Um pouco do seu sangue e outras histórias

Alfred Hitchcock · Capítulo 16 de 20

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Um pouco do seu sangue e outras histórias

Simone

JOAN VATSEK

TED FIELDING olhou com desagrado para os seus pés calçados de sandálias, afundando na ardente areia egípcia da longa praia branca de Alexandria, conhecida por toda a cidade como la plage. As sandálias eram feitas de brilhantes tiras de couro trançadas, esplendorosas, custosas e nada de seu gosto. Simone lhas dera de presente, fazendo questão de que as usasse.

— Não pode deixar de fazê-lo, mon chéri. Sempre há cacos de vidro na praia. Não pode arriscar-se. Use-as, porque esse 6 o meu desejo.

Ted sentira-se revoltado com isso, achando que um homem, afinal de contas, devia ser dono de seus pés; não obstante pusera as sandálias.

Caminhavam indolentemente na areia tórrida — Ted, Simone e Georges, o marido desta. Simone presidia à marcha. O olhar de Ted fixou-se nos pés desta, bem tratados, com as unhas magnificamente polidas, em suas sandálias de entre-dedos e sola de cortiça; depois passou aos do marido. Pelo visto, pouco se lhe dava a ela que Georges pisasse num caco de vidro, pois ia descalço. À frente do grupo cabriolavam as duas cadelas dinamarquesas, puxando pela trela que Simone segurava, deixando pegadas dançantes e fazendo buracos na areia.

— Minhas damas de companhia — era como as chamava, apresentando-as gravemente como "as únicas amigas do meu sexo em quem posso confiar". — Dê a mão, Zara! N'est-elle pas comme il faut? E agora você, Shireen!

A esta ordem os pobres brutos erguiam uma enorme pata e a colocavam na mão relutante do novo conhecido, alçando para ele os olhos melancólicos. Simone gostava de sentar-se numa cadeira com um animal estendido no chão a cada lado, as mãos finas e delicadas a brincar com o pêlo dos dois toutiços enquanto as cadelas cerravam os olhos e voltavam para ela as cabeças majestosas. Simone e seus cães invariavelmente causavam sensação à la plage, esse mesmo movimento momentâneo entre os ociosos estendidos na areia que provocava um penteado novo, um elegante maio, um personagem desconhecido ou um novo brinquedo pneumático de borracha. Esse trecho privado da praia era propriedade de pessoas que tornariam a encontrar-se em Paris ou na Riviera, quando já não fosse moda permanecer no Egito. Ali saudariam uns aos outros com surpresa e alegria postiças, e mergulhariam na mesma rotina social de antes.

La plaga, segundo Ted viera a descobrir, significava uma orgia de vadiagem e mexericos durante todo o santo dia; significava ficar reclinado numa esteira sob um imenso guarda-sol protetor. Havia jogos de dardos e de parchesi, e, para alguns eleitos, intermináveis sessões de bridge nos pórticos das cabinas. Para outros, uma jogatina modesta mas ininterrupta. Nunca faltavam os "drinks" e a comida copiosa, servida a intervalos regulares pelo soffragi árabe. O banho de sol era um ritual à la plage e os banhistas nadavam preguiçosamente nas tépidas ondas do Mediterrâneo que se quebravam nas areias do Egito com um doce murmúrio e pouca espuma.

Ted notou, com uma sensação desagradável, que a praia estava apinhada de gente em várias fases de assalto e entrelaçamento corporais, por brincadeira, como um montão de lagostas ou lagostins perneando ao sol ardente.

E, no meio deles, Simone escolhia delicadamente o seu caminho, indiferente aos comentários. Sua cabeça, suportada pelo longo pescoço, era um pouco menor do que seria de esperar — o único defeito que tinha. Os olhos eram escuros, os lábios cheios de mobilidade, e a pele cor de amêndoa, lisa, suave e luminosa. Bastava-lhe caminhar assim na areia para prender a atenção dos homens. Estes viravam-se para observá-la e todos os olhos grudavam-se ao movimento de suas cadeiras e às compridas, infatigáveis pernas.

