A Guerra dos Mascates

José de Alencar · Capítulo 9 de 33

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A Guerra dos Mascates

Capítulo VII

 

ENCANTOS QUE TINHAM PARA O NOSSO POETA UMA SAIA REMENDADA E DUAS CANELAS COR DE AZEVICHE

Seriam 5 horas da tarde.

Os dois com panheiros se tinham ido; ficara o poeta de novo solitário na erm a praia. Com pouco levou ele a cabo a décim a principiada. Repassaudo-a então um a e m uitas vezes na m em ória, tratava de a lim ar com um a pachorra horaciana.

Nesse trabalho, avançara contornando a praia na direção de Fora de Portas. Aí desdobrava-se um painel encantador. Na cúpula, dossel m agnífico de ouro franj ado a púrpura; em baixo, um a alcatifa im ensa de cham alote azul recam ada de brancos lises. No centro, um peristilo m aj estoso form ado por grupos de elegantes colunas e rem atado em ogiva pelas verdes arcadas.

As tintas deste deslum brante painel dava-as o sol no ocaso, o m ar em bonança e os ram alhetes dos coqueiros, que ensom bravam a form osa ilha desse nom e, tam bém cham ada do Nogueira. Esse berço gracioso de palm eiras,. com as oscilações que a brisa da tarde im prim ia às longas hastes e aos frondosos penachos, parecia em balar-se no seio das ondas.

Aquém apareciam as ribas arenosas onde brinca o travesso Capiberibe tecendo lindos m eandros e cingindo as quintas pitorescas do Monteiro. Finalm ente pelo m ar estendia-se o negro cordão do recife. Enroscando-se pelos abrolhos e cobrindo-os de grossos rolos de espum a, davam as vagas aquele dorso granítico feições de enorm e serpente do m ar, preposta à guarda das form osas hespérides de Pernam buco.

Passava o Sr. Lisardo de Albertim em face de todos estes prim ores da palheta divina, sem os ver sequer. Não é isso de estranhar em poetas, anom alias de carne e osso que fazem o desespero dos fisiologistas e dos alfaiates.

Mais deliciosos que todos esses lanços de vista sobre o m ar, achava ele uns tabuleiros de m ata-pasto que bordavam a areia nessas abas da povoação, destacando sobre as faxinas das cercas vizinhas. Aquelas varinhas ligadas com em biras tinham especial encanto para o nosso poeta, que enfiava por elas uns com pridos olhos e deleitava-se na contem plação... do que, não sei eu; m as ali não havia senão um as galinhas a ciscar, um as goiabeiras encarquilhadas e um as panelas de borco no terreiro.

Pior foi quando bruxulearam entre a faxina as dobras de um a saia azul de algodão tecido na costa da Mina, em África. Nunca vestuário de baile, apontoado por m ãos francesas e recheado de m eia dúzia de ninharias parisienses, com esdrúxulas designações, obj eto da pasm aceira da gente do tom , teve no salão do Cassino poder igual ao daquela saia, para excitar em tão alto grau as em oções de um poeta.

Aquele azul era celeste; uns gadanhos de carvão e gordura o tisnavam aqui. e ali, m as eram j ustam ente esses laivos que traziam presa a alm a do m ancebo. Tinha a saia um rem endo de serafina; quando o percebeu, ele não se pôde conter que não soltasse um a exclam ação de j úbilo e ficasse em um êxtase indefinível.

Assim , agachado entre o m ata-pasto, com os olhos naquela bendita aparição esteve bom pedaço. A saia tinha-se entrouxado perto das m arm itas; e pelo m ovim ento destas, assim com o pelo chiar do punhado de palha e coaxar d'água, parecia haver ali um a lavagem de panelas.

De repente o poeta com eçou a trem er; batia-lhe o coração com palpitações violentas.

Dera causa a essa repentina com oção um novo incidente. Observara o Lisardo que dois tornozelos pretos e suas com petentes canelas m oviam -se debaixo da tal saia, na direção da cerca, onde havia um a portinha para o m ata-pasto, bem defronte do nosso rim ador. Em sobressalto, lançou ele os olhos ao redor para ver se o espreitavam e escondeu-se por trás das m oitas.

