Um pouco do seu sangue e outras histórias

Alfred Hitchcock · Capítulo 8 de 20

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Um pouco do seu sangue e outras histórias

Sete

Eis aqui um maço de notas de terapia, transcritas de um apanhado taquigráfico. P — Terapeuta. R — Paciente. Todas as notas se referem ao caso de prefixo AX 544.

25 março

Manhã: 3 horas

P. Bom dia, George.

R. Quem, eu? George? (Deitado no catre. Senta-se.)

P. (dá de ombros) O nome é ótimo. Foi você que escolheu.

R. (Faz que sim com a cabeça) O que eu escrevi... deu resultado?

P. Resultado?

R. Pra eu sair daqui.

P. Dá o resultado de um tijolo, George. Na construção de uma casa, por exemplo. É parte de uma porção de Outras coisas.

R. Aquilo tudo, um tijolo?

P. Bom, vamos dizer duas carradas de tijolos, George. Trabalho bem feito.

R. (Deita-se. Parece irritado. Observa P. com os olhos entrecerrados. Respiração lenta.)

P. (Vira as costas. Caminha para a janela. Enche devagar o cachimbo. Acende. Torna a virar-se. R. está olhando, fora de foco, para o teto.) É preciso muito tijolo. Mas não há outro meio.

R. Pois seja.

P. Nada de idas e vindas hoje, George. Ficarei com você até a hora do almoço. (Pausa.) Se você quiser.

R. (Leve dar de ombros.)

P. Podemos começar a trabalhar, então?

R. Em que?

P. O que eu preciso antes de tudo é tratar de conhecer bem você.

R. Perguntando coisas.

P. Esse é um dos meios.

R. O maldito major que me mandou pra cá... ele fez perguntas demais.

P. (Percebendo a advertência: não meta o bedelho.) Muito bem. Vamos experimentar isto, George. Começa a espalhar na mesa a Escala Wechsler. Curioso, George levanta-se.)

A escala Wechsler do Exército consta de dez tipos de perguntas, algumas das quais requerem um bom emprego da linguagem, outras uma fácil manipulação matemática e outras ainda a solução de simples charadas figuradas. É um teste-padrão de inteligência com poucas probabilidades de provocar reações violentas.

P, (Mais de uma hora depois, sem haver terminado os testes.) Você fala pouco, George. Que foi que houve? Gastou todas as suas palavras escrevendo? R. (Descambando da passividade para o mau humor.) Nunca fui muito falador... Pare de me chamar George. P. O.,K.... Quer que eu use o seu nome verdadeiro? (Este nome é Bela — um insulto usado habitualmente pelos garotos americanos.) R. Ah! isso não...

(No Wechsler ele alcançou uma média elevada no que dizia respeito à compreensão de significados e idéias convencionais. Em outras palavras, sabia o que as pessoas em volta esperavam dele. Mas quando o teste exigia uma concentração intensa e o raciocínio abstrato, saiu-se menos bem. Não podia aplicar o pensamento a uma idéia ou situação complexa. Deduzi que estava aparelhado para isso, mas era incapaz — pelo menos no momento — de usar a aparelhagem. Dir-se-ia que esta se achava ocupada em alguma outra tarefa. Era ele, ao pé da letra, a ostra, da metáfora, as válvulas mal-e-mal abertas, apenas o suficiente para o contato com as coisas imediatas, diretas, simples, tangíveis.) P. (Olhando o relógio.) Homem, como você faz progressos! Sabe que já terminamos isto e ainda nos sobra uma hora inteira? Se continuar nesta marcha... R. Ah! é? (Abandona a passividade para lançar um olhar vivo a P. Querendo descobrir se ele está sendo sincero. Não tem o hábito de ouvir elogios.) P. Quer tentar mais alguns?

R. (Apático.) O. K. (Aqui se podia sentir, mais do que ouvir ou ver, uma certa diferença na apatia. Esta diferia da fleuma genuína, indiferente. Era quase idêntica, mas representava uma encenação com vistas em ocultar uma perceptividade maior.) P. Isto se chama Rorschach. R. (Na defensiva.) Choque?

O Rorschach é uma série de dez "borrões de tinta" padronizados. (Poder-se-ia fazer um desses borrões deixando cair uma gota de tinta numa folha de papel, dobrando-a em duas pelo meio do borrão, apertando bem a folha de papel dobrada e depois abrindo-a. Obtém-se assim uma figura irregular mas idêntica à direita, e à esquerda da dobra.} A maioria das pessoas reage de certas maneiras convencionais aos dez cartões do teste-padrão. Vêem neles seres humanos, animais, insetos ou vegetais. Vêem pessoas em posturas ou formas de atividade tradicionais, como sejam, comer, conversar, dançar, caminhar, rir. Essas reações habituais se manifestam espontaneamente, à primeira vista. Não há interpretação "certa" ou "errada" dos borrões de Rorschach. Há apenas aproximação ou afastamento das normas estatísticas.

