Um pouco do seu sangue e outras histórias

Alfred Hitchcock · Capítulo 9 de 20

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Um pouco do seu sangue e outras histórias

Oito

Sumário: 3 de abril.

Mais duas sessões prolongadas com George...

(É interessante relembrar aqui que o Sargento Outerbridge Continuava a fazer parte do abarbado corpo médico de mm hospital neuropsiquiátrico militar superlotado e mal aparelhado, lutando com uma tremenda sobrecarga de serviço e jazendo plantão diariamente. O jato de ter podido dedicar seis horas a George e a ausência de protesto por parte do Cel. Williams comprovam, a sua sobre-humana energia e devoção.)

...deram conta dos testes de coordenação motora, desenho de casas, desenho de figuras humanas e Apercepção Temática.

A coordenação motora foi a primeira coisa que tentamos após a aflitiva experiência com o Rorschach. Consistia em oito figuras geométricas diferentes, compostas de círculos, quadrados, linhas onduladas e pontos, que George devia copiar. Fê-lo com precisão, com cuidado e planejamento, introduzindo correções a fim de melhorá-las. Pareceu-me que, a despeito de uma certa rigidez compulsiva da execução, seu controle motor estava em boa ordem e não se deixava dominar com facilidade pelos sentimentos mais profundos, cautelosos e (assustados?). Enquanto o observava tive a impressão de estar assistindo a uma reencenação, com lápis e papel de cada nova experiência que ele tivera num ambiente controlado — o orfanato, as bases militares. Buscava os canais por entre as cercas; ansiosamente procurava as áreas em que poderia, uma Tez conhecidas, mover-se livremente sem ter de pensar. Era fácil perceber como ele pudera agüentar dois anos e mais de mecânica automotora no Exército, trabalhando em geral sozinho e com plena liberdade de usar as mãos.

Mais tranqüilizado, aventurei-me um pouco mais perto da fronteira emocional, sempre receando que o terreno se esboroasse de repente sob os meus pés. Pedi-lhe que desenhasse uma casa.

Desenhou uma casa tradicional com um jardim convencional, arborizado, no estilo artístico de um menino ansioso de seis anos. Cada janela recebeu vinte ou mais vidros; os canteiros e três árvores foram formados com pequeninos rabiscos enérgicos e compactos, em contraste com as linhas finas e tênues que limitavam a estrutura geral da casa. Dois detalhes se destacavam pelo grotesco: o jardim ficava no ar acima do primeiro andar e entrando pela parede superior da casa, enquanto o telhado era simplesmente eliminado do desenho pela borda superior da folha de papel.

Não era o que se chama um desenho equilibrado. Mostrava mau senso de perspectiva e mau planejamento. Sugeria que não se podia contar com George para uma atitude responsável em face da realidade adulta cotidiana. Desenhava os aspectos fundamentais, absorto nos pormenores de seu interesse pessoal. Poderia manter-se na linha, dentro de normas compulsivas, se a sua vida se conservasse simples, mas de outra forma corria perigo de descarrilar.

Tomei uma respiração profunda (silenciosamente) e mandei-o desenhar uma figura humana. Disse uma figura humana, mas ele começou a delinear um homem e uma mulher, às pressas, descuidosamente, como se, depois de traçar os contornos, não pudesse esperar para enchê-los, o que fez com mão pesada: pernas, braços e torsos preenchidos com lápis preto até o queixo, depois um chapéu preto redondo sobre a mulher, um chapéu preto quadrado no homem, enterrados até os olhos. Ocultar, ocultar... Ansiedade.

George parou e eu perguntei:

— Só isso?

Tanto quanto pude, fiz a pergunta em tom indiferente e neutro, mas os pesados toldos de seus olhos alçaram-se vivamente e ele sondou O meu rosto, pelo espaço de um segundo, com a mesma avidez com que havia examinado os borrões de tinta. Uni rápido franzir de sobrancelhas.

— Posso fazer de novo?

