Um pouco do seu sangue e outras histórias

Alfred Hitchcock · Capítulo 19 de 20

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Um pouco do seu sangue e outras histórias

O Sofá da sala de espera do…

O CÃO PERDIDO

HENRY SLESAR

O SOFÁ da sala de espera do Dr. Frohlich era de um estilo severamente moderno, forrado com um pano de muito bom-gosto mas cheio de pequenos nós que arranhavam desagradavelmente o vestido de seda de Júlia Smollett. Júlia suspirou e inclinou o corpo para a frente unindo as mãozinhas brancas no regaço, os braços magros colados aos flancos. Tinha um ar jovem, frágil e docemente patético. O homem com quem casara há catorze anos olhou para ela de cenho franzido.

George estava em pé rio outro lado da sala, examinando uma gravura de caça. Era um homem troncudo, de braços curtos, e trajava uma roupa de "tweed" de cores discretas. Rodeava-lhe o pescoço curto um colarinho de pontas redondas, unidas por um pequeno pregador de ouro. Usava calças estreitas e paletó justo. Tinha a aparência de um homem acostumado a montar, a lidar com grossas correias, a lustrar selas, a dar caminhadas matinais. Na realidade era um citadino, um contabilista com escritório na Lexington Avenue.

Júlia tornou a suspirar, buscando entabular conversa.

— Sim, que é? — perguntou o marido.

— Nada. Só que me sinto... cansada. Por que será que ele demora tanto?

— Há apenas cinco minutos que estamos aqui. Meu Deus, a noção de tempo das mulheres!

Júlia voltou para ele os olhos lastirnosos, grandes olhos úmidos de um violeta carregado, a que George dedicara outrora um soneto.

— Desculpe-me — disse em voz baixa. — É que o tempo parece arrastar-se.

Nesse momento apareceu na sala uma mulher viva, de cabelos vermelhos, que os examinou com ar crítico e disse:

— Sr. Smollett e esposa? O Dr. Frohlich pode atendê-los agora. O médico estava sentado à sua escrivaninha, num aprazível gabinete de paredes forradas de madeira. Era um homem gorducho e amável, de cabelo grisalho e macio, aparado curto.

— Estimo muito que tenha vindo, Sr. Smollett. Disse à sua esposa que sua presença seria talvez muito útil quando fizéssemos o nosso pequeno experimento. Achei que o senhor poderia, quem sabe, suprir alguns dados de fundo...

George Smollett consertou a garganta.

— Escute, Dr. Frohlich. — Falava em tom franco. — Não quero que o senhor me interprete mal. Não sou uma dessas pessoas supersticiosas que confundem o hipnotismo com uma espécie de magia negra. Tenho as minhas leituras, compreende? Estou mais ou menos bem informado.

— Ótimo — fez o doutor sacudindo a cabeça. — Essa atitude será valiosa. É o triunfo sobre o preconceito inicial que conta. Sua senhora, é claro, já está perfeitamente acostumada à idéia. Não, Sra. Smollett?

Mesmo na cadeira pequena do gabinete, Júlia parecia uma criatura minúscula. Sorriu com ar hesitante e sacudiu a cabeça num gesto afirmativo.

— Temos tido muitas palestras proveitosas, sua senhora e eu. Compreendemo-nos um ao outro. Sabemos avaliar os problemas que temos de enfrentar. Mas me pareceu que antes de tentar o primeiro experimento de retrocesso no tempo devia conhecer o seu ponto de vista.

— Bem — disse George Smollett esfregando o queixo. — Não sei se o estou entendendo.

— Nada de complicado. Apenas queria saber o que o senhor pensa sobre o temor que sua esposa tem aos cães. Segundo creio, foi o senhor quem sugeriu a consulta a um médico.

— Ah! Sim, a idéia foi minha. É que minha mulher é uma pessoa muito medrosa, Dr. Frohlich. Não preciso dizer-lhe isso. A coisa não era tão grave no princípio quando nos casamos. Creio que deve ter começado depois que nasceu George Júnior, nosso primeiro filho, que está agora com onze anos. Foi então que piorou mesmo. Não havia nada que não a assustasse. Os ruídos, a escuridão, tudo! E quanto aos cães... — Fez um gesto expressivo com o ombro.

