Um pouco do seu sangue e outras histórias
Dez
Comentários: Este é o dia, a ruptura das defesas, e menino, menino, quantas vezes estive quase deitando tudo a perder! (Mais tarde.) Tive de ir dar uma caminhada. Muito excitado para escrever. Agora vejamos onde inesperadamente viemos parar. Antes de tudo, a sugestionabilidade de George. Não sei por quê, mas sempre fico surpreendido quando um ego destrambelhado e com relha de menos se revela um bom sujeito hipnótico. Não faltam dados clínicos para confirmar o fato e eu não devia admirar-me, mas sempre me admiro. Tem-se a impressão de que o tipo fleumático e integrado submergirá com muito mais facilidade. Pois George vai ao fundo como um pires numa bacia d'água. E regrediu aos quatro anos de idade, pelo menos no transe superficial, como se tivesse asas nos pés.
Seguiu-se o experimento para verificar se o episódio do transe havia melhorado nossas relações no estado de vigília. Aí, novamente, quase deitei tudo a perder com um berro exultante. Ele charla como uma maitaca.
Veio então o teste das "fantasias forçadas" de Ferenczi — identificar um desejo, pouco importando que seja ardente ou insignificante, e conduzir o paciente ao próximo estágio e deste ao seguinte até que, como toda boa função natural, se complete a fantasia desiderativa e se estabeleça a paz. A paz se teria estabelecido se não fosse aquela fuga precipitada e indecorosa, a pretexto de ir almoçar. Por um instante, me pareceu que seria a paz em que todos acabam por repousar.
Mas está claro que a mais importante conquista de hoje foi o episódio do guarda. Que belíssimo "slide" (belíssimo do ponto de vista clínico, já se vê!), passando sem nenhum esforço do major para a imagem paterna e daí para o velho guarda... Pensando bem, tudo isso se encontra na autobiografia de George. Vou procurar. Aposto como se encontra lá, com todas as letras. E aposto como poderemos ler outras coisas mais, agora que conhecemos a linguagem... George se encarregará de preencher as lacunas para nós.
Preciso escrever a Al.
Uma carta.
Caverna do Tanta N-O
Glandular, Ore. 16 abril
Sim senhor, Phil!
Se você disser "eu não disse?" eu lhe prendo um murro no... Mas, por outro lado, não tenho coragem. Eu o direi por você; você o disse; disse e redisse. E Deus meu, quando penso em como o pressionei! Mande o tarado embora, clamava eu. Deixe-o à solta neste mundo, esbravejava eu.
Com toda a seriedade, minhas felicitações, Phil. Você fez um magnífico trabalho a despeito de enormes dificuldades, e na medida em que lhe servi de obstáculo peço desculpas.
Entrei em contato com Lucy Quigley. Conhece? Trabalhou por muito tempo com a seção regional da Cruz Vermelha. Agora está por conta própria, disponível para uma pequena cooperação conosco, cheia de boa vontade, capaz como só ela e mais ou menos preparada.
Pedi-lhe que fosse à cidade natal de George para fossar nas coleções de jornais em busca de informações sobre a morte daquele guarda.
Se é que tal houve. Não se zangue, Phil; você sabe melhor do que eu que isso bem pode ser uma fantasia. Se tal morte ocorreu e combina com o que ele diz, será a sua coroa de louros, naturalmente. Se não ocorreu,, ou se não corresponde à descrição de George, terá sido alguma coisa que ele ouviu contar e de que se apropriou. Portanto, segure o fôlego, menino; este será o passo decisivo.
Entrementes, ela irá também entrevistar Anna. É a flor da competência, como já disse, e ademais cheia de tato e bondade. Partirá dentro de uns dois dias, e assim, se você quiser que ela faça perguntas a alguém na região ou que verifique alguma coisa, comunique para cá.
Sabe o que você é? Um detetive, aí tem.
Al.
Hospital de Base N.° 2 N-O
Smithton Township, Cal. 18 abril
(Não estou de veia para gracejar esta tarde.)
