Um pouco do seu sangue e outras histórias
Seis
Eis aqui mais uma carta com o cabeçalho cortado.
Estância da Lua N-O
Orgônia, Oregon. 23 fev.
Querido Phil, com mil diabos:
A despeito de todas as minhas obrigações, aqui fiquei beliscando, o lábio inferior e me perguntando o que lhe dizer. Quero declarar de saída que quando recebi aquele maço de papéis enviado por você e verifiquei que não se tratava da edição dominical do Chronicle, sem, faltar o suplemento de modas para a primavera, fiquei danado da vida. E acho que ainda estou. E comecei pensando que "George Smith" devia ser expulso desse seu motel de malucos, e terminei pensando a mesma coisa. Mas você me fez rir.
Pois claro, seu psicólogo das arábias. Depois desta espera toda, dissesse você o que dissesse eu lhe teria cuspido no olho. Se cheguei a pensar em você e "George", foi para achar que a falta de notícias era bom sinal e que você havia encerrado o caso. E aí você me manda a autobiografia dele sem nenhum comentário, absolutamente nada.
Coisa tão lamentável é mesmo para rir. Sei o que você está tramando. Quer que eu reaja, isto é, que pense. Ora, você sabe muito bem que um administrador não tem tempo para pensar, como não tem tempo para andar lendo testamentos deste tamanho. Você também me conhece o suficiente para saber que eu ia folhear os papéis, me deixaria apaixonar por eles, e recomeçaria a leitura me detendo em cada palavra. E que admiraria o esforço aplicado nisso tudo, sem excluir o trabalho que você teve batendo tudo à máquina. (Que é isso, já não tem trabalho que chegue?) (Falando sério, Phil, sei que você deixou de dormir para fazer isso, e acabe com essa história: eu preciso de você. Você vai acabar se matando.)
Agora falemos da biografia. Sem dúvida nenhuma, fiquei muito mais impressionado pelo horror patético que ela encerra do que com um tipo calejado como você. Também me impressionou a habilidade descritiva do rapaz. Não sei como um professor de inglês do quarto ano primário analisaria algumas de suas frases (como esta descrição do nó de madeira velha no costado do barco: "...às vezes a gente vê coisas assim que embora elas não se mexam, o olho da gente não pára de andar para dentro e para fora e em roda e voltar atrás, nas costas de um gato tem dois redemoinhos de pêlo assim."), mas nunca deixei de entender exatamente o que ele quis dizer. E além de uma ou duas verdadeiras intuições que ele chega a alcançar, corno por exemplo aquela análise do sexo e a distinção precisa quase sutil que faz entre Satisfação e Alívio, estou impressionado pelo caráter
completo da história. Do meu ponto de vista parcial ele não omitiu nada de significativo; seu auto-retrato forma um todo substancial e sólido e não contém lacunas visíveis. O que deixou de mencionar, como por exemplo os detalhes exatos de sua técnica sexual com Anna, não deveria preocupar ninguém a não ser um clínico grosseirão como você, insensível à delicadeza das reticências.
Penso que há muita gente solta por aí, gente que passaria com distinção e louvor qualquer teste de sanidade e que no fundo é mais doente do que esse rapaz. Ele é um dos poucos seres humanos de que tenho conhecimento, que parecem ter colocado o sexo numa perspectiva realmente sadia. Tem uma autoconfiança fora do comum enquanto estiver só, será tão incapaz de sentir-se desorientado quanto um gato. E isto traz à tona o que, na minha opinião, é a verdadeira natureza da sua doença. E não se trata de doença.
Como disse acima, muitas pessoas aceitas como sãs são no fundo mais doentes do que "George". O ponto em que podemos levantar certas dúvidas a respeito de George se refere não a uma pessoa, mas às pessoas em geral. Nenhum ser humano, nem mesmo George, vive completamente só. O fluxo interpessoal não é apenas divertido, conveniente, apropriado ou ortodoxo. É essencial, vital. Homo sap. é uma espécie interdependente. Não pode viver só. E é fácil descrever o tipo de relacionamento de George com as outras pessoas: não há relacionamento.
Nele, contudo, me parece que isso não importa. Encontrou Anna. Há uma aura estranha em torno dessa relação mas seja lá o que for — e eu não estou espiando — é adequadamente côncavo-convexa, se é que você me entende. Pela descrição, ela parece ser uma rapariga com falta de peças, mas tem as que ele precisa.
