar por tal coisa — e uma espécie de emanação mefítica pairava no ar. Ellen teimava em insinuar, sem provas convincentes, que tudo aquilo era perfeitamente normal. No entanto, estava tão empolgada pela coisa — fosse lá o que fosse — que lhe faltava presença de espírito para arquitetar uma história aceitável, e procurava agarrar-se a qualquer indício de credulidade ou aquiescência que notasse em mim para tirar dele o maior proveito possível. Depois de cada uma de suas insinuações tranqüilizadoras fitava-me ansiosamente, como se esperasse me ver embarcar num confortável sermão que terminaria pelo costumeiro bombom — no caso, a sua liberdade. Mas eu já começava a gastar-lhe as resistências. Por duas ou três vezes, notei que uma pequena pressão seria bastante para levá-la ao ponto das lágrimas — e isso, naturalmente, era o que eu queria — mas, não sei como, não o consegui. Quando já a tinha quase nas mãos — quase me apoderara da sua atenção interior — ela me escapava.

Por volta das quatro horas, sem nenhum remorso, conduzi-a à força para um táxi e partimos para a estação. De novo o vento soprava rijo, com um prenuncio de nevada, e o povo nas ruas, à espera de ônibus e bondes pequenos demais para comportar a todos, tinha um ar entanguido, perturbado e infeliz. Tentei pensar na sorte que nós tínhamos em ser ricos e protegidos, mas todo aquele mundo confortável e respeitável a que eu pertencia ainda ontem se havia evaporado. Carregávamos agora conosco alguma coisa que era o inimigo e o contrário daquilo tudo; essa coisa viajava no táxi junto conosco, andava pelas ruas que atravessávamos. Com uma ligeira sensação de pânico, perguntei-me se não estaria escorregando quase imperceptivelmente para a atitude mental de Ellen. A coluna de passageiros que esperavam para embarcar no trem me era tão remota como gente de outro mundo, mas era eu quem se afastava e os deixava para trás.

Meu leito inferior ficava no mesmo carro que o compartimento dela. Era um desses vagões antigos, as luzes um tanto opacas, os tapetes e estofamentos cobertos pela poeira de uma outra geração. Havia uma meia dúzia de outros viajantes, mas não me causaram nenhuma impressão especial, salvo a de compartilharem a mesma irrealidade que eu começava a sentir por toda parte em volta de mim. Entramos no compartimento de Ellen, cerramos a porta e nos sentamos.

De repente, envolvi-a nos meus braços e puxei-a para mim com toda a ternura de que era capaz — como se ela fosse uma meninazinha, e de fato era. Resistiu um pouco, mas passado um momento submeteu-se e deixou-se ficar tensa e rígida nos meus braços.

— Ellen — disse eu, cheio de perplexidade, — você me pediu que confiasse em você. Tem muito mais razão para confiar em mim. Não acha que seria o primeiro passo para se livrar de tudo isso se me contasse, alguma coisa?

— Não posso — disse ela em voz muito baixa. — Quero dizer, não há nada que contar.

— Você conheceu esse homem no trem quando vinha para casa e se apaixonou por ele, não foi assim?

— Não sei.

— Diga-me, Ellen. Você se apaixonou por ele?

— Não sei. Por favor, me deixe em paz.

— Dê a isso o nome que quiser — prossegui; — ele exerce alguma espécie de influência sobre você. Está procurando tirar proveito de você, arrancar-lhe alguma coisa. Não se trata de amor, fique certa disso.

— Que importa? — volveu ela em voz débil.

— Importa, e muito. Em vez de procurar combater esta... esta coisa... você procura me combater a mim. E eu amo você, Ellen. Ouviu? Estou lhe dizendo isto assim de repente, mas é uma novidade para mim mesmo. Eu amo você.

Ela me olhou com uma expressão irrisória no seu rosto meigo; era uma expressão que eu tinha notado em homens embriagados que não queriam ser levados para casa. Mas era bem humano. Começava a tocá-la enfim, de leve e de muito longe, porém mais do que antes.

— Ellen, quero que você me responda a uma pergunta. Ele vai viajar neste trem?

Ela hesitou e, um poucochinho tarde demais, sacudiu negativamente a cabeça.

— Tenha cuidado, Ellen. Agora vou lhe perguntar mais uma coisa e gostaria de que você fizesse um esforço para se lembrar. Quando você veio para o Oeste, onde foi que esse homem embarcou no trem?

— Não sei — disse ela, procurando recordar-se. — Em Pittsburgh, me parece. Ele veio me falar no carro-observatório, logo depois que deixamos Pittsburgh.