— Sim — disse o Dr. Frohlich. — Fale-me dos cães.

O marido estudou a esquisita lâmpada em cima da escrivaninha.

— Não me peça para explicar. Esse é o seu departamento. Só sei que ela tem tanto medo de cães que quando vê algum — basta vê-lo, percebe, nem que seja a uma milha de distância — fica logo histérica. Ora, há muito tempo que isso vem se prolongando. Só que agora é pior.

— Pior em que sentido?

— Bem, porque este ano nos mudamos. Para o campo, no Wister County. Ora, o Doutor sabe como são essas comunidades. Milhares de cães! Todo mundo tem um.

Ouviu-se um som aflito que vinha das bandas de Júlia. Tanto o médico como o marido preferiram não tomar conhecimento dele.

— O senhor sabia disso quando se mudou? George não gostou da pergunta.

— Não cheguei a pensar muito no assunto. Creio que esqueci a fobia de Júlia. Mas, se quer saber a minha opinião, a melhor maneira de curar alguém de uma coisa dessas é obrigá-lo a enfrentar a situação...

— Concordo consigo — disse o doutor. — Com certas reservas.

— Aí está! — O olhar triunfante do marido foi como um farol inundando de luz a mulher. — Que foi que eu lhe disse, Júlia? — Tornou a virar-se para o Dr. Frohlich e sorriu. — Minha idéia era arranjar também um cão para nós. Um bom cão, bem macho, como um dinamarquês por exemplo. É que nós temos dois meninos, Dr. Frohlich. O senhor sabe como são os meninos. Sempre tive um cão quando era garoto. É uma lástima privar o garoto, não acha?

— Eles podem ser bons companheiros — disse o doutor precatadamente.

— Se podem! Olhe, em matéria de lealdade ninguém leva a palma aos cães. E num lugar como aquele — isto é, no campo, entende, cheio de vagabundos e tal e coisa andando por lá — ora, um cão é uma necessidade num lugar assim. O senhor não acha?

— Talvez.

— Pois claro. Bem, essa foi a minha primeira idéia: trazer um cão para casa e fazer com que ela se acostumasse. Trazia de olho o tal dinamarquês que tinha visto num canil lá para os lados de Hawthorne Lake. Um cão bem macho, um cão de verdade, nada de fraldiqueiros, percebe? Um cão que saiba se defender...

Júlia estremeceu.

— Mas acabei desistindo — suspirou o marido. — A balbúrdia foi tamanha... São, praticamente, as únicas ocasiões em que se ouve Júlia piar: quando é contrariada. Por isso sugeri que fosse ver um médico. Foi quando consultamos o Dr. Ellison. E ele recomendou o senhor. De modo... — Fez um gesto com as mãos espalmadas.

— Ótimo — disse o Dr. Frohlich. — Bem, agora acho que lhe devo uma pequena explicação a respeito do que tenciono fazer hoje. — Recostou-se na sua cadeira e prosseguiu: — Já tenho falado muito à Sra. Smollett sobre as técnicas hipnóticas em psicanálise. Não desejo entediá-la repetindo tudo. Mas, para seu esclarecimento, quero dizer o seguinte: Em psicanálise, o hipnotismo é considerado uma forma valiosa de terapia, que s:e mostra útil em muitos casos especiais. Freqüentemente, graças a ele, tenho conseguido poupar muitos e muitos meses ao paciente, porque elimina com rapidez a sua... resistência natural. O senhor sabe o que é transferência?

— Creio que sim.

— Muito bem. Pois o hipnotismo proporciona uma espécie de transferência imediata entre o médico e o paciente. Aproxima, tanto a um como ao outro, da origem do problema. E num caso como o de sua esposa, em que acredito que o temor aos cães tem raiz em algum incidente do passado, por longo tempo reprimido, ele pode ter grande utilidade ajudando a levantar, por assim dizer, a cortina que oculta o seu subconsciente.

— Percebo — disse George, com um olhar de soslaio à sua mulher. Júlia observava os movimentos dos lábios do médico.

