Um pouco do seu sangue e outras histórias
Quatro
Pois bem, a coisa que dava a George vontade de rir, mas catava tão admirado que não podia rir, era que o primeiro edifício em que botaram ele tinha grades nas janelas e as portas sem trinco só com o buraco da fechadura e uma estacada bem alta em roda com cinco fios de arame farpado em cima pendendo para dentro e torres de sentinela nas esquinas e uma portinha na frente sem trinco só com o buraco da fechadura e um portão grande nos fundos para os caminhões. Esse portão era dobrado, de forma que o caminhão entrava por um e só depois de fechar esse à chave se abria o outro. Todo o tempo que George ficou ali nunca fecharam os dois portões e ele nunca viu ninguém nas torrinhas de sentinela, mas o que lhe clava vontade de rir era a idéia de que alguém quisesse fugir de um lugar como aquele.
Todos tinham uma cama para si com um lençol limpo, um cobertor limpo, duas prateleiras e um armário com uma cortina parda em lugar de porta para guardar as suas coisas. Entre as camas tinha um tabique de madeira de modo que, com a diferença de ser aberto do lado contrário ao da janela, quando se estava ali era como ter um quarto só para si. Para cada duas camas, no corredor comprido para onde abriam esses quartinhos, tinha uma pia pequena, sem mentira, uma para cada duas camas, com água quente e fria. Para cada quatro camas tinha um banheiro no outro lado do corredor, com um mictório, só que não tinha porta, mas quem precisa disso? De noite um guarda e dois provedores faziam a inspeção de todos os corredores em todos os andares, no total seis corredores. Usavam sapatos de sola de borracha, mas assim mesmo se podia ouvir quando vinham.
De manhã acendem umas bigues lâmpadas muito fortes e todos saltam da cama, enfiam as calças e saem aos berros para lavar a cara, escovar os dentes e ir à patente, enquanto os guardas e os provedores ficam parados aqui e ali no corredor com um bloco e um lápis na mão para tomar nota do número dos que fizerem esculhambação ou deixarem de escovar os dentes ou de lavar as mãos depois de ir na patente. O pessoal desce a escada dois a dois, sem corridas nem empurrões, e lá em baixo é como um bigue restaurante só que não se paga nada. A gente procura o seu lugar e fica em pé enquanto a superintendente, uma mulher gorda, diz a reza e a gente baixa a cabeça e quando ela termina todos se sentam e os tais provedores trazem uns pratarraços de ovos mexidos e verdadeiros baldes de chocolate para servir com uma concha nas canecas de lata. Arame farpado? A primeira coisa que George pensou foi que aquilo devia ser para não deixar entrar os de fora e não para segurar os de dentro. Pode ser que ovos secos, porque é o que eles eram, não tivessem muito bom-gosto depois de alguns meses, mas quantas vezes ele tinha ido para a escola ou para a mata sem nada no estômago, com o pai cozinhando a bebedeira na cama e a mãe doente e chorando?
Em baixo, além do restaurante (onde também passavam filmes, se assistia ao serviço religioso etc), tinha uma barbearia, um posto de socorro que era como uma enfermaria de dois quartos e uma fieira de salas de consulta, que eles chamavam "connies" para quando alguém queria falar em particular com um cara como um doutor, um padre, uma mãe ou alguma pessoa de fora, e as cozinhas e uma fieira de escritórios. Esse era um dos edifícios, com três andares e a estacada em roda, para onde a gente ia no começo. Depois de passar algum tempo, quando eles achavam que o cara tinha se acostumado com o regulamento, mudavam para outro edifício só com dois andares e sem cerca. Tinha cinco desses, todos iguais. Nesses não tinha escritórios, só dois "connies" e um posto de socorro com um quarto só. Em cada um deles, um dos "connies" estava transformado em biblioteca. Cada edifício tinha um piano, um piano de verdade, e o seu time de futebol, vejam só, com um campeonato todos os anos. Todos os dias tinha escola das 8 às 12, depois o almoço, depois escola das 2 às 4. Todos os dias a metade de cada edifício tinha de trabalhar no campo das 4,30 até entrar o sol ou até às 6 no inverno. E se querem saber como eles conseguiam que o pessoal trabalhasse sem molengar, cada edifício tinha o seu campo e eles tomavam conta do milho, dos tomates ou seja lá o que for que cada um colhia, e se pensam que o tal campeonato era renhido precisavam ver aqueles garotos arrancando ervas. Também tinha oficinas para aprender carpintaria, eletricidade, metal laminado e padaria.
Pois todo mundo naquele lugar tinha de se queixar da sorte, porque tomavam a gente por fresco se não se queixasse. Mas aposto o que quiserem que nem mesmo um entre cem daqueles caras vivia tão bem na sua própria casa. Era uma espécie de moda andar reclamando, só isso. E também de se mostrar o mais macho possível e de perguntar onde é que eles escondem as coristas. George queria receber cinco "cents" por cada dez mil vezes que ouviu aqueles pequenos vagabundos falar cm mulheres, mas a gente era obrigado a falar nelas. E sempre tinha alguém metido numa encrenca por querer pegar os veados, ou os que eles pensavam que eram veados ou queriam que fossem veados. A maioria deles não saberia o que fazer se um veado topasse a parada mesmo se soubessem que não seriam apanhados, o que aliás seriam na certa.
George gostava mesmo daquele lugar. Está claro que nunca disse isto lá, o pessoal em peso teria feito picadinho de quem dissesse isto. Pode ser que fosse só George. Em primeiro lugar era grande e reforçado, por isso ninguém incomodava ele. Depois, tinha passado toda a vida com garotos da sua cidade e todos sabiam quem ele era, que seu pai borracho e sua mãe não falavam inglês direito, que estava atrasado na escola etc. Nesse lugar ninguém tinha ouvido falar nele e só sabiam que estava ali por arrombamento e furto quando a maioria deles não tinha feito nada, só que os pais não queriam saber deles ou tinham morrido ou coisa que o valha. Depois, todos usavam roupas iguais, dormiam em camas iguais, de que podiam então se gabar? Quando morava na sua casa, este garoto tinha uma bicicleta, aquele tinha sapatos novos e o pai do outro era chefe da seção do pessoal na mina. Depois: a escola. Todo o garoto que estivesse bastante adiantado na escola antes de vir para ali continuava os estudos igualzinho como tá fora. Mas todo aquele que estivesse atrasado, principalmente garotos como George que estavam atrasados por causa de uma complicação ou outra na vida e não porque fossem burros, de nascença, com todo garoto assim eles se ocupavam em particular nos "connies" e lhe davam uma chance de alcançar o nível da sua idade. George ficou muito surpreendido com esse sistema de escola, não imaginava que a escola fosse tão fácil e tão interessante também, pensava que ela era um lugar para amarrar o cara e se ver livre dele a maior parte do dia e para poder apanhar ele mais depressa se fizesse algum estropício. Nesse lugar lhe mostraram coisas que ele verdadeiramente não sabia mas devia saber, como por que as varas que ele usou uma vez podiam levantar uma árvore pesada de cima de um cervo, também coisas que ele podia usar igual que uma armadilha número-quatro, como o jeito de instalar seis botões e quatro campainhas para que os botões façam funcionar as campainhas como a gente quiser, e como fazer parar a fermentação do pão depois de ter crescido bastante com o lêvedo. Em último lugar o motivo por que George gostava daquele lugar tinha que ver com George, com o que ele era e nada nem ninguém mais. George não abria a boca. George sempre tinha andado de boca fechada desde quando era garotinho, primeiro porque tinha medo ou vergonha de falar, depois porque dava muito trabalho fazer os outros compreenderem e finalmente porque tinha se acostumado assim. Ora, a maior parte das pessoas que se metem em dificuldades são mentirosas. A coisa mais atilada que já se disse sobre a mentira é esta que o melhor de tudo é dizer a verdade porque quem diz a verdade nunca precisa se lembrar do que disse. Pois bem, ainda melhor do que dizer a verdade é ficar calado. Se a gente mente alguém vai nos obrigar a provar o que dissemos. Se a gente se gaba, mesmo que seja verdade, alguém vai nos desafiar e temos de sustentar a nossa palavra. Qualquer coisa que se diga sempre há de ter alguém escutando que não compreende ou que não ouviu bem. Haveria muito menos, complicações para todos se a maioria das pessoas não falasse tanto. Sobre todas essas coisas George refletiu muito depois de grande mas não quando tinha quatorze anos naquele lugar, em todo caso era assim que agia. Se fechava. Tampouco nunca pegou o costume de andar com alguém em particular porque queria guardar os seus pensamentos para si mesmo. Assim, sempre que achava que uma coisa lhe convinha, fazia essa coisa. Não procurava saber a impressão de ninguém mais nem fazia discursos a respeito para que ninguém procurasse tirar aquilo da sua idéia. Porque tem por aí muita gente com bonito palavreado mas que não sabe muito, essa gente pode nos ganhar numa discussão se abrirmos a boca.
