A Guerra dos Mascates

José de Alencar · Capítulo 26 de 33

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A Guerra dos Mascates

Capítulo IX

 

DESCOBRE-SE O CASUS BELLI COM QUE NÃO ATINARAM OS CRONISTAS DA GUERRA DOS MASCATES

Há quem pense que nada se m ove neste m undo sem licença da m ulher.

Do m ais não sei; m as de guerra posso afirm ar que nunca as houve, nem é possível haver, quando não o queira a soberana saia.

Podia desfiar aqui um rosário de provas tiradas da história, além de um m ilhão de argum entos fisiológicos; m as isso nos levaria m uito longe, e para o nosso caso basta o que se passava àquela hora aí na casa do Miguel Viana.

A sala estava cheia do m ulherio que se atulhara pelos estrados, com o era uso naquele tem po, e não m otej em as m oças de agora dessa m oda de sentarem -se as nossas bisavozinhas com as pernas cruzadas, que se elas cá tornassem , não se haviam de rir m enos vendo suas bisnetas ainda franguinhas e j á repim padas em cadeiras de alto espaldar com o se fossem um as abadessas.

Sentada em tam borete baixo, a Senhora Rufina presidia ao areópago fem inino.

— Mas, gentes, não acham que j á é tem po de dar um a esfrega nessa súcia de pés-rapados? dizia a Senhora Rosaura que estava m ordida com a escapula do filho.

— Não se agonie, senhora, que havem os de ensiná-los em regra; m as é preciso fazer as cousas com j eito, porque lá de barulhos não m e falem . São capazes de m eter os nossos hom ens na alhada, e tirar-lhe por aí a cabeça de um a cutilada! Então o m eu, que j á é tam aninho!

— Enquanto isso, vão os de Olinda roubando a seu salvo nossos filhos porque não têm quem lhes vá à m ão! retorquiu a Senhora Rosaura com azedum e.

— Ora, com adre, isto foi um a vadiagem do traquinas do rapaz que é m esm o da pele do cão. Outro dia, que não fez o dem oninho lá em casa? Se ele tem bicho carpinteiro, sou capaz de j urar. Pois não, senhora!

— É m esm o! O capetinha não é capaz de assentar o sim -senhor um instante que sej a, disse a velha Engrácia.

Carecem os de advertir ao leitor, que a Senhora Engrácia tinha um a linguagem um tanto espevitada; costum ava em pregar alguns term os em um a acepção peculiar sua.

Muitas locuções pitorescas que ainda hoj e vogam pelo norte foram inventadas pela Senhora Engrácia, que até do português pouco sabia, e dizem certos sabichões que para cunhar palavras, se precisa saber latim , grego, e ser versado nas línguas vivas e m ortas. Que tarelos!

Agora o que ela cham ava sim -senhor, adivinhem se puderem , que a crônica neste ponto é om issa.

— Mas deixe estar, continuou a Rufina, que tudo se rem edeia; eu j á falei ao prim o. Rebelo, que prom eteu-m e trazê-lo pela orelha; porém , não consinta que lhe ponha m ais o pé em casa; de lá m esm o é arrum á-lo no prim eiro navio que sair para o reino.

— É o que o Sr. Miguel Viana ia fazer por conselho do Aj udante Negreiros, quando o capetinha parece que desconfiou, e escafedeu-se; e logo para m eter-se com aquela gente! Assim o agarre eu, com o vai direitinho para Lisboa.

Ouviu-se um suspiro, que fez a Senhora Rufina lançar um a olhadela para o canto donde se escapara aquela tím ida queixa. Ali estavam j untinhas a Marta e a Belinhas, que encontravam -se essa tarde pela prim eira vez depois dos im portantes sucessos de que foram teatro a j anelinha do sótão e a rótula do beco.

Im agine-se pois o que não se tinham a contar as duas cam aradas, e com o eram curtos os m om entos para sua garrulice. Cada um a com eçou dez vezes a história que a outra, im paciente, interrom pia para continuar a sua; e assim aos pedaços, alinhavando aqui e cerzindo ali, conseguiram am bas dizer, não quanto queriam , m as bastante para o caso.

Acabava Belinhas de com unicar à am iga que o Lisardo àquela hora devia estar ao pé da cerca esperando vê-la na rótula; e Marta lem brava-se do Nuno que andava por longe, quando a am eaça da Senhora Rosaura de m andar o filho para Lisboa, arrancou-lhe aquele m avioso suspiro.

— Eu cá, se o caso fosse com igo, havia de rem eter o pequeno para Lisboa, m as era depois de ter dado o troco aos tais fidalgos de m eia-tigela.

Essa observação vinha da velha Engrâcia, que era um a das m ais decididas do m ulherio recifense.

