Um pouco do seu sangue e outras histórias

Alfred Hitchcock · Capítulo 17 de 20

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Um pouco do seu sangue e outras histórias

— Puxa diabo, estou cozinhando aqui! — disse Butter.

SELEÇÃO NATURAL

GILBERT THOMAS

— Puxa diabo, estou cozinhando aqui! — disse Butter.

— Então volte para dentro do carro — volveu Craw.

— Não mesmo!

— Então cale o bico.

— É assar dentro do carro ou frigir cá fora. — i Está certo. Mas pare de falar nisso.

O gordo hesitou. — Desculpe, Craw — disse ele.

— Tá bem.

Craw tinha vontade de levantar-se mas não o fazia. O sol pegava o automóvel de viés, no ângulo das três horas da tarde, empoçando uma sombra ardente ao lado do estribo. Era ali que Craw se agachara, lidando com duas vasilhas de lata que lhe queimavam as mãos. Havia quase uma hora que martelava e cortava as latas. Tinha vontade de estirar as costas, olhar ao longo da estrada para ver se descobria sinais da aproximação de algum carro. Mas não queria virar o rosto para o sol.

— Dê uma olhadela à estrada — disse ele.

— Não vem nada — respondeu Butter. Mas pousou a mão carnuda no estribo e levantou-se, arfando. A cara de Craw tinha aquela expressão de quando estava danado e Butter sabia que o mais prudente seria levantar-se e olhar a estrada. E assim fez, respirando o ar tórrido, sentindo-o arder no seu rosto, encher-lhe os olhos de água. Nada. Para o norte, a estrada de terra solta estendia-se em linha reta, completamente vazia. Para o sul, fazia uma curva e desaparecia das vistas por trás das rochas vermelhas. Nada.

— Vê alguma coisa? — Craw voltara ao seu trabalho.

— Nem sequer um lagarto.

— Alguma poeira?

— Já disse que não tem nada.

Butter acocorou-se na sombra estreita e pôs-se a enxugar o suor com um trapo azul.

Tinham começado a viagem três dias atrás, partindo de uma vila do deserto que possuía uma bomba de gasolina, um armazém de campo, mas nenhum hotel. Era para ser uma viagem de prospecção, mas o que eles queriam na realidade era gozar a vida.

Atulharam o velho automóvel de latas de conservas, equipamento para acampar, ferramentas e água em bolsas de borracha. Craw procedera a uma revisão geral do carro antes de partirem,

— Pode ser velho, mas dará conta do recado — dissera. E Butter respondera:

— Você é quem manda — porque Craw tinha sido mecânico em Los Angeles. Mas não dera conta do recado, não. Nem por sombras. Talvez porque Butter se esquecera de incluir na bagagem a lata de dez galões de óleo. Não falou nisso a Craw para ele não se danar. Craw ficava sentado dentro do carro enquanto Butter verificava a água do radiador e o óleo do cárter. E Butter dizia sempre:

— Está tudo legal.

Mas a viagem poderia ter corrido sem novidade se não fosse uma pedra pontuda que se despencara de uma rocha à beira da estrada. O automóvel batera na pedra e a pedra furara a bacia do cárter. Volvido algum tempo, o motor explodira com o calor do atrito, com dois pistões cravados no bloco de ferro fundido.

Ficaram, pois, à espera junto do carro morto. Esperaram até terminar a água e parte da comida enlatada. Não apareceu ninguém...

Craw, sempre de cócoras, sempre a trabalhar nas latas, escutava o ruído seco da respiração do gordo. Butter. Todo mundo o chamava assim, por causa da gordura. Sua pele, esticada sobre as enxúndias, era amarelada. Mesmo agora, depois de ter recebido sol por tanto tempo (quanto tempo seria mesmo?), continuava amarelada. Butter. Haveria alguém mais gordo do que ele? Butter gostava de sopas untuosas, carne gorda, pastelões, cucas, batatas, refrigerantes gasosos — e raparigas esbeltas. Craw perguntava consigo como chegara a meter-se de gorra com aquela bota de manteiga. Não gostava dele. Mas era gozado, e as raparigas esbeltas não iam com Butter. Nesse instante, ouvindo-o respirar daquele jeito, sentindo-lhe o cheiro do corpo a derreter-se em suor ao seu lado, e lembrando-se do óleo...

— Eh! que é isto? Você ficou maluco? — beirou Butter, rolando para longe a fim de escapar aos punhos do companheiro.

— Sua baleia catinguenta!

— Mas Craw!

— Vou te matar!

Craw ouviu sua própria voz brotar-lhe irreprimivelmente da garganta, eSganiçando-se. Sentia os seus punhos batendo na carne mole, afundando-se nela. Acaso Butter sentiria alguma coisa por baixo de todo aquele toicinho, lá no fundo, onde começavam os ossos? Aquilo era fácil, demasiado fácil. Craw parou arrependido.

— Você está bem?

— Sim... não foi nada — respondeu Butter.

— Pegue a lata de baixo e esvazie o que ainda resta no radiador.

— Muito bem, Craw.

Butter esvaziou o radiador e trouxe a água ferrugenta. Não era muita. Craw acendeu uma pequena fogueira e começou a destilar a água.

— Eu não teria pensado nisso, Craw — disse Butter, encantado.

— Alguém precisa usar a cabeça.

— Quem sabe se depois de você terminar isso não será bom pegarmos a água e tratar de voltar a pé?

— Voltar para onde?

— Lembra-se daquela casa velha que deixamos a umas vinte milhas para trás?

— Você está disposto a andar vinte milhas? Butter fechou os olhos e chorou. Mas o seu suor parará de correr e seus olhos não tinham lágrimas.

— L. A. Estou pensando em L. A. — disse Butter.

— L. A. — repetiu Craw, mas num tom diferente.