Meu caro Al:
Um tanto cansado e abatido ao escrever estas linhas: creio que as notas inclusas explicarão o motivo. Foi fascinante, mas nunca mais quero tornar a fazer isto. Meus cordiais cumprimentos e agradecimentos a Miss Quigley, e diga a ela que ficarei à espera, como o gato que comeu o queijo e foi sentar-se ao lado do buraco na parede, caçador e isca ao mesmo tempo.
Do seu Phil.
Notas inclusas:
Terapia, 16 de abril. (Transe superficial provocado inicialmente. Conseguido sem resistência e com rapidez.)
P. Está completamente à vontade, George? R. Oh! sim.
P. Você se sente bem esta manhã? R. Hum-hum. P. Lembra-se do que eu disse uma vez sobre trabalho que nós estamos fazendo, que é como assentar tijolo, e quanto mais tijolo nós assentarmos mais depressa havemos de terminar?
R. Nunca me esqueci disso.
P. Pois George, hoje é o dia. Esta vai ser a maior carrada de tijolos até agora. O que eu espero para quando tivermos terminado é conhecer você tão bem que tudo que nós fizermos depois seja claro, franco e fácil, até o fim do caminho. E isso, para você, significa sair daqui.
R. Estou escutando.
P. Sabe essa história da sua vida que você escreveu... Você disse que tinha posto ali tudo de que podia se lembrar.
R. E foi assim mesmo.
P. Mas agora viu que pode se lembrar de coisas que nem sabia ter esquecido.
R. Puxa, é verdade. O meu prato!
P. Isso mesmo. Bem, aqui está a sua história e ela tem uns dois ou três buracos. Você vai encher esses buracos para mim, não é mesmo?
R. Se puder.
P. Seja lá o que for?
R. Hum-hum.
P. Quando foi que você começou a beber sangue?
R....
P. George?
R....
P. (Calmamente e com a maior bondade possível.) Ah! George, George... Sabe que eu compreendo o que você sente? Que eu sei o que lhe fiz agora?... Esse era o seu grande segredo, não é mesmo, George? Você pensava que se um dia alguém descobrisse isto, seria o fim para você. E agora o segredo está descoberto. E você sente tanto medo que não sabe o que fazer... Mas não vai morrer. Isto não é o fim do mundo. Esse segredo fez você afundar tanto que... Bem, um dia você há de saber. Um dia há de saber. Quando tornar a subir lá para cima, vai saber o quanto tinha afundado. Mas não pode saber enquanto não tiver subido mais alto do que agora... Está começando a ficar com raiva, hem George? Fique com raiva, se quiser. Isto se parece um pouco com o major que tinha a sua carta, não parece? Mas sabe de quem é que você tinha raiva naquele dia? Tinha raiva do velho George, porque pensava que tinha deixado escapar o seu segredo. Mas não deixou escapar, não; e além disso, George, a carta se perdeu. Ninguém nunca viu essa carta senão o major e um censor, e os dois morreram na guerra, George... E também desta vez você não disse a ninguém. Eu adivinhei, comecei a juntar os pedaços, e deu certo. Mas aposto como não há ninguém mais no mundo que pudesse ter adivinhado. Você não disse. Você não disse. Fique com raiva se quiser, mas não tenha raiva de George. (Pausa prolongada. Procura e enche o cachimbo. Acende.) Agora vou lhe dizer uma coisa a respeito de segredos. Há uns tempos atrás havia uma gente que se agarrava com o dinheiro, enterrava ele, vivia preocupada com ele, até atirava nas pessoas que por acaso chegavam perto desse dinheiro. E quando acaba era dinheiro dos Confederados, não valia nada! Chegaram até a esquecer o que era. Esconder o dinheiro era mais importante do que quanto ele valia, o seu segredo é assim. No fim se tornou uma parte de você, continuava a esconder ele até quando não sabia que estava escondendo. Era por isso que tinha tanta dificuldade em falar com os outros, tinha medo que ele lhe escapasse... Pois bem, agora o segredo está descoberto, George, e ninguém vai lhe fazer mal por causa disso. O que nós vamos fazer é descobrir por que você gosta de beber sangue. Não se você gosta. E sabe qual será a utilidade de descobrir isso? É que você vai ficar sabendo. Como eu vou ajudar você a descobrir, também ficarei sabendo, mas eu sei uma porção de coisas. Eu sou médico e guardo para mim as coisas que sei. Não iria me prevalecer disso para lhe fazer mal... Vou fazer com que você diga a si mesmo por que bebe sangue. E depois que você tiver compreendido nós dois vamos juntar os pedaços e construir uma vida nova para você. Está dormindo? R. Não.