A aba de seu casaquinho branco de praia bateu em Ted. Tinha um monograma bordado em vermelho e ouro a um dos cantos. O mesmo emblema ornava o "hall" de seu apartamento, que semelhava um museu, com uma panóplia e uma lança a um canto, móveis maciços com pesadas patas de leão, e um grande escudo por cima da lareira, com o brasão em prata batida.

"Que sala ridícula!" pensara ele na primeira vez que Georges o tinha convidado para jantar ali.

Isso fora dois meses atrás, quando o tinham convidado para decorar a joalheria de Georges na Rue Zaghloul, principal artéria comercial de Alexandria. Georges queria um exterior moderno e, dentro da loja, um balcão de vidro suspenso do teto.

— Como este — dissera ele, mostrando uma ilustração de revista norte-americana. — Foi por isso que mandei vir um moço de talento. De uma boa firma americana de arquitetos. Sempre escolho o que há de melhor.

Georges podia dar-se esse luxo. A joalheria era sua e o apartamento pertencia a Simone. Provinha de uma família suíça de relojoeiros e joalheiros. Ted perguntava aos seus botões como ele chegara a envolver-se com Simone.

Devia ter casado com ele pelo dinheiro, é claro. Georges a desposara e acabara fazendo exatamente o que ela queria, tal como ele, Ted, que se deixava ficar em Alexandria para estar junto de Simone.

Todavia, no matrimônio entre o respeitável Georges e a vivaz Simone havia qualquer coisa além do dinheiro. Outros homens ricos deviam ter desejado desposá-la; por que, então, escolhera Georges? Algum laço poderoso os unia, e isso se tornava evidente quando estavam juntos.

Simone voltou de leve a cabeça, como se adivinhasse os seus pensamentos.

Seus olhos subiram-lhe despreocupadamente pelo corpo bronzeado e vigoroso, até os cabelos ruivos, depois pousaram-lhe nos lábios antes de se fixar nos olhos e de sorrir para ele.

Simone deu de ombros e sua mirada deslocou-se para a baía aberta e o céu azul. No meio da baía havia uma ilha e alguns barcos a vela bordejavam diligentemente, demandando a praia.

O olhar de Ted acompanhou o dela, e de repente sentiu uma grande saudade do alto mar. Como seria esplêndido estar agora a bordo de um navio, a caminho de casa!

Se pudesse libertar-se de Simone! Mas até longe de sua presença pensava nela. Enquanto pensasse nela, jamais poderia deixar Alexandria.

A cada passo sentia as suas sandálias. Tinha desejos de atirá-las longe, jogar-se na água e nadar até a ilha.

— Estou querendo ir a nado até a ilha — disse.

— Mais chéri, quando chegar lá que é que vai encontrar?

— Só por nadar — respondeu Ted laconicamente.

— Eu vou com você — disse Georges. Na água Georges era um homem diferente, um possante e exímio nadador, capaz de rolar e boiar na água durante horas inteiras.

Simone voltou-se para Georges franzindo o sobrolho.

— La, mush 'auz di* — disse em árabe, um hábito seu que muita gente achava divertido.

* "Não, não quero isso." — N. do Trad.

— Você fica comigo, Georges. Não quero ser abandonada pelos dois.

Fez uma pausa esperando que Ted partisse, enquanto Georges se deixava ficar silencioso ao seu lado. Ted olhou para ambos e sentiu uma aguda pontada de ciúme. Simone alçou as sobrancelhas.

— Eh bien, chéri, por que não vai?

Ele virou-se e caminhou para a água.

A última coisa que avistou, com o canto do olho, foi o tirão das cadelas dinamarquesas e o esvoaçar do casaco de praia quando ela se pôs novamente a caminho.

Simone gloriava-se de ser romena. Havia até inventado um parentesco entre os seus antepassados e os de uma antiga família de Roma. A língua romena, é claro, descende do latim como o francês ou o espanhol. Mas o resto da história de sua família, como o brasão de armas que estadeava por toda parte, não passava de um produto de sua vivida imaginação.