— Você nunca simpatizou com o lugar.

— Uma porcaria!

— É a minha terra, Craw.

— Você só pensa nisso.

— É a minha cidade natal.

— Sua cidade natal agora é aqui.

— Não é, não, Craw.

— Pare de falar nisso. Cale o bico.

— Estive pensando que talvez vá morrer.

— Ah! claro.

— Você nunca pensou nisso, Craw?

— Todos têm de morrer, um dia".

— Sempre pensei que quando morresse seria em L. A.

— Eu me mudei daquela cidade e não pretendo voltar — disse Craw. — Não me deixou nenhuma saudade. E tampouco vou morrer, aqui ou lá.

— Se eu morrer, Craw, você me leva de volta para L. A. ?

— Levo, pois não. Se você morrer...

Ouviu-se, algures, o ruído de algum animalzinho. Começava a anoitecer. O calor pairava na atmosfera, indeciso, sem saber para onde ir, mas subindo aos poucos. O solo duro era o chão de um forno que iria irradiar calor durante umas três horas ainda. Depois viria o frio.

Butter sentou-se no estribo. Pigarreou, mas não conseguiu cuspir. Passou a língua sobre os lábios empoeirados, ergueu uma lata e tomou um gole de água.

— É bom nos pormos a andar duma vez — disse Craw. — Começaremos esta noite.

Butter baixou a lata e sacudiu-a. Meio litro, talvez.

— Em que direção? — perguntou ele.

— Na direção da casa.

— E se estiver vazia?

—i Não foi você mesmo quem teve a idéia de voltarmos para tá a pé?

— Eu só estava... — A voz de Butter extinguiu-se.

— Não há de estar vazia.

— Quem sabe se fôssemos na outra direção?

— Para aquela casa.

— Tá bem.

— Toca a andar — disse Craw.

Partiram. Craw ia na frente, carregando a lata de água. Butter seguia-o. Não olharam para trás.

A noite inteira? Haviam caminhado a noite inteira? Ou teria sido um dia e uma noite, ou dois dias? Seguiam caminhando. Craw sempre um pouco à frente. Butter aos tropeções, oscilando vagarosamente de um lado da estrada para o outro: um pêndulo mole e redondo. A estrada: terra dura, cheia de arestas, e Butter a tropeçar. Craw ouvia-lhe a respiração pesada, e uma vez o gordo choramingou, outra vez chorou alto. Mas não paravam um só instante. A água já se acabara... Quando haviam tomado o último gole? Não se lembravam de nada a não ser as rodeiras duras como concreto, as torcidelas nos artelhos, a curva da entrada à frente. Mas a casa não aparecia. Mais uma milha, e ainda nada! Finalmente Craw parou.

— Lá está... lá adiante. — disse ele, sem reconhecer a sua própria voz.

Butter tentou gritar, mas o som que lhe saiu da garganta era o de um apito sem a bolinha.

A casa tinha a cor da poeira em que assentava. Perdida no deserto com Butter e Craw. Um monumento fúnebre ao homem que sofria de artrite e que ali morrera, procurando curar-se. Seca. Vazia. Entraram e olharam em roda. Era um barraco de tábuas secas. Frinchas entre as tábuas. O assoalho cedera numa das extremidades, convertendo-se num plano inclinado. Não havia móveis, apenas uma frigideira pendurada na parede, junto ao lugar onde estivera colocado o fogão. No chão via-se um frasco vazio, com um rótulo que dizia Linimento Muscular do Dr. Fulano. Uma peça e nada mais, com uma porta na frente e outra nos fundos. Craw tentou praguejar e quase o conseguiu, enquanto se dirigia para a porta dos fundos, meio a deslizar sobre o piso inclinado.

Butter virou as costas e sentou-se no chão. Ouvia Craw fazendo força para abrir a porta dos fundos, mas não atentava para isso. Estava imaginando uma garrafa de cerveja gelada, toda orvalhada de gotas frias. Corria a ponta do dedo sobre a garrafa,, para cima e para baixo, fazendo escorrer as gotas. Levantava com a unha a etiqueta encharcada e mexia-a para cá e para lá. Depois sentiu o gargalo na boca e o primeiro jorro de cerveja fria na língua.

Havia em L. A. um cartaz de anúncio. A gente tinha quase a impressão de que podia estender o braço e pegar um daqueles três copos de cerveja, embaciados e gotejantes. Sorvete. Butter gostava de sorvete. Era um pouco mais difícil de recordar. Sim. Havia aquele bar no Bulevar Beverly, quase ao lado de Western. Vendiam sorvete ali, e ele sempre pagava extra por uma segunda conchada. Baunilha, como era bom lembrar-se... morango, chocolate, por favor, me levem para L. A.!

— Olhe isto aqui — tentou dizer Craw. Butter não alçou os olhos.

— Veja isto. — Craw deixou cair a lata ao lado dele. Butter virou-se e estendeu a mão.

— Querosene — disse Craw. — Porcaria de querosene, nessa lata. Só o que tem na casa. Achei debaixo do carro.

— Carro?

— Aí nos fundos.

Butter fez menção de levantar-se. Craw deu-lhe um empurrão.

— Não adianta olhar. — Quero ver.

Craw deu um pontapé na lata de querosene, depois estendeu a mão e ajudou Butter a levantar-se.

Sim, lá estava o carro sobre uma pequena elevação dos fundos da casa. Havia rodeiras na terra marcando a rampa. Quem o deixara ali havia usado sempre o mesmo lugar para estacioná-lo. O carro era velho.

Tentaram empurrá-lo, mas não se mexeu. O sol, o ar haviam-lhe secado toda a graxa, até o último resquício. E não tinha gasolina.