— O troco, eles o hão de ter, que lho há de dar o governador, e com usura, tornou a Rufina com o quem lam bia por dentro.

Não se rendeu a Engrácia:

O governador é um trapalhão que não ata nem desata. Olhe, senhora, o verdadeiro era untarem as unhas ao Cam arão, e então veriam a pisa que lhes ele assentava, na cabralhada de Olinda, e não lhe doessem as m ãos, que é do que eles andam m uito carecidos.

— Que o governador é rem anchão, isso é, acudiu a Josefa do Cartacho em tom de im portância. Fosse ele outra casta de hom em que j á o Recife estava cansado de ser vila.

— Apelo eu! tornou Rufina. Que estas cousas assim de supetão, senhora, sem pre saem aferventadas. O D. Sebastião de Castro, fique com esta que eu lhe digo, é m anhoso, e sabe o nom e aos bois, com o diz o m eu hom em . De m ais a m ais, enquanto ele estiver por nós, ainda que vá em palhando, som os do partido do rei, que sem pre serra de cim a. Por isso é que eu sustento, m inha gente; nada de barulhos; que tudo se há de arranj ar com j eito e paciência. Quem é que vai m eter seu gadanho no fogo, quando pode tirar a sardinha com a m ão do gato?

Um zum bido de aprovação acolheu o discurso da m ulher do alm otacé, prova de que predom inava no concílio fem inino o partido da paz. Efetivam ente as recifenses, apesar de seu vivo desej o de verem criada a sua vila, não dissim ulavam que os m aridos, pais e irm ãos, destros em m anej ar a vara e o côvado, fariam triste figura com as arm as na m ão; além de que não eram de todo insensíveis à galhardia dos m ancebos de Olinda, os quais preparando-se a vencer os m ascates, se rendiam aos requebros dos olhos feiticeiros das lindas m ercadoras.

— Tá, tá, tá! treplicou a Engrácia, oposicionista acérrim a. Vá-se fiando no bicho, que depois eu lhe contarei um a história. Olhem , gentes, eu sem pre enquij ilei com hom em sonso.

Neste ponto barafustou pela casa dentro a Inacinha, a quem vinha com endo a língua a novidade que trazia.

— Ora m uito bem chegada! disse a Rufina.

— Mais vale tarde do que nunca! observou a Rosaura a rir.

— Para a nova que trago, antes nunca chegasse! tornou a Inacinha com ar de im portância.

— Que nova é essa, m ulher? perguntou a Rufina.

— Que é?... Que é?... Ora adivinhem !

— Despache-se de um a vez, criatura. Não estej a ai a resm oer a gente! acudiu a Rosaura, que j á se achava sobre brasas.

— Que há de ser? Um desaforo!...

— Da ralé de Olinda?

— De quem m ais?

— Mas então que foi?

— A cousa é de cantiga. Eles m andaram pôr em trova... Já m e esquece o nom e do cuj o... Mandaram pôr em trova para andar na boca do m undo.

— Ó m ulher de m eus pecados, não falarás?

— Que estou eu fazendo, dés que entrei? Agora se não m e deixam acabar, não tenho eu a culpa.

— Pois acabe..

— Diga a trova.

— Isso, não digo. Então a gente m ete assim no caco de repente um a em brulhada de versos?

— Neste caso o que trouxe você, gente? perguntou a Rufina.

— Está o que é! disse a Inacinha apresentando o bilhete que tirou do seio.

— Ah!

Murchou a. orelha ao m ulherio que estava à escuta, com as ouças afiadas para a novidade. Naquele tem po ainda não se contava entre as prendas de um a boa dona de casa, o saber ler e escrever: era isso luxo fidalgo, que não chegava a todos. Não se estranhe pois o logro que sofreu nesse m om ento a curiosidade fem inina.

— Marta! disse a Rufina, passado o prim eiro pasm o. Tom a este papel e lê o que está aí.

Ergueu-se a m enina para obedecer à m ãe, e aproxim ou-se da cantoneira onde bruxuleava a candeia. Belinhas acom panhara a am iga e por cim a do om bro a aj udava a soletrar as palavras escritas em bastardinho.

Estavam am bas trêm ulas e com as faces a arder; principalm ente a que tinha de fazer a leitura.

Não era qualquer bagatela esta exibição. A travessa Marta não sentiria tão grande acanham ento, se m ocinha de hoj e, no dia seguinte ao deixar o colégio e as calças curtas, fosse obrigada a cantar em sala de baile a m ais difícil cavatina de Rossini.

Decorrido o tem po necessário para que as duas m eninas soletrassem todas as palavras e chegassem ao fim do papel, a Rufina interpelou a filha:

— Anda, m enina!

— Senhora m ãe!... balbuciou Marta.

— Lê!

