A Guerra dos Mascates
Capítulo XV
NO QUAL SE ACABA A CRÔNICA JUSTAMENTE QUANDO IA COMEÇAR A GUERRA DOS MASCATES
Am anhecera o Recife em alvoroço.
Os m oradores desde o nascer do sol percorriam as ruas em bandos, com ares festivos e traj os dom ingueiros.
A m aior afluência era para o Largo da Cadeia, no centro do qual via-se um a fábrica recente, à sem elhança de coluna, que se havia erguido durante a noite, e ali estava coberta por um grande pano de rás desde o cim o até a sapata.
Esse obj eto excitava no m ais alto ponto a curiosidade da populaça que parecia contem plá-lo corno um troféu. Nesse m om ento, nenhum dos arruadores lem brava-se da infâm ia e dos tratos com que o am eaçava talvez o sinistro m onum ento.
Era um pelourinho..
Depois do desacato à sua pessoa, decidiu-se o governador a castigar a rebeldia dos pernam bucanos, a quem seus íntim os inj ustam ente im putavam o crim e. Am eaçados de sorte igual à de André de Figueiredo e outros os principais da nobreza tinham fugido de Olinda e andavam foragidos pelos engenhos, onde os buscavam as escoltas que Sebastião de Castro lhes m andara no encalço.
Um a das m edidas em que logo se cogitou com o a m ais própria para bater a arrogância dos nobres, foi a da im ediata criação da vila do Recite e com o as pedras do pelourinho desde m uito estavam lavradas no Forte da Madre de Deus, dispuseram -se as cousas para a cerim ônia.
Era este o dia destinado para a festa da proclam ação da vila e por isso o poviléu do Recife, ancho e presum ido de si regozij ava-se pelo triunfo que haviam alcançado sobre a velha e fidalga Olinda.
Por volta das oito horas da m anhã, desfilou pela Rua de São Francisco o préstito que saía do palácio e dirigia-se a Praça da Cadeia. Abria a m archa, sobre o seu andor, a im agem de Santo Antônio, o padroeiro da futura vila a que se ia levantar a povoação do Recife
Seguiram -se logo as irm andades das duas freguesias com seus guiões e balandraus, e após elas o Santíssim o Sacram ento que o vigário de São Pedro Gonçalves conduzia debaixo do pálio, acom panhado pelos m inistros de El-Rei, oficiais, m ilicianos, e m ais pessoas da governança da terra Sebastião de Castro, ainda enferm o dos ferim entos não assistia a cerim onia e fazia se representar pelo Secretário Barbosa de Lim a e o Aj udante Negreiros.
No couce, os terços de infantaria, em um dos quais o dos hom ens brincos em punhava a gineta de capitão o nosso Miguel Correia, bizarro e desem penado com o devia ser um guerreiro curtido em vinho da Figueira.
Chegada a procissão em frente á cadeia, deu três voltas ao redor do largo, e entrou a cerim ônia religiosa. Em um altar volante que se levantara em face do pelourinho, e onde foi depositado o sacrário, celebrou-se a m issa que term inou com a bênção do padrão da vila.
Concluindo a consagração, o m inistro segurou um a ponta do pano de rás, que abrindo-se descobriu o pelourinho. Então o Dr. Luís de Valenzuela Ortiz que substituíra na ouvidoria ao Dr. Arouche, subiu. os degraus de pedra, e do alto aclam ou a vila com as palavras do costum e:
— Real, real, por El-Rei de Portugal!
Repetido m ais duas vezes este brado, e em todas correspondido pela m ultidão, disse afinal o ouvidor:
— Está criada a vila de Santo Antônio do Recife!
Ai prorrom peram os vivas e clam ores festivos, subindo ao ar os fogos de artifício que se dispararam de vários pontos da cidade, e os repiques alegres dos sinos de todas as igrej as.
Passou-se a lavrar o auto da criação, e para esse fim arrum aram j unto ao pelourinho um a banca onde veio aboletar-se a figura sem pre esconsa e refolhada do Cosm e Borralho. O Pisca-Pisca tocara a m eta, obtendo por em penho da Senhora Rufina a serventia do ofício de tabelião do novo concelho.
Nessa qualidade fora cham ado para fazer na cerim ônia as vezes de escrivão da Câm ara, enquanto se não elegia quem servisse o ofício. Já de todo livre dos efeitos do cansanção, o Cosm e enfronhado em garnacha nova, trazia a cavalo na orelha direita um a pena de ganso com a ram a tão garrida e m atizada, que parecia um a bandeira.
Lavrado o auto, lido perante o povo e assinado pelos m inistros, oficiais e gente principal, m andou o ouvidor apregoar a conselho cham ando os vizinhos e m oradores para a eleição dos j uizes, vereadores, alm otacés e m ais oficiais da nova Câm ara.
Juntos na casa do concelho os hom ens bons da nobreza e povo, que se tinham dado a rol anteriorm ente, procedeu-se à escolha dos eleitores que deviam form ar os pelouros, servindo neste ato de j uiz ordinário o Sim ão Ribas, por nom eação do ouvidor.
Terem os outra vez ocasião de assistir a um a eleição do tem po do rei velho, e então verem os que as tricas e m anej os da cabala têm origem m ais antiga do que geralm ente se pensa.