A sala de jantar com lambris nas paredes, onde os três haviam comido na primeira noite em que Ted os conhecera, tinha a mesma falsa atmosfera feudal. E o gabinete de Georges, de igual forma.

Ao despedir-se de Ted naquela noite, Simone estreitara-lhe a mão de um modo que diferia perceptivelmente de um gesto de cortesia. Seu rosto pareceu brilhar na penumbra do "hall" enquanto ela falava: — Bem, então amanhã vou buscá-lo no hotel para explorarmos Alexandria. Para meu marido isso já não tem qualquer interesse. Mas os turistas, como o senhor e eu... — Sorriu e retirou a mão. Tinham conversado toda a noite sobre a Europa e a esquiação na Suíça.

A partir desse dia ela planejara tudo de forma que pudessem estar sós — ou praticamente sós. Até duas semanas atrás, quando o serviço de Ted ficara terminado, devendo ele voltar para a América; e Georges fora passar dois dias no Cairo, a negócios.

Simone convidara Ted para cear nessa noite, a fim de lhe fazer companhia na imensa sala rococó. Beberam pequeninos cálices de cordiais gelados e em dado momento, ouvindo um ruído e supondo que Georges voltara inesperadamente para casa, ele saltara da cadeira, tomado de um pânico repentino. Simone deu indolentemente uma ordem em romeno e os dois enormes animais avançaram para ele.

Sujeitaram-no antes que pudesse chegar à porta e o derribaram no tapete macio, mantendo-o sob vigilância até que Simone tornou a falar, quando então, muito a contragosto, o deixaram levantar-se.

Simone riu-se e sugeriu que fossem aos seus aposentos para pensar um arranhão na mão dele. Ted recusou, hirto, ocultando a sua fúria.

— Tenho de deixá-la! — disse. Simone sorriu e deu de ombros.

— Como quiser, chéri.

Só depois que a maciça porta da frente se fechou às suas costas ele compreendeu a intenção da mulher. Por ura instante ficou parado ali, lamentando a sua estupidez. Mas era tarde para voltar atrás.

No dia seguinte telefonou e foi informado de que Georges regressaria nessa tarde.

— Mas eu tenho planos, chéri, planos bem divertidos — disse Simone. — E Georges está de acordo. Agora que você terminou o trabalho na loja, queremos que construa para nós uma vila no deserto, com quadras de tênis, piscina de natação e varandas com estores. Precisa vir jantar conosco, para conversarmos a esse respeito.

Fazia já duas semanas que desenhava esboços para a vila de Simone, trabalhando em casa desta enquanto ela passava o dia preguiçosamente reclinada num divã, criticando, aprovando. Desde aquela noite, nunca mais tornaram a ficar completamente sós.

Mas, embora Georges estivesse sempre presente, mostrava-se mais amável dos homens, concordando de bom grado em que Ted ficasse o tempo que quisesse. Dizia estar pronto a assinar o contrato relativo à decoração da vila assim que ele o desejasse.

Esse trabalho deveria reter Ted em Alexandria pelo menos um ano mais.

Se assinasse o contrato, teria de renunciar ao seu emprego na América. E depois de findo aquele ano, que iria suceder? Não obstante, seria um ano em companhia de Simone, um ano durante o qual nem sempre Georges poderia estar presente.

Raivosamente, Ted jogou fora as sandálias e meteu-se na água tépida. Sentia uma agradável vibração por todo o corpo quando alcançou a ilha. Ficou em pé junto à beira d'água, respirando fundo, revigorado e na plena posse de si mesmo.

E a primeira coisa que fez foi procurar avistar a cabina de Simone, resguardando os olhos com a mão.

Lá estava ela, com os seus toldos listados de branco e azul, Zara e Shireen deitadas à direita e à esquerda dos degraus. Podia distinguir Abduh, o soffragi, movendo-se de lá para cá no pórtico, a pôr a mesa. Mas não viu Simone nem Georges. A idéia de que talvez estivessem juntos dentro da cabina o desassossegou e finalmente o levou! a meter-se de novo na água e nadar a todo o pano em direção à cabina.

