A Guerra dos Mascates
Capítulo VIII
UMA AMOSTRA DA GERINGONÇA POLÍTICA DE NOSSOS AVÓS
Pouco faltava para soarem trindades na torre da Madre de Deus.
Era um sábado, 15 de outubro, e portanto dois dias depois da aventura de Vital Rebelo em Olinda.
Havia essa tarde o aj untam ento do costum e na calçada do m ercador Viana, que m orava com o j á se sabe à Rua da Moeda, para as bandas do Forte de Matos.
Aos dois e três iam chegando os principais da m ascataria, e outros que não tinham voz ativa, m as serviam para fazer núm ero.
Percebia-se que era de ponderação o negócio, não só pela m aior com panhia, com o pela preocupação que se m ostrava em todos os sem blantes.
Junto a um a das j anelas estava sentado o Viana, pai do nosso Nuno, e com quem ainda não tivem os ocasião de avistar-nos.
Era um a form idável am ostra de hom em , com sofrível estam pa, e um a dessas caras sediças, ornadas do clássico passa-piolho, com o se encontram a cada volta entre os nossos irm ãos de além -m ar, e que são vulgarm ente conhecidas caras de m estre de barco.
No m ais, boa pessoa, um tanto pachorrento e descansado na voz com o nos gostos; m arroaz, am igo da chelpa que para ele fora sem pre a m elhor política, o Sr. Miguel Viana passava entre os am igos no físico e no m oral por um perfeito pé.de-boi.
Incom odara ao m ercador a peraltice do Nuno que j á ele sabia estar m etido com os nobres em Olinda; m as devem os confessar que o desgosto do pai com a m arotice do filho não foi tão grande quanto a m ofina do patrão, por ver-se de repente sem caixeiro na loj a.
À m edida que vinham chegando os parceiros, erguia-se o m ercador para os saudar, e tam bém para alcançar dentro da casa os tam boretes que oferecia aos recém -chegados, os quais se iam abancando em roda.
A parte fem inina da fam ília entrava para a sala, onde estava a Senhora Rosaura para as receber com m il requebros em que nestas ocasiões se desfazia o seu corpo rechonchudo com sério risco de sua respeitável trunfa.
Já havia chegado com sua cara-m etade e a m enina Marta o digno alm otacé, o Sr. Sim ão Ribas, que estava abancado à direita do Viana, e nesse m om ento apontara na esquina o im portante alm oxarife, Dom ingos da Costa Araúj o, que se aproxim ou com um andar grave e enfático.
Era o Costa Araúj o um dos lum inares da m ascataria e sem contestação o m ais bem falante. Em arranj ar um vistoso ram alhete de bonitas frases, ninguém levava-lhe a palm a. No m ais não se cansava; toda a ciência dos negócios, cifrava-a em ter por si o hom em , fazendo-lhe com o aos m eninos se costum a as pequenas vontades.
Quando m oço, tinha ele tom ado ao sério essa nigrom ancia apelidada política, e prodigalizara grande som a de talento, de entusiasm o e de atividade, na defesa dos povos contra a prepotência dos governadores. Fora um dos precursores da dem ocracia brasileira, que um século depois devia suscitar o Martins, o Miguelinho e outros m ártires pernam bucanos.
Nesse fervor dos anos escrevera um a filípica, no gênero de Dem óstenes, contra a raça bragantina, o que lhe valeu a ira dos adversários, e o receio dos am igos que tem iam -lhe o contágio.
Recebeu a lição e aproveitou-a. Conheceu que os povos, por quem se havia sacrificado, eram anim ais dom ésticos: à liberdade preferem o quente aprisco onde os reis os põem à ceva.
Desde então m udou de rum o; passou a. viver nos m elhores term os com os governadores, que tinham em grande conta os seus conselhos; pelo que o proveram no cargo de alm oxarife, além de outras m ercês. Rosnavam os invej osos de um ato de contrição feito a D. Sebastião de Castro. Vinha o boato da m ordacidade de um dos tais am igos, que se valem da intim idade para m elhor beliscarem : são com o os gorgulhos que se m etem dentro do grão para lhe roerem a flor.
No físico, não fora a natureza tão liberal com o Costa Araúj o com o no m oral; m as sabia ele dar à sua quadratura um tom apresentável. Se neste século de espiritistas em que se tiram fotografias às alm as do outro m undo houvesse curioso que se lem brasse de pintar a estam pa de algum a figura de retórica das m ais bochechudas, com o por exem plo a prosopeia, teríam os o retrato ao vivo do nosso pom poso alm oxarife.