— É um a cousa m uito feia!

— Mas o que é? perguntaram as outras tinindo de curiosidade.

— Eu não sei!

Que fazes ai com os olhos no papel?

— Lê tu, Belinhas!

— Eu! Deus m e defenda!

— Marta, deixa-te de dengos. Lê, que te m ando eu.

Quis obedecer a m enina; m as a palavra que lhe espontava no lábio gentil, recolheu-se num assom o de pudor.

— Não posso!

— Oh! buginica! disse Rufina am eaçando de longe a filha com um coque.

— Olhem lá, gentes, não sej a algum a brej eirada! observou prudentem ente a Josefa.

— É m esm o! Pode sair daí um a suj idade!

— Que partes são estas agora! acudiu a Inacinha. Eu cá sou m ulher de andar com porcarias?... AI o que tem dem ais é um a história cabeluda!

— Estão vendo!... Tem história cabeluda, senhora! exclam ou a Josefa.

— Tenha o que tiver, há de ler, ou eu não m e cham o Rufina, gritou a m ulher do alm otacé levantando-se.

— Eu pelo sim , pelo não, vou tapando m eus ouvidos, disse a Josefa que estava latej ando por saber.

— Agora é que te quero ver, sirigaita! dizia a Rufina am eaçando a filha com um beliscão. Se tiveres o atrevim ento de m e respingar, com certeza te m eto no convento, não sei que diga! Anda, deita j á para aí.

Afinal decidiu-se a Marta, que dum fôlego, antes que se arrependesse, leu de afogadilho o conteúdo do papel.

Todo o mascate é patife,

Labrego, cara de Judas;

E as mulheres do Recife

Tem as pernas cabeludas.

— Desavergonhados! gritou a Senhora Rufina.

— Desaforo!

— Já se viu um atrevim ento igual?

A grazinada de um bando de m aritacas, em roçado de m ilho, quando lhe disparam um tiro, pode dar um a ideia da algazarra que levantou no congresso fem inino a quadra fatal, que ia conflagrar Pernam buco.

Cham ar os m ascates de patifes, labregos, j udas e cousa pior, era sem dúvida um a insolência; m as não havia estranhar na canalha de Olinda que ela se despicasse dos epítetos afrontosos que tam bém não lhe poupavam os recifenses.

O que, porém , não tinha nom e e tom ava as proporções de um atentado sem exem plo, era dizer-se que as dam as do Recife tinham pernas cabeludas. Todos os tratos da inquisição não bastavam para punir este crim e inaudito, que só podia ser expiado na fogueira.

Enquanto serena o alvoroço produzido pela leitura, aproveitam os para dizer a origem daqueles versos.

O Nuno, que era um grande abelhudo, certo dia espiando pelo buraco da fechadura, tinha visto na alcova da m ãe um a perna tão cabeluda que a princípio lhe pareceu de tam anduá. Mas logo com espanto descobriu que pertencia a certa pessoa que nesse dia estava de visita em casa da com adre e fora ao quarto para concertar a saia.

Passando-se a Olinda onde a D. Severa o atanazava de perguntinhas, escapuliu ao rapaz a descoberta da perna cabeluda, que a dam a m uito apreciou encarregando logo ao Lisardo de a pôr em verso. As torturas por que passou o nosso poeta nessa ocasião não se descrevem ; tentou ele em princípio descorar o epigram a, m as a ninfa olindense obrigou-o ponto por ponto a rim ar aquela quadra em que ofendia a form osura sem par da sua adorada Belisa.

A rim a foi recitada no serão do Capitão-Mor Cavalcanti e m uito aplaudida. No outro dia teve o Cosm e vento da cousa e logo tratou de a m eter no bico da gente do Recife, na esperança de ir assim cada vez m ais turbando as águas onde contava pescar. Do com o o fez, j á sabem os.

— Só enforcados! dizia a Josefa.

— Qual enforcados, senhora! Ainda picados com o cabidela para fazer pastéis, ou assados na grelha do Santo Oficio, não pagam esse desaforam ento, exclam ou a Rufina.

— Eu com o não tenho perna cabeluda!.... disse a Inacinha.

— Quem fala nisso agora, m ulher? exclam ou a Rufina furiosa. Tenha ou não, é o m esm o! Há de andar com o as outras na boca do m undo.

— Mas quem foi o renegado que fez este verso?

— Espere!... Não m e lem bro m ais do nom e!

— Pois indague, que ele é quem há de tirar a prova do pelourinho de nossa vila. Já m e estou regalando de o ver açoitar!

— Eu, se o encontrasse, arrancava-lhe os olhos com estas unhas!

No m eio da tem pestade levantada pela rim a do Lisardo, tinham -se esgueirado da sala as duas m eninas, que foram direitas ao quarto de Belinhas.