P. É muita coisa para engolir de uma vez só não é mesmo? R. Hum-hum.
P. Bem, vamos ao trabalho. Eu tenho aqui nas mãos a história que você escreveu. Não abra os olhos. Vá com calma. Fique na cama sossegado, bem sossegado. Deixe escurecer dentro dos seus olhos. Se estenda na escuridão como se fosse um colchão enorme, George. Se deixe afundar na escuridão, mais fundo, mais fundo, cada vez mais fundo. Não durma. Só fique deitado aí nessa escuridão morna. Tudo é fácil, fácil... Está ouvindo? Você pode falar com facilidade, com toda a facilidade... A respeito da caça. Você escreveu muito a respeito da caça, mas nem uma só vez disse que bebia o sangue dos animais que matava. Você...
R. Anyám!
P. Como?
R. Isto quer dizer Mamãe.
P. Continue.
R. É só.
P. (Pausa.) Não é obrigado a me responder se não quiser, mas por que foi que disse isto agora?
R. Você me perguntou.
P. Eu perguntei?
R. Quando foi que eu comecei.
P. Oh! oh! A beber sangue. Mamãe. Mãe?
R. Ela sempre dizia isso. Continuou dizendo até morrer, que eu era tão grande e tudo mais... Ah! você bebeu todo o meu sangue, dizia ela quando não se sentia bem... Mas eu não tinha feito por querer.
P. Claro que não. Ora, George, isso não era mais do que uma figura de linguagem, como quem diz "a todo o vapor", ninguém pensa que esteja ali uma locomotiva correndo. Não tem nenhuma galinha num pé-de-galinha.
R. Não, o velho me disse que eu fazia mesmo. Ela me deu de mamar depois que eu nasci e não quis parar quando teve uma doença que fazia os peitos dela sangrar. Dizia que era a sua obrigação e quase morreu disso. Acabou mesmo morrendo disso.
P. (Executando o que escarnecia nos outros como o Bote do Psiquiatra; eliminando heroicamente, contudo, o "ah! ah!" que acompanha essa manifestação.) Você pensa que é responsável pela morte dela!
R. Não, não penso. E não ia fazer diferença, era o que ela queria, disse isso muitas vezes. Minha mãe olhava com desprezo as mães fortes e cheias de saúde, dizendo que o que elas davam não era muito. O contrário dela. Gostava de pensar e de falar no assunto. Se pudesse ver hoje o que aconteceu, se sentiria feliz por ter morrido disso.
P. Você parece ter compreendido muito bem sua mãe.
R. Ela vivia falando nisso.
P. Quando foi que você começou a buscar sangue noutra parte?
R....
P. George?
R. Estou pensando.
P. Não precisa se apressar.
R.... (Traço de ansiedade.) Você quer saber a primeira vez de todas. E se eu não puder lembrar qual foi?
P. Não importa que tenha sido exatamente a primeira vez. Você era muito pequeno?
R. Acho que era, porque não posso lembrar. Me lembro da gata...
p. Quer me contar isso?
R....e os gatinhos. Ela tinha uma ninhada. Estavam mamando na gata. Eu devia ser bem pequeno. Uns três, quatro anos. Achei que eu também podia. Quis mamar. Lembro que quis.
P....Que foi que aconteceu?
R. Experimentei e a gata me arranhou na cara. Não sei como, eu tinha na mão uma folha quebrada de mola de automóvel. Sentei ela na gata e matei do primeiro golpe. Aí ela não pôde mais impedir. Mas acontece que o que eu estava bebendo era o sangue quando ele...
