Um pouco do seu sangue e outras histórias

Alfred Hitchcock · Capítulo 12 de 20

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Um pouco do seu sangue e outras histórias

Onze

Comentários: Quanto a uma avaliação formal e completa, teremos de esperar. Não só é necessário fazer com que estes dados cheguem às mãos de Miss Quigley antes que ela parta para o Sul, mas há também a questão de gerar suficiente objetividade para fazer um trabalho consciencioso. Talvez seja simples excesso de fadiga, mas de momento eu me daria como incapaz de qualquer análise, necessariamente clínica e impessoal, destas ocorrências. Por enquanto, contentemo-nos de dar uma vista d'olhos a alguns dos pontos mais salientes.

Quer me parecer que a varinha mágica foi, para George, a revelação de que o seu segredo estava descoberto. Já uma vez falei das estranhas maneiras pelas quais a psique enferma clama por socorro; é pena que não se possa inventar um dispositivo detector capaz de mostrar em que linguagem, por meio de que instrumento ou vocabulário esse grito de socorro nos é transmitido. O fardo do seu segredo deve ter sido insuportável e deve ter-se tornado mais insuportável ainda nas últimas semanas. O que me surpreende é a maneira como lhe veio a libertação; ao mesmo tempo em que eu laboriosamente tratava de abrir caminho entre os escombros da cratera para juntar-lhe os pedaços, ele já estava em pé na beirada, procurando com afinco a resposta à minha pergunta sobre a época em que começou a beber sangue.

Resumindo as suas razões para tal prática, vemos que recorre a ela em busca de alívio apenas quando se sente magoado, desorientado — "perdido", como ele diz. É neste ponto que difere de uma fome comum. Ou, para nos exprimirmos de outro modo, e usando a distinção de George entre "satisfação" e "alívio", sua sanguissedência não se parece com as pressões engarrafadas e furiosas que impulsionam o verdadeiro psicopata sexual; lembra muito mais o vácuo clamoroso no estômago de um lactante.

Uma vez feita a analogia, vemos que se relaciona de tantos modos com a questão que deixa de parecer uma analogia e se torna pouco menos de uma análise. Um bebê faminto quer o que quer com uma exigência insensata, irracional, que não admite demora, discussão, adiamento ou persuasão. Neste sentido, pode-se bem descrever o nexo emocional de um bebê como insano... maníaco... obsessivo. E o bebê procura esse lenitivo para qualquer outra coisa que o incomode além da fome. Quando bate com a cabeça, embora de barriga cheia, ele pode ser consolado com a mama. Se bate com a cabeça quando tem a barriga cheia e não encontra o peito, sua indignação é enorme e sua exigência aumenta.

Para qualquer pessoa maltratada e privada de tanta coisa como George, a transferência do leite materno para o sangue seria compreensível. No caso de George mal se pode falar em transferência — não à luz do que ocorreu e, além do mais, do que ele ouviu repetidas vezes sobre a preocupação da mãe com a hemorragia dos seios.

Começo a pensar que o problema de George é um problema sexual apenas no sentido mais remoto, embora paralelo. "Parada de desenvolvimento" é uma expressão útil mas, no caso dele, excessivamente pálida. Dir-se-ia que o seu desenvolvimento emocional cessou de todo, não na adolescência ou na pré-puberdade como sucede em muitos desses casos, mas nos níveis mais primitivos da infância. O fato de seu desenvolvimento físico e mental em todas as outras áreas se apresentar relativamente intato pode parecer improvável, pode ser estatisticamente impossível, mas permanece um fato.

Hotel Venetian

Charlotte, Carolina do Norte 5 de maio

Prezado Dr. Outerbridge:

"Derrubada", como dizem os aviadores, pelo nevoeiro tenho de passar a noite aqui e apanhar o avião de amanhã. Esta tarde enviei meu relatório ao Cel. Williams mas desconfio que o correio aéreo esteja tão imobilizado hoje quanto eu. Portanto, com uma noite pela frente e uma máquina de escrever na bagagem, lembrei-me de lhe escrever, quando menos por saber que o senhor deve estar aflito por notícias.