P. (Riso gutural.) Não é "choque". Rorschach. É o nome do sujeito que inventou isto. Você só precisa olhar um por um e me dizer o que vê, com que se parecem ou o que é que lhe lembram.

R. (Durante o segundo do impacto e pela primeira vez, completamente alerta e com os olhos arregalados. Rápido exame de baixo para cima, de cima para baixo e de um lado a outro. As pálpebras tornam a baixar-se na habitual atitude velada; o olhar subseqüente é fleumático e firme. O cartão em apreço costuma ser interpretado por homens da sua idade como duas figuras dançando em roda de uma árvore enorme.) Isto parece dois caras esmagando um bicho, procurando arrancar pedaços ou pode ser que esgoelando ele. Ainda não sangrou, mas vai sangrar. Ali está o buraco do bicho (Mostrando um ponto vermelho no cartão.)

P. (Recorrendo impulsivamente a uma técnica aplicável a um teste bem distinto.) Por que estão fazendo isso?

R. (Encolhe-se instantaneamente; dissimulado, atrás da cortina.) Estão fazendo, nada mais.

P. (Outro cartão, em geral visto como dois animais rastejando morro acima.) E que tal este?

R. (Resposta imediata.) Isto é uma mama. Dois dragões queriam ela, mas estragaram, despedaçaram toda. Agora estão danados, se atiram em cima dela.

P. Experimente este. (Comumente visto como uma grande borboleta.)

R. Parece uns bichos despedaçando o corpo de alguém. Bichos maus. Aí está a espinha da moça e o buraco dela. Foi partida em duas. É vermelha por dentro. (Respiração talvez mais profunda, mas lenta; olhos velados; as narinas dilatam-se repetidas vezes.)

P. E este?

R. Ah! isto é alguém preparando um mundéu duplo, bam, pegou dois bichos, pode ser que marmota ou gambá, os dois ao mesmo tempo, esmagados. P. E este aqui? R. A barriga de uma mulher, rebentada. Foi uma criança dentro que fez rebentar. Mas a criança também rebentou, está vendo aqui? P. (Recolhe os cartões. R. observa com expressão absorta.) R. (Como se tivesse estado todo esse tempo a pensar no assunto.)

Phil?... P. ?

R. Você pode me chamar George se quiser. P. Como for do seu agrado... Andamos bastante caminho hoje.

Agora você vai indo muito bem. Se quiser experimentar outros de tipos diferentes, qualquer dia destes... Agora não, já está na hora do almoço. R. (Apático.) O. K. P. (Bate chamando o guarda.)

Fim da sessão.

Comentários: George demonstra uma característica singular que eu denomino inexatamente não-culpabilidade. Inexatamente, porque ele tem perfeita percepção do bem e do mal conforme os julgam as outras pessoas, mas não parece em absoluto oprimido por esse sentimento de punição merecida que aflige a maioria dos indivíduos numa matriz judaico-cristã como a nossa. Um exemplo extremo é o personagem que nossas literaturas têm pintado desde os tempos bíblicos até o presente e que, ao se sentir injuriado ou maltratado pela sorte, conclui instantaneamente que isso é o castigo de alguma transgressão, conhecida ou desconhecida. O grito "Que fiz para merecer isto?" parece significar "Nada fiz para merecer isto!" mas na realidade significa, em muitos casos ou na maioria deles: "Por qual de meus pecados estou sendo punido?"

No que se refere a George eu sinto — quase intuitivamente — que ele não tem nenhuma convicção de justiça retributiva, de punição pelo crime. A punição ele compreende, as atitudes alheias em face do crime também. Mas simplesmente parece não compartilhar a atitude. Uma analogia trivial seria entre duas pessoas, uma devotada à música e sentindo-se transportada por ela, a outra completamente amelódica e arrítmica. A segunda teria reconhecido que a primeira estava experimentando alguma coisa, mas não poderia saber o que fosse nem a emoção que isso lhe despertava. George parece ser "surdo" neste sentido para uma gama inteira de sentimentos compartilhados pelo comum dos homens — a empatia por um animal agonizante, o horror diante do sofrimento, do sangue, da injúria, da injustiça: uma couraça protetora que se foi formando no correr dos anos e que, segundo parece, só foi penetrada naquele dia em que ele viu os feridos da guerra. Sem dúvida isto poderia ser explicado em boa parte pela sua execrável infância em que o castigo descia contra toda razão, enquanto faltas infantis como a ausência às refeições ou à noite, o furto, a insolência e a desobediência eram freqüentemente toleradas. No cosmo de George o castigo não se seguia necessariamente ao crime, e sem embargo o castigo vinha inevitavelmente, houvesse crime ou não.