— Pois claro.

Levou o lápis ao papel, deteve um momento a mão e lançou-me de novo aquele olhar. Se eu acreditasse em telepatia, o que positivamente não acredito, teria acusado a recepção de um urgente: "Posso dizer?" Então ele se pôs a trabalhar.

Enquanto o observava, pensei em como a psique humana, especialmente a psique enferma, clama por contato e comunicação. A alexia parcial de George (a incapacidade de usar a palavra falada, que ele com tanta facilidade escrevia) era um fenômeno que eu não tinha presenciado antes, embora tivesse ouvido falar nele. Mas estava pensando em todos os outros modos pelos quais a alma doente estende os braços... como a mão 'de um solitário continua estendida após o aperto de mãos, abandonada, buscando; como só os olhos podem exprimir terror no rosto quase adormecido de um catatônico: como o rígido controle das lágrimas iminentes é traído pelo franzir do queixo. A essa altura eu estava convencido de que George não tinha a percepção de qualquer coisa anormal ou estranha na sua própria pessoa; no entanto, eu sentia algo nele, uma coisa viva e com plena consciência de si mesma e da sua enfermidade. Nesse olhar fugaz, como um ser senciente e distinto que por um instante se houvesse apoderado de seus olhos, essa coisa rogava: "Posso dizer? Eu sei. Eu sei! Me deixe dizer."

George estava desenhando um macho e uma fêmea.

Essas figuras eram... feras? Não quis me aproximar mais para não lhe distrair a atenção: fiquei espiando de onde estava.

Nus. Cabeça e ombros unidos numa só curva estreita e enérgica. Mera sugestão de braços, talvez juntando-se atrás das costas. Peitos estreitos, os seios da mulher indicados por um simples ziguezague em W. Enormes ventres, parecendo prenhes, e vagos traços vermiculares para indicar as pernas e os pés. Tal e qual duas peras com dois pontos a indicar as caras nas compridas e estreitas extremidades superiores, e tudo mais concentrado naquele bojo redondo e cheio.

Todo curvado sobre o papel, segurando o lápis com o maior cuidado, dilatando e tornando a dilatar as fortes narinas, pôs meticulosamente duas tetas no negligente W dos seios, um umbigo perfeitamente redondo e negro, um orifício idêntico na parte inferior. Depois fez doação de outro círculo perfeito ao homem, como umbigo.

Largou o lápis e empurrou o papel na minha direção. Esquecera-se por completo de pôr órgãos sexuais no macho. Não fiz comentários salvo para dizer que estava ótimo e minha observação usual a respeito dos progressos que ele fazia. Esse moço tinha tamanha fome de elogios que estes desapareciam dentro dele ao simples contato, para nunca mais serem vistos.

— Deste jeito se pode fazer toda qualidade de animal — disse ele de repente, numa de suas raras manifestações espontâneas. Desenhou uma fieira de criaturas piriformes, botou orelhas compridas numa — coelho — orelhas curtas em forma de grampos e uma cauda filamentosa noutro — gambá — orelhas redondas e uma grossa cauda anelada — guaxinim — orelhas pontudas, bigodes e cauda mais fina — gato — e assim por diante, até completar oito caricaturas de animais diferentes.

— Viu? — disse, quase exultante. Até chegou a arreganhar os dentes pelo espaço de um segundo e eu desejei que ele o fizesse com mais freqüência. Rapaz sombrio é esse.

Comecei a me levantar, mas tornei a sentar-me quando vi que ele voltava ao desenho.

Em cada um dos animais — todos representados na mesma posição, sentados, de frente para o observador, as barrigas redondas fazendo bojo — George estava traçando cuidadosamente, com perfeita nitidez, os pequenos umbigos circulares.

Era hora de deixá-lo. Juntei os papéis e martelei na porta chamando o guarda.

9 de abril.

Estou voltando neste instante de uma hora e meia de Apercepção Temática. E, se me fosse possível rir das cômicas defesas que uma psique pode montar, eu cairia na gargalhada.