Em todo caso, com a boca fechada se aprende muito mais. Quem abre a boca tapa as orelhas.
A respeito de certas coisas devia existir um meio da gente tapar as orelhas. Se George andasse sozinho não teria de escutar todas aquelas conversas sobre trepadas e tudo mais. Todos os dias, todos os minutos tinha alguém falando nisso. George tinha visto trepada que chegue para muito tempo e não precisava de procurar saber como era isso, que é o que a maioria daqueles caras faziam no fundo. Ao mesmo tempo foi quando estava na escola que passou de menino a homem e sentiu isso muito bem. Sentiu mais do que devia por causa de todas aquelas conversas. Finalmente resolveu pensar no assunto e tirar as suas conclusões, de noite quando estava na cama. E demorou muito tempo a tirar as conclusões, mas o resultado foi este.
A gente poder botar sua carga para fora não é nenhuma áfrica porque qualquer coelho faz isso.
Botar carga para fora pode ser mais divertido do que cagar ou mijar, mas examinando bem não tem nada de tão especial assim porque a gente não precisa se esforçar para fazer isso. Vem sem a gente querer. É só esperar bastante tempo e aquilo se escapa naturalmente, como quando se está dormindo. A gente não poderia impedir que isso acontecesse ainda que quisesse, assim como mais cedo ou mais tarde tem de ir à patente, queira ou não queira. Portanto, não é nada que dê trabalho ou com que um cara precise se preocupar, que é o que eles fazem com todas aquelas conversas. Se a pressão cresce demais e você não quer esperar, vá se livrar do troço. Em geral a gente vai à patente antes de sentir necessidade urgente disso.
Mas o que há de mais importante no sexo é uma coisa que George sentia de certo modo mas que ele só compreendeu com clareza mais tarde, quando ficou mais velho. Ele compreendeu que tudo que vive no mundo está sempre botando coisas para dentro, para trabalhar com elas e depois lançar fora o que não pode aproveitar. Não importa o que um vivente esteja fazendo, aquilo para que ele vive é a parte que consiste em botar para dentro. Em primeiro lugar faz isso, depois trabalha com essas coisas e finalmente se livra da escória. Botar para dentro é o motivo da criatura andar, o motivo dela crescer e também a maneira dela crescer. Por muito agradável que seja, por muito que se fale nisso e por mais leis que sejam feitas, não se pode esconder uma coisa: que o sexo pertence à segunda parte e não à primeira. É uma das coisas que a gente deixa atrás de si quando caminha para frente. Quando ensinaram Ciências na escola e chegaram à Biologia, George guardou de cor uma linha do livro, nenhum organismo vivo pode existir num ambiente formado pelos seus próprios produtos de excreção. E refletindo nisso e procurando palavras para firmar as suas idéias, George chegou a esta conclusão que resolveu o assunto para sempre, que a primeira parte, botar coisas para dentro, nos dá Satisfação, e que a segunda parte, lançar para fora, nos dá Alívio. Neste mundo tem um montão de gente doente e maluca que não conhece esta diferença. Andam às voltas procurando alívio e depois ficam com as idéias embaralhadas porque ele não satisfaz. Claro que não satisfaz, não pode satisfazer. A satisfação está na frente, é tudo que a gente precisa para continuar andando se quiser viver. Alívio é o que se sente quando se põe fora aquilo que não precisa mais. É o que se deixa para trás, e se você quiser voltar para agarrar o que deixou, não se admire se parecer meio maluco e se ficar fedendo ainda por cima.
Bem, George cumpriu os seus dois anos trabalhando nas plantações e aprendeu a fazer bastante bem o ofício de carpinteiro, fazer pão, e o que ele gostava mesmo era a oficina de eletricidade, quando saiu sabia enrolar um motor elétrico ou uma derivação de induzido cilíndrico. E sabia soldar com perfeição, não só fios mas também bordadura de canos com arame, que muito poucos sabem hoje em dia mas é bom saber, e juntas de metal laminado, sobrepostas ou perfiladas. E também a oficina de automóveis. Também era bom em Matemática, quando saiu conhecia bastante Geometria para medir um campo ou um tapete de parede a parede e bastante Trigonometria para calcular os ângulos de uma rampa de madeiras para caminhões e bastante Álgebra para o resto da sua vida, não gostava de Álgebra nem de Inglês. Não jogava futebol mas gostava de torcer pelo seu edifício. Os trabalhos que podia fazer sozinho eram os que mais gostava. Não gostava de segurar uma ponta enquanto alguém segura a outra. Nas Ciências, na parte da Física, aprendeu a palavra Resultante. Botem no chão um peso e passem uma corda em volta dele, se um puxa por uma ponta para o norte e o outro puxa pela outra ponta para o oeste o peso não irá para o norte nem para o oeste mas numa direção resultante, noroeste. Pois bem, quando George puxava para o norte queria que o peso fosse para o norte e não noutra direção. Por isso qualquer coisa que os outros chamassem cooperação George chamava Resultante e não ficava satisfeito enquanto não pudesse fazer a coisa sozinho.
Quase dois anos sem caçar e isso era esquisito porque depois que tiravam a gente da Gaiola — esse era o edifício grande com o arame farpado, para onde se ia primeiro — não se estava amarrado. Era preciso estar onde eles mandavam quando eles queriam, quer dizer a maior parte do tempo, mas tinha umas matas para o sul no outro lado do campo e se a gente quisesse escapar para ir caçar um pouco, por exemplo, ninguém atacava. 0 engraçado é que George não sentia vontade. Bem, eles traziam a gente ocupado e nunca se tinha tempo bastante para fazer todas as coisas que se queria fazer no edifício. Caçar era coisa que nem lhe vinha na idéia.