Nesse momento preciso me dei conta, com essa certeza incontestável reservada aos fatos, de que ele estava atrás da porta. Ellen sentiu-o também; o sangue abandonou-lhe as faces e aquela expressão de baixa perspicácia animal tornou a aparecer aos poucos. Baixei o rosto, cobri-o com as mãos e tratei de refletir.

Creio que continuamos sentados ali, quase sem dizer palavra, durante mais de uma hora. Notei a passagem das luzes de Chicago, depois de Englewood e de uma série interminável de subúrbios, por fim as luzes se acabaram e continuamos a rodar na planície escura de Illinois. O trem parecia recolher-se consigo mesmo, tinha um ar de estar só. O cabineiro bateu à porta e perguntou se podia fazer a cama, mas respondi que não e ele seguiu adiante.

Após algum tempo me convenci de que a inevitável luta não era superior às forças de sensatez que me restavam, à minha fé na racionalidade essencial das coisas e das pessoas. Não duvidava de que o propósito daquele homem fosse o que se costuma chamar "criminoso", mas não havia necessidade de lhe atribuir uma inteligência situada num plano mais alto de empenho humano ou sobre-humano. Era ainda como um homem que eu o considerava, procurando chegar à sua essência, ao seu interesse próprio — ao que ocupava, nele, o lugar de um coração compreensivo — mas creio que já tinha uma intuição mais ou menos certa do que iria encontrar quando abrisse a porta.

Pus-me em pé. Ellen não pareceu ver-me. Estava encolhida no canto do assento, olhando em frente com uma espécie de névoa nos olhos, como um estado de suspensão temporária das funções vitais, tanto do corpo como do espírito. Soergui-a, coloquei dois travesseiros por baixo dela e estendi meu casacão de pele sobre os seus joelhos. Ajoelhei-me então ao seu lado, beijei-lhe ambas as mãos, abri a porta e saí para o corredor.

Cerrei a porta atrás de mim e pelo espaço de um minuto fiquei com as costas apoiadas a ela. O carro estava às escuras, com exceção das luzes nas duas extremidades do corredor. Não se ouvia nenhum som além do gemido dos engates, do ticliquic uniforme das rodas nas juntas dos trilhos e do sonoro roncar de algum passageiro adormecido numa das cabinas. Ao cabo de um momento me apercebi de que ele estava parado junto ao resfria-dor de água, bem em frente à sala de fumantes, o chapéu de coco na cabeça, gola do sobretudo erguida como se ele sentisse frio, as mãos metidas nos bolsos. Quando o avistei, virou-se e entrou na sala de fumantes. Segui-o. Fora sentar-se no canto mais afastado do comprido banco estofado de couro; quanto a mim, me instalei na única poltrona da peça, junto à porta.

Ao entrar fizera-lhe ura gesto de cabeça e ele tomara conhecimento da minha presença com uma daquelas suas terríveis risadas mudas. Mas dessa vez a risada prolongou-se; parecia nunca acabar, e mais para pôr fim àquilo do que para entabular uma palestra amena e fútil, perguntei: "De onde é o senhor?" no tom de voz mais natural que pude arranjar.

Ele parou de rir e me olhou detidamente, procurando adivinhar a 'minha intenção. Quando resolveu responder, sua voz soou abafada como se ele falasse através de uma manta de seda, e pareceu vir de muito longe.

— Sou de St. Paul, "Jack".

— Esteve dando um passeio à terra? Fez que sim com a cabeça.

— Um pulinho em casa? — insisti.

Tornou a aquiescer com a cabeça, impaciente. Depois respirou fundo e falou numa voz dura e ameaçadora:

— É melhor você descer em Fort Wayne, "Jack".

Ele estava morto. Tão morto quanto é possível estar — e isso desde o princípio da história; mas a força que nele fluía em St. Paul, como sangue nas suas veias, começava a abandoná-lo. Agora uma nova imagem — a imagem dele como um morto — ia transparecendo por trás da figura palpável que havia posto Joe Jelke por terra.

Tornou a falar, com uma espécie de esforço espasmódico.

— Desça em Fort Wayne, "Jack", se não quer ser jogado para fora do trem. — Mexeu com a mão dentro do bolso do sobretudo, mostrando-me o contorno de um revólver.

Abanei a cabeça.

— Você não pode tocar em mim. Eu sei de tudo, percebe?

— Seus medonhos olhos me escrutaram, procurando descobrir se de fato eu sabia ou não. Depois soltou um rosnido e fez menção de saltar do banco.