P. Continue. Você disse: "quando ele".
R....O velho. Chegou por trás de mim e me sentou um murro no meio das costas. (Mexe vagamente com os ombros no catre.) Por Deus, ainda lembro como a minha cabeça saltou para trás e eu vi ele de cabeça pra baixo, era como se um raio tivesse caído em cima de mim.
P. Que foi que ele disse?
R. Não disse nada, só me mandou parar com aquilo.
P. Aposto como você pode se lembrar exatamente do que ele disse.
R. Mas como é que eu vou saber? Foi só um... Bem, espere um pouco. (Longa pausa. E, em tom de pasmo:) Ele berrou: QUE EU NUNCA MAIS PEQUE FOCÊ FACENDO UMA COIÇA TESSA. Tal e qual.
P. Puxa... De modo que ele não lhe disse para não fazer.
R. Mas como não?
P. Ele não lhe disse que não bebesse sangue, é o que eu quero dizer. Disse que você não se deixasse apanhar fazendo isso. Não é a mesma coisa em absoluto.
R. Dá no mesmo.
P. Reflita bem. Eu espero.
R. Jesus!
P. George, eu li num livro antigo — um livro escrito há uns cento e cinqüenta anos talvez — uma história sobre um menino e o irmão mais velho dele, que pararam numa estalagem para passar a noite. E tinha lá um velho sentado diante da lareira, e começaram a conversar com ele, e o velho disse alguma coisa — não me lembra o que foi e não tem importância, mas foi qualquer coisa de grande sabedoria. E logo que ele acabou de falar o irmão mais velho sentou uma bofetada no pequeno que ele foi parar no outro lado da estalagem.
R. Por quê?
P. Disse ele que queria que o garoto se lembrasse para toda a vida do que o sábio velho tinha dito. Como você vê, é coisa conhecida há muito tempo. A gente se lembra de ocasiões assim, se lembra delas bem lá no fundo. E lembra com a mesma clareza tudo que aconteceu na ocasião. Aposto que todas as vezes que você sente gosto de sangue na boca tem a impressão de ouvir uma voz forte e grossa, nalguma parte, berrando que eu não pegue você fazendo isso.
R. Principalmente gatos... O gosto não me agrada.
P. E sabe por quê?
R. Por Deus que sei!
P. Agora já sabemos tudo, menos por que você gosta de beber sangue.
R. Gosto, simplesmente.
P. Alguma outra razão?
R. Não... Só que às vezes sinto que estou perto de minha mãe. Não vá rir de mim.
P. Nunca ri de você até hoje, George, e nunca hei de rir... Sabe? Uma coisa que eu noto quando leio esta sua história é que tem umas temporadas em que você precisa beber sangue, outras em que pode beber ou deixar de beber, e outras em que pode passar até dois anos sem pensar nisso sequer.
R. É assim mesmo.
P. Mas donde vem isso?
R. Não sei.
P. Vamos ver. Aqui... Não, aqui. Hum. As vezes que você passou sem caçar foram os primeiros dois anos na escola e os primeiros dois anos mais ou menos na fazenda de sua tia.
R. E no Exército.
P. Sim, no Exército. Exceto... bem, vamos deixar isto para depois. Agora vamos ver as vezes que você teve de caçar animais. O terceiro ano na escola, está certo? E no ultramar.
R. Anna adoeceu. Uh!
P. Isso foi duro, hem?
R. Uh!
P. Bem, vamos ver no tempo da escola. Porque na aparência nada tinha mudado, não é mesmo? Você continuou fazendo as mesmas coisas no mesmo lugar. Que foi que aconteceu?
R. No fim dos dois anos? O velho morreu.
P. E isso fez você sentir de repente a necessidade do sangue?
R. Não sei. Só sei que senti.
P. Talvez porque, depois dele morrer, você precisasse se sentir mais perto de sua mãe?
R. Pode ser. Não sei por quê, mas isto não parece certo. Ou quem sabe se era em parte por isso, mas só numa pequena parte.