Georges estava no pórtico, sentado numa cadeira de praia. De pescoço para baixo, semelhava um Buda modesto. O controle habitual do rosto suprimia toda expressão de seus pensamentos.

— Fez uma boa travessia, meu jovem amigo? — Sim, obrigado.

Georges voltou à leitura de seu jornal.

Abduh tinha servido os pratos de aperitivos e estava abrindo uma garrafa de cerveja com um movimento destro da sua mão escura.

Ted saudou-o com um gesto de cabeça e entrou na cabina para mudar de roupa.

Lá estava Simone, sentada diante da mesa-toucador. Ted vislumbrou-lhe o rosto no espelho antes que ela se virasse e se erguesse, num movimento vivo, para lançar-lhe os braços ao pescoço e colar-se ao seu corpo molhado. Os cabelos negros pendiam-lhe soltos na nuca e toda ela cheirava a algum delicado pôde toilette.

— Simone! — cochichou Ted, atirando um olhar à porta.

Ela o soltou imediatamente mas continuou cosida com ele, tantalizando-o. Lá fora, ouviam o retinir das garrafas de cerveja e o farfalhar do jornal de Georges.

Ele a agarrou e chegou-a novamente a si, apertando-a cada vez mais forte, num abraço arrebatado e exigente.

Simone debatia-se, empurrando-o com as mãos e rindo baixinho. Desde o regresso de Georges vinha brincando assim com ele.

— Chéri... mais chéri! Depois... depois. — Libertou-se com uma rápida contorção do corpo. — Tenha paciência — tornou a murmurar. — Depois.

"Depois?" pensou Ted. Que queria ela dizer com isso? Teria algum plano? Iria Georges ausentar-se de novo? Desde a sua volta Georges os estivera vigiando como um açor, ou antes como um mocho de olhos redondos, perspicaz e resolvido a não perdê-los de vista.

Simone levantou a cortina que pendia diante da porta e disse num tom ao mesmo' tempo negligente e descontente:

— Não sei o que fazer com o meu cabelo.

— Deixe-o assim mesmo, que está muito bem — respondeu Georges. — Não quer uma parte do jornal para ler?

— Merci, non. Com essas violências todas!

— Para mim a leitura do jornal é um sedativo. Mas você deve achar que essas coisas são demasiado distantes, non?

Ela riu-se. — Você tem cada uma!

De súbito, Ted percebeu claramente uma coisa de que havia suspeitado desde a primeira noite, quando ela flertara indolentemente com ele, escorregando de tempos a tempos um olhar na direção de Georges, como para verificar a sua reação. Por vezes ele se sentira como uma bola de futebol entre os dois, necessária à partida que jogavam.

Esquecia tudo isso quando a tinha nos braços, quando estavam a sós ou mesmo quando se encontrava na mesma peça com ela, ouvindo-lhe a voz como agora. Em ocasiões como essa tudo mais parecia indiferente.

Falara-lhe em divorciar-se e ir com ele para a América, mas Simone limitava-se a dar-lhe um tapinha de brinquedo, murmurando: "Teddie querido..."

Pois sim que iria deixar Georges e a joalheria da Rue Zaghloul por ele! Entrementes, Ted arriscava-se a perder um bom emprego, punha em perigo toda a sua carreira, por amor a ela.

Como se já estivesse desempregado e sem saber o que fazer, saiu impetuosamente para o pórtico. Simone estava mordiscando um picles, Georges tinha um círculo de espuma de cerveja em roda da boca. Ambos o encararam cheios de surpresa.

— Que foi que houve, chéri? — perguntou Simone.

— Nada. Absolutamente nada.

— Você parece tão agitado! — exclamou ela. — Coma alguma coisa. Olhe aqui.

Ofereceu-lhe uma azeitona preta. Embora resistisse interiormente, ele tomou-a com a boca. Os dedos de Simone demoraram-se junto aos seus lábios e, sem querer, ele lhes deu uma pequena mordida. Simone deslizou os olhos para o marido. Georges estava observando-os. Ted virou a cabeça e surpreendeu-lhe no rosto uma expressão de tormento reprimido.