Resumindo, penso que a única doença deste camarada é tecido cicatricial de uma infância lamentável, e seu único crime o de ser um solitário. É algo que parece criminoso a nós, almas gregárias, porque não nos julgamos capazes disso. É uma coisa... digamos, que não está na moda. Deixa-nos inquietos por causa de uma certeza intracelular que todos temos, de que sem nosso próximo não poderíamos sobreviver. Numa cultura de rebanho e colmeia como a nossa, uma criatura solitária parece de certo modo imoral. Arreda!
Tudo que precede (disse ele modestamente) é conversa mole; trata-se da sua especialidade e não da minha. A despeito de minha irritação fico-lhe muito grato, companheiro velho, pela hora fascinante que me proporcionou. E agora, pelo amor de Deus, solte o rapaz.
Como sempre, Al.
P. S.: Em nome do céu, que acha você que continha aquela carta que alarmou o major?
Aqui está a cópia de uma carta a carbono.
Lingam Lane N-O
Ganímedes, Cal. 28 fev.
Prezado Coronel, Brigada do Parafuso Frouxo:
Encantado com sua carta, sua sabedoria, sua intuição, sua perspicácia. Tudo errado.
1. Existem lacunas visíveis na narrativa de George, e:
2. Sua atitude em relação ao sexo não é Sadia. Depois de dizer isto num tom tão positivo, vejo-me na obrigação de ser honesto e admitir, quanto ao número Um, que ignoro quais sejam as lacunas, só sei onde estão. E quanto ao número Dois, não creio que a atitude sexual dele seja sadia, mas tampouco afirmo que seja mórbida. Não se trata de jogar com as normas aceitas, que, como você sabe, são um bocado fantásticas sob certos aspectos. Acontece apenas que não sei qual é a sua matriz sexual; mas estou certo de que merece ser investigada.
Como você, andei ocupado com milhares de outras coisas enquanto tudo isso vai marchando e devo lembrar-lhe que esta correspondência, depois de tantas semanas, procede unicamente da biografia voluntária de nosso amigo e de nossa avaliação da mesma. Acho que já é tempo de eu dedicar um tempo especial a ele e de começar a cavar. Eu o porei ao corrente do que acontecer. Mais uma vez, obrigado pela sua maravilhosa carta.
Amizade,
Phil.
Gabinete do Administrador
Q. G. do Hospital de Campo N-O
Portland, Oregon 2 março
Phil.
Vou me exprimir com a maior brandura possível. A amizade e a correspondência não-oficial, como fatores alfa e beta, são desejáveis enquanto não interferirem com gama, isto é, o trabalho. Alfa e beta são estupendos quando ajudam o trabalho. Mas, se gama for prejudicado ou retardado, teremos de dispensar beta e, se necessário, alfa. Porque, companheiro velho, gama é maior do que qualquer de nós. Estou usando letras gregas porque você é um intelectual e não quero insultá-lo com a, b e c, mas Phil a coisa é realmente simples como o ABC.
Posso argumentar que talvez você tenha trabalhado tanto (e tão bem, acrescento cordialmente) que seu discernimento comece a vacilar. E/ou posso sugerir que essa dedicação, sem dúvida admirável, à sua especialidade, o leva a caçar sutilezas num momento em que tem uma pilha cada vez maior de trabalho bruto à sua espera. Isso lhe faz muita honra pessoalmente, mas não convém à firma. Posso até admitir que você tem razão com respeito a esse paciente, mas continuo a insistir que se ele é pancada, não é o suficiente para derrubar um pau de fósforo. Dê alta ao sujeito e esqueça-se dele. Ou, se não puder, continue de olho nele e leve-lhe umas aspirinas quando deixar a farda.
Ou finalmente, posso dizer, e você sabe muito bem que o farei se a isso for obrigado, que o senhor tem de obedecer às minhas ordens, Sargento Outerbridge, mesmo sabendo que estou errado. Mesmo sabendo que sei estar errado.
Reconheça o esforço literalmente acima e além da linha do dever, em benefício da supramencionada alfa. Muito me custaria perdê-la.
Ainda seu Amigo,
Al.
Aqui está a cópia de uma caria a carbono.