Tenho visto muitos presidiários que, por mais que se queixassem de ter sido injustiçados, no fundo sentiam a justiça da punição. Um bom número deles pensava, ou dizia pensar, que o castigo era excessivo; pouquíssimos eram de opinião que não deviam ter sido castigados em absoluto. Até alguns presos inocentes — inocentes, isto é, do crime pelo qual foram condenados — têm a idéia de estarem pagando alguma coisa. Mas o sentimento de George com respeito ao longo período de encarceramento que se seguiu à sua agressão contra o major era, em essência, o que seria o meu se, ao atravessar um campo, houvesse pisado em chão falso e caído numa imensa e emaranhada caverna. Sem dúvida não pensaria ter merecido isso. Procuraria um meio de sair e, se não pudesse encontrá-lo, mas topasse por lá com um homem que me convencesse de que sabia o caminho, seguiria esse homem. E se viesse a descobrir, enquanto caminhávamos, que não levaríamos horas nem dias, mas semanas e até meses para chegar à saída, creio que encararia a situação mais ou menos como George faz agora.

Como pôde uma criatura como George subsistir por um tempo apreciável numa sociedade moderna? Como pôde um homem com tão pouca noção da lei e da propriedade, da reciprocidade e das conseqüências, livrar-se de complicações pelo espaço de um dia sequer?

O fato se torna menos misterioso quando o colocamos na sua verdadeira perspectiva. George havia gravitado para dois pólos ambientais — a completa liberdade da vida ao ar livre, onde as leis são imparciais e claramente compreendidas, quer se trate das leis da gravidade, quer da força de tração de um vidoeiro novo quando vergado; no outro pólo estava o mundo do orfanato e do Exército, onde regulamentos rígidos guiavam as idas e vindas do indivíduo com a fixidez das rampas de acesso a um curral. Uma vaca pode andar em sentido paralelo à cerca, mas não pode andar perpendicularmente a esta. George havia tomado a peito o adágio das fileiras: "Faça o que lhe mandam e nunca se apresente voluntário." E as rampas eram fáceis de trilhar e impalpáveis para os obedientes, que sem questionar e sem decisões conscientes dormiam aqui, lavavam-se ali, comiam acolá, e esperavam.

A área que por enquanto me deixa completamente intrigado é a sexual. Al Williams qualifica de "sadia" a atitude sexual de George: contestei isso e ainda não posso explicar por quê. Diz Al que é porque, segundo mostra o paciente com tanta lucidez no seu extraordinário manuscrito, ele não conhece vergonha, falsa modéstia, insegurança ou hipocrisia. George trilhou um caminho de lógica inatacável para convencer-se de certas verdades que a humanidade é positivamente incapaz de aceitar no domínio subjetivo: que a ereção, o orgasmo e a ejaculação não são menos possíveis a um coelho do que a um homem, e tão pouco nobres no homem como no coelho; que esses fenômenos não necessitam de ser cultivados, pelo motivo de serem (uma vez dado o ensejo) automáticos e incontroláveis; e que, se é insensato cultivá-los, ainda mais insensato é reprimi-los. Isso é o que Al chama sadio. Bem, para usar a comparação do próprio George, é exatamente tão sadio quanto a atitude de um coelho. As grandes complicações do sexo, com os seus fluxos e refluxos que colorem os pensamentos, as palavras e as obras dos homens, são incompreensíveis para George e, enquanto Al não se virar para examiná-las, estão fora do seu campo de visão.

A conclusão de que a extraordinária bestialidade das reações de George ao Rorschach são de natureza sexual parece evidente à primeira vista. Extraordinária não é bem o termo. Tenho conduzido mais de um milhar de Rorschachs, li tudo que pude encontrar sobre a técnica e a interpretação do teste e nunca ouvi falar em nada que se assemelhasse às visualizações de George, sistematicamente sanguinárias e homicidas. Não em Rorschachs — mas sim, sem' dúvida nenhuma, na psicanálise profunda. Entretanto, sempre as encontramos profundamente ocultas, emergindo pouco a pouco e quase nunca de forma direta, mas simbólica.

A crer na autobiografia de George, Anna é a única mulher que ele jamais conheceu — e eu creio. O pouco que diz sobre as relações entre ambos carece de clareza. Ela parece ter sido a instigadora; George declara mais de uma vez que fazia o que ela queria. Depois menciona de modo obscuro o fato de ter feito o que ele queria; que Anna tentou impedi-lo e por fim consentiu, sentindo-se segura com ele.

Segura com ele!

O que é que está seguro com ele? Quem?

Eu?

Bem... Precisamos trabalhar mais, aprender mais. As fantasias de violência por vezes simbolizam o sexo; os símbolos (e atos) sexuais freqüentemente representam e exprimem a violência. Nalgum ponto desta área deve encontrar-se o foco das fantasias evidenciadas pelo Rorschach de George, fantasias de uma incrível violência, muitas vezes genitais e, sem embargo, virtualmente assexuais.