Uma massa inteiriça de metal abandonada ao sol, sobre uma pequena elevação. Os pneus eram de borracha maciça, dessa espécie que os mais precavidos usam nos caminhos do deserto. Os raios das rodas, outrora amarelos, mostravam a madeira cinzenta e nua com traços de amarelo perto dos cubos. O veículo era alto e estreito, de um tipo que hoje em dia raramente se vê neste país, mas que ainda é encontrado no México. Tinha quatro portas.

Craw abriu uma delas com dificuldade: precisava de lubrificação. Sentou-se atrás do grosso volante de madeira e experimentou puxar as alavancas. Tudo parecia estar em perfeita ordem — porém seco, não enferrujado.

Desceu do carro, empurrando ao passar Butter, molemente arriado numa postura grotesca. Não sabia como lhe viera a inspiração de examinar o motor. Levantemos o capo... Isso, está emperrado mas abre. Parece em ordem. Os fios? Em ordem. Quatro cilindros. Velas? Ainda não era possível saber. Mas até duas seriam suficientes. Talvez houvesse mais velas debaixo do assento ou na caixa de ferramentas. Ferramentas? Sim, tem. Ferramentas simples. Mas também o carro é muito simples. Verificar o óleo? Seco. A bateria? Morta, naturalmente. As escovas do dínamo? Claro, era por isso que o carro sempre ficava estacionado naquela elevação. Se por acaso morresse a bateria, bastava um bom empurrão para fazê-lo rolar pela rampa; então era só engrenar, largar de repente o debreador, e a máquina pegava a funcionar. Seria capaz de andar com a energia gerada pelas escovas do dínamo? Além disso, um carro podia trabalhar com querosene. Tinha visto casos. Muito barulho e muita fumaça, mas andava. E havia querosene. Pelo menos três galões, quem sabe se cinco. O bastante para ir a alguma parte. E Craw sabia que precisavam ir a alguma parte, o quanto antes.

Os dois homens sentaram-se nos degraus arruinados da poria dos fundos do barraco. Anoitecia de novo.

Butter tentou conversar.

— Talvez, se nós voltássemos para...

Craw compreendeu-lhe a intenção.

— Para trazer peças do nosso carro?

— Sim, é o que eu queria dizer.

Craw fez um esforço para levantar o braço. Como pesava!

— Você quer experimentar? — perguntou. Mas o seu pensamento sondava o carro velho — e Butter.

A inteligência de Butter degenerara em banha, e depois de alimentada esta não restava quase nada para o cérebro. Eu mesmo devia ter verificado o óleo; ele sempre comete erros, de modo que se alguém' teve culpa fui eu. Estava muito alquebrado para tornar a esmurrá-lo.

E então Craw se deu conta de que ia morrer sem que ninguém ficasse sabendo; e não era essa, em absoluto, a espécie de morte que planejara para si. Só Butter saberia, e ele ia morrer também...

Butter parará de pensar em coisas frescas. Sentado ali nos degraus, moribundo, murmurou:

— Quem me dera... estar... em L.A....

O carro velho estava lá em cima, banhado pelo luar. Eram dez horas e trinta e oito minutos quando Craw perguntou:

— Quanto você pesa?

— Cento... e quarenta e cinco — respondeu Butter depois «Ir algum tempo.

Passava de meia noite.

— Me ajude — disse Craw, levantando-se.

O gordo rodeava os joelhos com os braços, embalando-se para trás e para diante sobre as nádegas roliças. Dava a impressão de que estava gemendo baixinho de si para si, mas não estava.

—... a lidar no carro — concluiu Craw. E, com uma força.surpreendente, puxou Butter, obrigando-o a pôr-se em pé.

Tornou a abrir o capo e começou a apalpar o motor, explorando com as pontas dos dedos os lugares que havia explorado com a mente. Seguindo o caminho que a energia teria de percorrer.

— Pedras — disse. — Arranje umas pedras para botar debaixo do eixo.

O gordo afastou-se, obedecendo à ordem como um sonâmbulo.

Durante todo o resto da noite não se ouviu nenhum som além da respiração do gordo e das marteladas e tinidos de melai. Craw trabalhava sem cessar. Sabia que essa noite seria a última. E trabalhava, trabalhava...

O carro estava em cima das pedras, sem as rodas, O motor fora aberto. Fios, velas e tubos de metal enfileiravam-se metodicamente, com uma eficiência profissional, na terra dura. Havia montinhos de porcas e parafusos cuidadosamente separados sobre os estribos. O céu tomara uma cor arroxeada com a aproximação do dia.

Butter tinha espasmos no seu sono. Craw deteve-se um instante a contemplá-lo, depois virou-se e caminhou na direção da casa. Andava com uma rapidez surpreendente. Junto à porta dos fundos havia um enorme tambor de óleo, redondo e pesado, que lhe chegava à altura do peito. Tinha um pequeno buraco no fundo, para ventilação. Fora usado como incinerador.

— Em que casa ele está? — perguntou o velho.

— Em casa de Ned — respondeu uma mulher.

— É o carro mais esquisito que já vi na minha vida — disse alguém.

— Me parece que já o tinha visto por aqui, há alguns anos atrás — comentou um outro.

— O homem não regula bem?

— Doido varrido, segundo disse Les.

— Como será que ele conseguiu sair do deserto nesse calhambeque?

Era uma cidade pequena, uma vila do deserto, com um posto de abastecimento, um armazém de campo e sem hotel. Um grupo se formara em redor de um carro velho, estacionado perto da bomba de gasolina. Era um acontecimento, num lugar onde jamais acontecia coisa alguma; por isso todos faziam perguntas.

— O doutor está lá tratando dele —« disse a mulher, que usava um chapéu e parecia mais bem-informada do que os outros,

— Chi! — exclamou um garotinho de dez anos, talvez. — Como fede!

— É mesmo, não é? — disse o velho, examinando o carro.