A seu lado o Sim ão Ribas fazia as vezes de um solecism o j unto de um a oração de Cícero; e todavia não tinha o alm otacé m enos engenho que ele, avantaj ando-se-lhe assaz na cópia dos conhecim entos que havia colhido nas várias províncias literárias; pois era de m uito e constante labor, tão versado nos livros quão pouco nos hom ens.
Tom ou o Costa Araúj o assento à esquerda do Viana, e depois das urbanidades usuais e de um a anedota contada pelo alm oxarife, que apreciava esse acepipe literário, assoou-se o alm otacé e tem perou a garganta para abrir a conferência:
— Sabem os am igos e com panheiros que se está seliamente cuidando no suplemo da cliação da nossa vila do Lecife; m as alguns senholes andam inquietos com a demola e então quiselam que se fizesse um a j unta para se avisal no que m ais convém e conceltal os m eios de aplessal o nosso tliunfo. É pol isso que estam os aqui, cada um dos senholes melcadoles dilá seu palecei; o m eu é que devem os confial no suplemo e espelai que a alta sabedolia da govelnação do Estado ploveja com o entendel, que há de sel semple pelo melhol.
Com preenderam os circunstantes o sentido da arenga, pois além de m uito habituados ao lam bdacism o do Sim ão Ribas, sabiam que suplemo era um a expressão m ística para designar o governador, tendo ele por m íngua de respeito indicá-lo nom inalm ente.
Seguiu-se um a pausa form ada pela hesitação daqueles que desej avam tam bém dar sua colherada, m as tolhia-os o enleio. Um desses era o m arreco do Capitão Miguel Correia Gom es que trazia decorado um farelório do Padre João da Costa, com a intenção de im pingi-lo à assem bleia, m as agora suava com o um caldeirão a ferver.
Havia chegado m om entos antes o Vital Rebelo, que apeara-se do cavalo e recostado ao selim ouvira a fala do alm otacê. Percebia-se no seu gesto a indiferença que lhe inspiravam essas assem bleias, onde se burlava a sinceridade de m uitos em proveito da am bição ou com odism o de alguns.
— Com o sej a lícito a cada um dar seu voto por m ais desencontrado que pareça, direi eu o que penso. Esta vila do Recife vai fazer em novem bro um ano que El-Rei a criou; e pois que o governador por ele m andado a esta capitania tem deixado de cum prir a carta régia, m ostrando-se rebelde, nosso dever de fiéis vassalos é obrigá-lo à obediência que deve a seu príncipe e senhor; e sendo preciso, erigirm os nós, os povos em conselho, o padrão da vila. Se estais por isso, contai com igo; m as das negaças em que andais às voltas com o governador, não entendo, nem quero saber.
O venerando alm otacé, que tinha por costum e ir todas as tardes ao benedicite em palácio, e que não punha taxa, nem j ulgava coim a, sem levar antes a D. Sebastião de Castro um rascunho para receber a correção do m estre, azoou com aquela insólita linguagem , e apuridou ao Viana que ficara im passível, resguardado com o estava contra esses sobressaltos pela espessa crosta de sua pachorra.
O alm oxarife, porém , que viu retratada a sua petulância de outrora naquela isenção do m ancebo, sorriu-se de um m odo significativo, e pensou consigo com o aos cinquenta anos se não havia de espantar o Rebelo de seus arrebatam entos j uvenis.
Nisso é que se enganava o Costa Araúj o. Hom ens há, e ele era um , em quem o desengano gera o cepticism o. Em outros, porém , a fé é tão profunda e tão de raiz que não há extirpá-la; não podendo arrancá-la, o que fazem a ingratidão e deslealdade é que, à força de a abalarem , deixam ali um a chaga que se está m agoando a cada instante contra as m isérias do m undo. Era deste cadinho a alm a de Vital.
— Aquilo é despeito! rosnou o Padre João da Costa.
— Com o o governador não o fez capitão! ... acrescentou o Miguel Correia , enfunado da sua gineta.
Tom ou então a palavra o Doutor Antônio de Sousa Magalhães, que foi um dos letrados de m aiores créditos entre os m ascates. Era m eão de corpo e estatura. Não tinha fisionom ia, m as um a cara insossa e desbotada sem a m enor expressão. Só num traço reparava-se: era nos olhos pequenos, por causa das pálpebras sem pestanas e debruadas de verm elho que pareciam casas de botões.