P. E por volta desse tempo não lhe aconteceu mais nada?
R. Hummm... Não.
P. Bem, então vamos passar...
R. Espere... Pode ser que isto... (Pausa prolongada.) Escute só, depois que o velho morreu tudo ficou muito diferente. Como se eu tivesse a certeza de que podia voltar para junto dele quando saísse. Ele não representava nada pra mim, mas eu não tinha mais ninguém. O que é certo é que aquele buraco daquela cidade onde eu morava não tinha uma só coisa pra me atrair. Quando ele morreu eu fiquei meio perdido.
P. Então, sempre que você se sentia meio perdido era quando precisava de sangue.
R. Dá este fogo no estômago da gente.
P. Isso aconteceu quando Anna adoeceu, quando seu pai morreu e quando você foi mandado para o ultramar.
R. E um montão de vezes em casa, com o velho bebendo. E quando Tio Jim me quebrou a cara naquela noite da jaritacaca e me disse não volte mais aqui, não volte mais aqui.
P. Pois taí, George. Você nunca se deu conta de que o desejo do sangue lhe vinha de fora, por causa das coisas que lhe aconteciam, e que absolutamente não vinha de dentro como parecia?
R. Não, nunca.
P. E agora você sabe que quando sente esse fogo no estômago pode resolver o problema de outro modo que não matando um animal para beber o sangue. Sabe que alguma coisa está fazendo você se sentir perdido, e se puder dar um jeito nisso não precisa de sangue. Nunca mais.
R. E eu sempre pensei que precisava disso e que eu era o único...
P. O que acontece é que você olhava a questão pelo lado errado. Talvez não haja muitos que tenham necessidade de beber sangue, mas há milhões, bilhões até, que sentem essa mesma coisa que leva você a beber sangue.
R. Não estou entendendo isso.
P. Todo mundo de vez em quando se sente sozinho, perdido.
Tal qual como você. Cada um tem a sua maneira de resolver o problema, assim como você tinha a sua.
R. Sempre pensei que eu fosse o único.
P. Pois não pense mais isso... Olha, aqui tem outro buraco na sua história. Você diz que forçou a porta do necrotério para entrar, na noite em que puseram sua mãe lá. Pra que fez isso?
R. Que foi que eu escrevi? Pra dizer adeus.
P. "Para dizer adeus à sua mãe lá à sua moda", é o que você escreveu. Qual é a sua moda de dizer adeus?
R. (Depois de uma longa pausa.) Ela sempre disse que era pra mim.
P. (Cautelosamente.) Me diga como era aquilo lá dentro.
R. Bem, não era um lugar bonito, lá na minha cidade. Assim mais ou menos como uma espécie de oficina, com prateleiras, pias e essas coisas, e ela estava deitada numa mesa comprida, toda coberta por um lençol, até a cabeça. Tinham tirado todo o sangue dela. Vi quando fizeram isso de noite, por um buraco na veneziana. Estava no chão, dentro duma garrafa.
P. E você...
R. Ela sempre disse que era pra isso. E de um certo modo, assim nós ficávamos sendo parte um do outro para sempre. Não vá rir de mim.
P. Não estou rindo... Está bem, George, Vamos continuar... Aqui tem outra coisa. Você menciona uma pedreira no outro lado da cidade, onde havia umas rãs muito grandes.
R. Às vezes as rãs são ótimas, como num dia muito quente, para variar. Elas são frias, como você sabe. Principalmente quando a gente enxota elas do lugar onde estão tomando sol e elas mergulham pra se esconder bem no fundo. Podem ficar dez ou quinze minutos debaixo d'água e quando vêm pra cima estão bem frias. Só que a maior rã deste mundo mal dá pra encher a boca. Uma rã não pode ver o cara quando ele não se mexe. É só ficar esperando no mesmo lugar que elas vêm, por assim dizer, pular nas mãos da gente quando se fica bem quietinho.