Simone continuou a oferecer-lhe pequenos petiscos, dando mostras de excitação e prazer quando ele os aceitava. Falava com vivacidade e a todo instante tornava a encher-lhes os copos com uma medida igual de cerveja.

Zara e Shireen jaziam numa espécie de letargo monumental em frente da cabina à sombra do toldo listado, com riscas de luz no pêlo. Voltavam à vida quando Simone lhes jogava nacos de carne, que elas dilaceravam e trituravam a rosnar, até não restar mais qué os ossos, que Abduh juntou depois de tirar a mesa.

Ao aproximar-se o meio-dia a praia esvaziara-se como por um passe de mágica. Apenas as esteiras, guarda-sóis, bolas enormes e outros brinquedos caros tinham sido deixados na areia. Aos complicados almoços sucedia-se invariavelmente uma sesta geral.

Georges cabeceava de sono. Simone foi preparar-lhe o beliche.

Ele entrou bocejando após um relance de olhos quase imperceptível a Ted, que estava sentado a contemplar pensativamente o mar.

Simone voltou e instalou-se ao seu lado, sobre as almofadas altas do banco. Passou-lhe a mão suavemente pelo braço, sem falar. Ted não olhou para ela. O retesar-se de um longo músculo de seu braço, como uma corda de violino, foi sua resposta involuntária àquele contato.

— Simone, preciso ir embora — disse ele.

— Ah, sim? Então que se vai fazer, chéri?

Ted voltou-se para olhá-la, com tal brusquidão que ela quase perdeu o equilíbrio. Segurou-a e ela sorriu-lhe. Seus braços a apartaram; recostou-lhe a cabeça ao peito e cerrou os olhos.

Simone começou a arrepiar-lhe suavemente o cabelo. Os dedos acariciantes lembraram-lhe aquele costume de fazer festas no toutiço de Zara.

Levantou a cabeça, irado.

— Como nós nos parecemos! — exclamou ela. — Ora você está feliz e contente, confia em mim; daí a um momento está ressentido e furioso!

Rodeou-lhe o pescoço com o braço, deixando pender frouxamente a mão sobre o seu peito. Era, pensou ele, como o delicado troféu de algum soba africano que o usasse em vez dos dentes de um leão ou da garra de uma pantera.

— Você me provoca as mais estranhas fantasias — disse Ted.

— Você também me faz fantasiar coisas, chéri — respondeu ela, — só que não têm nada de estranho.

Poderia jamais esquecer o som da sua voz, aquele ronronar do fundo da garganta?

Levou a mão dela aos lábios e beijou-lhe a palma, o pulso delicado, a doce concavidade do braço — certo, no entanto, de que a deixaria. Podia viajar nessa mesma tarde, pois estava de partida um cargueiro norte-americano que aceitava uns poucos passageiros. Trazia essa idéia no subconsciente desde que Georges mencionara o fato. Um dos empregados do joalheiro devia viajar no navio, mas tivera de renunciar porque não recebera o passaporte. O de Ted, porém, estava em ordem; podia embarcar à hora que quisesse.

— Simone — disse — que é que vamos fazer?

Ela pareceu surpreendida.

— Nós? — perguntou numa voz que fazia eco à dele. — Ah! que podemos fazer?

— Venha comigo!

— Você é tão moço! — disse ela. — Vinte e seis anos apenas!

— Que tem a ver a idade com isso?

— Tudo.

Simone desviou o rosto, mas ele notou que seu corpo sacudia levemente de riso. Agarrou-a furioso e obrigou-a a virar-se para o seu lado.

— Psiu! — fez Simone, sem lhe dar tempo de falar. — Vou ver se Georges está dormindo.

Entrou na cabina e Ted ouviu-lhe os movimentos lá dentro. Jogou fora um cigarro e acendeu outro antes que ela voltasse. Simone ajoelhou-se ao seu lado.

— Querido — murmurou. — Querido, querido, querido! Georges está dormindo.

Pôs-se em pé e espreguiçou-se.

— Ah! — bocejou, como que meio vencida pela fadiga e meio inclinada a ficar com ele.