A alexia de George, suas dificuldades com a palavra falada, desapareceram como por obra de magia na Apercepção Temática, e ao sondar a razão disso me maravilhei.

O teste é simplesmente uma série de gravuras do tipo que se vê nas revistas ilustradas, mas cuidadosamente escolhidas a fim de apresentarem várias situações cardeais e interpessoais. Uma, delas, por exemplo, seria a figura de uma moça parada na porta aberta de uma cabana. Um paciente diz que ela está saindo; outro, que está entrando; um terceiro, que esteve todo o dia parada ali, à espera de alguém. Por vezes recolhe-se uma quantidade tremenda de detalhes subsidiários: o nome da moça, a presença ou ausência de pessoas na cabana, às suas costas e as ações iminentes de tais pessoas; outras vezes, o pente que ela usa no cabelo ou os seus "sapatos novos" serão o fator central. Evidentemente, essas historias e anedotas inventadas no momento se relacionam com o paciente. Com, freqüência servem de solução viçaria para os seus próprios problemas, soluções que ele não ousa enfrentar pessoalmente, como por exemplo, uma rapariga que pensa, em deixai* a casa paterna, mas é torturada pela indecisão, poderá reagir â mencionada gravura com a história de uma moça que fugiu e foi horrivelmente assassinada, ou de uma moça que não fugiu e enlouqueceu, acabando por matar o pai.

Enquanto escutava a derramada, incrível garrulice de George em torno das gravuras, compreendi que o seu censor verbal presidia ao que se referisse a ele próprio. Como ele observou na sua biografia, sempre pode haver alguém escutando que não compreende ou que não ouviu bem. Pelo visto, o seu receio era de que ouvissem bem, de que compreendessem; isto é, de que sua língua deixasse escapar alguma coisa num momento de distração. E deixar escapar o quê? Talvez alguns incidentes pelos quais temesse ser punido (embora eu tenha a certeza moral de que ele não possui nenhum sentimento de culpabilidade), mas é muito mais provável que quisesse ocultar sentimentos, conclusões e observações capazes de atrair a atenção e a zombaria de outras pessoas. Incapaz de avaliar como os outros, não estava em condições de saber com antecedência o efeito que podiam ter suas palavras.

Mas ao defrontar-se com a Apercepção Temática o seu censor deu um suspiro de alívio e foi dormir. Pois estava — com toda a certeza — convencido de que enquanto George falasse dentro dos quatro cantos de uma gravura não podia falar sobre si mesmo!

E ele falou sobre si mesmo — espontaneamente, ousadamente — sem por um só instante se dar conta disso. E o auge da comicidade (se a gente pudesse rir de tal coisa) foi quando apareceu entre as gravuras um cartão em branco com uma cercadura — um vazio que o paciente devia encher por si mesmo e sobre isso falar. E quando George se deparou com esse cartão, seu censor acordou e fê-lo reassumir aquele tom de voz baixo, engrolado e rosnado: "Um cartão em branco?... Nada. Provavelmente ia ser sobre mim mesmo. Não tenho história para contar.'"

Mas quanto às que tinham por tema outras pessoas? Estas notas foram apanhadas verbatim.

Um menino e uma mulher em pé numa sala: "O garoto fazia muita tropelia e foi expulso. Esteve tanto tempo longe de casa que ele e a mãe quase não se conhecem mais. Ele voltou neste instante. Ela vai estender os braços, o filho vai correr para ela e a mãe vai apertar ele com força, mas o seu vestido não é macio na frente. Está cheio de pedras. Além disso não é a mãe dele, mas outra pessoa vestida com a roupa da mãe e que vai roubar o dinheiro."