— O doutor acha que ele se salva?

— Diz que depende do tempo que ele passou no deserto — respondeu a mulher. — Pode ser que morra.

O sol já estava alto e começava a arder. O velho automóvel não ficara à sombra. O garotinho fez uma careta, tapou o nariz e correu ao armazém geral para tomar um refrigerante. A mulher do chapéu retirou-se e os outros foram se dispersando aos poucos.

Craw tomou o caminho do posto de abastecimento e da velho carro. O doutor queria que ele repousasse mais tempo, m;is não podia repousar. Sabia o que tinha de fazer.

— Vai bem, companheiro? — perguntou o homem da bomba.

— O carro está aqui?

— Nós 'temos uma porção de carros — disse o outro. — De qual deles está falando?

— Do... do carro velho. Daquele que... Mas o homem o interrompeu.

— Eh! você não é o cara que veio do deserto dirigindo aquela traquitana? Claro, eu não podia reconhecê-lo. Mas quer mesmo o tal carro?

— Onde está ele?

— Se quer vendê-lo como ferro velho...

— Onde está o carro?

Nesse momento Craw avistou-o, estacionado à margem dá estrada. Mandou o encarregado da bomba pôr gasolina.

— Vai viajar nesse calhambeque?

— Acabou de encher o tanque?

— Sim, mas é bom verificar o óleo...

— Tenho óleo que chegue.

— De água está bom. Escute, o que é que tem aí nesse radiador?...

— Aqui está o seu dinheiro.

— Para onde vai, meu?

— Los Angeles — disse Craw.

— Que é isso, está maluco? — perguntou o homem da bomba. — Nunca chegará lá.

—- Hei de chegar — respondeu Craw.

REFÉM

DON STANFORD

Por solicitação do Sr. Cochrane, corrigi a maior parte de seus deslizes gramaticais e tratei diligentemente de atenuar o pendor para a incoerência que tanto se fez notar do público que o observou na televisão durante os recentes inquéritos criminais do Congresso, Feita essa ressalva, porém, o que aqui se lê ê essencialmente a história' que me foi narrada pelo Sr. Cochrane, tal como deseja que ela chegue ao público.

(Assinado) Don Stanford

Em primeiro lugar quero dizer que agora sou estritamente legal, e há muito tempo que o sou. Foi o que eu disse àqueles senadores na televisão e é a pura verdade; e quem disser que prestei falso testemunho está mentindo. Pode ser que não esteja lá muito bem informado sobre o emprego dado aos meus capitais, mas para que me ocupar com isso enquanto eles me trazem bons lucros? Sou, de fato, proprietário daquele "country club" nos arredores de Nova Orleans, e é um negócio rendoso como muitos outros de meus investimentos. Tenho bons assessores comerciais, Nunca pus os olhos nesse clube, e se é verdade que há jogatina por lá não estou a par disso nem me interessa saber.

Há muitos anos que levo uma existência inatacável. Faço investimentos rigorosamente legais e sou um cidadão legal. Pago os meus impostos de renda e contribuo para obras de caridade. Tenho ótimos amigos nas mais altas posições, os quais confirmarão o que digo. Durante muito tempo o prefeito de Nova Iorque foi um grande camarada meu e — se não quiserem acreditar, não acreditem, mas eu poderia ter sido embaixador dos Estados Unidos se assim o desejasse. O mesmo iria acontecer também sob o atual governo dentro de um ou dois anos, se não fosse esta história que vou lhes contar. Agora está tudo acabado. Mas não me parece justo que tal coisa possa suceder a um cidadão estritamente legal dos Estados Unidos.

Passarei por alto os antecedentes, que todo mundo conhece por tê-los ouvido o ano passado na televisão. Já devem saber, portanto, que nasci na Sicília em 1901 e que meu nome Daquela época era Pasquale Cocciani, mas agora é legalmente Pat Cochrane e eu sou um cidadão norte-americano naturalizado e estritamente legítimo. Passei algumas pequenas temporadas em cana, mas por bagatelas como as em que se vê envolvido qualquer rapaz novo e de sangue quente — furtar um automóvel, por exemplo. E já falei tudo que era preciso sobre o fato de ter possuído uma cervejaria em Jersey no tempo da Lei Seca; mas pagava pontualmente os impostos de renda, de modo que esse também era, na realidade, um negócio legal. Se bem que não tão legal como sou agora, é claro. É uma grande injustiça me qualificarem como um chefe de organizações criminosas nos Estados Unidos quando ninguém pode provar semelhante coisa; e o meu maior desejo seria pôr o dedo em alguém a quem pudesse processar, a fim de defender o meu bom nome.

Bem, agora quero ir diretamente ao assunto e contar o que me aconteceu, porque foi uma grande injustiça e acho que todos devem ficar cientes disso.

Gosto de almoçar no Bar dos Cavalheiros do Waldorf-Astoria, pois é um estabelecimento de muita classe onde só se encontra gente de alta categoria. Alguns desses homens eu conheci ali mes: mo, no Bar dos Cavalheiros, quando se dirigiram a mim pedindo que contribuísse para esta ou aquela obra de caridade. Est.v claro que nunca recuso um pedido dessa ordem — aposto que não há ninguém, em Nova Iorque, que tenha comido tantos jantares a mil dólares o prato quanto eu — e, em geral, o homem que esteve sentado ao meu lado num desses banquetes continua mantendo relações de cortesia comigo mais tarde. Todos esses são excelentes contatos para um cidadão legal como eu e, embora nunca faça negócios com os homens que encontro no Bar do Waldorf, dou grande valor às relações sociais que tenho com eles.

Mas, naturalmente, tornou-se conhecido através da televisão que eu costumo almoçar quase todos os dias no Waldorf. Tinha-me esquecido disso. Antes não tivesse sido divulgado o fato, pois assim, talvez, esses garotos não saberiam onde me encontrar nada do que vou contar teria acontecido.