— Se você não descer aqui, "Jack", vai haver coisa! — gritou ele em voz rouca. O trem começara a diminuir a marcha para parar em Fort Wayne e a sua voz pareceu estrugir no relativo silêncio; mas não se mexeu do banco — estava muito fraco para isso, suponho. Ficamos a encarar-nos enquanto os trabalhadores passavam para baixo e para cima atrás das janelas, batendo nos freios e nas rodas, e a máquina, lá adiante, soltava bufos sonoros e lastimosos. Ninguém subiu para o nosso vagão. Pouco depois o cabineiro fechou a porta do vestíbulo, voltou ao longo do corredor, e o trem deslizou nos trilhos, deixando as lôbregas luzes amarelas da gare pela comprida escuridão.

O que me lembra depois disso deve ter abrangido um espaço de cinco ou seis horas, embora se apresente à minha recordação como algo sem existência no tempo — algo que podia ter durado cinco minutos ou um ano. Tivera início um lento e calculado assalto à minha pessoa, mudo e terrível. O que eu sentia, apenas posso descrever como uma coisa esquisita que me acompanhara toda a tarde, só que agora mais profunda e mais intensa. Era assim como se estivesse sendo arrastado pela correnteza, e eu me agarrava convulsivamente nos braços da cadeira, para me manter ligado ao mundo dos vivos. Às vezes tinha a impressão de me ir corrente abaixo. Chegava quase a me sentir aliviado, num abandono total; mas, com uma violenta reação da vontade, forçava-me a voltar para a sala.

De repente me dei conta de que havia já algum tempo deixara de odiá-lo, de me sentir furiosamente alheio a ele, e ao perceber isso gelei e toda a minha cabeça se cobriu de suor. Ele estava vencendo a minha aversão, como vencera Ellen durante a viagem para o Oeste; era aquela mesma força que lhe vinha de explorar as fraquezas das pessoas, que o levara ao ponto da violência física em St. Paul e que, desmaiada e bruxuleante agora, ainda o mantinha lutando.

Deve ter percebido essa minha vacilação íntima, pois falou em seguida, numa voz baixa e quase suave:

— É melhor que você vá agora.

— Não vou, não — respondi com um esforço.

— Como quiser, "Jack".

Insinuou que era meu amigo. Sabia o que eu estava sentindo e queria me ajudar. Tinha pena de mim. Era melhor eu ir embora antes que fosse tarde demais. O ritmo do seu ataque era embalador como uma canção; que eu me fosse dali — e o deixasse a sós com Ellen. Soltei um pequeno grito e me endireitei na poltrona.

— Que quer você dessa moça? — perguntei com voz trêmula.

— Transformar a vida dela num inferno ambulante.

Seu olhar externou uma muda surpresa, como se eu estivesse castigando um animal por uma falta de que ele não tinha consciência. Por um instante vacilei, depois prossegui às cegas:

— Você a perdeu; ela depositou sua confiança em mim.

Suas feições se turvaram repentinamente de rancor, e gritou-me: "É mentira!" numa voz que era como um toque de mãos frias.

— Ela confia em mim — insisti. — Você não pode tocá-la. Está em segurança.

Ele controlou-se. Seu rosto ficou pálido e benigno, e senti aquela estranha fraqueza e indiferença que começava novamente a crescer dentro de mim. Que adiantava tudo aquilo? Que adiantava?

— Você já não dispõe de muito tempo — obriguei-me a dizer; e, num lampejo de intuição, vislumbrei a verdade: — Você está se afundando. Só lhe restam algumas horas. Seu corpo está morto em Pittsburgh. É o mais longe que você pode ir.

Seu rosto contorceu-se e perdeu todo e qualquer traço de humanidade, viva ou morta. Simultaneamente a sala se encheu de ar frio e, com um ruído que tinha algo de um paroxismo de tosse e de uma horrível gargalhada, levantou-se, trescalando opróbrio e blasfêmia.

— Venha ver! — gritou. — Deixe que eu lhe mostre... Deu um passo para mim, depois outro, e foi exatamente como se uma porta se abrisse atrás dele, uma porta escancarada sobre um inconcebível abismo de trevas e de corrupção. Ouviu-se um guincho de mortal agonia, partido dele ou de um ponto qualquer mais atrás, e subitamente as forças o abandonaram num suspiro rouco e prolongado, ao mesmo tempo que ele desabava no chão... Não sei quanto tempo fiquei ainda sentado naquela poltrona, aturdido pelo terror e pela exaustão. A primeira coisa que me lembra são os sapatos lustrosos do sonolento cabineiro no outro lado da sala e, além da janela, o clarão das fornalhas de Pittsburgh rompendo a perspectiva plana da noite. Havia também algo estendido no banco — algo demasiadamente tênue para ser um homem, pesado demais para ser uma sombra. No instante exato em que me apercebi dele, apagou-se e desapareceu.

