Um pouco do seu sangue e outras histórias
Dois
Esse George Smith tinha vinte e três anos de idade naquela ocasião. Vinha do Kentucky, da zona dos morros. Eram morros com mata, morros com fazendas, e de vez em quando uma dessas cidades que crescem assim, como cabelos, em roda de alguma coisa, uma encruzilhada de estradas ou um buraco no chão, como uma mina por exemplo.
George vinha de uma cidade mineira. Seu pai e sua mãe eram da Europa. Tinham casado no lado de cá. O pai trabalhava em Charleston, na Carolina do Sul, quando conheceu a mãe. Provavelmente só casou com ela porque era a única moça das suas conhecidas que podia conversar com ele. Não havia mesmo nada mais entre os dois que valesse a pena de casar. Solidão. As pessoas se sentem sozinhas e por isso se enforcam e vão viver sozinhas uma com a outra.
Quando se mudaram para o Kentucky, onde ele veio trabalhar nas minas, viveram sempre isolados de todo mundo porque nunca aprenderam direito a falar inglês. Tudo que ele desejava, amigos, ter o seu lugar no mundo, ser um figurão, procurava encontrar numa garrafa. Uma das lembranças mais antigas que George tinha era o pai bêbedo aos berros, a mãe aos gritos e às vezes ele, George, também aos gritos. Não era como uma dessas lembranças de coisas que aconteceram para a gente e a gente se lembra. Não era a lembrança de uma ocasião especial, mas assim como uma luz colorida ou um cheiro no meio do qual a gente vive todos os dias. E a fome. Quase constantemente com fome. Com fome esperando que o pai voltasse para casa, e às vezes ele não voltava, outras vezes voltava tarde, e bastava dizer a ele uma palavra sobre isso e começava a pancadaria. A gente descobria que quando a mãe se punha aos gritos a fome passava.
Mas assim mesmo era bom. Como a mata. A gente podia andar pela mata e saber onde estava, primeiro perto de casa, depois mais longe e finalmente por toda a parte. A mata com chuva, com neve, mesmo a mata quando se estava com fome, não podia fazer a gente sofrer como às vezes se sofria em casa. Podia-se morrer na mata ou ser morto, mas a mata não bebe, a mata não esmurra a cara da mãe da gente. Sempre se está bem de vida quando se pode escapar para a mata. Ela é macia, por assim dizer, enquanto as cidades são duras. A gente pode tocar para essa mata macia e beber, mas não as cidades, não as pessoas, todas elas rachadas no meio e cheias de espinhos. Outra coisa é que na mata a gente sabe onde está. Os animais, por exemplo, nunca guardam raiva. Se a gente senta uma porretada num coelho e erra, ou acerta e ele consegue escapar, não fica nos odiando por isso. Pode ser que aprenda, pode ser que tenha mais cuidado depois, ou que fique mais medroso, mas é só. Mas quando a gente bate em alguém nunca sabe o que vai resultar daí. Pode não resultar nada ou pode acontecer de tudo, até cadeia. E também se um esquilo vê a gente cortar um esquilo, não está ligando. Mas se uma pessoa vê a gente cortar outra pessoa, olho vivo! Mesmo anos depois.
Desde que George ficou em idade de poder caminhar começou a andar na mata. Não importava o que acontecesse, a mata lá estava à espera dele. Depois dos onze anos pôde contar com outra coisa que também era ótima, talvez ainda melhor, porque a irmã da mãe se casou com um homem que tinha uma fazenda no sul da Virgínia e apesar de ficar bastante longe de vez em quando ele ia lá. E anos depois compreendeu que como fazenda não era grande coisa, mas naquele tempo era o céu para ele. E durante algum tempo esteve morando lá, mas isso foi mais tarde, depois que todos morreram.