A faxina da porta entreabriu-se. Um a preta de m eia-idade, que tinha j eitos de cozinheira, estirou o pescoço pela fresta e olhou para fora. Não vendo o que esperava ia a recolher, quando ouviu rum or na m oita e cuidou ver um vulto agachado. Logo após soou um psiu baixinho, e logo outro m ais alto; afinal anim ou-se a aparecer o nariz do poeta e a m ão do m esm o acenando.

Poupo ao leitor os trej eitos, negaças e requebros que de parte a parte se trocaram os dois antes de chegarem finalm ente à fala.

— Está bom , sô m oço, acabe com isso que eu tenho que fazer.

— Então, Benvinda...

A língua do poeta trem ia com o folha de bananeira.

— Então, você falou?...

— Pois então! Não falara!...

— E ela que disse?

— Que sim .

Aqui teve o Lisardo um soluço que de todo em bargou-lhe a voz. Só a m uito custo recobrou a fala, não a natural, m as um a sum ida e fanhosa, que era pena ouvir.

— Deveras, Benvinda? Ela disse que sim ? ...

— Disse, sô Lisardinho.

— Com o foi que você falou? Onde estava ela?

— Meio-dia, quando ela veio no quintal apanhar goiaba, eu cheguei devagarinho e perguntei assim : "A m enina Belinhas sabe?... Sô Lisardo, aquele m oço que lhe m anda os versos, tem um segredinho para dizer à m enina."

— E que fez ela então, Benvinda? Conte-m e tudo, tintim por tintim .

Deu um a risadinha gostosa e ficou verm elha que nem um tom atinho; depois deitou a correr para a cozinha.

— E não respondeu?

— Nem palavra.

— Mas então com o disse você... Ah! Benvinda, que não im agina o m al que m e fez.

— Espere lá, m oço, que ainda não acabei. Quando ela chegou na porta da cozinha, voltou-se, cham ando pelo m eu nom e, e bateu três vezes com a cabeça, assim !

— Adorada Belisa! m urm urou Lisardo engalfinhando as m ãos e pondo os olhos no céu.

De repente assaltou-o a dúvida:

— Mas, Benvinda, está você bem certa que ela consentiu!

— Pois, m oço, a m enina é lagartixa para bater com a cabeça à toa?

— Quem sabe se ela queria dizer Outra cousa! Talvez você não percebesse bem .

— Pois eu não sei o que faço? Sô Lisardinho em casando com a Belinhas, m e põe forra logo, não é assim ?

— Antes disso m esm o. Olhe; eu tenho um planozinho em que ando cogitando há dias. Vou m andar um m em orial em verso ao Duque de Cadaval, pedindo a vara de m eirinho do sertão que está vaga. Em apanhando o provim ento, com o espero, trato logo de vender o ofício por boas patacas; e então pode contar com a alforria. Se quer, em penho-lhe os m eus sonetos, que j á andam em cento e quarenta.

— Nada; não precisa; basta que prom eta!

— Dou-lhe m inha palavra.

— Então j á se vê que eu hei de tratar do m eu benefício, fazendo que sô Lisardinho fale cá á m enina. Escute: não tardam trindades. Vá-se chegando aqui pelo lado da casa, encostado à últim a j anela, e espere um instantinho, que eu vou arranj ar tudo.

— Agora m esm o? exclam ou o poeta espavorido.

— Já; é aproveitar a ocasião, enquanto as velhas estão ocupadas fazendo farténs lá dentro, porque esta noite ai vem cear m uita gente. Se não for hoj e, ninguém sabe quando será.

— Mas pode ela não gostar!...

— Deixe por m inha conta.

— Não, o m elhor é...

O diálogo foi interrom pido por um a voz pachorrenta que cham ava em escala crom ática:

— Benvinda!... Benvinda!... Benvinda!...

O Lisardo quis m eter-se pela terra adentro só de ouvir aquele cham ado. preta acudiu às pressas, acenando-lhe de longe que fosse para o lugar aprazado.