Mas aí pelo finzinho do segundo ano chamaram ele ao escritório e ele disse consigo: Pronto, vão me mandar embora. Mas não era isso o que queriam lhe dizer. Disseram que sentiam muito dar a notícia, mas seu pai tinha morrido. George ficou parado ali no escritório olhando abobado para eles. A Sra. Dency, a superintendente gorda, e Miss Grasheim, a enfermeira alta e feia mas muito boazinha, e uma das datilógrafas que, estava se vendo, tinha se intrometido para gozar o espetáculo se ele tivesse um ataque de nervos ou qualquer coisa assim. Pois saiu lograda, porque ele ficou ali piscando os olhos, como que deixando a idéia se filtrar até o fim, e afinal a Sra. Dency disse:
— Sabe o que eu vou fazer, George? Vou telefonar ao seu edifício para dizer a eles que deixem você subir. Talvez você queira se deitar para refletir um pouco sobre isto.
O que era cem por cento justo e exato o que ele queria naquele momento. E é o que havia de bom naquela gorda Sra. Dency, umas oito vezes em dez ela acertava direitinho com a coisa que a gente precisava. Quando George ia saindo a superintendente lhe disse que podia vir conversar com ela sempre que tivesse vontade. Quando chegou no seu edifício ela já tinha telefonado, de modo que foi diretamente para cima, o que não era permitido durante o dia, e se atirou na sua cama. Era para refletir na situação, mas durante algum tempo ele não pôde pensar em nada. Quando repontou finalmente uma idéia na sua cabeça, foi como que uma piada chocha. Bem, se você tem de viver num orfanato é melhor que seja um órfão duma vez.
Um pouco depois levantou, tirou a camisa, afrouxou a cinta, puxou a frente das calças para baixo do umbigo e entufou a barriga por cima da cinta. Ficou um tempo olhando para a barriga, depois abanou a cabeça e se arrumou de novo. O que ele pensava naquele momento não era no pai fazendo espirrar sangue do nariz da mãe ou chegando na bruega aos berros pelo caminho das vacas ou apatetado em pé no tribunal enquanto ele era mandado para a cadeia. Era a cara dele no dia que George roubou aquele primeiro saco de comidas, sua cara toda com as veias rebentadas na pele, as manchas de outra cor, as sobrancelhas e o cabelo louros, dum branco sujo, as pálpebras de baixo como duas colhe-rinhas vermelhas, os olhinhos aguados, azuis e vermelhos e os cacos de dentes fedendo — toda aquela mixórdia duma cara da nada completa com cada uma de suas miseráveis partezinhas de nada, tudo junto por um instante, por um miserável segundo, de um jeito que George gostava de lembrar, admirada e orgulhosa, dizendo que ele ainda seria alguma coisa na vida.
George se sacudiu com força e deitou na cama. Não sentia nada de especial, nem mesmo alívio. Bem, o pai não tinha sido nenhum peso de que ele pudesse se sentir aliviado por estar livre agora.
E por causa disso, finalmente começou a pensar naquilo que devia estar pensando. Ele nunca tinha feito planos no duro, só de um modo geral aprender um ofício para arranjar um emprego em alguma parte, mas nunca tinha lhe passado pela cabeça que esse algum lugar pudesse ser outro lugar que não uma cidade mineira ou viver em outra casa que não aquele barraco no caminho das vacas. O pai estaria lá, e é por isso que ele iria para lá. E agora o pai não estava mais lá.
E assim, de repente a idéia bateu nele. Não bateu nele, não foi em absoluto como uma pancada. Como numa vez que ele era garotinho e tinha ido até o rio e se deitou num velho barco de remos amarrado a uns salgueiros e ficou madornando no sol. E deitado naquele barco olhava a fibra da madeira seca e cinzenta, num lugar onde tinha existido um nó, e como as ranhuras fundas da madeira roída pelo tempo chegavam naquele nó e se desviavam rodeando ele para juntar mais adiante, às vezes a gente vê coisas assim que embora elas não se mexam o olho da gente não pára de andar para dentro e para fora e em roda e voltar atraí, nas costas de um gato tem dois redemoinhos de pêlo assim. Em todo caso ele olhou aquilo muito tempo até que ficou conhecendo bem e meio dormindo também ficou com a sensação do costado do barco na cabeça e do fundo do barco nas costas e na bunda. E alguma coisa fez ele se sentar de repente e em roda não tinha nada que ele tivesse visto alguma vez na sua vida. O barco tinha se soltado da corda e andado uma meia milha ou mais arrastado pela corrente. Mas o que despedaçou ele como duas mãos enormes uma puxando para cima e a outra para baixo foi como tudo era estranho fora do barco e tão seu conhecido dentro daquele barco. Por muito tempo não pôde se mexer senão para olhar as estranhas margens e baixar os olhos para aquele mesmíssimo buraco de nó uma porção de vezes e sentir aquela mesmíssima tábua cinzenta lhe amassando o quadril. Era como se ele pudesse aceitar tudo novo ou tudo velho mas não as duas coisas.
George se sentiu perdido e despedaçado do mesmo modo na sua cama pensando no pai morto. Porque ali na escola estava a vida mais verdadeira que ele tinha vivido, se viver é ir para a frente e encontrar sempre coisas novas. A vida era aquele lugar, era o dia de hoje e era verdadeira, mas lá fora tudo era diferente e como se nunca tivesse sido o que ele pensava que fosse na última vez que tinha olhado.
Levantou da cama e olhou pela janela. Era ainda pelas quatro horas, num dia do fim da primavera e em todo caso ele não tinha o que fazer antes das 6,30, e mesmo que não aparecesse nessa hora a Sra. Dency não ia dizer nada. Não nesse dia.
Ainda que estivesse tudo legal alguma coisa fez com que ele se cuidasse, parou no meio da escada para deixar passar adiante dois caras que iam descendo até que eles desapareceram da vista, e depois em vez de atalhar pelo meio dos campos foi até o palheiro, atravessou e saiu por aquele lado.
Assim que entrou na mata se sentiu melhor. Por ali era quase só carvalho e bordo e ele sentia falta dos vidoeiros esfarrapados e casquemos e com a falta de pinheiros o cheiro era muito diferente. Mas, as folhas eram todas novas e ainda não tinham crescido. Em seguida ele viu um esquilo vermelho mas não fez nada, um esquilo cinzento pode ser mas um vermelho nunca, esses bichinhos são capazes de saltar por cima de uma bala e quando tornam a botar os pés no chão espiar por baixo antes que ela, termine de passar. Mas viu uma bosta na grama nova e estava; pensando numa marmota quando viu as folhas despedaçadas num broto novo de bordo. Então era porco-espinho. George soltou uma praga, porque não podia pegar esse bicho sem luvas e uma faca, que ele não tinha, facas não eram permitidas naquele lugar. O esquilo vermelho controlava ele da folhagem das árvores em cima fazendo mais alarido do que duas gralhas e um eixo seco de roda.
De repente George caiu no chão e ficou sem se mexer, mas tinha se deitado sobre o lado esquerdo e conservava a mão direita engatilhada atrás das costas. Nunca tinha experimentado isso antes, mas aprendeu num livro sobre uma raposa cinzenta que tinha na biblioteca.