Ted fez menção de agarrá-la, mas Simone furtou-se e, lançando-lhe um olhar por cima do ombro, tornou a entrar na cabina. Ted hesitou. Não queria estar lá dentro com ela, tão próximo de Georges.

Levantou a cortina e cochichou:

— Saia daí, Simone. Onde é que você está?

— Aqui, chéri. — Sentiu o cheiro de perfume ao entrar, buscando-a com as mãos, e de repente viu que a tinha nos braços, colando-se a ele.

Simone forçou-o a baixar a cabeça para a sua boca e por um instante Ted perdeu toda noção de tempo e de lugar. Mas logo recaiu em si, retesou o corpo e tentou arrancar-lhe os braços do seu pescoço. Ela, porém, continuava a agarrar-se-lhe.

— Está dormindo — murmurava. — Dormindo... dormindo. Como quem recebesse um choque elétrico, ele se deu conta de que Simone sentia uma espécie de deleite perverso na proximidade de Georges.

Sua nascente excitação desapareceu. Tentou afastá-la de si. Mas Simone grudava-se-lhe tenazmente. Podia ver o seu rosto cego, os olhos cerrados e os lábios entreabertos.

— Simone! — disse, sacudindo-a.

Ela não cessava de murmurar, como se fosse uma deliciosa canção:

— Está dormindo, dormindo, dormindo.

— Como pode ter tanta certeza disso? — perguntou ele, recuando para escrutar-lhe o rosto. Ouviu um estardalhaço às suas costas. Ao recuar, fora de encontro à mesa-toucador e derrubara um dos frascos de perfume. O frasco se quebrou, enchendo a cabina de um cheiro sufocante. 0 ruído lhe parecera ensurdecedor.

Relanceou com os olhos a cortina da cama em que dormia Georges. O pano não se mexeu. Não houve, por trás dele, qualquer movimento ou som.

— Está vendo? — disse Simone em tom de triunfo. — Ele é completamente inofensivo, chéri.

— Você lhe deu alguma coisa para tomar! Pôs alguma droga no conhaque dele!

Ela deu de ombros.

— E se o tivesse feito? — perguntou com brandura. — Não acha que fui esperta?

E tornou a enlaçar-lhe o pescoço com os braços.

— Seu demônio! — gritou Ted. De repente sentira-se farto daquilo tudo — farto da pequena e escura cabina com o homem adormecido, do perfume nauseante, de Simone que não o largava. Compreendeu que estava tudo acabado com ela. Uma mulher capaz de fazer aquilo com ele era capaz de tudo, com qualquer homem.

Arrancou os braços dela do seu pescoço e dirigiu-se para a porta.

— Chéri! — gritou Simone.

Ele desceu lesto os degraus e passou junto às cadelas adormecidas.

— Teddie! — gritou ela do pórtico. Havia enfiado um chambre e surgira em desalinho, com os olhos desvairados.

Ted corria levemente pela praia. Sentia uma tranqüilidade inexplicável. Aquilo fora muito mais fácil do que esperava. Agora, nem sequer precisaria dizer-lhe adeus. Bastava seguir em frente e nunca mais voltar.

Deixá-la pensar que estava simplesmente dando uma volta pela praia e que voltaria mais tarde para junto dela.

Chegou à esquisita formação de rochas denominada Buraco do Diabo, grandes blocos erráticos arrojados à praia e dispostos em torno de uma cratera central que o mar invadia impetuoso na maré montante.

Trepou nas rochas e parou à beira da cratera para lançar um olhar à cabina.

Simone corria aos tropeções pela praia, com o chambre enredado nas pernas, e Zara e Shireen trotavam ao seu lado. Compreendera, pois, que aquilo não era uma brincadeira. Lembrara-se do navio que partia naquela tarde. Ted poderia tomá-lo... se ela o permitisse. Se as cadelas permitissem, pensou ele com um subentendido sinistro. Não havia engano possível quanto à intenção de Simone. Pretendia lançar-lhe os cães como já fizera uma vez. Estava açulando. Ted ouviu-lhe as ordens estridentes, viu os cães lançar-se a galope.