Hospital de Base N.° 2
Smithton Township, Cal. N-O
Gabinete do Estado-Maior 4 março
Meu Coronel:
Cedo à superioridade do número. E dos galões. Continuo como em data anterior redigindo, de acordo com as ordens recebidas, um diagnóstico convincente. Lamento que você tenha sido levado a tomar uma atitude, Al. Compreendo o porquê, mas confesso que lamento o fato. Bem, bem creio que a velha Alfa pode resistir à prova.
Enquanto vou sondando (e sem molengar, meu Coronel), aqui tem algo com que se distrair nos seus momentos de ócio:
Exatamente por que motivo o substancial e sólido, admiravelmente retratado pracinha perdeu as estribeiras quando o major lhe fez aquela pergunta específica?
do seu obediente Phil.
Eis aqui a resposta:
Mesmo lugar N-O
Mesmo Estado 13 março
Phil, seu safado:
Você tem um talento especial para introduzir formigas vivas debaixo do couro cabeludo dum vivente. Excluindo-se o fato de eu não dispor de momentos de folga, o que aliás você não ignora, tomei a decisão de não empregá-los em causas perdidas como esta. Ao cabo de quatro dias a coisa me amolou tanto que tirei da gaveta o manuscrito de "Smith" para averiguar exatamente o que lhe perguntara o major quando ele perdeu a cabeça. Foi o seguinte, e cito as palavras textuais: "Por que é que você caça, George? Quero dizer, qual é o resultado que tira disso?" E então, bum!
Durante mais dois dias resolvi, uma porção de vezes, esquecer o assunto. Portanto, não que isso importe, mas a bem do sossego, do doce e paciente sossego: Sr. Esculápio, por que foi que o bom do rapaz perdeu as estribeiras?
Não que isso importe, realmente. Você não precisa responder a esta carta.
Al.
Uma cópia a carbono:
Santa Casa N-O
Govercrotch, Cal. 15 março
Não sei, Al. Quer que pergunte a ele?
Phil.
Uma carta:
Q. G. do Hospital de Base N-O
Portland Ore. 16 de março
Não!
A. W.
Um telegrama:
SARG. PHILIP OUTERBRIDGE
HOSPITAL DE BASE N.° 2
SMITHTON TOWNSHIP CAL MAR 16 6.12 PM
POIS PERGUNTE
AL
Outro telegrama:
SARG. PHILIP OUTERBRIDGE
HOSPITAL DE BASE N.° 2
SMITHTON TOWNSHIP CAL MAR 16 6.21 PM
FAÇA-SE ACOMPANHAR DE UMA GUARDA ISTO
É UMA ORDEM
CEL. ALBERT WILLIAMS
Caverna dos Leões N-O
Luna Parle, Cal. 17 março, begorrah
Meu caro AI:
Fiquei sinceramente comovido com o seu segundo telegrama da noite passada. Veja só, é a primeira vez que você se dirige a mim como superior e eu fico comovido.
Na verdade, sua atitude de comando em data recente me infundiu tamanho respeito que obedeci correndo ao receber o seu primeiro telegrama e só depois de descer recebi o segundo, tão confortador.
O trabalho com a sábia e provecta diagnose e recomendação para alta do hospital progride rapidamente. Creio que estará tudo pronto dentro de algumas horas, ou digamos 24.
Como sempre, Phil.
P. S. Pois claro, você há de estar querendo saber o que o homem disse. (O 17 de março sempre me transporta em espírito para as margens do Shannon*). Ele disse — e com- a mais perfeita calma, Coronel: como sabe, ele confia em mim, o que não acontecerá quando (se Deus quiser) eu ganhar as minhas barrinhas de prata, o que será mais ou menos pela época em que ele sair daqui. Homem, tenho a impressão de que passei metade da vida esperando essa promoção. Diga-me, Al: eu me sentirei tão feliz em receber as humildes insígnias de capitão como você se sentiu com as suas soberbas águias?... Mas estou me desviando do assunto. O homem disse, quando lhe perguntei por que ele descarrilhou quando o major lhe perguntou que proveito tirava de caçar pequenos animais — como você há de se lembrar, ele declara no manuscrito que não aprova o ato de matar pelo simples prazer de matar; portanto não se tratava disso, e quanto ao motivo óbvio não creio que ele tenha mencionado sequer uma vez a fome em conexão com a caça: sucede também que freqüentemente passava meses e mesmo anos consecutivos sem o mais leve desejo de caçar; seja como for, respondeu simplesmente que tinha explodido por julgar que o major descobrira o motivo. Quando lhe perguntei por que havia de se aborrecer com isso, me respondeu cuidadosamente que em absoluto não se irritou contra o major; que o major era um bom homem; que se irritou contra si mesmo por se ter denunciado. Os PEs vieram agarrá-lo quando estava furioso, daí o fecha-fecha, o "donnybrook". Begorrah! O major se meteu no rolo para ajudar e recebeu as sobras.