O esquilo disparou para a ponta da folhagem de um bordo, onde não tinha nada para se segurar senão duas folhas e a brisa, mas assim mesmo se segurou. Não parava de tagarelar, de xingar, de descompor que era uma coisa de enxotar tudo que era vivente, desde as formigas até os alces, para três quartos de milha dali. George não bulia. O esquilo não gostou nada disso. Nunca tinha visto uma coisa assim e parecia achar que não estava certo. Voltou correndo para o tronco da árvore, desceu, parou e se pôs a assobiar, a guinchar, até a bater com os dentes, e George nada. O esquilo voltou para o tronco da árvore, arrancou dois pedaços de casca com os dentes, trouxe eles consigo e deixou cair um depois do outro em cima de George, um deles caiu na cara e no olho, e George nem se mexeu. O esquilo botou a boca no mundo e voltou correndo para o tronco mas não subiu, ficou ali no chão sentado em três patas e com uma das mãozinhas no tronco, pronto para trepar ao primeiro sinal, e George sempre quieto. O esquilo botou a quarta pata no chão e calou por um instante, e George sempre estendido no mesmo lugar. O esquilo veio na direção dele andando de um jeito que um esquilo e principalmente um esquilo vermelho nunca anda, não aos pulos mas rastejando no chão e se agarrando com as unhas e com as pernas duras e o rabo esticado para trás, e por unia distância de oito ou ,nove polegadas foi como se tivesse rodas, mas de repente pisou numas folhas secas que fizeram barulho e ele se assustou e desapareceu como num truque de cinema, e lá estava o seu focinho espiando por trás do tronco da árvore. E então como George continuava sem bulir o esquilo saiu de trás do tronco, deu dois grandes pulos, parou a um metro de distância, começou de novo a descompor, deu mais um pulinho para a frente e George descarregou a mão direita que estava engatilhada naquele instantinho mesmo em que o esquilo estava no ar ao dar esse último pulo. Se o vermelhinho viu descer a mão, e com certeza viu, nada pôde fazer. O punho de George bateu nele com tanta força ,que se o esquilo não estivesse ali o punho teria se enterrado no chão até o pulso, mas em vez disso matou instantaneamente o esquilo achatando contra o chão as costelas e tudo que tinha entre elas. Depois disso George se sentiu muito melhor.
Ficou ainda uma hora no mato mas não viu nada senão um morcego pintado dormindo de cabeça para baixo numa forquilha de choupo-tremedor. Mas quem vai lá perder tempo com morcegos? O que ele teria gostado de encontrar era um bom coelho ou um gambá novo, mas parecia que essa mata mal tinha enfolhado e em todo caso o esquilo já tinha prestado o seu serviço e isso era muitíssimo melhor do que nada.
Depois do jantar foi falar com a Sra. Dency. Ela botou George num "connie", foi buscar uns papéis, voltou com eles e fechou a porta.
— Sente, George — disse ela, porque George tinha aprendido a ficar esperando em pé.
— Obrigado, senhora — disse ele, porque tinha aprendido a dizer não só Obrigado mas também Senhora.
— Está se sentindo melhor? Sim, vejo que está. George, eu estou muito triste com o que lhe aconteceu.
— Não faz mal — disse George.
Ela se encostou para trás na cadeira e espichou os lábios como sempre fazia quando tinha uma pequena surpresa para dar. Tinha cabelo preto com uma lista branca na frente meio para um lado e óculos redondos de armação preta com um troço na ponta que passa por trás da orelha e um cordão preso ali, de modo que se caísse ficava pendurado. George disse:
— Eu sempre pensei em voltar mas agora é indiferente pra mim.
A Sra. Dency desfranziu a boca e sorriu.
— Mas não se lembrou... de sua... tia?
Apresentou a idéia como se fosse uma nota de mil dólares dentro de um bombom. O sorriso se apagou porque George ficou com uma cara indiferente.
— Isso não lhe agradaria, George? George respondeu que não.
Essa tia, que era irmã da mãe, já tinha querido levar George uma ou duas vezes antes. As duas irmãs nunca se acertaram bem e Tia Mary era a mais velha e se danou porque a mãe casou primeiro etc. Depois quando o pai deu para beber e as coisas foram ficando ruins ela descobriu e de vez em quando convidava George, mas isso era só para arreliar a mãe de George e não porque quisesse mesmo ter ele em casa. Depois se casou com aquele camarada que tinha um sitiozinho michado num morro da Virgínia e como sempre a melhor maneira que encontrava de avexar a irmã era convidar George porque isso era um modo de dizer que ele estaria melhor com ela, o que era um modo de dizer que ela estava melhor de vida. Agora que a mãe tinha morrido George não tinha nenhum palpite no oferecimento porque não via nenhum motivo para isso. Ainda por cima George, apesar de conhecer pouco o marido da tia não se dava bem com ele. E sabia também que os dois iam chatear ele porque tinha passado dois anos no reformatório por arrombamento e furto e nunca deixariam que ele esquecesse isso. Mas George não disse nenhuma dessas coisas porque era naturalmente um sujeito fechado e além disso achava que o problema era seu, por isso tudo que fez foi responder que não.
A Sra. Dency procurou por todos os meios convencê-lo e o resultado foi George pedir para ficar onde estava. Isto foi uma grande surpresa para a Sra. Dency, mas pensou um pouco e disse que sim porque George só tinha quinze anos naquela ocasião e os seus dois anos tinham terminado, mas daí a um ano teria dezesseis e poderia sair da escola sem ter de ir para a casa de nenhum parente.
Aqui George estava errado em uma ou duas coisinhas, mas isso ele só descobriu mais tarde, como é que podia saber se não falava nada e ficava mudo ali na cadeira?
E assim ficou mais um ano na escola e ninguém teria notado a menor diferença, ele trabalhava na escola e na oficina de automóveis e nas plantações e torcia para o seu time. O seu edifício ganhou uma espiga de milho e George ganhou o único prêmio da sua vida numa competição, esta era de comer um pastelão de uva-do-monte com as mãos amarradas nas costas.
Mas assim mesmo tinha uma diferença. Os dois anos era o que o tribunal tinha dito e o tribunal e a escola podiam mandar nele. Se George pulasse o muro teriam trazido ele de rastos para dentro e iria para a gaiola sem cinema nem sorvete até sossegar. Mas nesse último ano ele já tinha cumprido a sua pena e ficava ali porque não tinha outro lugar para onde preferisse ir, embora nunca dissesse isso para ninguém, teriam feito picadinho dele. Nunca pensou às deveras em pular o muro mas se fizesse isso não seria como quem pega um criminoso fugitivo, dependeria disto, daquilo e mais aquilo como por exemplo se ele tinha algum outro problema e se tinha um lugar decente para viver e coisas que tais, e se não tivesse nenhum problema teriam deixado ele em paz sem sequer procurar trazer de volta. E de um certo modo isso fazia uma diferença enorme para George e a diferença não era para melhor, era para pior.
Ele era bastante esperto para não deixar notar nada, mas uma coisa assim está toda no sentimento que a gente tem. A única coisa que ele fazia diferente de antes era escapar para a mata sempre que podia. Nunca levou ninguém consigo e não fazia lá grande coisa exceto uma ninhada inteira de raposas uma vez e isso a bem dizer foi uma casualidade. Fora esse caso não tirava muito proveito porque não se pode matar coelho a cacetada se não se for para a beira de um campo no escuro e esperar até amanhecer, nem vai se armar um bigue mundéu ou um número quatro sem ter certeza de que está num lugar onde ninguém vai mexer nele e também de que a gente pode voltar lá quando quiser. Era muito bom escapar de vez em quando, mas por outro lado nunca era suficiente e nunca dava certo. Como quando a gente quer alguma coisa com toda a gana, é melhor não ganhar nada do que ganhar aos bocadinhos de cada vez.
Mas o grande mistério para George era como ele podia ter passado dois anos inteiros sem nem pensar na mata e de repente no último ano começou a sentir tanta falta dela que andava sempre com um fogo na barriga pedindo a mata. E os dois anos passaram num instante, mas o terceiro parecia arrastar os pés sem nunca chegar ao fim.