— Nem sempre, contudo, ele opera uma cura milagrosa — advertiu Frohlich. — Preciso deixar isto bem claro. Em geral, não pode substituir uma análise bem feita. É apenas uma ferramenta. — Sem dúvida viu descair os cantos dos lábios de Júlia, pois ajuntou sorrindo: — Mas me sinto bastante otimista quanto à cura da Sra. Smollett. Sinceramente. Por meio das técnicas de retrocesso no tempo, creio que obteremos excelentes resultados. E é o que tenciono fazer hoje.

— Que significa isso exatamente, Doutor? Retrocesso no tempo?

Frohlich pôs-se em pé.

— Vou fazer com que sua senhora volte ao seu passado. Vou pedir-lhe que torne a viver os primeiros anos de existência e ver se consigo espreitar por baixo dessa cortina...

— Agora? — disse Júlia, baixinho.

— Se estiver pronta. Sim, agora.

Apertou o botão branco instalado na face lateral da escrivaninha e a ruiva de ar esperto entrou. Começou a baixar as persianas, ocultando o céu cinzento e a chuva miúda que se podia ver pela janela.

— Se tiver a bondade de esperar uns momentos aí fora, Sr. Smollett... — disse o doutor.

— Sim, claro.

— Eu lhe pedirei para voltar quando sua senhora se encontrar em estado hipnótico. Creio que achará muito instrutivo o que se seguirá então.

— Sim — respondeu George num tom de incerteza. E dirigiu-se para a porta.

A sala estava agora às escuras. O Dr. Frohlich acendeu a lâmpada de mesa, com sua forma tão esquisita. Concentrou a luz sobre o rosto de Júlia Smollett e aproximou-se dela.

— Pronto, Sr. Smollett — disse a enfermeira ruiva.

A sala continuava às escuras quando George tornou a entrar. Frohlich estava sentado à beira da escrivaninha, brincando com uma caneta-tinteiro de metal. Júlia permanecia sentada na mesma cadeira, os ombros caídos, as mãos molemente entrelaçadas no regaço. Seus olhos grandes estavam cerrados.

— Ela está?...

— Sim, sim — disse o doutor. — Sua esposa é muito sugestionável. Cinco ou dez minutos são o suficiente. Agora lhe pedirei que fique sentado sem falar naquele canto da sala, enquanto conduzo o interrogatório.

George sentou-se no canto, ao pé de uma estante superlotada. O doutor inclinou-se para a Sra. Smollett.

— Agora pode abrir os olhos, Júlia.

Assim o fez a hipnotizada. Seu olhar parecia desinteressado, mas não tinha nenhuma fixidez. George engoliu em seco, com dificuldade.

— Sabe que dia é hoje, Júlia? — Sim. Quarta-feira.

— Não, está enganada. É sexta-feira. Não é mesmo, Júlia?

— Sim, sexta-feira.

— Não, Júlia. Não é sexta-feira tampouco. Agora sabe qua dia é?

Ela hesitou, mexendo com os lábios.

— Não, não sei que dia é.

O médico olhou na direção do marido.

— Estou fazendo isto de propósito. Meu objetivo é deslocá-la no tempo.

Continuou o interrogatório até a mulher reconhecer que ignorara o mês e o ano.

— Ouça bem, Júlia. Vou lhe pedir agora que volte ao seu passado. Você tornará a ser uma criança. Vai reviver sua vida desde quando era criancinha. E me dirá tudo que eu desejar saber a respeito do que vê, e sente. Responderá a todas as minhas perguntas, a partir deste momento...

Inclinou-se ainda mais sobre Júlia, em cujo rosto pequeno e bem-proporcionado começou a operar-se uma mudança sutil.

— Agora você tem um ano, Júlia. É um bebê com apenas um ano de existência. Diga-me o que desejo saber, Júlia. Diga-me se tem medo de cães.

Ao ouvir a resposta que partiu dos lábios da esposa, George Smollett sobressaltou-se. Era uma voz tão pequenina e indistinta, tão insólita e fantástica, que o próprio Dr. Frohlich reagiu com certa surpresa.

— Não — disse a estranha voz. — Não tenho medo de cães...