Talvez o Cel. Williams lhe tenha dito que fui enfermeira psiquiátrica antes de trabalhar na Cruz Vermelha. Digo-lhe isso para dar força às minhas felicitações. Por favor não se aborreça com o Cel. Williams por me ter mostrado a sua correspondência extra-oficial — ele é um velho amigo e sabe, como eu gostaria que o senhor também soubesse, que eu não sou o tipo de pessoa que deva ser excluído de tal correspondência.

Para não mantê-lo em suspenso por mais tempo, vou dizer-lhe de saída que o senhor acertou em toda a linha. Os dois homicídios são reais e ocorreram nas ocasiões calculadas pelo Cel. Williams com base na história e nas declarações do paciente — seu alistamento, por exemplo, e a conjetura mais aproximada que ele pôde fazer quanto à data do Episódio do Tio Enzorrilhado (com o qual, segundo verá, fiz conhecimento e estive conversando).

A morte do guarda foi noticiada pelo jornal, registrada nos livros da polícia — e atribuída a um ataque cardíaco. Não relatarei em detalhe as minhas pesquisas a partir desses fatos, salvo para dizer que a resistência que encontrei não foi pequena, o acolhimento que tive não foi caloroso, o auxílio que recebi não foi prestante, as ameaças que fiz não foram insignificantes e os sentimentos que deixei atrás de mim foram de grande alívio. Em sóbrio resumo, procurei o chefe de polícia, o "barman" local que manobra com o chefe de polícia e a mulher do "barman" que é dona do bar e manobra com o marido; e, tendo obtido carta-branca com ela, pude abordar o "coroner" suficientemente armada para vasculhar os seus arquivos. Estes, com efeito, diferem dos relatos do jornal e da polícia, que não mencionam o ferimento à faca. O "coroner", um exemplo absolutamente incrível de caracterização, sem faltar a corrente de ouro do relógio e a escarradeira, apresentou uma justificação aparentemente sofistica pela omissão daquele ferimento; apesar disso, acredito que seja verdadeira. Disse ele que o guarda, um alcoólatra crônico e de longa data, com uma doença de rins quase na fase final, aterosclerose, estenose da válvula mitral e doze metros de solitária, bem podia ter morrido por uma porção de causas, fosse apunhalado ou não, e que a agressão física talvez não passasse de mera coincidência. O ponto fundamental para ele (e para as outras autoridades locais) era que, num caso em que a vítima é um indivíduo sem importância, o assassino desconhecido, os indícios poucos ou nenhum e os suspeitos inexistentes, não há razão válida para registrar nos livros um homicídio sem solução. Dei-lhe todas as garantias de que, pela parte que me tocava, os livros ficariam exatamente como estavam. Se o senhor quiser, o Cel. Williams pode lhe dar todos os informes necessários sobre os aspectos legais deste caso no que lhe diz respeito, mas me parece evidente que, se jamais houver inquérito e pronúncia, as condições mentais de seu paciente tornarão supérfluas na opinião de todos quaisquer indagações ulteriores.

O passo seguinte foi ir a Cravensville. Está situada, exatamente como descreveu George, num lago de montanha que faz uma curva em torno de um promontório, ocultando a margem oposta às vistas da cidadezinha. Aluguei um barco e remei para um ponto que inegavelmente correspondia à topografia mencionada por George — uma angrazinha e um banhado de pouca extensão, onde um arroio se escoa para o lago — e ao penetrar na angra espavori meia dúzia de meninos que ali nadavam nus e que sumiram na mata como pequenos fantasmas. Não posso ter certeza de que vi as próprias pedras chatas com que George armou o seu mundéu, mas não há dúvida que seria possível armar um mundéu naquele lugar se alguém quisesse fazê-lo. Não vi nenhum castor nem casa de castores, mas animais dessa espécie andaram por ali, como pode perceber quem quer que conheça o significado de um tronco de árvore nova cortado em ponta.