P. Sabe que você é quase um naturalista, George? Nunca conheci um homem tão entendido em assuntos de caça miúda.
R. Bem, eu estudei essas coisas.
P. Ah! sim... aqui está aquela parte em que você escreve sobre o sexo. Você tem muito boa cabeça, George. Uma porção de gente que passa por ser muito mais sabida, inclusive eu, não chega a fazer uma idéia tão clara desta questão. Mas me diga uma coisa... Anna foi a única mulher que você teve na vida?
R. Hum-hum.
P. Olhe, você não vai se importar de me dizer. Quando você e Anna...
R. Phil, eu não quero que você se dane comigo...
P. Continue. Que é que você ia...
R. Que é que você...
P. (Rindo.) Vamos parar de falar ao mesmo tempo. Que foi que você disse?
R. Phil, não faça perguntas sobre Anna e eu, como nós fazemos a coisa, está bem?
P. Se faz questão de não falar nisso, não falaremos.
R. Ah! muito obrigado. Pra lhe dizer a verdade, eu andei todo este tempo meio arisco pra falar porque não queria que a gente tocasse nisto.
P. Se tem outra coisa em que não queira tocar também, vá dizendo logo. Eu estou aqui para trabalhar com você e não para lhe atucanar.
R. Bem, já que você falou nisso tem mais uma coisa.
P. Venha de lá.
R. Aquela carta que eu escrevi para Anna e que foi o começo de todas estas encrencas. Não quero que você me pergunte nada sobre ela.
P. (Com uma praga muda.) Claro que não, se você não quer.
R. (Torna a deitar o corpo, expansivo, com um profundo suspiro.) Ora muito bem. Agora tudo vale.
P. Muito bem. Então deixe de andar aos pulos e fique de novo sossegado. Feche os olhos, faça ficar tudo escuro, mergulhe na escuridão e se deixe embalar nela. Não durma. Você pode me ouvir muito bem. Pode falar muito bem. Afrouxe todo o corpo. Os dedos dos pés. Os tornozelos. Os dedos das mãos. Um, Dois, Três, Quatro, Cinco. Como está se sentindo?
R. (Tranqüilamente.) Às mil maravilhas.
P. Estou de novo procurando buracos na sua história. Percebo o que você quer dizer, George. De fato está tudo aqui, depois que a gente aprende a ler o que você escreveu. Aqui está o caso do guarda, completo, e eu nem me dei conta na primeira vez que li.
R. (Tranqüilamente.) Isso foi depois da briga com Tio Jim.
P. É claro que você não dá muitos detalhes... mas assim mesmo está aqui. Você gosta de sangue humano?
R. O melhor de todos que eu provei foi sangue humano. Mas não o daquele velho borracho.
P. (Hesita.) Bem, havemos de chegar lá, imagino... Ah! aqui tem uma coisa. Sobre a casa de castores.
R. Sim, e o guri desarmou o meu mundéu.
P. Você não fala muito aqui sobre o que aconteceu. Ele não estava ferido?
R. Oh! a perna estava meio esmagada. A perna não incomodou mais ele depois que eu cheguei.
P. Tirou ele de baixo da pedra?
R. Tirei de baixo da pedra. Descadeirei ele a pau. Eu escrevi isso aí, era como se ele fosse aquela maldita criança que deixou Anna doente e afinal eu podia me vingar.
P. Que fim levou ele?
R. Botei no lago.
P. Espere um pouco... Esse negócio de lago... Você inventou uma história no teste de Apercepção Temática. Lembra-se da figura dos meninos nadando? Você falava num garoto que se pôs aos gritos e noutro garoto que empurrou ele para baixo d'água. Sim, é isso, ele estava com a perna pisada também.
R. Pois é, foi assim que aconteceu.
P. Você cortou ele, George?
R. Depois que tirei de baixo da pedra. Mas não doeu porque já estava morto.
P. Que idade tinha esse menino?
R. Eu não entendo de garotos, não sei calcular a idade pelo tamanho. Seis anos ou sete, mais ou menos. Esse foi o que eu lhe falei, o melhor que já tive. Mas estava tão furioso com ele que tive uma chance de me vingar. Deve ter sido isso que fez a diferença.