* O 17 de março, dia de S. Patrício (Padraig em irlandês) é a data nacional da Irlanda. Daí as várias alusões, modismos e termos irlandeses encontrados nesta carta e na seguinte. De tudo isso é quase impossível dar uma idéia na tradução, Begorrah, que aparece duas vezes aqui, é uma interjeição irlandesa, eufemismo por by God (por Deus). O trevo mencionado mais adiante (shamrock) é o emblema floral da Irlanda. Diz-se que S. Patrício o usava para explicar a doutrina da Trindade. — N. do Trad.
Afirma ele que se ninguém o tivesse agarrado nada teria acontecido além dos cortes na mão quando esmigalhou o copo d'água.
Espero que isto seja resposta suficiente para a sua pergunta, Al. Sossego, doce e paciente sossego. Ele será um civil antes que o orvalho venha banhar o trevo ou pouco após. P. O.
Q. G. do Hospital de Base N-O
Portland, Oregon 19 março
Prezado Phil:
Percebo a sua manobra. Até certo ponto. Há uma distinção entre obediência absoluta e obediência implícita, quotidianamente descoberta e redescoberta nas fileiras e usada para aporrinhar os oficiais. Apesar da sua garrulice desenvolta, do seu "blarney" (como vê, também eu sou imune à influência de Padraig), ainda se ressente pelo fato de eu me ter socorrido da hierarquia com você. Percebo até o seu joguinho para me induzir a fazer aquela pergunta (Por que "George" perdeu a tramontana), quando era perfeitamente claro que o meu interesse era o mesmo do major: saber o que o compelia à caça, se não era o prazer de matar nem a fome?
Se ele ainda estiver aí quando você receber esta, veja se pode descobrir.
E olhe lá: a fim de prevenir qualquer das suas artimanhas de titereiro e beliscador de neurônios, vamos abandonar este sistema de respostas-explícitas-para-perguntas-explícitas. Se conseguir uma resposta para esta pergunta, não ma comunique acompanhada de uma deixa para a pergunta seguinte.
Diabos levem tudo isso, Phil. Você está empenhado a fundo nesta história, não está? Se eu não lhe der rédea solta com esse paciente você me matará aos poucos com as suas puncturas e alfinetadas. E sabe muito bem que eu preciso de você aí onde está, dando o mais duro possível, o que, suponho, significa feliz da vida. A única alternativa é metê-lo na estacada ou transferi-lo daí, e isso você sabe que eu não posso fazer.
Muito bem, toque para a frente. Mas não esqueça o resto. Consiga resultados com ele ou ponha-o na rua.
Sua.sorte é sermos amigos. Minha sorte é que você sabe guardar segredo. Quanto ao Filho da Natureza continua achando que você está enganado. Apresse-se a provar o seu ponto de vista.
Al.
Sítio da Felicidade N-O
Venturosa, Cal. 21 março
Prezado Al: Deus o abençoe, menino! Tenho tudo preparado — A percepção Temática, Rorschach, projeção de personalidade desde perfil até Patagônia. Quanto ao resto do trabalho, amigo velho, você tem um dínamo a seu serviço. Nunca viu processamento como vai ver agora. Obrigado, obrigado, mil vezes obrigado, e jamais me pergunte se eu realmente estive tratando da alta de "George".
De seu muito grato
Phil.
Centro Esquizóide N-O
Coco Rachado, Oregon 23 março
Meu caro Phil:
Não me agradeça, amigo; e não se inquiete, eu não lhe perguntarei se realmente estava processando essa alta. Você tem o seu velho Coronel completamente submisso e aos seus pés, disposto a fazer o que quer que seja para auxiliá-lo. Assim, estou retardando a sua promoção até que tenha terminado o trabalho com o seu amigo literato, para que as barrinhas de prata não venham a perturbá-lo. É um caso complicado, Phil, mas pode contar com a minha colaboração ainda que dure anos.
Cordialmente,
Al.