Quanto à morte do garotinho, não tive nenhuma sorte com os jornais. A cidade não tem jornal e a gazeta regional mais próxima, um semanário, deve ter ido para o prelo pouco antes da morte do menino e achado que não valia a pena noticiar o fato no número seguinte. Desgraçadamente, o seu George tinha razão a um respeito — em certas áreas destas montanhas dá-se muito menos valor à vida humana do que seria de acreditar. A pobreza, o analfabetismo e o excesso de filhos são três grandes fatores a impedir que esta gente se sinta muito abalada pela perda de uma pequena vida e de uma boca faminta.

Acresce que as circunstâncias desfavoreciam qualquer aspecto sensacional na morte do menino. Por um lado, existe uma ponte rodoviária atravessando o lado oposto do lago e nos últimos três anos morreram duas pessoas ali (uma delas suicida e a outra vítima de um acidente de tráfego) e seus cadáveres foram encontrados a boiar na angra — efeito, segundo suponho, dos ventos predominantes e da fraca circulação da água do lago. Esses precedentes, mais os ferimentos constatados no corpo do menino, levaram as autoridades locais a aceitar facilmente a conclusão de que ele morrera em outro lugar que não na angra. Vestia um calção de banho com que saíra de casa na tarde anterior (coitadinho, é capaz de ter passado a noite inteira preso no mundéu), de modo que não havia sequer roupas para servir de indício nas proximidades da cena da morte.

Especificando, a perna esquerda e o pé e tornozelo direito estavam esmagados, embora não houvesse fraturas, e tinha várias machucaduras e contusões na cabeça e no rosto. Lá estava a incisão no umbigo, e embora ninguém aventurasse um palpite quanto à causa exata, a hipótese de um atropelamento e fuga nas proximidades da ponte rodoviária parecia explicar tudo de forma bastante aceitável. Creio que o senhor pode dar a George outra boa nota pela veracidade, a despeito do que possa pensar sobre a identificação do verdadeiro com o belo.

Visitei os tios, Sr. e Sra. Grallus, e não tentarei rivalizar com o talento de George para o retrato. Se por acaso ele for posto um dia em liberdade, lá encontrará um nicho à sua espera. Os Grallus já não são crianças e não têm filhos. Penso que a tia tem uma genuína se não excessiva afeição por George e muito faria por ele se pudesse. Penso que o Sr. Grallus faria ainda mais, pois está muito arrependido de ter tratado George daquele jeito e desejaria oferecer-lhe reparação. Não há nisto o mais leve sinal de altruísmo. Ele gostaria apenas de se livrar do sentimento de culpa e não mediria esforços para isso. Ambos consideram George um "soronga" — isto é, um retardado; e se o senhor e eu recebêssemos cinco "cents" por cada pessoa neste país que não sabe distinguir entre os enfermos mentais e os retardados mentais poderíamos construir uma clínica bastante grande para tratá-los a todos. Finalmente, fui procurar Anna. Oh! pobre Anna! Atoleimada, muda, desgraciosa, desdenhada e amante. Lembra um animal de tiro, especialmente um burrinho, todo ulcerado pelos arreios e infernizado pelas moscas, e que fica pacientemente à espera, com os olhos tristes e belos, de alguém que lhe venha dar água, ou sentar-lhe um pontapé, ou matá-lo, ou dizer-lhe o que fazer... Sinto-me um pouco constrangida, Sargento Outerbridge; não sou dada a vôos de estilo, mas confesso que ela me comoveu.