Quando ele estava para terminar deram um recado a George para ir falar com a Sra. Dency e ele foi. A Sra. Dency levou George para o seu escritório, fechou a porta e lá estava a Tia Mary em pessoa. Era uma mulher baixinha o que George já sabia, mas não imaginava que fosse tão pequena assim, com' certeza por ele ter crescido tanto durante esse tempo. Era parecida com a mãe, mas não muito. Tinha um narigão comprido que estava sempre vermelho na ponta e ele tinha a impressão de que esse nariz sempre pingava, e quando #la falava tinha uma vozinha macia como os pombos ou sei lá o quê, de modo que mesmo quando dizia que horas eram, ela parecia estar dando um doce pra gente. Assim que botou os olhos nela George sentiu que não tinha rancor pela tia se é que alguma vez tinha tido. Seria o mesmo se ela tivesse vindo um ano antes. Mas como se pode saber uma coisa assim?
Pelo jeito a Sra. Dency tinha preparado tudo que ia dizer e também o que Tia Mary ia dizer e podem apostar que ela tinha se fechado com Tia Mary uma hora inteira naquele escritório para lhe dizer como devia lidar com George. E assim depois que George entrou e ele e Tia Mary se cumprimentaram etc. e as mulheres sentaram e George disse: Não senhora, muito obrigado e ficou em pé, a Sra. Dency encheu os pulmões e começou de longe e veio rodeando, rodeando para chegar no que queria dizer, enquanto Tia Mary ficava especada na cadeira de assento de vime se segurando nos braços dela com os olhos esperançosos de um cachorro que vê a gente com um pedaço de carne na mão e pensa que é para ele mas tem medo da se atirar por enquanto. E assim não deixou de ser engraçado quando finalmente a Sra. Dency se resolveu a dizer que Tia Mary ainda queria que George fosse viver na fazenda, estava se vendo que ela ia botar a mão na coisa e pular longe para depois vir chegando de novo devagarinho, mas George disse logo e foi a primeira vez que abriu a boca depois dos cumprimentos:
— Como não, vou sim.
A Sra. Dency não podia parar, era como se tivesse caído num perau e estivesse na metade do caminho. Continuou ainda a falar durante quase um minuto inteiro explicando que o sangue tem muita força e as vantagens de ter um lar e uma família, e a única coisa que fez ela parar foi quando Tia Mary levantou, caminhou para George e pegou as duas mãos dele. E assim ficou resolvida a questão.
A viagem de ônibus foi comprida e Tia Mary não falava muito e George como sempre quase não falava, mas quando chegaram na fazenda, George tinha compreendido uma porção de coisas. Uma delas era que ninguém censurava ele por ter sido preso porque examinando bem as coisas ele não tinha sido preso por arrombamento e tentativa de furto, pelo menos não era uma culpa que merecesse dois anos, era principalmente porque o juiz e o padre e a assistente social pensavam que ele estaria melhor na escola do que num barraco com o gambá da cidade depois que a mãe morreu. E também que afinal de contas talvez ela quisesse levar ele para lá simplesmente porque queria ter George na fazenda e não para fazer picuinha a ninguém como a mãe sempre dizia. E assim a única preocupação ficou sendo o marido dela. um caroliniano do norte chamado Grallus, Jim Grallus, Tio Jim. Ã primeira vista não era nada com que a gente devesse se preocupar, um homenzinho de um metro e sessenta de altura, mas como muitos outros tampinhas tinha raiva de todos os caras grandes especialmente quando podia mandar neles, a toda hora está se encontrando tipos assim no exército. Mas mesmo com dezesseis anos George sabia disso e como tudo mais não é tão ruim assim quando a gente está preparado. E de qualquer forma isso alô se notava muito em Tio Jim, pelo menos não se notou durante muito tempo.
No começo a vida na fazenda foi dura para George de tão diferente que era da escola, por exemplo deram um quarto para ele «ó e assim era muito melhor, mas por muito tempo não pôde se acostumar a ter mais de três paredes em roda da cama, era como fechar com esparadrapo a boca e a metade do nariz do cara, pode se respirar mas nunca o suficiente. Mas com o tempo George começou a gostar mesmo de ter aquele quarto só para si. Também sempre teve uma coisa com George, era botar ele num lugar novo com gente nova e ele se fechava como nunca. Durante muito tempo percebeu que Tia Mary e Tio Jim achavam ele bastante simplório, era só Sim, Não, Está bem e quando lhe pediam que falasse um pouco, que contasse como era a vida na escola ou na casa dos pais tudo que ele fazia era sorrir e abrir as mãos sem dizer nada.
E assim no começo, por uns oito ou nove meses enquanto George ia se acostumando com o lugar, precisou de ir na mata bastante seguido e desde que ele fizesse o seu trabalho, que aliás fazia, eles não se importavam. A mata ali era maravilhosa, melhor ainda que no Kentucky. George chegou a ver ursos uma ou duas vezes, embora nunca tivesse pegado nenhum. Mas nunca se viu gambás como aqueles, grandes e gordos, guaxinins e coelhos e até castores mas não muitos. E assim no começo George caçava porque tinha necessidade disso e depois continuou caçando para não perder a prática, e quando conheceu Anna acabou de vez com a caça. Foi como nos primeiros dois anos na escola, perdeu a influência por completo.
Tinha passado dos dezesseis anos quando encontrou Anna, e ela era uns oito anos mais velha. O pai dela tinha quase duzentos acres enquanto Tia Mary só tinha 46 e ainda assim terra de barro que só servia para pasto, pedras e mata subindo pelo morro. A casa do pai de Anna era ainda pior e tinha sete crianças. George sempre pensou como aquilo devia ser bom, toda essa gente se querendo bem enquanto ele não tinha uma pessoa com quem falar. Mas conversando com Anna descobriu que ela pelo seu lado pensava como a vida devia correr bem para ele, num lugar pequeno, tão sossegado, só treze vacas para ordenhar de manhã e de noite e um quarto só para ele. Era mesmo gozado como os dois se invejavam.
George encontrou Anna uma vez na queijaria, quando o pai dela estava de cama com um ombro torcido por causa de uma queda de um espalhador de feno. Ela foi à queijaria guiando uma parelha de cavalos e ele ajudou a descarregar do carrinho os tarros de quarenta litros. No começo não conversaram muito, não se podia dizer que ela fosse bonita e era por isso que com a sua idade ainda continuava naquela fazenda, ninguém se apresentava para casar com ela. Tinha um rosto largo e vermelho, com olhos e cabelos castanhos, e andava com a cabeça meio para a frente, como fazem as mulheres que têm em baixo da nuca esse calombo chamado cacunda de viúva. Tinha os braços grossos em cima e as coxas também, mas era muito fininha de cintura, os antebraços e os tornozelos eram finos, e os pés pequenos. Não sei dizer por que uma mulher desse feitio não deixava George muito entusiasmado mas fazia ele se sentir à vontade.
Lá pela terceira vez que se encontraram ele lhe disse que da fazenda da Tia Mary à do pai dela eram quase doze milhas, mas sabia ela que atalhando pela mata era só uma milha e meia? Anna pensou um pouco, sorriu para ele e disse que de fato era assim porque as duas fazendas ficavam dum lado e do outro do morro e as estradas iam pelos vales. Bem, disse George, pode ser que um dia que estivesse caçando se encontrasse com ela nos campos. Ela disse que sim, que podia ser, e a coisa não foi adiante porque na próxima vez que George foi à queijaria era o pai dela. Nunca falou com o pai dela.