— Agora tem dois anos — disse o doutor. — Você tem dois anos de idade, Júlia. Sente medo de cães?

— Não — tornou a dizer a voz, enquanto o rosto afilado se contorcia de um modo singular. — Não tenho medo de au-au. Não tenho medo.

— Você tem três anos, Júlia. Tem três anos agora. Diga-me: tem medo de cães?

A voz tornou-se mais forte.

— Não, não tenho medo.

— Você tem quatro anos, Júlia. (Quatro anos de idade.

E assim foram transcorrendo os anos da infância, refletindo-se um após outro na voz e no rosto da mulher. Até que o doutor começou a dizer:

— Você tem dez anos, Júlia. Está com dez anos de idade agora. Tem medo de cães? Diga-me: tem medo de cães, Júlia?

Era o momento que o Dr. Frohlich buscava. O rosto demudou-se mais uma vez e o corpo franzino estorceu-se na cadeira. As mãos brancas fecharam-se pouco a pouco, e esses punhos fechados puseram-se a esfregar os grandes olhos. Romperam as lágrimas e Júlia começou a soluçar.

— Topper — dizia, engolindo com esforço. — Topper... Ansiosamente, Frohlich perguntou: — Quem é Topper, Júlia?

— Topper — chorava a menina. — Pobre Topper!

— Quem é Topper, Júlia? É um cão?

— Sim — disse ela sacudindo a cabeça. — Sim. Topper é o meu cachorro. Topper é um bom cachorro.

— Onde está Topper agora, Júlia?

— Topper morreu! — lamentou-se ela. — Eles o fizeram desaparecer! Eles o mataram! E tudo por minha culpa! Por minha culpa!

Os soluços cessaram repentinamente e a voz infantil assumiu um tom duro.

— A culpa é dele, de Bobby.

— Quem é Bobby, Júlia?

— Eu o odeio! — Bateu com o punho no joelho. — Odeio-o! Ele é mau! Bobby é mau!

— Quem é ele, Júlia? Bobby é um amigo seu?

— Odeio-o! Ele me incomoda. Vive sempre me incomodando. O que eu fiz foi bem feito. Bem feito! Mas não matem Topper. Por favor, não matem Topper!

Frohlich enxugou o suor da testa.

— Quero que você me conte tudo em detalhes, Júlia. Diga-me tudo sobre Bobby, e também sobre Topper, Bobby é um menino pequeno? É parente seu?

— Não. Bobby mora na casa ao lado. Tem doze anos. Vive me enquizilando. Puxa os meus cabelos, e uma vez me rasgou o vestido. Pôs lama nos meus sapatos e deu uma pedrada em Topper. — Seus olhos escancararam-se de maneira alarmante. — Mamãe! — chamou num grito estridente. — Mamãe!

Sua voz era tão eletrizante que George pulou da cadeira. O Dr. Frohlich fez-lhe um sinal para tornar a sentar-se.

— Que aconteceu, Júlia? Por que está chamando sua mãe? Que aconteceu a Bobby?

— Ele o matou! Ele o matou! — esganiçou-se a voz de dez anos.

— Quem? — perguntou Frohlich em voz alta. — Quem?

— Eu o avisei — soluçou Júlia, cujos ombros tremiam convulsivamente. — Disse a ele o que faria. Avisei-o!

E de novo, com surpreendente rapidez, os soluços cessaram. O corpo da mulher retesou-se na cadeira e os braços finos cruzaram-se sobre o peito. Mas a verdadeira transformação foi a que se operou nos seus olhos: a metamorfose em algo sem idade e todavia muito antigo — uma astúcia primeva e terrificante.

— Isca! — sussurrou a voz de menina. — Isca, Topper! Mata-o! Mata-o!

— Deus do céu! — exclamou George em voz alta.

— Por favor! — Frohlich fez um gesto irado para impor-lhe silêncio. — Júlia, ouça-me. Quero que você se acalme. Quero que me explique tudo com muita clareza. Você atiçou o seu cão contra Bobby? Mandou-o atacar Bobby?

Júlia afrouxou o corpo e fez um gesto afirmativo com a cabeça.

— Ele feriu Bobby? Topper matou o menino?