Anna (também) corresponde exatamente à descrição de George — uma mulher entroncada, com uma corcunda de viúva, ombros e nádegas volumosos e mãos, pés e tornozelos surpreendentemente delicados. Tem um rosto largo e vermelho com um narizinho arrebitado, olhos muito juntos e uma boca triste e terna. Tem o queixo maciço e uma papada, embora não possa ser chamada de gorda. Fui encontrá-la capinando um milharal, seguindo a indicação que recebi na casa. Dei graças por poder falar com ela longe daquela ruína sombria e barulhenta que eles chamam casa. A palavra "mesquinho" tem vários matizes de sentido; tudo naquela casa, nos seus habitantes e nas imediações corresponde a cada um desses matizes.

Não procurarei transcrever literalmente a nossa conversa, o que aliás também não fiz no relatório que enviei ao Coronel. O vocabulário e a experiência de Anna são tão limitados que as palavras quase nada expressam. Contudo, tem recebido tão pouca simpatia, ternura, respeito ou compreensão que um pouco de tudo isso teve um efeito surpreendente.

Que ama George (ela o chama Belly; o senhor não menciona algures que seu nome é Bela?) não há dúvida nenhuma; ama-o de corpo e alma e em todas as dimensões. Aceitou o seu aparente abandono e seu silêncio ininterrupto exatamente como o animal de tiro acima mencionado aceita um pontapé na cabeça. Nunca lhe foi infiel, nem pensou nisso. Continuou vivendo dia após dia, com a surda lembrança de seus dois anos e meio em companhia de George, e fazendo disso sua única distração. Não está propriamente à sua espera: dizer isso implicaria esperança, e ela jamais nutriu esperanças a respeito de nada. Mas uma coisa é absolutamente certa: se George voltar um dia ela aqui estará e será sua se ele a quiser.

Pude obter um quadro bastante completo das relações entre os dois — no terreno da conversa ela não tem habilidade nem defesas — e, através de uma cortina não muito espessa de eufemismos, podia-se perceber que ele fez uma conquista tão completa graças à sua delicadeza. Sexualmente, Anna não era inocente quando ele apareceu — tinha havido alguns tombos nas palhas, facilitados pela bebida, com integrantes da turma de debulhadores por ocasião da colheita de trigo-sarraceno, e um dos assalariados servira-se dela com alguma regularidade durante certo período. Também mencionou um tal Sammy, sob cujo assédio, pela primeira e única vez, buscara socorro: informou o pai, que, segundo disse ela, quase o matou a pauladas. Não lhe perguntei o que Sammy era dela, mas conclui que se tratava de seu irmão mais velho. Segundo diz seu relato, George nunca forçou Anna e, convencida como está de que todos os machos são violentamente impulsionados pelo sexo e portanto agem com violência, nunca lhe passou pela cabeça que o retraimento da George fosse algo mais do que extraordinário autocontrole e consideração. Para seduzi-lo foi preciso muito mais do que insinuação e oportunidade. Anna teve de executar literalmente o ato inteiro com ele. George parece não ter cooperado nem resistido, e ela o adora por causa dessa aquiescência desinteressada, que toma por uma espécie de cavalheirismo. Evidentemente seus coitos não foram freqüentes, ocorrendo apenas quando o desejo dela se tornava incontrolável, mas sem falhar nessas ocasiões: ele nunca lhe opôs resistência. Já isso bastaria para torná-los infreqüentes; pode-se acrescentar que ela fez o possível para imitar o que lhe parecia ser um honroso sacrifício da parte dele, e isso reduziu ainda mais a freqüência.

A única iniciativa que ele tomou deve ter sido irresistível em todos os sentidos. O senhor o descreve como fisicamente possante e sua compulsão o arrastava com tanta facilidade quanto ele podia arrastar a ela. Nesta altura a comunicabilidade de Anna diminuiu quase ao ponto da mudez, mas não cessou de todo. Com um ar de despachada e bondosa naturalidade consegui manter viva a conversa e ajudá-la a livrar-se do (para ela) pesado fardo de escândalo e culpa que representava a confissão do que havia permitido. E quando finalmente balbuciou aquilo que, estava convicta, era a sua vergonha e condenação, a pobre criatura fechou os olhos e curvou a cabeça, esperando; suponho, que eu lhe cuspisse no rosto e que Deus a fulminasse.