— Você não disse que ele está esperando? perguntou a Marta.

— Penso que está! respondeu corando a outra.

— Então é cham ar?

— Eu, Marta?

— Pois, Belinhas, quem há de ser?

— Tenho vergonha!

— Então eu cham o por você.

E a Marta cam inhou para a rótula com ar decidido.

— Está bom ; eu vou! tornou Belinhas m ais anim osa.

Com efeito entreabriu a rótula, e viu j unto ao oitão um a som bra.

— Anda, Belinhas!

A m enina deu um psiu tão sum ido que não se ouviu a dois passos. Marta, porém , repetiu o sinal com força m uitas vezes.

O nosso Lisardo, assim avisado de repente, esteve a abalar dali, tonto com a aventura. Mas a voz im paciente da filha do alm otacé o colou à parede.

— Venha!...

O nosso poeta ficou im óvel.

— Venha j á!...

Parou-lhe a respiração:

— Senão fico zangada!

Foi preciso despachar a Benvinda para trazer à fala o poeta, que só depois de m il sustos e arrependim entos resolveu-se a acom panhá-la.

Quando ó Lisardo penetrou na alcova, a Belinhas o esperava encostada na cabeceira da cam a, e a Marta escondida por trás do cortinado ficara de espreita, para anim ar a am iga a quem ensinara o recado.

Saiu porém a cousa ás avessas; porque o Lisardo depois de duas topadas que deu ao entrar, e que o iam levando ao chão, em butiu-se no canto do trum ó com o se fosse um a figura de pau; e a Belinhas repuxando as sanefas do cortinado, foi-se enrolando de m odo que não se lhe via senão a ponta do pé.

Nesse j eito achou-se Marta descoberta, e vendo que os dois nam orados não tugiam , assentou ela de tom ar a si a tarefa e com a sua natural e graciosa petulância dirigiu-se nestes term os ao Lisardo im óvel e cabisbaixo.

— Saiba o Senhor Lisardo de Albertim que não veio aqui para ficar assim am uado num canto. Quando Belinhas o cham ou foi para experim entar os seus extrem os, porque tendo vindo lá de Olinda uns versos em que se dizem cousas m uito ruins das m oças do Recife, ao senhor, que se rendeu à form osura de um a dessas tão m altratadas, cabe responder.

Estrem ecera o Lisardo lem brando-se da quadra que a D. Severa o obrigara a fazer, e j ulgou-se perdido. Marta continuou, m ostrando-lhe os aviam entos de escrever postos sobre o trum ó.

— Ai está a pena e todo o m ais recado de escrita. Arranj e-se, que daqui não sairá sem estar pronta a rim a. Há de ser um a cousa que belisque as tais bugínicas de Olinda. O senhor há de dizer, ouça bem , que elas são m agras com o um fuso; e que todo aquele espalhafato que m ostram não é nada senão um a gaiola coberta de panos. Está entendido, senhor poeta? Pois trate de desem penhar-se da obrigação; e verem os então se os seus rendim entos por Belinhas são sinceros, e qual recom pensa m erece a sua fineza.

Inclinou-se o Lisardo ao trum ó, e a m usa da pirraça, sob a figura travessa da gentil Marta, inspirou-lhe contra D. Severa estes versos que, em bora alusivos a todas as olindenses, eram todavia m entalm ente dedicados à ninfa:

Escorridas como um fuso,

As damas de Olinda são;

Por fora aquele esparrame,

Por dentro é só armação

De pano, d'osso e arame.

Tendo lido a quintilha, a Marta aplaudiu com um a risadinha brej eira, e puxando de dentro do cortinado a m ão de Belinhas, que resistiu de leve, a deu a beij ar ao nosso poeta.

— Isto é para o senhor; agora para o Nuno.

A m enina tirou do seio um ram inho de alecrim , que entregou ao poeta, m as logo pareceu arrepender-se:

— Não, não lho dê; guarde para si.

Sentiu um as cócegas a Belinhas, que entreabrindo o cortinado acudiu m ui pronta:

— Dê ao Nuno, dê sim , senhor, que isso não lhe pertence.

— Pois dê, se quiser; m as não que eu m ande.

Partiu afinal o Lisardo; e as m eninas voltaram à sala.

Quando ali entraram , acabava o congresso fem inino de resolver a guerra a todo transe, distinguindo-se entre as m ais belicosas a Senhora Rufina, que pouco antes se m ostrara tão prudente e conciliadora.

Mas a história da perna cabeluda posta em verso tinha abespinhado a venerável m atrona, que desde esse m om ento não respirou senão vingança, e tanto fez que term inou por desencadear a guerra dos m ascates, apesar de todas as m anhas de D. Sebastião.