Com eça agora um quarto de hora que eu desisto de historiar; um livro era m ínim o espaço para descrevê-lo. O célebre quarto de hora de Rabelais, em que a barriga cheia curtia o m artírio da bolsa vazia; e aquele outro cham ado quarto de hora de pontualidade que, a título de cortesia, suportam os convidados de certos j antares m arcados para as quatro e postos às sete; nada disso se com para ao transe referido.

Quero ver contudo se por m eio de um a im agem dou ligeira ideia.

Não há quem não tenha visto voar no seu terreiro um a pena de galinha. Ludibrio do vento, o sutil obj eto sobe e desce, vai e vem , foge e torna, avança e recua, gira sobre si, pára e m ove-se, para afinal esbarrar-se contra algum obstáculo.

Pois em vez de pena, im aginem um rapaz enam orado; e aj untem em alta dose os trem ores nervosos, os súbitos calafrios, os suores gelados, de m istura com os repetidos fogachos; e terão um a ideia do que foi o tal quarto de hora de espera para o nosso Lisardo.

Afinal o encontram os na parede do oitão, um a braça distante da j anela, e oscilando ainda com o um a pêndula entre o desej o de ficar e o ím peto de fugir.

De repente a banda m ais próxim a da rótula entreabriu-se; dois dedos m im osos enfiaram pela gelosia, e um olhar negro e aveludado filtrou das estreitas frestas com o um esguicho de m il centelhas m iudinhas, desferidas por todos os lados. Viu Lisardo o enxam e de faíscas e ficou deslum brado e quedo.

Vão-se acabando aquelas antigas rótulas que escondiam tão guapos am ores; se algum as ainda restam pelas grandes cidades, j á perderam o suave perfum e de castidade que dava a essas flores recatadas um arzinho de violetas. Agora a rótula será canteiro de arrudas e m entruzes.

Muitos inventos m odernos se introduziram em com pensação: os véus de filó, os crepúsculos artificiais, as m áscaras de cetim , as gazes transparentes e outros engenhosos sistem as do ver e do não ver; m as a rótula, cá para m im , há de sem pre deixar saudades. Um a linda m oça através da gelosia é a im agem das m ais belas criações de Deus, a flor entre a folhagem , a estrela entre o azul.

Mas nada com o o encanto que a rótula dava ao olhar! Quando se m ovia brandam ente em balada por m ão descuidosa, parecia que estava peneirando aqueles relanços d'olhos em um pó sutil. Se Deus m e concedesse pulverizar um a estrela e passá-la por um crivo bem fino, pudera eu pintar a trepidação graciosa de uns olhos negros por entre a rótula.

Esquecia-m e advertir. Olhos para rótula deviam de ser negros. Os azuis, querem -se lím pidos, serenos e desnublados, com o os puros céus de um a alm a angélica. Os outros, castanhos, pardos, verdes ou gázeos, que arranj em -se com o puderem e m elhor lhes for; porém , escusam de ter saudades da rótula.

Eram pois uns olhos negros, do m ais belo negro, que se coavam pela rótula do oitão.

A princípio derram aram -se em torno; m as logo recolheram para se atirarem ao m ancebo, com o uns punhados de alfinetes. Devia de ser assim realm ente, porque o pobre Lisardo sentiu o rosto a fervilhar.

Tão flexível antes, qual folha de cana, estava agora o nosso poeta estatelado à parede e rij o com o estaferm o. Fincava as costas ao m uro, a ver se podia sum ir-se por ele adentro; os olhares esparram ados pelo m ato fora tinham j eito de disparar; e de certo houveram j á deitado a correr por aí além , caso não estivessem am arrados ao poste.

Os olhos negros e os dedinhos brancos cuidaram que os não tinha percebido o poeta. Abriu-se um cantinho à rótula; tornou logo a cerrar, rangendo de leve; buliu a aldraba devagarinho; enfim ouviu-se um rufo m avioso de unhas rosadas no gradil.

Estes rum ores significativos m ais espavoriam o poeta. O ríspido som do gatilho de um arcabuz que lhe apontassem ao peito, não lhe causara por certo m aior pavor.