E assim não muitos dias depois, era no verão e continuava claro ainda umas duas horas depois de ordenhar as vacas, lá se tocou ele pela mata dentro, subiu o morro, desceu do outro lado e quando viu lá estava na fazenda.
E ela estava sentada diante da cerca de arame farpado na beira da mata onde ia terminar a pastagem norte do pai.
E ele disse:
— Que é que você está fazendo sentada aqui? E ela riu e respondeu:
— Acho que estava esperando você.
E esse foi o começo daquelas conversas compridas que os dois tiveram sobre a sorte dela em ter uma família tão grande, a sorte dele em não ter família e o mais que segue. Ele nunca tinha estado antes com uma guria mas ela era bastante sabida, mas sempre cautelosa, escolhia caras que vinham trabalhar com a debulhadeira e coisas assim, sujeitos que não moravam por ali. Era de esperar que George ficasse furioso quando descobriu essas histórias, mas ele não se importou. Todos esses sujeitos pertenciam ao passado, estavam esquecidos, ela não tinha um amigo firme naquele tempo mas agora tinha, e era ele. Anna teve de ensinar quase tudo a George. Não vão me acreditar mas George nunca insistiu com ela para fazer o negócio. Faziam tudo que ela queria e George fazia com gosto, mas era por ela. Era sempre por ela, do jeito que ela queria. Ele sempre tinha medo de machucar as mãos de Anna ou coisa que o valha. Foi só lá pela terceira semana que ele tomou conta da situação por assim dizer. Uma noite morna e o que ele achou mais delicioso foi o cheiro dela. O cheiro dela era bom como é bom o cheiro do bafo de uma vaca, o cheiro do capim cortado, ou do leite tirado numa manhã de verão antes de começar a azedar. Ele sentia aquele fogo no estômago como quando precisava de caçar, mas naquelas ocasiões era sempre com um pouco de raiva e desta vez não tinha raiva nenhuma. Ela começou dizendo que não, que isso não se fazia, mas George insistiu e ela não demorou a consentir. Bem, afinal sabia que ele não lhe faria mal nenhum e que não ia falar nisso para ninguém.
Essa foi a melhor época na vida de George, melhor até do que o exército, a escola e o resto. Às vezes Tio Jim era duro com ele conforme a disposição em que estava e às vezes George fazia alguma coisa malfeita apenas por não saber, como na ocasião que fez uma meda de feno que veio a cair ou naquela outra que deixou as galinhas andar no galpão velho onde elas pegaram coquecidiose ou seja lá como for que isto se escreve, no primeiro dia elas ficam tristes, no segundo dia não podem caminhar, no terceiro dia morrem, o que mais admira é que não tivessem perdido toda a criação. George não gostava de cometer erros, isso deixava-o acabrunhado e furioso consigo mesmo. Tio Jim devia compreender isso mas não compreendia. O homem tinha que se pôr aos berros. E às vezes fazia um frio de rachar e outras vezes um calor infernal, e às vezes ele tinha de trabalhar dois dias e duas noites sem parar como quando o bezerro nasceu atravessado na mesma ocasião que o vendaval arrancou mais de metade da cerca. E o seu machado saltou uma vez num nó de madeira, entrou pelo lado do sapato e se cravou no pé. Mas com todas essas amolações e pendengas e trabalho pesado e tudo mais, ainda foi a melhor época de toda a sua vida. Não aconteceu nada que fizesse ele se meter de novo pela mata com um cacete ou uma armadilha, simplesmente não tinha precisão disso. Saía bastante e os tios pensavam que era para caçar, mas era para se encontrar com Anna. Até deixar de se encontrar às vezes com ela era maravilhoso, como passar fome de propósito para que a próxima refeição parecesse mais gostosa, isso a gente pode fazer quando está bem seguro da próxima refeição. Anna também gostava disso, ninguém se ocupava muito com ela em casa desde que ela fizesse o seu trabalho, o que aliás nunca deixava de fazer.
E o interessante é que ninguém nunca descobriu, e George e Anna nunca fizeram muita questão de se esconder. Simplesmente pegaram o hábito de se encontrarem sozinhos na mata e numa espécie de gruta que eles conheciam. Às vezes se viam na sociedade agrícola ou na cidade e conversavam, mas como todos se conheciam ninguém prestava atenção a eles. E apesar do gosto pelas fofocas, por fazer casamentos etc, nunca pensaram em George e Anna. Ele só tinha quinze anos quando veio para o lugar e ela uns vinte e quatro e George era um rapagão bonito com quem as gurias enticavam e se exibiam para ele etc, e Anna era uma dessas pessoas que andam no meio do povo, a gente sabe que elas estão ali mas não vê seu rosto. E assim, mesmo quando eram encontrados juntos na cidade ninguém via nada demais nisso e ninguém nunca encontrou eles noutro lugar. George era muito moço para pensar em casar e além disso não tinha dinheiro, e Anna por seu lado acho que nem pensava nisso, tem certas pessoas que dizem lá consigo: Bem, parece que não fui feito para o casamento nem nunca serei, e não pensam mais no assunto. Anna tinha passado por isso há muito tempo. Dois anos e meio dessa vida e sabem como é, a gente pensa que aquilo que está fazendo vai naturalmente durar sempre. Pois não vai não.
Veio um dia que George e Tio Jim Grallus tiveram um pega sério, foi em novembro e escureceu cedo, e depois de ordenhar as vacas e de jantar George escapou para a mata, subiu o morro e ele e Anna passaram muito tempo arrumando a espécie de gruta que eles tinham lá em cima perto da pastagem norte do pai dela. Não era lá essas coisas mas ficava abrigada do vento. Bem, depois de todo esse trabalho e do brinquedo com Anna era bastante tarde quando ele voltou.
Só muito depois foi que soube o que tinha acontecido enquanto ele estava fora. Tinha algum bicho roubando galinhas mais ou menos todas as noites e com certeza lá pelas tantas Tio Jim ouviu o alarido delas ou coisa que o valha, o fato é que saiu de pijama e com uma lanterna na mão. Lá estará uma bigue jaritacaca rondando a encerra das galinhas e quando riu ele foi se meter no quarto dos arreios, que ficava na parte baixa do celeiro. Tio Jim ficou furioso e foi atrás da jaritacaca com a lanterna e viu o bicho acuado num canto olhando para ele. Tinha ali um forcado de juntar palha e ele estava tão danado que passou a mão no forcado e deu uma lançada na jaritacaca. Pois um dos dentes furou o couro no lado do bicho e se cravou na parede e lá ficou ele preso. Mas Tio Jim ficou preso também porque todo mundo fala no fedor duma jaritacaca mas ninguém parece se lembrar das garras respeitáveis e da boca cheia de dentes afiados como os de um gato, e além disso um animal vivo e farte como um lobo. E aquela era uma das grandes. Por isso Tio Jim não podia arrancar o forcado e a jaritacaca tampouco podia se voltar, calculo que tenha ficado maluca. Tio Jim berrava um bocado, mas como estava no lado do celeiro que ficava mais longe da casa e o vento era contrário — era uma dessas noites frias de outono, de meia lua e ventania — Tia Mary não ouviu nada. E George nem estava em casa, mas Tio Jim não sabia.
Bem, Tio Jim ficou rouco de tanto gritar, e além disso estava gelado de frio e menino, como fedia! Com certeza pensou que o melhor era deixar que a jaritacaca perdesse sangue até morrer, mas como ela não sangrava muito se encostou no forcado e meio que pegou no sono. E de vez em quando acordava arrepiado de frio e tornava a pegar no sono.