Era num sábado e eu estava tomando um aperitivo no bar antes do almoço, quando entraram os rapazes. Tinham quase todo o cabelo raspado à máquina, vestiam roupas cinza-escuro de Brooks Brothers com camisas cor-de-rosa, gravatas pretas de tricô o sapatos colegiais brancos com uma tira marrom sobre o peito do pé, bastante sujos; à primeira vista se percebia que eram filhos de gente muito rica e estudavam em alguma universidade grã-fina. Entraram no bar, olharam para todos os lados e vieram direito a mim.

— O Sr. Cochrane? — disse um deles, que parecia meio nervoso. — Queira desculpar-nos, senhor, mas... meu pai pensou que eu talvez pudesse encontrá-lo aqui. Desculpe-me, eu me chamo Peter Minot e este meu companheiro é Bart Ewell. Meu pai é Harrington Minot, Sr. Cochrane. Ele achou que o senhor Talvez se lembrasse de tê-lo encontrado num jantar, há dois ou três meses atrás.

— Pois claro — disse eu. — Prazer em conhecê-los, rapazes. Aceitam um "drink"?

Quase caí para trás, sabem? Lembrava-me perfeitamente de ter encontrado Harrington Minot, mas seria capaz de apostar que ele não se lembraria disso, ou não teria admitido que se lembrava. É um homem da mais alta sociedade e, além disso, podre de rico. Por mais legal que a gente seja, não é muito comum encontrar-se com Harrington Minot, e ele, por seu lado, nunca torna a procurar aqueles a quem encontrou uma vez. De modo que eu estava radiante por ser visto no bar do Waldorf-Astoria pagando um "drink" ao filho de Harrington Minot e ao seu distinto colega da universidade grã-fina.

— Ora... Não, muito obrigado, Sr. Cochrane — disse polidamente o jovem Peter Minot, que continuava um tanto nervoso e inquieto. — O fato é que meu pai gostaria, se possível, que o senhor viesse agora mesmo à nossa casa. Ele disse que se o senhor ainda não tivesse começado a almoçar, se pudesse nos dispensar alguns minutos... É um assunto muito urgente, Sr. Cochrane. Papai disse que consideraria isso como um grande favor. Bem, compreendem... É fazendo favores que a gente consegue subir neste mundo — fazendo favores a pessoas que valiam a pena, quero dizer. E, entre todos aqueles a quem eu tivera a oportunidade de prestar um favor até então, não havia ninguém que valesse mais a pena do que Harrington Minot. Portanto, deixei o meu "drink" no balcão sem terminar de bebê-lo, atirei cinco ferros ao encarregado do bar e fui logo dizendo, temo se compreendesse o caso e estivesse ansioso por prestar serviço:

— Pois claro, rapazes. Vamos lá.

Bem em frente do Waldorf estava o meu Cadillac com o meu chofer à espera, como sempre. Nunca deixa o automóvel quando saio para o caso de eu ter pressa em ir a algum lugar. Não é que eu tenha medo de que coloquem uma bomba no carro, como disse Winchell. Isso é uma mentira, pois quem ia pensar em atentar contra a vida de um cidadão estritamente legal como eu? Tampouco é verdade que Al Fiore, o meu chofer, seja ao mesmo tempo um guarda-costas. Que necessidade tenho de um guarda-costas, sendo, como sou, um simples homem de negócios? O jovem Minot foi abrir a porta de um desses carros de esporte estrangeiros, abertos e de suspensão baixa, e eu fiz sinal a Al Fiore para que ficasse com o Cadillac. Nunca tinha andado num desses carros estrangeiros e me daria gosto voltar para casa mais tarde no automóvel do Sr. Harrington, dirigido pelo chofer dele. Isso causaria uma ótima impressão. Não havia a menor dúvida, é claro, quanto à identidade dos garotos, mesmo que o porteiro não tivesse largado a porta do meu Cadillac para correr adiante do jovem Minot, Peter, e abrir para ele a porta do carro de esporte. Podem crer-me quando lhes digo que o porteiro do Waldorf sabe com quem lida.

A casa de Harrington Minot fica na Quinta Avenida. Como homem de negócios, entendo o meu bocado sobro os custos de manutenção de uma propriedade em Nova Iorque e posso garantir-lhes que Harrington Minot não gasta menos de 150.000 dólares por ano só para manter aquela casa. E olhem que essa é apenas a sua casa da cidade!

Havia dois carros da polícia sem marca e cheios de investigadores, estacionados na mesma quadra, perto da casa de Minot. Não sei se os rapazes os reconheceram, mas eu reconheci, e isso me fez tomar tento. Pelo jeito, Harrington Minot talvez necessitasse mesmo de um favor. Acontece que qualquer pessoa pode se ver metida em complicações com a polícia uma vez na vida, e um homem de alto gabarito como Harrington Minot talvez não saiba como agir num caso dessa espécie.

Isso foi tudo que me veio à cabeça, absolutamente tudo. Eu tinha a consciência limpa, como sabem. E dizia comigo: "Bem, ainda tenho algumas boas relações no Conselho Municipal, e se Harrington Minot precisar de qualquer espécie de favor eu terei prazer em prestá-lo."

Não tive tempo para perguntar aos meus botões em que espécie de complicação podia estar envolvido Harrington Minot, porque Peter Minot resmungou qualquer coisa mais ou menos como "Estes malditos tiras!" e passou pela frente da casa sem parar. Dobramos rapidamente a primeira esquina, entramos numa travessa e paramos ali. O outro garoto, Bart Ewell, disse delicadamente:

— Como o Sr. Minot quer falar consigo em particular, Sr. Cochrane, achei preferível entrarmos pela porta lateral e irmos diretamente ao gabinete dele. Espero que isso não lhe desagrade, cavalheiro.