— Não — disse ela em voz fraca. — Só feriu Bobby, não o matou. Mordeu Bobby no pescoço. Mas eles mataram Topper. Mataram o meu cachorro. E foi por minha culpa. Por minha culpa...

Sua voz foi esmorecendo e por fim morreu.

Frohlich olhou vivamente na direção de George. — Faça o favor de sair agora, Sr. Smollett. Creio que devo ficar a sós com ela por alguns minutos.

George soprou com força o ar dos pulmões e caminhou para a porta.

Um quarto de hora depois, as persianas tinham sido levantadas mais uma vez e todo aquele episódio parecia um sonho de eras passadas. O Dr. Frohlich, que agora se transformara numa figura sólida e muito humana por trás da sua escrivaninha, sorria para os dois; de puro prazer profissional.

— Pois aí está, Sra. Smollett. Agora sabe o que houve. A causa de seu problema é esse incidente de sua infância, essa pequena tragédia de sua inocência passada. Acima de tudo, a senhora tem um forte sentimento de culpa. Censura-se pelo que aconteceu ao pequeno Bobby, quando, com toda a probabilidade, a senhora não tinha culpa nenhuma. Mas desejou que Topper o atacasse e depois viu o seu desejo converter-se em realidade. Por isso, acusou-se do crime. E, com essa acusação, condenou a si mesma a um terror que não tem motivo para tornar a sentir jamais.

E, olhando para a janela.

— Veja, o sol já apareceu. Creio que isso tem um significado simbólico, Júlia. Não lhe parece?

Júlia sorriu para ele.

Três semanas mais tarde, o telefone chamava no saguão quando Júlia Smollett voltou de suas compras matinais. Apressou-se a ir atender.

— Sra. Smollett? Aqui fala o Dr. Frohlich.

— Oh! Alô, Doutor! Que prazer ouvir a sua voz!

— Chamei para saber como vai passando. Se não me engano, tínhamos hora marcada para ontem. Esqueceu-se?

— Oh! meu Deus! Esqueci por completo! Ele riu alegremente.

— Bem! Teremos que descobrir a causa desse pequeno bloqueio. Mas talvez não seja tão difícil de compreender. Deve ser porque se sente muito bem...

— Acho que o senhor tem razão — disse ela. — Há anos que não me sinto tão bem. O senhor me curou realmente — dos meus temores, sabe? Pois se até chego a gostar de Átila!

— Átila? Foi esse o nome que puseram no animal?

— A idéia foi de George. Já me acostumei com o nome.

— Bem, eu só queria lembrá-la. Que tal vir à mesma hora, na próxima semana?

— Perfeitamente, Dr. Frohlich.

Pôs o fone no gancho e subiu as escadas atapetadas até os quartos de dormir, no segundo andar.

Alice, a empregada, estava arrumando o quarto de George quando Júlia entrou. Parara-se diante da janela, olhando para o gramado dos fundos, onde o cão se achava tranqüilamente deitado sob a única árvore.

— Vai descer lá onde está o cachorro, Dona Júlia?

— Vou, sim, Alice. Por quê?

—. Não sei não, Dona Júlia. Não confio nem um pouco nesse bicho. Tem todo o jeito de ser um cachorro perigoso.

— Ora, Alice!

— Tou falando sério, Dona Júlia. Lembra do que eu lhe disse? Um dia esse cachorro mata alguém.

E saiu a resmungar consigo mesma. Júlia esperou que ela se tivesse ido de vez, após o que correu a porta de nogueira do guarda-roupa do marido e estendeu a mão para a sua jaqueta de "tweed" predileta, a que tinha reforços de couro nos cotovelos. Tirou-a do cabide e dobrou-a sobre o braço.

Tornou então a descer a escada e saiu para o gramado dos fundos.

Fazia um dia adorável. Átila esperava pacientemente, arrebanhando a beiçarra, a língua pendente, a dentuça reluzindo.

Júlia afagou-lhe a enorme cabeça e fez surgir a jaqueta que trouxera escondida atrás das costas.

— Isca! — disse ferozmente, chegando-lhe a jaqueta ao focinho, metendo-lhe o cheiro de George pelas ventas a dentro. — Isca, Átila!