Foi por essas alturas que George voltou. Com a claridade da lua viu a porta do celeiro aberta, mas nenhuma luz porque a lanterna tinha apagado há muito tempo. E assim George caminhou direito para lá em vez de passar de largo. Bateu a porta, baixou a tranca e foi para dentro de casa. Naturalmente o barulho da tranca acordou Tio Jim, que soltou um berro e pulou para a porta, mas George já tinha dobrado o canto do celeiro e como tinha o vento nos ouvidos e ia pensando, acho que em Anna, não ouviu nada. E assim! lá ficou Tio Jim com a jaritacaca uma escuridão de breu, e quando pulou para a porta deixou cair o forcado. Andaram uma porção de tempo às voltas lá dentro. Daí a uns dez minutos o barulho acabou por alvoroçar o enorme touro Holstein, ou melhor cruzado com Holstein que estava amarrado nuns pilares no meio do celeiro, o touro começou a bater nos pilares, as vacas ficaram inquietas, os porcos acordaram, quem sabe se a porca deitou em cima dum leitão, em todo caso o leitão começou a se esgoelar. A essas alturas o barulho era suficiente para George Smith ouvir, e não só ele como George Washington também. George correu para lá e já tinha atravessado o pátio e entrado no celeiro quando finalmente ouviu a puteação e os baques no quarto dos arreios. Correu para lá, abriu a porta e a primeira coisa que sentiu foi o cheiro, como uma parede que cai em cima da gente, tal e qual uma coisa sólida. Depois veio a jaritacaca, tão doida que nem tocava no chão, passou voando pela porta, quem é que ia pegar aquele bicho? George só piscou e deixou passar. Então veio Tio Jim.
Tio Jim só queria saber quem tinha passado a tranca na porta e fechado ele lá dentro. E George disse que tinha sido ele mas...
Mas coisa nenhuma. Ali mesmo Tio Jim descarregou tudo que tinha por dentro e descompôs George de alto a baixo. Se George tinha alguma coisa para dizer Tio Jim não queria ouvir nada. Disse tudo que lhe veio à cabeça, que George era estúpido, desajeitado e preguiçoso e que se pensava ser esperto estava muito enganado. E quanto mais berrava mais furioso ficava, era como se tivesse uma panela cheia de raiva contra George e todas as coisas de George com a tampa bem aparafusada e a tampa tivesse saltado e o que tinha dentro começasse a se derramar. Pode ser que se George fosse tão ligeiro de boca como alguns sujeitos a coisa não teria sido tão ruim assim, mas tudo que George pôde fazer foi ficar plantado ali como um poste e de vez em quando sorrir. Não era um sorriso de verdade, está claro que ele não tinha vontade de sorrir, mas era o que parecia ser. Quando viu isso Tio Jim ficou mais doido ainda. Começou uma descompostura diferente, como quem levanta uma nova camada. Falou do pai e da mãe de George, que eles nunca tinham se casado e que George era um bastardo. Falou de George chamando ele de veado, acho que o que ele queria dizer era que George não tinha uma garota que ele soubesse, só queria andar sozinho nas matas. Disse que o pai de George era um borracho sem serventia e que sua mãe teria sido uma puta se não fosse feia como um bicho e que George era um ladrão, um arrombador, um sentenciado e que ele estava farto de ver a sua cara por ali.
George ainda não sentia vontade de sorrir, mas não podia pensar em nada para dizer, e por isso sorria. Tio Jim começou a berrar ainda mais forte, no princípio foram palavras mas depois o cuspe lhe brotou da boca como que fazendo espuma, tinha os olhos de um louco sem tirar nem pôr, um deles enviesado para o lado. Começou a bater em George. Ele era tão pequeno e George tão grande que tinha de se levantar nas pontas dos pés para alcançar a cara dele. George, que tinha uns punhos da metade do tamanho da cabeça de Tio Jim, nem sequer levantou as mãos. George tinha uma faca com bainha enfiada na cinta e nem chegou a pensar nela. Tio Jim dava murro e mais murro, não era bastante forte para sentar um que liquidasse com o assunto mas continuava soqueando com gana. George meio que empurrou ele e recuou um pouco mas os guinchos e aquela espuma que saltava da boca de Tio Jim deixavam ele apatetado. Sentiu sangue na sua boca e tomou o gosto. Soltou um berro, um bigue berro, e fugiu correndo. Tio Jim ficou no mesmo lugar gritando "E não volte mais aqui. E não volte mais aqui."
George não sabia direito para onde ia, não fez nenhuma idéia da sua direção até que chegou na espécie de gruta que ele e Anna tinham arrumado. Entrou nela de rasto, resfolegando forte como quem corre ou quem chora, pingando sangue e com água nos olhos, cheirou todo o velho cobertor que eles tinham levado para lá, se deitou e começou a rolar de um lado para outro. Sentia uma bruta necessidade de alguma coisa mas não sabia o que era. Em geral era Anna mas Anna a essas horas estava dormindo na sua cama e não tinha jeito de chegar até ela sem incomodar todo mundo. Se ele pudesse ir falar com Tia Mary ela talvez tivesse ajudado mas não tinha jeito de fazer isso sem chegar perto de Tio Jim. Pensou também na Sra. Dency mas a Sra. Dency estava muito longe dali, nunca mais botaria os olhos nela. Sentia aquele fogo no estômago e a cara e a cabeça doíam. Com a claridade de lua podia ver o sangue pingando do seu queixo na mão, parecia preto e ele pensou que fosse o sangue da mãe.
De novo soltou um berro como tinha feito diante do celeiro. Depois ficou muito tempo sentado sem pensar em nada. Afinal se levantou e cortou pela mata costeando a cerca norte da fazenda do pai de Anna e descendo o morro por dentro da mata até a estrada. Parou no arroio para se lavar. Estava muito frio. Ele não se importou com isso, a água fria lhe fez bem. E dali tocou para a cidade.
Atravessou a estrada perto da cidade chegando pelas matas como gostava de fazer. Ali tinha uma fábrica onde faziam caixas de papelão e sacos de papel com os pinheiros que crescem como praga na terra cansada das antigas plantações de algodão. Tinha ali um desvio dos trilhos com um barraco pequeno e um guarda. Esse guarda tinha a cara do pai de George. Cheirava a suor, a sujeira e a cachaça tal qual o pai e de repente berrou para George tal qual o pai, como se não precisasse tomar fôlego, como se já estivesse com ele pronto para o berro.
Tudo isso junto foi demais para George, e assim ele tornou a se meter na mata e andou vagueando muito tempo, uns dois ou três dias. Não podia se lembrar desse tempo. Não comia nem dormia, acho que nem tomava água. Duma coisa se lembrou depois, foi como uma figura, ele estava na gruta com o cheiro do cobertor e Anna sentada junto dele chorando. O resto do que aconteceu ele não sabia, só o que lhe contaram. Anna o levou para a fazenda de Tia Mary. Estava fraco, doente e tinha uma bruta febre, e como Anna conseguiu levar ele até lá foi um milagre, mas o fato é que era uma mulher forte.
