Um pouco do seu sangue e outras histórias
Cinco
Dizem tanta coisa do exército, que não presta, que se vive correndo e esperando, e este maldito exército daqui e este exército desgraçado dali. Pois eu estou aqui para lhes dizer que muitos caras nunca passaram tão bem na sua vida como no exército, tem uma porção de caras dizendo cobras e lagartos que quando viviam de barriga vazia não diziam nada. Tem grude melhor que o do exército, mas o grude do exército é cem vezes melhor do que muitos desses caras já viram, pelo menos com essa regularidade. E ficariam admirados se soubessem quantos desses caras nunca dormiram que chegue nem andaram limpos antes de entrar no exército. Quem quer levar um vidão é só fazer o que eles mandam e nunca se apresentar voluntário para nada. Se você quer se amofinar se amofine, mas vai ser por bagatelas, o que é importante já está tudo resolvido e a gente não precisa se preocupar. Eu já disse isto e vou dizer de novo, no fim das contas o que um homem precisa mesmo é só encher a barriga e deixar que os outros pensem por ele, ninguém precisa pensar se não quer. E se isso não é o retrato escarrado do exército não sei o que seja.
Pela primeira vez na vida George achou que tinha acertado. Às vezes ficava triste porque não podia ver Anna mas acontecesse o que acontecesse ela não estava sozinha no mundo e tudo acabaria bem a não ser que ela morresse, e nesse caso que se pode fazer? Em todo caso, graças aos dois anos de reformatório, ao treinamento e ao preparo de mecânica George tinha tudo que queria e pela primeira vez na vida algum dinheiro de seu. Para ele foi como uma repetição do reformatório, só que maior e mais fácil. Quando chegou no reformatório teve de passar muito tempo aprendendo o que se devia e o que não se devia fazer, mas no exército já sabia tudo isso, melhor do que muitos caras que nunca viveram antes num dormitório ou num quartel. Não se metia com ninguém e ninguém se metia com ele, era ainda um rapagão forte de bico calado, que é a receita para ser deixado em paz quando é isso que a gente quer.
Quando chegou o tempo de se reengajar ele se reengajou, por sinal que nem gozou a licença, ficou zanzando lá mesmo pela base, que era na Califórnia. E pode ser que tenha caído nessa esparrela em que muita gente cai, pensando que as coisas vão continuar toda a vida como estão. Pois não vão, não senhor.
Primeiro veio uma porção de boatos e a gente sabe como isolar os boatos, mas o que aconteceu mesmo foi um desses boatos que se tinha isolado. Toda a base embarcou para o ultramar. Uns diziam que era guerra, outros diziam que era uma ação policial, e acho que para alguns foi uma grande farra.
Para George foi ruim, ele não tinha ninguém com quem falar nisso, nem saberia o que dizer se tivesse. No exército tinha andado bastante de cá para lá, Luisiana, Nova Jersey, Michigan, Califórnia, mas nenhuma mudança se comparava com esta. E começou a sentir aquele velho fogo nas tripas, mas não encontrava remédio para isso. No ultramar não era tão fácil ir caçar e a caça era pouca. E lá não tinha essas trocas de passes e essas facilidades de entrar e sair. Não se podia brincar com o regulamento.
Também tinha os exercícios que para George era sopa, mas um dia, era na pista de aviões e três C-119 chegaram trazendo feridos e o oficial destacou uma porção de soldados para servir de padioleiros. Desembarcaram ao todo cento e sessenta e três feridos de padiola e depois de ver e ouvir essas coisas nunca mais se é o mesmo.
Tudo que se pode dizer sobre o que George sentiu é que era como se ele tivesse voltado a ser um garotinho e ia apanhar por causa de alguma coisa que tinha feito ou por nada. O pai fazia isso, mas o pai chegando em casa, mesmo cheio de cachaça, não queria dizer que ele fosse apanhar na hora. A única coisa de que se tinha certeza era de apanhar, disso a gente não se livrava. Só que nunca se sabia quando. E depois de ter passado pelo reformatório, pela fazenda e principalmente pelo exército George parecia ter deixado tudo isso para trás, era coisa morta e enterrada, não se fala mais nisso. E de repente aqueles feridos ali bem nas ventas dele. De modo que lá estava de novo aquela certeza de apanhar, mas sem saber quando. E nunca tinha saído de dentro dele. George pensava ter deixado isso para trás, mas se enganava. E pode ser que esta noite, pode ser que na semana que vem, iria para aquele lugar onde os homens são transformados em feridos de padiola. E quando a gente fosse talvez não levasse a sua conta nesta noite ou na semana que vem, mas que levava, levava.