Essa história de "cavalheiro" é que me leva os trocos. Gostaria de ter um garoto com esses ares de escola grã-fina. Mas por outro lado, não desejaria que ele se parecesse com esses dois a certos respeitos.

Bem, o jovem Minot abriu uma porta lateral da casa com uma chave que levava consigo e entrou na frente. O jovem Ewell colocou-se polidamente de lado, como para me deixar passar primeiro e quando eu ia atravessando a porta ele me sentou uma paulada na cabeça.

Suponho que tenha usado um cassetete comum, porque não me produziu nenhum corte na pele. Também o jovem Minot deve ter-se voltado para me agarrar quando caí, de modo que os que estavam em casa não ouvissem o menor ruído.

A primeira coisa que me lembro de ter sentido ao acordar foi o cheiro de hospital. Estava com as idéias bastante embrulhadas, pois sentia uma dor noutra parte do corpo além da cabeça e durante alguns minutos não pude atinar com o lugar A dor não era muito forte — apenas umas pontadas que não pareciam ser coisa realmente séria mas que me incomodavam um pouco, e o cheiro de hospital me dava engulhos. Abri o? olhos sem ter tido tempo de pensar no que estava acontecendo; mas mesmo que o tivesse, não teria acreditado.

Quanto a estar na casa de Harrington Minot, não havia dúvida. Isso eu pude perceber logo. Tinham-me deitado numa. espécie de poltrona de couro reclinável que se achava estendida, de modo que eu ficava olhando para o teto a não ser que movesse a cabeça e assim que o fiz senti umas tonturas e fui obrigado a me deitar de novo. Mas esse rápido olhar bastou para tomar nota de toda a peça, da bacia esmaltada de branco em cima da mesa, de onde parecia vir aquele cheiro de hospital, e dos garotos.

Eram quatro, agora. Os outros dois eram iguaizinhos a Peter Minot e Bart Ewell — rapazes de universidade grã-fina com o cabelo cortado à cadete e o mais que segue; mas um deles era menor do que os outros, com enormes óculos de aro prato e uma cara de coruja, e o outro tinha posto um avental branco de hospital, com um gorro branco muito apertado e luvas de borracha. Havia uma mancha de sangue nesse avental. Todos os quatro garotes estavam com a cara muito pálida, como se fossem vomitar a qualquer instante. E com o cheiro, a esquisita confusão na cabeça e aquela outra dorzinha que ainda não sabia bem onde ficava, eu também tinha a impressão de que ia lançar carga ao mar.

— Ele já acordou — disse Bart Ewell. E outra voz, que devia pertencer ao garoto fantasiado de médico com o avental branco, ajuntou:.— Sim, está voltando a si. Pode falar agora, Peter.

— Sr. Cochrane.— disse Peter Minot, chegando mais perto para que eu pudesse olhá-lo sem mover a cabeça. Sua cara estava muito branca, seus lábios tremiam e não tinha a voz muito segura, mas havia no seu jeito qualquer coisa que me assustou, se é que podem imaginar um homem como eu assustando-se de um garoto. — Sr. Cochrane, meu pai não nos mandou chamá-lo. Ele nem sabe que o senhor está aqui. Ninguém sabe a não ser nós. E o senhor, naturalmente.

"Sr. Cochrane, Bart e eu voltamos de New Haven ontem à noite. Tencionávamos ir a uma festa. Bart ia levar minha irmã Lorrie. Tinham combinado isso desde o último verão..."

Aí a voz do jovem Ewell veio interrompê-lo, e ao ouvir o som dessa voz me felicitei, de certo modo, por não poder ver-lhe a cara. Ainda ignorava o que estava se passando, mas as coisas começavam a parar de um jeito que não me agradava nem um pouco.

— Lorrie tem dezessete anos, Sr. Cochrane — continuou o jovem Ewell falando de mansinho. — Ainda está na escola secundária. Não vai debutar senão em abril que vem. Não faz idéia de quanto Lorrie é linda e encantadora.

— Lorrie não estava em casa quando chegamos — disse Peter Minot, com uma boca retorcida que o fazia parecer muito mais velho. — Não tinha voltado da escola. E não voltou até agora, Sr. Cochrane. Foi raptada.

Tentei então sentar o corpo na poltrona, protestar, dizer-lhes que sou estritamente legal e não sei absolutamente nada sobre crimes. Mas quando levantei a cabeça tornei a sentir aquelas tonturas e tive de me deitar de novo.

— Por volta das sete e meia o telefone chamou — continuou Peter Minot. — A mesma coisa de sempre, imagino. Não chamem a polícia que nada acontecerá a ela. Arranjem cem mil dólares em notas de pequeno valor, usadas, e aguardem novas instruções...

Pareceu engasgar-se um pouco, mas a sua voz se firmou e ele seguiu falando:

— Sr. Cochrane, meu pai é um homem honrado, um homem digno e... e teimoso. Ficou chocado. A princípio não podia acreditar. E quando afinal se convenceu, fez exatamente o que teria feito de qualquer modo em tais circunstâncias, chamou a polícia. Desde a noite passada estamos com a casa rodeada de polícias e, naturalmente, eles não têm um só indício em que se basear. Fazem o que podem, mas a verdade é que nada podem fazer. Talvez, com o tempo, venham a descobrir quem raptou Lorrie, mas seria tarde demais para ela, em vista de... de...

Sua cara de menino bem-educado ficou toda retorcida e vermelha, e de repente sumiu-se, aparecendo a cara de Bart Ewell em seu lugar.