P. Onde foi que você cortou o pequeno?
R. Pelo umbigo.
P. De quem ele era filho?
R. Que sei eu! Aquelas famílias de polacos por lá têm tanto filho que chegam a perder a conta, e além disso são umas bestas que mal sabem contar. Isso não foi perto de onde eu morava, Phil. Foi para os lados de Cravensville. Aliás Cravensville fica naquele mesmo lago, só que no outro lado, na direção contrária onde eu estava.
P. Que foi que fez com ele depois?
R. Botei simplesmente no lago como se tivesse se afogado.
P. George, você se alistou logo depois. No dia seguinte mesmo.
Foi porque esse caso do garoto deixou você com medo? R. Sim e não. Eu sabia que ia me meter nalguma encrenca séria do jeito que andava. Não era esse que me preocupava, o que me preocupava era o que viesse depois ou o terceiro, se é que você me compreende. A gente pode ter um descuido. Minha idéia era que o Exército seria mais ou menos como a escola, só que maior, e acertei. Ele me botou no bom caminho durante uns dois ou três anos, até que nos mandaram para longe. P. Mais uma vez, era questão de se sentir ou de não se sentir perdido. R. Você tem toda a razão. Ninguém se sentiu perdido como eu depois que nós descarregamos aquelas padiolas dos C-119. Vi onde eu ia terminar, e era aquilo. Vi onde eu estava, e isso ia terminar. Alguma coisa tinha que estourar. P. E estourou... Ah! tenho aqui uma nota para lhe fazer uma pergunta, George. Eu rocei nalguma coisa de passagem quando fiz a primeira leitura, e da segunda vez tropecei nela. É uma coisinha de nada, mas quando você descreve um acontecimento eu sempre sei onde está cada pessoa e cada coisa. Mas desta vez aqui, em que seu pai voltou bêbedo para casa e você estava com a faca na mão... R. Ah! sim.
P. Deixe eu ler em voz alta. Foi quando você atirou a faca. De um lado ao outro do quarto, está certo? Sim. Pois escute: "... olhou o talho e o sangue que corria dali. E a mãe tinha as mãos no rosto escorrendo sangue, arregalando os olhos entre os dedos para o pai. E o pai afastou George com um empurrão, pegou o pano de pratos..." etc, etc. R. Sim, e que tem isso?
P. Se você atirou a faca do outro lado do quarto, como é que seu pai lhe empurrou? Fiquei com a impressão de que seu pai ficou no mesmo lugar, perto da pia segundo parece, logo não avançou para você. R. Oh! fui eu que avancei. (Numa voz subitamente baixa e intensa.) Foi uma coisa como nunca me aconteceu outra igual, nem antes nem depois. A faca ficou cravada nos músculos do peito dele, não acredito que tenha passado uma costela. Só ficou espetada ali. E quando ele arrancou eu caminhei para aquele lugar como se tivesse um fio me puxando, como um sonâmbulo no cinema. Eu não era dono de mim mesmo, tal qual um sonâmbulo... Caminhei pra lá, botei a boca naquele talho e me pus a chupar, eu estava... querendo fechar o talho, fazer ele desaparecer, fazer como se aquilo nunca tivesse acontecido, ou... ou sei lá o quê. Em geral eu tenho uma idéia do que estou fazendo, mesmo quando estou louco de raiva, mas dessa vez não tinha, simplesmente não podia me controlar. P. (Após uma pausa.) Bem, eu... acho que tenho a resposta para a minha pergunta. Como foi que ele pôde levantar a mão e empurrar você para longe? R. Eu assustei ele. Até fiquei com medo de mim mesmo. Acho que foi por isso que ele saiu daquele jeito e nunca mais bateu na minha mãe nem em ninguém. Essa... essa coisa de sonâmbulo me meteu muito mais medo do que ter atirado a faca, você sabe? P. Bem posso fazer idéia... Acha que por hoje chega, George?
(Processo convencional para fazer o paciente retornar ao tempo presente, e fim de sessão.)