A única coisa ruim mesmo que aconteceu a George na mata foi quando ele tinha cinco anos e ouviu umas vozes, subiu um barranco de rastos, olhou para baixo e viu um cara fazendo o serviço numa guria. Não era a primeira vez que via isso, mas era diferente do que acontecia em casa porque a guria não estava chorando. O que sempre ficou na lembrança dele foram os calcanhares da guria que estavam no ar e cada vez que o cara dava uma empurrada se sacudiam como se fossem de massa. George estava olhando isso sem pensar nada quando o outro cara — eram dois que tinham levado aquela guria para a mata e um estava por ali esperando — pois esse outro cara chegou por trás de George e sentou-lhe uma paulada com um tronco de árvore. Não era uma árvore muito grande e estava morta há muito tempo e meio podre, senão acho que George estaria morto a estas horas, mas assim mesmo doeu um bocado e pregou-lhe um bruto susto. O cara corria atrás dele sapecando-lhe o pau, umas oito ou dez vezes, até que George conseguiu escapar enveredando pelo meio do matagal, que era muito cerrado naquele lugar e ele muito pequeno, como quem procura matar um coelho a pau no meio de um silvado, que é uma coisa simplesmente impossível.
Dizem que essas coisas deixam marca na gente para toda a vida, mas George nem se impressionou. Quero dizer, se era para lhe meter medo e fazer ele desistir de andar na mata, não teve esse resultado. Mesmo com cinco anos, George velho pôde compreender que a culpa não era da mata.
Pois bem, George teve de ir para escola como todo mundo e foi lá que aprendeu pela primeira vez a deixar os outros falarem porque todos faziam isso com tanta facilidade. George sabia falar, é claro, seu pai fazia ele falar no armazém etc, mas durante muito tempo não pôde se livrar daquela língua de estrangeiro que botava uma catinga em cada palavra que ele dizia e fazia os outros rirem. Naturalmente, depois de alguns meses George aprendeu a falar americano tão bem como qualquer um, mas já então toda a gente tinha começado a chamar seu pai o gambá da cidade, o que era verdade, e cada vez que George abria a boca perigava receber um soco nos dentes. E além disso os outros garotos da vila andavam sempre juntos e iam às casas uns dos outros, mas ninguém nunca ia à casa de George porque era a única em que eles tinham medo do pai. E além disso, a mãe andava sempre muito doente e muito cansada. Começa que tinha artrite nas mãos e lhe doía muito quando lavava a roupa e fazia a limpeza, mas trabalhava o mais que podia e George ajudava ela quando não tinha ninguém olhando. Mas uma coisa que ele não podia fazer era estender a roupa no varal porque uma vez os garotos viram ele fazer isso.
A situação não era tão ruim como podia ter sido porque George era grande por natureza. Pesava sete quilos quando nasceu e >sua mãe dizia que foi isso que lhe deu a artrite. Aí pelos oito anos começou a crescer às deveras, e como tinha se atrasado dois anos na escola era sempre maior do que os guris com quem andava misturado. Com doze anos tinha um metro e oitenta de altura e pesava setenta e sete quilos.
Agora sobre as caçadas. Ele não tinha mais de sete ou oito anos quando começou a pegar o jeito da coisa. O tiro com funda é ótimo, mas leva muito tempo para treinar. Às vezes ele conseguia quebrar a cabeça de um coelho com um porrete. A gente sai de manhã cedo quando ainda está escuro, para poder estar na beira de um campo junto da mata quando começar a clarear. Leva um porrete de uns sessenta centímetros de comprimento e a grossura do pulso. O melhor é bordo ou nogueira-amarga, verde porque assim é mais pesado. O pinho é mais fácil de cortar, mas deixa nas mãos e na roupa aquela resina que não se pode mais tirar. A gente se esconde numa moita cerrada mas perto da beira para não estorvar o movimento do braço. Fica com o braço para trás e o porrete descansando numa forquilha de árvore ou alguma outra coisa que sustente o peso, preparado para esperar bastante tempo ali sem se mexer. Daí a pouco começa a clarear e os coelhos saem para comer o trevo, o capim ou seja lá o que for, e saltam de lá para cá e se espicham no chão e esfregam a barriga no capim etc. e tal. A gente escolhe um coelho e se decide por aquele, nenhum outro serve. Por mais