Esteve uma semana doente, deitado no seu quarto sem dizer nada mesmo quando melhorou bastante para falar. Tia Mary fez o possível para explicar o procedimento de Tio Jim, principalmente quando ele não estava perto para ouvir. Disse que ele fera um homem pequeno em tudo e que sempre tinha raiva dos homens grandes só por isso. Até disse que os dois tinham brigado, ela com Tio Jim, por causa de George. Ele nunca disse que havia marosca mas disse que ela olhava para aquele rapagão de George com o seu cabelo amarelo e os seus músculos de um jeito que não devia olhar, mesmo que ela não se desse conta disso. E além disso Tio Jim não era mais nenhum franguinho. De modo que somando tudo fazia um montão, Tio Jim tinha raiva dele porque ele era moço, porque as mulheres achavam ele bonito, porque era forte, porque a mulher gostava dele, e em cima de tudo isso porque não podia entender o rapaz, ninguém pode quando o cara nunca abre a boca. E o sumo de tudo é que Tio Jim pensou naquela noite da jaritacaca que George estava zombando dele. George não estava zombando coisa alguma. Uma coisa dessas é gozada mas não quando a gente toma parte.
Tio Jim nunca pediu desculpa nem nada mas Tia Mary disse que ele estava arrependido e George acreditou. Tio Jim simplesmente nunca falou no assunto e acreditem ou não as coisas continuaram igualzinho como antes. Mas é preciso lembrar que George estava acostumado desde criança com esses estrupícios que acabavam em nada. É capaz que a situação tivesse até melhorado um pouco. Tio Jim tinha cobrado todos os atrasados e demorava a se encher de novo, e além disso devia estar evitando esse tipo de coisa de que ele não se orgulhava. Para dizer a verdade tudo isso não fazia muita diferença para George, já estava acostumado e Tia Mary era tão boa quanto podia com ele, apesar de assustada com o que Tio Jim tinha dito, que ela gostava demais de George. Mas o que não tem nenhuma dúvida é que a situação melhorou para George e Anna porque fez um grande bem a Anna cuidar dele aquela vez que ele estava bombardeado, e também a George fez bem. Muitas vezes George se lembrara daquilo, dos murros, da febre e tudo mais, era o que um sujeito sempre deseja no fundo — ter tudo na mão, estar sossegado porque tem outra pessoa que se encarrega de tudo, enfim parar de pensar.
E assim tudo foi correndo macio até que Anna adoeceu, quando George tinha dezenove anos.
A única coisa de bom nisso é que George sabia qual era a sua doença. Estava pronta, é o que era. Se Anna simplesmente não tivesse aparecido e George começasse a rondar a casa do pai dela fazendo perguntas estava feita a porqueira. Porque desconfiava que eles soubessem qual era o mal dela e deviam andar secos por saber quem tinha sido o cara. A família dela era uma gente orgulhosa e não havia de querer que aquilo fosse sabido mas assim mesmo... E um cara por lá perguntando por ela perigava deixar o couro. Por isso foi bom ele saber para ficar de largo. Anna já estava doente quando contou para ele. Vomitava a toda hora, chamam isso de enjôo matinal mas não precisa ser de manhã não podia guardar nada no estômago. As regras já tinham falhado duas vezes, aliás isso ele soube antes dela, Anna nunca tomava nota dos dias do mês. E assim quando ela parou de aparecer depois da hora do serviço era porque estava de cama doente. No começo era apenas uma amolação, mas quando fez duas semanas, e depois quatro, seis e sete, ficou difícil de agüentar. George tinha se acostumado com Anna e precisava dela, não era fácil passar sem ver a sua garota. Começou a se preocupar. Ou ela estava tão doente que não sararia mais, e nesse caso que é que ele ia fazer? Ou então estava melhorando ou quem sabe se até já tinha ficado boa mas estava zangada e não queria mais se arriscar com ele. Nenhuma dessas idéias ele podia suportar e vivia todo o tempo saltando de uma para a outra. E tinha de reconhecer que apesar doa anos que andava com ela no fundo não conhecia Anna bastante para saber se ela era capaz de lhe dar a tábua por causa de uma coisa dessas.
O que George fazia além de se preocupar era odiar aquele sacaninha que estava dentro dela. Mesmo sendo uma criança ou menos do que uma criança tornava a coisa ainda pior. Estava lá muito bem aboletado no quente, alimentado a toda a hora e não tinha nada que fazer ou mesmo que pensar, enquanto George era obrigado a se privar de tudo. Porque se Anna tivesse outro amigo e George fosse forçado a entregar os pontos para outro cara mais forte, mais inteligente, mais rico ou sei lá o quê, George podia ficar ofendido e triste também, mas pelo menos • sujeito que tinha tirado Anna dele era alguma coisa, era melhor do que George nisto ou naquilo. Mas esse animal dentro dela, crescendo no seu corpo como uma espécie de enorme verruga ou coisa que o valha, não era mesmo nada, mas ganhava dele com as mãos nos bolsos sem nem sequer fazer força, sem nem sequer saber que ele estava ali. E esse foi o único motivo na vida de ele ter enraivecido com ela, para que foi ficar prenhe, ele não queria saber disso, só ela é que queria e está aí o resultado.
Ia cuidar das suas armadilhas, pois tinha começado de novo a caçar às deveras, depois ia para a gruta e ficava sentado ali cortando madeira com a sua faca de bainha e tudo que fazia era odiar aquela coisa dentro dela.
E foi assim que acabou sentando praça, as coisas tinham chegado a tal ponto que ele não podia dormir nem nada, quase não parava um instante de sentir aquele fogo no estômago e era muito mais forte e difícil de se livrar daquilo. Era como se a notícia se tivesse espalhado na mata, tudo desapareceu, coelhos, guaxinins, marmotas, até os "chipmunks" e os camundongos, e o que ficou era magro e enfezado. Mas o que ele fazia era enganar a si mesmo. Uma vez com o maior e mais gordo dos gambás que George viu na sua vida, sentiu a mesma coisa.
Assim mesmo deu para andar cada vez mais longe, não sabia o que estava procurando, só pensava que talvez pudesse encontrar nalgum outro lugar se não encontrava perto de casa. E era no meio do verão quando ele descobriu uma casa de castores na encosta dos morros e começou a preparar um mundéu, tinha de ser bem grande porque castor é difícil de segurar. E ele sempre preparava as armadilhas onde nunca ia ninguém, isso não era para não machucar as pessoas, mas porque é asneira botar armadilhas onde anda gente fazendo barulho, tagarelando e gritando. Não tem um homem em dez mil que saiba ficar quieto em qualquer parte para não falar nas matas, esse é o mal de quase toda a gente. Mas em todo caso, no outro dia quando ele veio olhar esse mundéu perto da casa de castores lá estava um diacho de guri ranhento preso por uma perna. Isso enraiveceu George a tal ponto que é até engraçado, com toda aquela raiva ele até se sentiu melhor. Se a gente enraivece assim quando se sente desorientado e confuso, já não se sente desorientado pelo menos enquanto está furioso. Ele deu umas boas pauladas no guri por ter desarmado o mundéu, esse guri representava para ele o pequeno que estava crescendo dentro de Anna e empurrando ele para longe, afinal podia se vingar do pequeno.
No outro dia foi à cidade e falou com o homem do correio e quando Tia Mary menos esperava ele veio com os papéis para ela assinar, a coisa estava feita. Foi tão de repente que ela e Tio Jim nem sabiam o que dizer, ela parecia ter perdido a língua e Tio Jim só falava: Esta é muito boa! Esta é( muito boa! e depois que ele botou a farda ele disse Filho, nós fizemos o melhor que podíamos. E George tudo que fez foi sorrir aquele sorriso que ele tinha quando não sabia o que dizer, e lá se foi.