Nos prim eiros tem pos dizia o Magalhães que o seu lote neste m undo o queria em ouro. Com a experiência, porém , foi aprendendo que o ouro é precioso sobretudo pela ductilidade, e conheceu quanto ele se prestava a todos os m isteres, à cobiça, à am bição e até à beatice.
Era o nosso advogado um dos que m irravam -se com o desej o de pilharem um lugar na secretaria do governador, m as com o a som bra fugia-lhe, inculcava-se de im possível, e não perdia ensej o de rufar a sua abnegação.
Foi insigne beato. Ouvia m issa com exem plar devoção, e rezava todo o ofício da Sem ana Santa aj oelhado, de ripanço em punho; até fazia novenas e terços em casa. Mas a sua carolice não se reduzia a essa parte ascética; frequentava o refeitório da Madre de Deus nos dias da peixada e apreciava as m oquecas e pastelões que lhe m andavam de m im o em salvas de prata os padres Mendicantes do Seráfico São Francisco.
Passou o Dr. Magalhães por grande retórico, e poucos no seu tem po tiveram tanto j eito para engordar essa sim pleza do vulgacho, que hoj e em dia se decora com o pom poso nom e de opinião pública e que m elhor se cham aria de pasm aceira pública.
O que distinguia especialm ente a facúndia do nosso hom em era a entonação com que ele pronunciava as palavras. Essa espécie de eloquência retum bante tem sido cultivada por outros, m as ninguém ainda levou-lhe a palm a. Darei aqui um exem plo de sua força nesse gênero.
Em um a das arengas que ele frequentem ente fazia nas rodas dos m ascates contra os nobres de Olinda, querendo pintá-los sob um a face odiosa que produzisse im pressão no auditório, exclam ou: Vivem atolados no pirão, na rapadura e na cachaça.
Um seu êm ulo diria esse rasgo com um a voz estentória capaz de estrem ecer os alicerces; outros lhe dariam inflexões enfáticas; m as nenhum era capaz de a pronunciar com o o Magalhães, percorrendo três escalas crom áticas desde a prim eira nota do tiple até a últim a do baixo profundo.
A frase, com eçada no nariz, descia-lhe pela garganta aos burburinhos e ia roncar nas profundezas do ventre. Assim , quem o ouvia falar conhecia logo que o hom em não só tinha grande papo, em bora invisível, com o que era insigne ventríloquo.
Quando o Dr. Magalhães e o Padre João da Costa se encontraram pela prim eira vez, sentiram -se m utuam ente atraídos por um a sim patia irresistível. Agora achavam -se estrem ecidos; e dizia o reverendo que m uito breve haviam de ver o advogado ao serviço do Filipe Uchoa e da gente de Olinda.
Para rebater o alvitre do Rebelo, desfiou o Magalhães um a longa perlenga, cheia dos costum ados borborigm os, e arrebicada de uns revirados de olhos com que ele pretendia dar à feição insulsa um as borradelas de ironia. Ao cabo, passada toda essa loquela por um cantil, não ficava senão o bagaço do que havia dito o Sim ão Ribas.
Assim o venerando alm otacé aplaudiu; o Viana rem exeu os om bros, o que nele era sinal de grande com oção, e o Costa Araúj o fez com a cabeça um gesto gongórico de aprovação.
Aqui term inou a j unta, com o m aior desprazer do Miguel Correia que foi obrigado a em buchar a perlenga, e do Cam pelo que não sofria lhe disputassem a glória de incensar o governador, cuj o panegírico j á tinha escrito, bem longe de pensar que teria de cantar-lhe a palinódia.
Vital Rebelo fora-se, e com ele a m aior parte dos que tinham acudido ao convite. Nada se resolvera, m as era esse precisam ente, e não outro, o fim da j unta que se fizera para acalentar as im paciências de alguns sôfregos e exagerados. Falara o alm otacé que todos sabiam da privança de D. Sebastião; e os m ais exigentes voltavam satisfeitos.
Reduzida a roda aos íntim os, tornou-se geral a palestra, travando-se os colóquios a trecho.
— Eu cá, disse o Cam pelo, do governador não suspeito, não; m as o Barbosa de Lim a não é hom em em quem se possa a gente fiar.
— E o tal aj udante, que m e tem cara de coveiro? E com certeza o é, que ainda se não m eteu em em presa que a não desandasse, acudiu o Brás da Silva.
— Está m uito atrasado o Cam pelo! acudiu o Padre João da Costa a rir. Pois o Barbosa de Lim a é o que D. Sebastião quiser; que o seu grande talento é este de ser todos, m enos ele próprio, que nunca o soube, nem pôde.