Alguns minutos mais tarde, abri a porta do compartimento de Ellen. Dormia no lugar em que eu a deixara. Suas faces adoráveis estavam brancas e sem uma pinga de sangue; dormia naturalmente, porém, as mãos numa posição de abandono, a respiração regular e límpida. O que quer que a havia escravizado u abandonara, deixando-a exausta, mas a querida Ellen de sempre.

Coloquei-a numa posição mais confortável, aconcheguei-a num cobertor, apaguei a luz e deixei-a.

 

III

Quando voltei a casa nas férias da Páscoa, uma das primeiras coisas que fiz foi dirigir-me para o salão de bilhar perto das Sete Esquinas. O homem da caixa naturalmente não se recordara de minha apressada visita de três meses antes.

— Estou procurando localizar uma certa pessoa que, se não me engano, freqüentou muito esta casa há uns tempos atrás.

Descrevi o homem com bastante exatidão, e quando terminei, o caixa chamou um sujeito, uma espécie de jóquei que estava.sentado ali perto com o ar de quem tinha algo muito importante a fazer mas não podia lembrar-se do que fosse.

— Hei, Shorty, fale com este cara, sim? Acho que ele está procurando Joe Varland.

O homenzinho me lançou um olhar de suspeita tribal. Fui sentar-me ao seu lado.

— Joe Varland está morto, amigo — disse ele de má vontade. — Morreu no inverno passado.

Tornei a descrevê-lo — o sobretudo, o riso, a expressão habitual dos olhos.

— É Joe Varland que está procurando, não tem dúvida, mas o homem morreu.

— Quero saber certas coisas a respeito dele.

— Que é que quer saber?

— Que fazia ele, por exemplo?

— Sei lá! Costumava vir aqui de vez em quando para jogar "snooker".

— Escute! Eu não sou da polícia. Tudo que eu quero são algumas informações sobre os hábitos dele. Ele está morto e isso não vai prejudicá-lo. E o que você me disser não passará de mim.

— Bem... — Hesitou, olhando-me de cima a baixo. — O Joe era muito dado a viagens. Alguém me disse que morreu num irem. — Fiz um movimento brusco. — Espere um pouco... Quem foi mesmo que me contou? Bem, não importa, o fato é que ele adoeceu em Nova Iorque e tentou vir para casa. Foi tirado do trem em Pittsburgh com pneumonia e lá morreu.

Assenti com um gesto de cabeça. Os pedaços soltos do enigma começavam a se juntar na minha mente.

— Por que ele andava tanto de trem?

— Como vou saber, camarada?

— Se você não enjeita dez dólares, eu gostaria de saber tudo que possa ter ouvido sobre o assunto.

— Bem — disse Shorty, relutante, — sei apenas que, segundo diziam, ele costumava agir nos trens.

— Agir nos trens?

— Tinha um negócio lá dele, em que nunca falava. Cantava as moças que viajavam sozinhas. Ninguém sabia grande coisa a esse respeito. Era um sujeito muito ladino... mas de vez em quando aparecia aqui com dinheiro grosso e contava que tinha arranjado com elas.

Agradeci, dei-lhe os dez dólares e saí, muito pensativo, sem mencionar que, embora uma parte de Joe Varland tivesse sido desembarcada do trem em Pittsburgh, a outra fizera uma derradeira viagem à sua terra. Ellen não esteve no Oeste pela Páscoa, e mesmo que tivesse vindo eu não lhe levaria a informação — pelo menos, temos nos avistado quase todos os dias neste verão e sempre tratamos de conversar sobre outra coisa. Às vezes, porém, ela fica silenciosa sem motivo e procura chegar-se muito a mim; bem sei o que lhe passa pela mente nessas ocasiões.

É muito popular, naturalmente, e neste outono deixa a escola; quanto a mim, ainda tenho dois anos em New Haven, mas as coisas não parecem tão impossíveis como alguns meses atrás. De uma certa forma, ela me pertence — mesmo que eu a perca, continuará me pertencendo. Sempre há de saber que eu a amo <; que pode precisar de mim — e, às vezes, estas são considerações de peso. Vou levá-la a dançar num clube esta noite, e pode ser que durante o baile fique de repente silenciosa, um pouco assustada, e queira ter-me ao seu lado. Quem sabe? Seja como for, lá estarei — sempre estarei junto dela.