— Esta manhã — disse Bart Ewell baixinho — veio um mensageiro com uma caixa e um bilhete. A polícia prendeu o mensageiro, está claro, mas ele não sabe de nada. O bilhete dizia que o Sr. Minot poderia receber Lorrie de volta, pedaço por pedaço, se continuasse a desobedecer às instruções, mas se ele se livrasse da polícia e fizesse o que lhe diziam, ainda poderia receber o resto dela de uma só vez. E a caixa continha um dedo da mão de Lorrie.

Um soluço partiu da garganta de Peter Minot e um frio me correu pela espinha, dissipando toda aquela confusão que sentia na cabeça. Mais que depressa, sentei o corpo na poltrona, pois, embora sem realmente acreditar naquilo — simplesmente não podia acreditar! — sabia agora de onde vinha aquela dorzinha insistente e queria olhar.

— Era o dedo mindinho da mão esquerda de Lorrie, Sr. Cochrane — dizia Bart Ewell. E não é que descubro uma atadura na minha mão esquerda? Aliás uma atadura cirúrgica, muito bem-feita. E as pontadas de dor provinham do meu medo mindinho, só que não havia mais dedo, apenas a atadura.

— Aqui está ele, Sr. Cochrane — disse Bart Ewell. E apanhou a bacia esmaltada de branco, metendo-na debaixo do nariz com tanta violência que derramou na minha roupa um pouco daquele líquido com cheiro de hospital. Depois pegou alguma coisa dentro da bacia e a atirou ao meu colo. Era o meu dedo.

— Se nos mandarem outro dedo esta noite — disse Bart Ewell, passando a falar numa voz clara e dura, — ou um olho, ou uma orelha... Sr. Cochrane, este aqui é Harry Finnister. Harry é estudante de medicina. Nós o mandamos chamar hoje de manhã, depois de ter conversado com Dean Leggett. Aqui está Dean, um rapaz de muito boa cabeça, e foi ele quem planejou tudo.

— O senhor é o nosso refém — disse o baixote de olhos de coruja, Dean Leggett, pestanejando com força por trás dos enormes óculos de aros pretos. — Tudo que acontecer a Lorrie vai lhe acontecer também, Sr. Cochrane. Absolutamente tudo. Como vê, O Sr. Minot não pode mais livrar-se da polícia. Agora é tarde. Chamou-a, e agora não há jeito de se desfazer dela. De modo que, se a polícia não pode fazer com que eles devolvam Lorrie sem lhe cortarem mais nada, o senhor Cochrane é quem vai tratar de consegui-lo. Porque tem tanto a perder nesta história quanto Lorrie.

Eu tinha já a cabeça perfeitamente clara. Qualquer coisa, dentro de mim, ria-se como doida, garantindo-me que isso era absurdo, que simplesmente não podia ser, que gente civilizada não agia dessa forma. E, em todo caso, não havia razão para que procedessem assim comigo. Que Deus me castigue se alguma vez em toda a minha vida me envolvi em histórias de raptos, e há vinte anos que renunciei a qualquer processo brutal que pudesse comparar-se mesmo de longe a isso. Mas, olhando para as caras desses quatro garotos tão bem-educados, notei em todas elas a mesma expressão, fosse lá o que fosse, que me fez estremecer, afianço-lhes.

Não reclamei pelo fato de me terem cortado fora o dedo. Pensei nos outros dedos, nos olhos e nas orelhas que me restavam, fazendo votos para que não viesse a perdê-los; e os fazia muito a sério, podem crer-me. E pensava também que, fossem lá quem fossem os cafajestes que haviam raptado a pequena Lorrie Minot, podiam assustar-se agora que a polícia estava metida no assunto e dar cabo dela. E não tinha a menor dúvida de que o pequeno Leggett, ao prevenir que tudo que acontecesse à pequena me aconteceria a mim também, queria significar realmente tudo.

— Dou-lhes a minha palavra, rapazes — disse eu sem grandes esperanças — de que faria tudo que estivesse no meu poder para ajudá-los. Mas não entendo nada de raptos. Eu sou um homem de negócios legal, rapazes, nem sequer tenho mais contatos.. hoje em dia...

— Bem o cremos, Sr. Cochrane — retrucou o garoto de olhos de coruja, sem abandonar as suas maneiras corteses. — Sabemos que o senhor não é responsável, diretamente. Mas indiretamente, é responsável, e foi por isso que o tomamos como refém. Acontece, Sr. Cochrane, que o senhor agora é rico, goza a sua vida em segurança e a lei nada pode contra o senhor. São exemplos como o seu que inspiram os novatos no crime a raptar gente e o mais que segue.

— Deixe lá isso — atalhou Ewell, afastando o jovem Leggett — Trate de fazer alguma coisa, Sr. Cochrane. O senhor vai ficar aqui nesta sala até que ela volte para casa. Então poderá ir embora — exatamente nas mesmas condições em que ela tiver chegado. Entendeu?

— Temos um telefone aqui mesmo — disse Leggett, trazendo-o para mim. — Chame quem quiser.

Apoderei-me do fone quase com sofreguidão, mas então vi os olhos de coruja do jovem Leggett lendo-me os pensamentos, notei o sorrisinho desdenhoso nos seus lábios e senti, pela primeira vez, toda a gravidade da minha situação. É que o meu primeiro impulso tinha sido chamar a polícia. Com mil diabos, eu tenho ficha limpa, o Chefe de Polícia sabe disso, e aliás me deve um favor. De modo que ia chamar o Chefe para lhe dizer que viesse me buscar.

Mas depois pensei, e vi que o tal Leggett lia o meu pensamento: "Como é possível?" E tive no mesmo instante a resposta, que aquele infernal garoto sabia há muito tempo: Não havia jeito algum de Patsy Cochrane convencer o Chefe de Polícia, ou fosse lá quem fosse, de que estava cm casa de Harrington Minot, prisioneiro do filho deste e de uma porção de seus colegas de universidade, que lhe iam cortando fora os dedos um a um. Nem minha mãe teria acreditado nessa história, e eu mesmo lutava com dificuldade para acreditar.