Um menino parado junto a uma janela, com uma espingarda de caça apoiada à parede: "Faz de conta que um garoto está num buraco. Olhe ali uma janela e uma espingarda. Ele andou lendo livros de doutor, operações e tudo mais. O pai dele vai ser operado. Agora o garoto vai no hospital pra dizer ao doutor que se ele cometer um erro ele, o garoto, lhe arranca fora a cabeça com uma carga de chumbo. Mas a espingarda dispara sozinha e mata o pai."

Um homem depositando um beijo na testa de uma senhora de cabelos brancos: "Um cara beijando a mãe dele na testa. Gosta muito dela. Pensava muito na mãe, fazia tudo que ela queria e quase todas as noites beijava ela assim. Eu podia continuar ainda, mas... ela morreu. O cara ficou desesperado. Queria ir na sepultura e arrumar tudo com flores. Sempre se sentia melhor quando estava perto da sepultura. É por isso que eu tenho vontade de sair daqui. Ninguém cuida da sepultura de minha mãe, nem de meu pai. Eu sempre cuidei."

(Interessante fantasia de desejo (culpa?): ele nem sabe onde fica a sepultura do pai.)

Um homem estendido a dormir numa encosta relvosa: "Acho que andaram dando muito nesse cara. Mataram ele. O sujeito que matou vai arrastar o corpo pra longe, pra ninguém ver. Atrás de uma caixa-d'água ou coisa que o valha. Provavelmente matou pra ficar com o dinheiro dele. Cortou o cara também. Depois se meteu na mata e acho que tornará a fazer isso outra vez, nalgum outro lugar."

Meninos nadando num remanso de rio: "Bom, um desses guris se machucou na perna e começou a sangrar, e então um dos outros guris veio ver o que era e o guri machucado começa a gritar e o outro não pode agüentar isso e então empurra ele pra dentro d'água e pronto. Então o outro pequeno sai da água. Estava perdido antes, mas agora sabe onde está."

Tranqüilo e sem ênfases, animado e inventivo, George continuava sem parar: furto, homicídio, lesões corporais, morte da mãe, morte do pai, parricídio; afogamentos, facadas, operações. Nada de sedução, estupro ou adultério. Nenhum sentimento de felicidade (no sentido convencional), se bem que George, na maioria dos casos, parecesse longe de estar triste. A morte das mães o abrumava um pouco.

Uma carta.

Universidade do Saco-Roto N-O

Thalamus, Ore. 9 abril

Meu caro Phil:

Você mandou seu relatório sobre o Homem da Máscara de Ferro com o habitual senso de oportunidade, justamente quando eu me preparava para emitir um rugido de protesto daqui até lá.

Admito que tudo isso é muito fascinante e que você estava acertado na sua intuição — se intuição foi — de que o caso desse rapaz era mais intricado do que parecia. Mas preciso dizer-lhe, Phil, que tive notícia daquele pequeno incidente no terceiro andar de seu hospital. Um caso violento não devia ter sido posto no mesmo quarto com outro paciente. Mesmo um caso potencialmente violento. Todavia, você o pôs ali porque não tinha solitárias livres no quarto andar, está certo?

Está certo.

E passou todo esse tempo ausente. Licença para tratamento de saúde! Phil, você vai bem? Mas, assim mesmo... ausente!

Desta vez não aconteceu nada, mas pode haver outros casos; e haverá. Ora, eu estou mais ou menos com você no tocante a George. Você trouxe para a tona com suas dragas um montão de lixo do fundo, e reconheço que ele é mais doente do que eu pensava. Mas... tire-o daí.

Para terminar numa nota diferente, obrigado pelo envio dos desenhos de George juntamente com o relatório. Muito interessante, como costumava dizer minha querida mãe. (Sempre dizia isso nas galerias de arte. É um comentário como outro qualquer e não periga ofender ninguém.) Mas o que ainda mais me interessou, meu prezado redutor de cabeças, foi sua identificação de todas essas suculentas formas como peras.

Feita a ressalva de que todos nós temos nossas manias... a mim, o animalzinho da ponta outra coisa não é senão um chapim.