perto que cheguem os outros, a gente deixa em paz. Daí a pouco o tal vem para o lugar que se quer, e não importa o que ele fizer, rolar no chão, sacudir as patas no ar, sentar e roer a erva, farejar outro coelho ou o que quer que seja, a gente deixa em paz. Mas quando ele fica bem parado, com as quatro patas no chão, o queixo baixado e as orelhas murchas, porque quando as orelhas estão em pé ele está alerta — é então que se atira o porrete. Ao levantar o porrete da árvore em que está descansando raspa-se um pouco nela, porque isso faz um barulhinho. o bastante para fazer o animal se sentar teso nas ancas. Fica então reto como uma estaca cravada no chão. Tira-se o porrete da árvore raspando e joga-se em seguida, sem esperar, com força e quase rente com o chão, na altura do meio das orelhas. Joga-se de maneira que vá rodopiando como a hélice de um avião (só que o avião devia estar voando direito para cima), e salta-se em pé e cai-se em cima do coelho assim que se atirou o porrete. Pois se o porrete acertar em cheio é capaz de arrancar a cabeça do animal, mas se bater nele enquanto está fugindo ou se der na paleta não faz mais do que estontear, e a gente precisa estar em cima para pegar logo o animal, porque ele pode tontear, tornar a se levantar e botar sebo nas canelas enquanto o diabo esfrega um olho. E se está tonto a gente pode segurar ele pelas duas patas de trás com a mão esquerda, levantando no ar, e quando se faz isso com um coelho ele se espicha todo e atira a cabeça para trás, e aí a gente dá de quina com a mão direita bem na nuca, quebra-lhe o pescoço e ele não se mexe mais, escorrendo sangue pelo nariz. Mas quando se faz isso com um rato, uma marmota, um guaxinim ou um esquilo, o bicho não se estica nem atira a cabeça para cima, mas se enrosca sobre si mesmo e morde a gente. Um esquilo pode morder nove vezes antes que se tenha tempo de soltar um ai e tem uns enormes dentes amarelos de urna polegada de comprimento. Um rato, embora pareça estar morto, pode pegar a gente mesmo que seja agarrado pela ponta do rabo, trepando por esse rabo com as patas da frente uma depois da outra e lanhando a gente antes que se atine em largar. Um esquilo morde de cima para baixo e deixa buracos do tamanho dos seus dentes, mas um rato tem o costume de lanhar, o buraco é sempre maior do que o dente e não se pode fazer idéia de como ele consegue isso. Um rato, quando está tonto, deve-se segurar pela ponta do rabo e botar o pé atravessado em cima de modo que o rabo fique debaixo do arco do pé. Então se pode puxar o resto do bicho para cima no outro lado do pé e rente com o sapato. Assim ele fica bem seguro e tudo que pode fazer é dar umas rabanadas e fica-se com uma mão livre para lhe sentar uma porretada ou pegar uma pedra, ou a faca, ou bater nele com o outro pé. Um esquilo-da-terra, que no Leste chamam "chipmunk", não vale o trabalho que se tem com ele. Tem um rabo que fica na mão da gente quando se agarra, ou melhor, o rabo não fica mas descasca e ele se escapa e o resto do rabo seca mais tarde e cai. Esse bicho dá uma mordida pior que a de um rato e ninguém acredita que um bicho daquele tamanho possa abrir uma boca tão grande. E quando se apanha um, que 6 que se consegue? Ele tem tão pouco suco como uma ameixa cozida. Jaritacaca não vale a pena perder tempo com ela, embora seja fácil de pegar porque esse animal não tem medo de nada. Um gambá tudo que se tem de fazer é levantar ele do chão. Um guaxinim é preciso ter um bom porrete, é só dar porretada e mais porretada até ter certeza de que ele morreu, se por acaso conseguir se encostar numa árvore ou numa pedra e ainda não estiver morto, é o mesmo que se alguém atirasse um serrote na gente, rodopiando no ar. Uma vez George atirou um porrete num lince-baio e acertou, mas nunca mais. Todos os gatos têm o mesmo gosto, a gente sopra pelo nariz e sente um cheiro como de mijo de gato. Durante horas. Não vão me acreditar, mas as cobras têm bom paladar, talvez meio parecido com peixe, mas quem não gosta de peixe? O único defeito é não ser quente. Pássaros é tempo perdido, quase só pena, só uma ou duas vezes que George viu uns perus-do-mato, mas não conseguiu chegar bastante perto para atirar com uma funda. Menos marreco. Marreco é ótimo.