Desceu precipitadamente pelo lado oposto dos rochedos. Sentia um vago medo. Se ela ganhasse agora, se os cães o jogassem ao chão mais uma vez nessa langorosa praia, talvez deixasse também partir o próximo navio sem embarcar. Era preciso fugir hoje mesmo.

Pôs-se a correr pelo trecho de praia limpa. Ali não havia cabinas; as ondas avançavam mais, depositando fragmentos de algas, mexilhões de gume cortante, destroços de estrelas-do-mar.

As cadelas galgaram os rochedos. Olhou para trás, a tempo de vê-las arremessar-se no ar, saltando do alto das pedras para a areia e lançando-se empós dele aos pulos gigantescos. Estavam ganhando terreno, cada vez mais próximas, fazendo ouvir já bem perto os seus latidos excitados. A própria Simone já não poderia obrigá-las a parar.

Mas sabia que ela não tentaria fazê-lo. Deixaria que o alcançassem e estropiassem, que o matassem talvez, de preferência a dar-lhe outro ensejo de fugir-lhe.

Só tinha uma possibilidade de escapar. Não podia alcançar a escada mais próxima que conduzia ao nível da rua. Tinha de lazer um esforço para escalar o muro vertical de pedra que se erguia da praia para a avenida de asfalto, lá em cima.

Desesperadamente, guinou na direção da muralha.

Saltou com os pés contra ela, atirando-se para cima e mal conseguindo segurar a beirada com uma das mãos, depois com a outra, pendurado pelos dedos. As cadelas arremeteram para ele com altos pulos, as garras arranhando a muralha. Se caísse agora, estava perdido. Havia uma espécie de loucura selvagem nos ganidos dos animais.

Se caísse e elas o matassem antes de acudir alguém, seria um lamentável acidente. Era como se estivesse vendo os títulos nos jornais, lamentável acidente. Não se faria um inquérito sério em torno do caso: para tanto bastava a influência local de Georges. Pareceu-lhe, de súbito, um gênero de morte absolutamente ignóbil e inútil.

Debilitado pelo esforço violento, continuou a segurar-se no mesmo lugar, capaz apenas de se manter onde estava. Não podia içar-se até o nível da rua. Sentia os ombros desconjuntados pelo seu próprio peso enquanto seus dedos se grudavam ao cimento. Sentia o bafo ardente dos animais nos seus pés.

Um deles chegou a arranhar-lhe o tornozelo com os dentes. Isso o galvanizou repentinamente, deu-lhe a força de que necessitava.

Lançando um dos pés para cima, conseguiu firmá-lo na beira da muralha e, com um grande impulso, jogou-se para o alto. Arrastando-se sobre o ventre, atingiu por fim a calçada ardente, onde se estirou, exausto e ofegante.

Ouviu os latidos selvagens das cadelas transformarem-se num cainhar lamentoso e virou-se para olhá-las. Saltavam o mais alto que podiam, batendo com os corpos contra a muralha.

Simone chegou a correr, o rosto afogueado e desfigurado.

Gritou-lhe alguma coisa, mas suas palavras se perderam no clamor das cadelas, e na sua face incendiada e furiosa Ted não viu nem um vestígio mais da beleza que antes admirava.

Deu-lhe as costas, afastando-se da muralha, mandou parar um táxi e embarcou. Reclinou-se no assento, ainda a pingar de suor. Surpreendeu-se a arreganhar os dentes numa esquisita alegria. Sentia-se maravilhosamente vivo e em liberdade.

Não levou mais de dez minutos para mudar de roupa, atirai suas coisas numa mala e pagar a conta do hotel. Uma hora depois, andava de baixo para cima no convés do cargueiro americano, escolhendo o caminho por entre uma confusão de apetrechos náuticos que cheiravam deliciosamente a alcatrão, enquanto dois marinheiros estendiam e fixavam sobre a boca do porão a coberta de lona.

Caminhava de um lado para outro com a inquietação de um prisioneiro que ainda não está bem seguro da sua liberdade. A prancha de embarque continuava estendida sobre a estreita nesga de água que separava o navio do cais. Se Simone descobrisse que ele havia deixado o hotel, estava convencido de que ela não teria escrúpulo de segui-lo ali. Que poderia fazer então?