— É a pura verdade, acudiu o Miguel Correia, que tinha por devoção apoiar o seu confessor e am igo.
— E senão vej am , continuou o reverendo: o que disse o Padre Leitão dom ingo passado quando pregou na festa de N. Senhora do Rosário?
— O que foi então? perguntou o Seara.
— Que o secretário tão fácil qual Lucano se encarecia, como qual Proteu se fingia e transformava.
Parece que deu-lhe no goto ao Padre Antônio Gonçalves Leitão a frase, pois ela se encontra textualm ente na história da Guerra dos Mascates quando fala do Capitão Barbosa de Lim a, querendo aludir ao ouro dos m ascates de que a invej a e a m aledicência o diziam cosido, bem com o á versatilidade de gênio.
É achaque este de todos os tem pos, que são os am igos quem prim eiro e com m aior em penho se incum bem de dar voga aos aleives e epigram as dos contrários. Assim , não trazia o Cosm e Borralho, de Olinda, nenhum desaforo contra este ou aquele dos m ascates, para o insinuar à esconsa no ouvido de alguns dos seus fregueses, que à noite não tivesse corrido todo o Recife.
Interviera no diálogo o Zacarias de Brito:
— Pois para m im , o Capitão Barbosa de Lim a é hom em de m uito conceito que vale o seu peso, e não só para m im com o para todo o Recite.
— Ninguém diz o contrário, observou o Cam pelo, ressalvando em tem po o destem pero da língua.
— Por certo. Quem o nega? acudiu o Miguel Correia.
— Esses m exericos que por aí andam , donde vêm senão da raiva que têm os de Olinda de o haver perdido, sem contar a invej a de outros que não podem sofrer as suas boas partes?
Este Senhor Zacarias de Brito, sej a aqui dito entre parênteses, queria ser contratador do sal, boa fatia que esperava arranj ar.
Não havia naquele tem po a m aquia dos agenciam entos de voluntários e privilégios lucrativos, com que os aj udantes de um governador-filósofo recom pensassem os obséquios do am igo, as carícias de algum a bela dam a, e a paciência dos cam aradas im pertinentes; m as j á então existiam os estancos e m onopólios com que se esfom eava o povo para enricar aos m im osos da terra.
Nenhum dos circunstantes fizera reparo em um a velha de m antilha, que desde o com eço da palestra levara a passar pela frente da casa do Viana, quando não se escondia no canto do outão. Em bora não tivesse a conferência cousa de com prom eter, tanto que a faziam na calçada, todavia se percebessem o m anej o da suj eita, é de crer que não consentiriam nessa bisbilhotagem .
Cansada de espreitar, a velha deitou-se a trote m iúdo para as bandas do Corpo Santo e foi ter a um a rótula, onde aparecia a m ais em aranhada grenha que j á lastrou em cabeça de m ulher. A dona deste cipoal m al se podia conter à gelosia; pois lhe estavam saindo a língua e as m elenas pelas grades e o corpo pela adufa.
— Deus m e perdoe! Querem ver que foi esta excom ungada que se alam bazou com a m inha m antilha! Ladra do inferno! Espera que eu te ensino!
Proferindo esta praga, a suj eita que deitara os gadanhos ao pescoço da velha puxou-a para dentro onde, com espanto seu, desem brulhou-se da m antilha a cara velhaca do nosso m uito conhecido Cosm e Borralho.
— Eu logo vi que eram artes deste peralta! Que anda você fazendo por aí com a m inha m antilha?
— Nada; foi para divertir-m e com os rapazes.
— E por causa das suas brej eiradas m e deixa aqui presa quando m e estão esperando na casa da Rosaura a que prom eti não faltar! Ai que não sei onde estou, m arotinho, que te não arranco esses olhos de cabra m orta!
— Ora, não se zangue, prim a Inacinha, disse o Cosm e com ar m agano, que eu tenho um segredinho para lhe contar.
— De Olinda? perguntou a Inácia em cócegas. O que é?
— Escute!
Conchegaram -se os dois a um canto, e pôs-se o Cosm e a cochichar no ouvido da prim a, que estava num form igueiro com a pressa de ir-se ao serão aj ustado, e o prazer da novidade que levava.
Acom panhara o gaguinho o tal segredo de um acionado original, e de uns requebros de corpo, com que se enroscava pela Inacinha, a qual não se agastava com essas licenças oratórias do escrevente.
Acabou o Cosm e dando à prim a um papelinho, que ela m eteu no cabeção e traspassando a m antilha, enfiou pela porta fora, com o galinha poedeira à cata do ninho onde largue o ovo.