Quando George ficou um pouco mais velho, uns dez ou onze anos, aprendeu a caçar com armadilhas. Nunca teve dinheiro para comprar armadilhas de aço, mas ficou tão perito em preparar essas coisas que não precisava comprar. Sabia fazer um mundéu bastante grande para apanhar um texugo e isso não é dizer pouco porque um texugo é capaz de furar uma estrada de asfalto em caso de necessidade se a pedra do mundéu não for bastante pesada para acabar logo com ele, mas esse George era um rapagão forte. O tal mundéu não é nada mais do que uma pedra grande e chata inclinada e escorada numa vara. Tem gente que amarra na vara um cordão comprido e fica esperando o dia inteiro até que um bicho venha se colocar debaixo da pedra para comer a isca, mas isso é para escoteiros. George preferia escorar a pedra e depois fazer um corte na vara quase ao ponto de atorar e amarrar o cordão no corte. O cordão passa em roda de uma estaca cravada no chão atrás da pedra e depois volta até uma certa distância, e a isca é amarrada nele. Uma raposa ou um gambá abocanha a isca e puxa, a vara se quebra e a pedra desaba em cima do bicho. Para coelho a melhor isca é uma cenoura, porque é forte. Para raposa ou mesmo um texugo de vez em quando a carne de coelho é boa, mas nunca usem o rim se não quiserem apanhar uma porqueira dum gato.
A melhor de todas é o número-quatro, que George sabia armar em menos tempo do que uma pessoa leva para trepar num pinheiro. Basta procurar uma arvorezinha nova de folha, bem forte, freixo ou nogueira-amarga ou mesmo vidoeiro se não tiver outra. Mede-se a passo a distância certa, dependendo da árvore, e cava-se um buraco no chão. Depois procura-se um galho da grossura do polegar, com uma boa forquilha. Corta-se o galho logo abaixo da forquilha, depois cortasse um dos ramos da forquilha deixando um esporão. Finca-se assim com um galho folhudo que tem uma espécie de gancho. Vira-se o galho com O gancho para baixo e enterra-se a parte folhuda, socando bem, botando umas pedras pesadas no buraco e talvez um tronco em cima, de modo que o gancho virado de cabeça para baixo apareça logo acima do chão. Faz-se um pequeno corte no ramo maior e prepara-se uma cavilha bem forte, de duas pontas, para encaixar no corte e atravessar até a ponta do gancho. Fica uma coisa parecida com um número 4.
Então se puxa para baixo a arvorezinha até ficar quase dobrada em dois e amarra-se um cordão perto da ponta dos galhos e a outra ponta do cordão na cavilha, que se encaixa no gancho para fazer o número 4. Bem devagarinho, vai se soltando a árvore dobrada até que a cavilha fique bem firmada no gancho. Muito bem. Amarrado a esse cordão logo acima do número quatro tem outro pedaço de cordão, e amarrado a este adivinhem o quê. Pois uma corda velha de violão, uma corda de prima, dessas que têm um calço pequenino na ponta, parecendo um barrilzinho oco de latão. Passa-se a ponta da corda de violão por esse barrilzinho para fazer uma laçada. Essa laçada arruma-se em roda da isca, que se ata com um cordão curto à cavilha de duas pontas do número 4. Espalhasse terra fina em cima até esconder a laçada e o cordão da isca e vai-se para casa. De manhã a gente vai ver, pegou um coelho, uma marmota ou quem sabe se até uma raposa ou um texugo. Porque no primeiro puxão que o animal dá na isca, a cavilha sai do lugar, a árvore se endireita de repente e aquela laçada do fio de metal pega o bicho e enforca ele mais alto do que Hamã. Ou pode ser que seja uma porqueira de jaritacaca, ou nada mais do que uma pata atorada de raposa, mas em geral se pega coisa boa.
Ah, como esse George gostava de caçar. 0 que não gostava era de matar nada. Não queria saber de gente que mata só por matar, quando os animais não lhes fizeram nada. Ninguém deve matar nada de que não precise para alguma coisa. Como veado, por exemplo. Uma vez, depois de um vendaval medonho, George encontrou uma cerva apertada contra o chão por uma árvore que tinha caído e trabalhou a manhã inteira para livrar o animal, usando apenas uma machadinha e arrastando paus até poder levantar a árvore o bastante para deixar a cerva escapar. A cerva estava quase morta de medo, mas George só se ria e continuava trabalhando, até que ela conseguiu se soltar. George nunca matou um veado. Para que? São grandes demais. Mas este George, quando não estava caçando ou talvez pescando, ficava deitado a pensar nessas coisas. Era do que mais gostava.