Quando a prancha foi recolhida e Ted viu alargar-se a distância ao se pôr o navio em movimento, sentiu um misto de alívio e de profundo pesar. Agora era certo que jamais tornaria a vê-la.

Mas estavam ainda bastante perto para distinguir a figura das pessoas em terra quando o inconfundível trio formado por Simone e pelas duas cadelas dinamarquesas surgiu impetuosamente no cais.

Os animais correram ganindo e farejando até a ponta extrema da doca, depois voltaram para junto da figura imóvel no seu chambre branco com o emblema, diminuindo lentamente à medida que o navio ganhava distância.

Simone não buliu, não ergueu a mão, e ele tampouco o fez Ficou simplesmente parada no mesmo lugar enquanto pôde avistar o navio e ele o cais.

Ted desceu com um sentimento de gratidão que tomava corpo lentamente. Todo o seu pesar se havia dissipado. No camarote, tirou as coisas da mala, depois estendeu-se no beliche e fumou regaladamente.

Quanto mais distância as máquinas do cargueiro punham entre eles, melhor percebia a enormidade do intento de Simone. A mulher era capaz de tudo! Não só teria deixado os malditos animais matá-lo como até se teria comprazido nisso!

Pouco a pouco foi se acalmando. Embalado pela vibração do navio, mergulhou numa deliciosa modorra de que foi despertado abruptamente, pois o silêncio repentino era como um peso acabrunhador — ambas as máquinas haviam parado.

Sentou-se no beliche, um pouco tonto, e olhou pela vigia. Uma vistosa lancha vazia estava amarrada ao costado do cargueiro, balouçando-se preguiçosamente nas ondas. Com certeza, a visita retardada de um oficial da alfândega.

Estava ainda junto da vigia, a bocejar, saboreando a sua liberdade e muito satisfeito por se achar a bordo de um cargueiro onde não havia necessidade de vestir-se para ir à mesa nem de outras formalidades, quando ouviu bater à porta do camarote.

— Entre! — gritou. Havia meses que não ouvia sua própria voz falar num tom assim despreocupado.

— A polícia, Monsieur! — disse lá fora uma voz assustada Ted franziu o sobrolho e abriu vivamente a porta. Que diabo era aquilo! Seu passaporte estava em ordem.

O pequeno camaroteiro grego mantinha-se em atitude serviI junto de dois policiais egípcios e um homem à paisana que apresentou polidamente a sua carteira aberta e tornou a fechá-la de estalo.

— O meu passaporte está perfeitamente legalizado — disse Ted, cheio de exasperação. — Espere que vou buscá-lo.

— Não se trata de passaporte, Monsieur — disse o detetive Tinha um rosto amarelo de icterícia sob o fez e penetrantes olhos castanhos. — Somos obrigados a prendê-lo, Monsieur, sob uma acusação de homicídio.

— Homicídio! Quem foi que mataram? — A estupefação de Ted era visível.

— Monsieur! — O homem falou num tom de censura quase brincalhão. — Monsieur Delescu, é claro. Madame Delescu afirma que o senhor se gaba de ter posto um narcótico na cerveja de seu marido. Depois, na mesma cabina cm que ele dormia, O senhor tentou abusar de Madame. Por sorte ela possui dois possantes cães. Há muitas testemunhas que os viram persegui-lo, Monsieur.

— Mas... ela queria... — Ted interrompeu-se. Quem iria acreditá-lo? — Não, isso não é verdade! — gritou, com todo o sangue na face. — Foi Simone quem pôs os comprimidos para dormir na cerveja dele!

— Madame Georges está no hospital, em estado de choque — disse o homem num tom de reverência e piedade que deixava entrever o que aconteceria no tribunal. — Queira reunir sua bagagem e vir conosco! — terminou peremptòriamente.

Ted, aturdido, voltou a fazer a mala.

Que chance podia ter contra Simone, armada de sua beleza, de seu dinheiro, de sua influência e de seu ódio? E que divino prazer seria para ela destruí-lo!