Bem, com toda a suavidade possível eu lhe dei em inglês básico um apanhado geral tão claro quanto possível do que eu chamo o Presente de Kinsey — a grande dádiva do imortal filho de Indiana a milhões de pessoas desnecessariamente angustiadas — a simples revelação estatística de que, seja lá o que for que fazemos... não estamos sós. E com efeito Anna, como muitas outras pessoas não-informadas, sem leitura e praticamente não-pensantes, acreditava que o que tinha acontecido entre ela e o seu paciente era caso único e abominável, e tão visível para o Céu quanto uma mancha de sangue numa toalha branca. Saber que o que se passara era bastante comum e, em si mesmo, pouco importante — foi uma revelação para ela. Cheguei a citar Havelock Ellis (sem, naturalmente, mencionar seu nome) quando diz que qualquer ato recíproco — qualquer um, contanto que não seja imposto à força por um ao outro e que seja uma expressão de amor, é moral... Que estranha cena, eu com os meus lustrosos sapatos de cidade na encosta de um morro, falando a um animal de tiro, de vestido limpo e surrado, sobre os caminhos do êxtase! Deus meu, já deve ser muito tarde; sempre que tenho sono começo a ficar roxa.

A freqüência desse ato, o senhor gostará de saber, era de quatro em quatro semanas, dia mais dia menos. Ele pressentia a época como um animal, e provavelmente pelo mesmo processo. Como outras coisas em seu extraordinário manuscrito, também isto se achava escondido bem à vista. Não diz ele, lá pelas tantas, ter sabido antes de Anna que ela estava grávida, porque ela nunca contava os dias, mas ele sim?

Devemos acrescentar mais este, Doutor-Sargento Outerbridge, aos outros dados sobre a influência da lua sobre a loucura?

Bem, esta é a minha história... e, Sargento, visto como se trata de uma carta pessoal e não propriamente de um relatório, permita-me um comentário pessoal. Tomarei a precaução de declarar inicialmente que as minhas opiniões devem ser encaradas como opiniões... Não sou médico. Sou assistente social, enfermeira e mulher.

A todos esses títulos, permita que o felicite. Admiro profundamente o senhor e a maneira como tratou este caso, e espero conhecê-lo um dia para lhe apertar a mão.

Penso que George é uma das criaturas mais trágicas de que já ouvi falar. Não duvido que ele venha a acabar num ensaio erudito ou mesmo num livro. Desejaria ter a mesma certeza de que ele acabará como um homem livre e bem de vida, talvez com o seu próprio milharal e com sua Anna. Não sei, naturalmente, como o senhor tenciona tratá-lo, mas não tenho dúvidas de que o tratará. Se eu puder ajudá-lo em alguma coisa, chame-me por favor. Por favor. Será uma honra trabalhar com o senhor e uma glória fazê-lo com êxito.