Peras, esta é muito boa! Quer que lhe dê o endereço de um bom doutor? Ou será que você está ficando vegetariano?

Al.

E a resposta:

Manor Depressive N-O

Dementia, Cal. 11 abril

Prezado Al:

Talvez pareça mesquinhez de minha parte fazer valer a hierarquia com você, e sei que é uma grosseria citar o elogio feito por um camarada como argumento contra ele; mas você mesmo disse uma vez que profissionalmente eu lhe levo uma bruta luz, ou coisa parecida. E ouça-me, Al: minha firme opinião é que George é potencialmente mais perigoso do que qualquer outro inquilino desta casa.

Previno sua pergunta: "posso prová-lo?" admitindo que não posso. Apenas sei, nada mais. Ninguém pode deixar transbordar tudo aquilo sem estar carregado e engatilhado, e se ele explodir quero que o faça em condições de máxima segurança.

Mas pode ser que o que ele leva dentro de si seja perigoso como uma espada e não como uma arma de fogo ou uma bomba. A verdade é que por enquanto não sei que espécie de coisa poderá ser. Hei de sabê-lo, e creio que em breve; mas, enquanto isso não acontecer, preferiria deixar um tigre de Bengala às soltas nos corredores.

Vou cometer mais uma enormidade lembrando-lhe que até agora tenho tido a razão do meu lado.

São peras, sim. Mas admito que isso fica sujeito a mudanças de interpretação.

Pode ser que você tenha acertado aí.

Phil.

P. S. Não. Diabos o levem, não estive doente. Confesso que fui à Grande Cidade e me habilitei para descer ao porão onde guardam os "livros sujos" verdadeiramente sensacionais. Só para irritar você, incluo aqui as minhas notas.

P. O.

Várias folhas de notas manuscritas em papel amarelo.

Von Krafft-Ebing, o velho "voyeur"... rondando a extremidade posterior do século xix, dando com a língua nos dentes. Não precisava de Freud para nada. Com ele, tudo era "tara hereditária". Defendeu até o fim a idéia fixa de que há certas coisas que as pessoas direitas não fazem. Mas apesar de tudo isso um pesquisador infatigável, portanto bico calado e guarde para si os seus preconceitos.

LUXÚRIA-HOMICÍDIO

A luxúria potenciada como crueldade, a luxúria homicida estendendo-se à antropofagia. Menino, que estilo literário tinha von K.-E.... Olhe só:

"1827. Léger, podador de vinhas, idade vinte e quatro. Desde à adolescência macambúzio, calado, tímido com as pessoas. Partiu em procura de um emprego. Vagueando pela floresta durante cerca de oito dias, ali apoderou-se de 'uma menina de doze anos de idade, violou-a, mutilou-lhe os órgãos genitais, arrancou-lhe o coração, de que devorou uma parte, bebeu o sangue e enterrou os restos. Detido, começou por mentir mas finalmente confessou seu crime com cínica frieza. Ouviu a sentença de morte com atitude indiferente e foi executado. À necropsia, descobriu Esquirol (quem é este?*) aderências mórbidas entre as meninges e o cérebro.

* Famoso psiquiatra do século XIX.

"Vincenz Verzeni, nascido em 1849 na Espanha; na prisão desde 11 de jan. 1872; acusado (a) de uma tentativa de estrangulamento contra sua ama Marianne, quatro anos atrás, quando ela se achava doente e acamada; (b) de uma tentativa semelhante contra uma mulher casada, Arsuffi, vinte e sete anos; (c) da tentativa de estrangular uma mulher casada, Gala, comprimindo-lhe a garganta com os dedos ao mesmo tempo que se punha de joelhos sobre o seu abdome; (d) suspeito dos seguintes homicídios:..."