De modo que fiquei ali sentado, com o telefone na mão direita, olhando para a esquerda com os seus três dedos muito bem enfileirados e uma bela atadura que começava a se tingir de vermelho no lugar onde deveria estar o quarto dedo. E compreendi naquele momento que estava fuzilado, sem que fosse por minha culpa. Eu, um homem limpo como um pároco de aldeia, poderia dar-me por muito feliz se saísse com vida dessa entalada, quanto mais continuar levando uma existência limpa de homem de negócios legal, relacionado com gente da alta!

Comecei por chamar o meu advogado, mas ele não havia ainda atendido quando me lembrei de que não era o advogado que trabalhava para mim em outros tempos. É um ex-senador federal, excelente para tratar dos assuntos de um homem de negócios, mas não podia prestar para aquilo que se fazia preciso agora.

Pedi, pois, um guia telefônico aos rapazes, e depois de longa procura encontrei o número do advogado que tratava dos meus casos antigamente, quando eu tinha aquela cervejaria em Jersey. Fiz votos para que ele ainda se mantivesse em contato com alguns dos indivíduos que tinham negócios comigo naquela época, pois eu não me envolvo mais com gente de baixa categoria.

— Lepke — disse-lhe eu, — no momento, isto é para mim o que há de mais importante no mundo. Não faço questão de despesas. Esta garota foi raptada e quero que ela seja devolvida à família sem que lhe façam mal algum.

— Quem foi que a raptou? — perguntou Lepke.

— Como vou saber? Só sei que se a polícia se mete no meio ela vai sofrer, e se ela sofrer eu... Bem, não quero que a maltratem de modo algum, entende? A cidade está cheia de bicheiros. Um deles deve ter ouvido alguma coisa. Descubra quem manda agora no jogo do bicho e mexa com os pauzinhos*.

* Não se trata, aqui, exatamente de jogo do bicho, mas de seu equivalente norte-americano, o "numbers pool", não menos ilegal do que aquele. Baseia-se, não nos finais dos primeiros prêmios de uma loteria oficial, que lá não existe, mas sim nos dos totais das apostas diárias feitas nas corridas de cavalos e coisas semelhantes. A liberdade que tomo tem em vista conservar a nota pitoresca. — N. do Trad.

— Você é quem manda no jogo do bicho, Patsy — respondeu a voz de Lepke. Por aí podem fazer idéia do que eu quero dizer quando falo em ser um cidadão legal. Como vêem, tinha capitais; investidos no negócio do bicho sem nem sequer saber disso. Tampouco desejava que Lepke me informasse de tal coisa, mas esse detalhe ele ignorava. — Quanto você está disposto a gastar, Patsy?

— Meio milhão. Um milhão, se for preciso. Contanto que seja rápido. E eficiente. Não esqueça que não devem fazer mal nenhum à garota.

Pude ouvir Lepke estalar a língua e lembrei-me de que os negócios de um milhão de dólares não lhe apareciam com muita freqüência desde a Revogação. Mas eu possuo mais milhões do que dedos e, no momento, os meus dedos tinham mais valor para mim.

— E quanto aos raptores, Patsy? — perguntou Lepke. Refleti por um instante e respondi, com absoluta dignidade:

— Não creio que seja possível reabilitar gente tão baixa e recuperá-la para a sociedade civilizada. Que me diz você, Lepke? Acho que se devia tomar medidas para que criminosos dessa espécie não continuem a representar uma ameaça para a comunidade.

— Entendido! — disse Lepke. — Sim, senhor, Patsy, eu pensava que você tinha ficado frouxo quando se tornou legal, mas vejo que estava muito enganado. Então um milhão, hem? O.K. Você terá o que quer.

E assim foi. Não sei como foi encontrada a garota nem por quem, e tampouco desejo saber. Ignoro igualmente que fim levaram os raptores, embora Lepke me garanta que eles não tornarão a roubar o sossego às pessoas de bem. Paguei-lhe um milhão e até acho barato; e quanto ele pagou a este ou aquele, e por que espécie de serviço, é coisa que não me interessa saber. A pequei na Minot chegou em casa nas primeiras horas da tarde de domingo, lépida e fagueira, toda orgulhosa da atadura que trazia na mão cujo dedo mindinho fora decepado. Não lhe haviam feito mal nenhum, disse ela; arranjaram um médico para fazer o serviço. No primeiro instante ficou um pouco emocionada por me conhecer, dizendo que eu era o seu ídolo depois de Johnnie Ray. Uma tolinha, mas muito graciosa.

É claro, porém, que esta história vai se espalhar agora e, nessas condições, posso considerar minha vida como liquidada. Não lamento particularmente a perda de meu dedo, e por certo não me queixo do dinheiro que gastei para salvar essa garota tão simpática. Mas percebo muito bem que não terei grandes possibilidades de fazer relações sociais com gente de alto gabarito depois que isto for sabido. E não é só.

Porque esses garotos deram começo a uma coisa horrível e não creio que seja possível fazê-la parar agora. Se vão me considerar pessoalmente responsável por tudo que é crime, tenha eu participado ou não...

Ora, que diria o leitor se todos os habitantes da cidade, ou talvez mesmo do país, se julgassem no direito de vir quebrar-lhe as ventas quando um ladrão lhes tivesse arrombado o apartamento ou alguém lhes tivesse feito trapaça num jogo de dados? Não, não me parece que eu possa continuar a levar uma existência sossegada e legal, ou qualquer espécie de existência, a não ser que passe a viver escondido. E é o que vou fazer. Estou liquidando os meus investimentos para deixar o país.

Mas nem por isso deixo de pensar que é uma grande injustiça.