George não era o único que sentia isso, e bem sabia. Alguns riam, falavam mais alto, corriam mais depressa e faziam tudo com mais força, e alguns aproveitavam todas as folgas para sentar num canto com ar preocupado, e alguns viviam matutando como conseguir uma saída uma vez que fosse para tomar um bom porre. Mas George só precisava e queria uma coisa, e começou a pensar em Anna como nunca tinha pensado antes, pensava tanto em Anna que quase sentia o cheiro dela, aquele cheiro morno.
Mas não podia fazer nada e isso era o pior. E assim o que ele fez foi uma das coisas mais difíceis da sua vida porque nunca tinha feito antes. Resolveu (escrever uma carta. Deve ter levado quatro dias para escrever essa carta e passou quase todo o tempo sentado olhando para o papel. Depois escreveu a carta e pronto com isso não se sentiu melhor mas não teve idéia de outra coisa que fazer, e assim fez e terminou o assunto. E ninguém mais sabia o que ele sentia. Nunca foi conversador. Quando alguém lhe falava em embarcar para o front tudo que ele fazia era sorrir. Acho que ninguém sabia nada com certeza.
Então um dia chamaram ele para falar com esse doutor, esse coronel. E ele foi, « é aí que eu comecei esta história. Phil disse que eu podia começar por onde quisesse, só era preciso explicar tudo que dizia.
Pois o resultado foi que George Smith velho voltou para os Estados e se fechou como nunca na sua vida e pensando bem não foi má idéia, ninguém se ocupou com ele depois que foi trancafiado naquela cela. Porque no começo não estava em si, andava lá pelos quintos do inferno, louco de raiva. Não louco, louco de raiva, o que é muito diferente. Se alguém botasse a mão nele quando se sentia assim só ia se encanzinar, talvez brigasse mais um pouco. Mas um louco de raiva é como um fogo, é só tapar bastante tempo e ele se apaga por si.
E assim um dia a porta se abriu e o guarda deixou entrar esse doutor, só que era um simples sargento e não muito grande. Maior do que Tio Jim mas não muito grande. Tinha um cabelo preto e espalhado e usava óculos e foi logo dizendo que era médico sim mas me chame de Phil, e como ele se sentia. E George podia ter quebrado ele em dois em cima do joelho ou desconjuntado a espinha como se faz com uma cascavel quando não s>e tem vara, mas Phil só fez sinal pro guarda ir embora e o guarda deixou ele ali com a porta trancada e Phil sentou junto dele na cama e ofereceu cigarros embora esse George Smith nunca tivesse fumado, antes não fosse assim.
E assim Phil ficou fumando de bico calado le George Smith começou a se sentir mais à vontade e finalmente Phil perguntou que é que ele mais queria e George disse que Sair. E Phil perguntou por quê. E George se admirou disto mas se a pergunta era idiota Phil não tinha cara de idiota. Então George respondeu Pra voltar pra junto dessa moça e casar com ela. Porque agora George sabia que para onde quer que voltasse tinha de ser perto de Anna, Anna sabia o que ele era e gostava dele assim, e ninguém mais iria gostar. E não queria mais saber do exército depois daqueles feridos que tinha visto.
Então Phil disse para ele que poderia sair, mas teria de fazer direitinho como Phil dissesse. E George Smith estava pronto para trepar pela parede, ficar de cabeça para baixo no teto se Phil mandasse. Preciso dizer aqui que tenho confiança em Phil. Ele quer que eu saia, tenho certeza disso. Também acho que ele quer que esta minha história seja a pura verdade. Ele não tem nada que lucrar nem comigo nem com ninguém que leia isto. No começo eu não queria acreditar nisso, mas agora acredito.
E assim ele me pediu que escrevesse a história da minha vida e eu disse que não sabia nem mesmo por onde começar e ele respondeu: Comece onde quiser mas não esqueça de explicar tudo. Disse que se eu quisesse, fizesse como num filme ou numa história de quadrinhos que começam com o sujeito já velho e depois voltam para o que aconteceu antes. O principal era escrever todas as coisas importantes para ele poder me compreender melhor. E disse que se eu tivesse dificuldades em começar escrevesse sobre uma outra pessoa, porque esse é um bom meio da gente se afastar de si mesmo e aí pode se lembrar melhor. E assim depois que ele foi embora eu comecei, inventando esse nome de George Smith, e ele tem razão. Escrevi todo o resto daquele dia le desde então não tenho feito outra coisa senão escrever enquanto tem luz, e ele voltou duas vezes mas eu ainda não tinha terminado.
Pois esta é a história. É toda verdadeira e é tudo que consigo lembrar. Fiz o melhor que pude. Não sei por que estou aqui nem por que me mandaram de volta para os Estados aqui nesta fábrica de loucos em vez de ser encanado por agressão a um oficial. Não sou louco, louco é quem pensa isso. Tudo que eu quero é sair. Quero sair daqui e quero sair do exército, pra mim chega. Tudo que eu quero é voltar para a minha pequena, casar com ela e viver lá ou quem sabe arranjar um sítio noutro lugar. Ou um armazém.