(Bem, a maioria deles não interessa, mas aqui está um:)

"Em dezembro uma menina de quatorze anos, Johanna Motta, dirigiu-se para uma aldeia vizinha entre as sete e as oito horas da manhã. Como não regressasse, o patrão saiu em sua busca e encontrou o corpo nas proximidades da aldeia, estendido num caminho que atravessava os campos. O cadáver estava horrivelmente mutilado e com numerosos ferimentos... O estado de nudez do corpo e as abrasões da pele davam visos de probabilidade à hipótese de uma tentativa de estupro; a boca cheia de terra sugeria a sufocação. Nas proximidades do corpo, sob um monte de palha, foram encontrados uma porção de carne arrancada da barriga da perna direita e pedaços de roupa. O perpetrador do ato permaneceu desconhecido.

"Ao ser preso, Verzeni confessou a autoria desse e de muitos outros homicídios. Tinha então vinte e dois anos de idade, pescoço taurino... (oho! aí vem Krafft-Ebing montado no seu cavalo de batalha)... como parecia provável, Verzeni tinha má ascendência — dois tios eram cretinos, um terceiro microcéfalo... O pai mostrava sinais de degeneração pelagrosa... a família era carola e de mentalidade baixa (!)... em seu passado nada havia a indicar enfermidade mental, mas seu caráter era singular."

(Sem dúvida, ele teria descrito o Marquês de Sade como francamente esquisito.)

"... Verzeni era calado e inclinado à solidão... reconheceu que os assassinatos lhe proporcionavam uma sensação de prazer indescritível (libidinoso), acompanhada de ereção e ejaculação. Assim que agarrava a vítima pelo pescoço experimentava sensações sexuais. Para ele era completamente indiferente, com referência a essas sensações, que as mulheres fossem velhas ou moças, feias ou bonitas. Em geral, tinha-se satisfeito com o simples ato de sufocá-las.

"Mas no caso da menina Johanna Motta e, conforme se descobriu mais tarde, de outras mulheres, ele fora mais longe. As escoriações na pele da coxa de Johanna foram causadas pelos seus dentes enquanto lhe sugava o sangue com o mais intenso e libidinoso prazer.

"As declarações deste moderno vampiro (isto é, moderno para Krafft-Ebing) parecem corresponder à verdade. Aparentemente, permaneceu alheio aos impulsos sexuais normais. Teve duas namoradas que se contentava em olhar. Achava muito estranho não sentir nenhuma inclinação de estrangulá-las ou apertar-lhes as mãos, mas não tinha com elas o mesmo prazer que com suas vítimas.

"Verzeni declarou em sua confissão: "Eu sentia um prazer inexprimível em estrangular mulheres... Até cheirar roupas femininas me dava prazer... Foi com grande deleite que bebi o sangue de Motta. Também gostava imensamente de arrancar os grampos do cabelo de minhas vítimas... Após o cometimento dos atos eu ficava satisfeito e me sentia bem. Nunca me passou pela cabeça tocar ou olhar as partes genitais e coisas desse gênero. Satisfazia-me com agarrar as mulheres pelo pescoço e sugar-lhes o sangue. Até hoje ignoro como é feita uma mulher. Durante o estrangulamento e depois, apertava-me contra o corpo todo sem pensar numa parte mais do que nas outras."

(Recuando ante o horror disso tudo, tenho a impressão de que a indiferença de Verzeni para com os seus órgãos genitais, o fato de não pensar no corpo feminino como composto de partes, a sucção do sangue — de que tudo isso é infantil e primitivo, como uma criança selvagem e faminta.)

E uma resposta:

Q. G. do Hospital de Base

Gabinete do Administrador

N-O

Portland, Ore. 12 abril

Phil:

Muito bem, mantenho o meu elogio visto como o fiz a sério, pelo menos na ocasião. Dou-lhe uma prorrogação por tempo indefinido mas curto neste caso; portanto, o que você estiver planejando fazer, faça-o logo. Porque da próxima vez que eu tocar no assunto não haverá discussões.

A. W.

P. S. Suas notas tomadas na biblioteca vão desde o mau gosto até a asquerosidade e não conseguem provar sua tese.