Por favor, permita que eu lhe apresente uma sugestão (talvez demasiado simples; talvez, devido a fatores que ignoro, algo de essencialmente absurdo; talvez alguma coisa que o senhor já tenha considerado e excluído) : Todas as três qualificações que mencionei acima — a assistente social, a enfermeira e a mulher — concorrem para sugerir que George não é em absoluto um psicopata sexual, e portanto não se pode esperar que responda a qualquer tratamento conhecido no que tange a essa área. O senhor mesmo supôs, como uma espécie de hipótese de trabalho, que emocionalmente ele ficou detido nos níveis mais primitivos da infância e que o lado grotesco do caso está no fato singular de ele ter atingido um pleno desenvolvimento sob todos os outros aspectos. Acho que aí o senhor deu prova de extraordinária sagacidade. Bem sei que a psiquiatria moderna reconhece indícios cada vez mais precoces de atividade sexual e de diferenciação sexual. Na era vitoriana era corrente a crença de que todas as crianças até a idade de dez anos, a menos que tivessem sido contaminadas pelo ambiente, eram "inocentes" ou, em outras palavras, anjos assexuados. Mas me parece que essa diferenciação deve ter um ponto de partida, que não é o nascimento. É possível que alguma espécie de percepção sexual se manifeste em época anterior a este ponto de diferenciação, mas sinto que também ela não data do nascimento. Se assim for, haverá um período de infância em que a criança, do ponto de vista emocional, não é nem macho nem fêmea nem nenhuma entidade sexual, mas simplesmente um bebê humano (com todas as necessidades clamorosas, insensatas, "insanas" que o senhor descreve). Não sei se alguém já pensou nisso, mas será razoável supor que um bebê do sexo feminino exija menos o seio pelo fato de ser uma menina?... Tenho plena consciência de que minha sugestão é extremamente intuitiva e "feminina", mas ninguém me tira da cabeça que o senhor irá encontrar o "quantum" emocional de George encafuado nessa área.

O Cel. Williams fez uma pilhéria num de seus bilhetes "não-oficiais" ao senhor, e foi muito engraçado; dizia respeito aos desenhos de George representando animais piriformes, e a conclusão jocosa a que ele chegou foi que se tratava de símbolos mamários. Depois de rir me pus a pensar nesses desenhos e me lembrei de que George também tinha desenhado um homem e uma mulher com a mesma configuração. E me lembrei, além disso, de que George indicou os seios da mulher com um negligente ziguezague (isto é, um detalhe sem importância), mas depois de terminar voltou atrás e marcou as tetas com todo o cuidado. Sempre desenhava os umbigos, como se considerasse incompleta toda forma arredondada que não tivesse um orifício terminal qualquer.

Por isso me ocorreu que os seus cômicos esboços talvez representassem a vida tal como ele a vê — seres vivos tais como a sua consciência emocional infantil deseja e acredita que sejam. Coelhos, esquilos, garotinhos, velhos guardas — cada um deles é uma mama repleta de líquido morno e nutriente. O organismo inteiro é uma glândula mamaria, e ele sente isso com tamanha veemência que chega a desdenhar os verdadeiros seios marcando-os com um ziguezague (embora não possa omitir as tetas) e prefere fazer de todo o corpo feminino um objeto mamário; e isso excluindo por completo o fato de ser feminino!

Esta hipótese nos conduz à surpreendente conclusão de que, em suas iniciativas eróticas periódicas (ó termo perfeito!) com Anna, ele estava executando assexuadamente uma função assexual sobre um órgão ou objeto cujo sexo era tão destituído de importância quanto o gênero gramatical de uma garrafa.

(Pergunto-me se eu teria podido falar a Anna de forma tão convincente sobre "atos de amor" se tivesse pensado em tudo isto na ocasião!)

E no terreno do simbolismo também há uma sugestão que me foi inspirada pela surpreendente sentença de George sobre a maneira de distinguir o mocinho do vilão entre dois "cowboys". (E o atiladíssimo rapaz tem toda a razão!) Os heróis são baleados no peito. (Mama?) Os vilões são baleados na barriga. Pergunto eu: Será simples coincidência que seu pai e o guarda, que ele identificou com o pai, tenham sido cortados no peito, enquanto o menino, que ele identificou com o feto que havia tomado o seu lugar na afeição de Anna, foi cortado no umbigo?

Céus, veja o que eu fiz. Pretendia dar-lhe as notícias, felicitá-lo e ir para a cama; a janela está ficando rosada nas beiras, o nevoeiro se foi e meu avião parte dentro de uma hora. Sargento, Doutor, Sir Philip, como quer que se chame, obrigada. Foi um prazer conversar com o senhor.

Cordialmente,

Lucy Quigley.