As j anelas estão abertas; há dentro alegre burburinho, e toda a casa respira tal ar de festa que até a parede da frente parece m ais sarapantada, ou para usar da frase do estudante, m ais perereca do que de costum e.
Se a m iuçalha que se apinha na frente e invade as portas e j anelas, nos deixasse olhar para dentro da sala, veríam os duas filas de dam as e m eninas, todas no m aior apuro, com roupas de seda e cintos broslados de prata e ouro.
Felizm ente abre-se neste m om ento a chusm a para dar passagem ao Sr. Sim ão Ribas, o qual volta do conselho, onde acaba de ser eleito j uiz ordinário, e vem entufado com o um peru de roda. Acom panham -no seus am igos, o Viana e o Costa Araúj o, que tam bém saíam do pelouro de vereadores, e o Rev. Padre João da Costa, além de outros m ercadores da prim eira plana.
Entrem os após eles, com o nosso Cosm e Borralho, o qual vem ao cheiro do banquete com que o chefe dos m ascates se propõe a festej ar a sua eleição.
Passada a prim eira confusão produzida pela entrada do dono da casa e açodam ento com que o foram receber à porta seus hóspedes e parentes, podem os dar um a breve descrição da sala que apresenta todas as m ostras de grave cerim ônia.
Em frente acha-se o venerando alm otacé, com o seus dignos colegas e am igos, enfronhado em um gibão carrança de belbute, com um a volta de laçada, cuj as tiras pendentes ao peito têm as am plas proporções de toalhas.
Traziam todos a indispensável cabeleira ruça e alto bengalão de rotim com castão de prata dourada, o que naquele tem po era um traço im prescindível no traj o senatorial. Com essas cabeleiras e bengalas, a crerm os o autor dos Mártires Pernambucanos, tinham os respeitáveis senadores de serem escovados algum as sem anas depois pelo Capitão-Mor Pedro Ribeiro da Silva.
A esquerda alinha-se pelo estrado um a fila de dam as entre as quais, além de Leonor cuj a form osura cativa a atenção, distinguem -se logo a Senhora Rufina pelo seu em pertigam ento, e a Senhora Rosaura pela pachorrenta gordura. Entre as respeitáveis m atronas ficavam suas filhas, nesse dia m ais lindas que nunca. Am bas tinham a cabeça baixa, m as um a não tirava a vista do chão, e era Belinhas, enquanto os olhinhos travessos de Marta andavam bisbilhotando todos os cantos da casa.
À direita estava arrum ada de pé a chusm a dos convidados Via-se aí toda a espécie de cara, com o toda a casta de vestuário, desde o casquilho alfacinha e o folgazão do m inhoto até o arrevesado galego, que ainda não tivera tem po de polir-se ao atrito da boa roda.
Tam bém lá apareciam no m eio dessa galeria reinícola os tipos da terra, com o fossem o sertanej o e o m atuto, representados em alguns exem plares preciosos que os m ascates haviam atraído a seu partido.
Quando o venerando ex-alm otacé e agora j uiz ordinário tom ou assento, Vital Rebelo que se achava na sala e havia saudado à chegada, foi ao interior da casa, donde logo voltou, guiando dois m ancebos, em que apesar do traj o garrido, fácil era conhecer o Nuno e o Lisardo.
O ex-escudeiro de D. Severa tinha perdido todo o seu arreganho m arcial e cam inhava sobre brasas, enquanto o tím ido e sensitivo poeta expandia-se nessa atm osfera de sala para a qual nascera sua alm a.
Seria fazer pouco na perspicácia do leitor, supor que ele j á não percebeu do que se trata. Todavia sou capaz de apostar que ainda não atinou com a verdade inteira; e se assim não é, feche o livro, pois sabe m ais do que ele.
A noite em que Vital Rebelo de volta de Olinda com sua noiva aprisionou os dois casais de nam orados em Santo Am aro, não cuidou senão em dar-lhes hospitalidade, e de tão boa vontade e por m odo solícita, que se não lem brassem eles nas horas m ortas de bater a linda plum agem , sobretudo o Nuno, afam ado por suas estrepolias.
O m ais do tem po, consagrou-o à sua felicidade. E quem , depois de um ano tão curtido de am arguras e desesperos, lhe podia pedir conta dessas poucas horas de egoísm o? E dem ais, devia ele deixar só naquela noite a sua Leonor, a esposa querida que acabava de conquistar ao ódio dos parentes? Não seria expô-la a qualquer tem erário arroj o dos nobres, excitados pelo sentim ento da vingança e pelo rebram o do orgulho ofendido?
No outro dia, cedo; depois de tom ar todas as precauções necessárias para defender sua habitação de qualquer assalto de fora, com o para guardar a saída aos seus prisioneiros, partiu ele a cavalo para casa do prim o Sim ão Ribas, com quem teve um a longa prática.
O resultado dessa prática foi partirem im ediatam ente as Senhoras Rufina e Rosaura para a casa de Rebelo; e trazerem em cadeirinhas bem fechadas as filhas, que j á choravam perdidas am bas, supondo-as roubadas pelos pés-rapados, sedentos de vingança contra os m ercadores.
Quanto ao Nuno e ao Lisardo, continuaram hóspedes de Vital Rebelo até aquele dia em que o m ancebo, fornecendo-lhes traj os de gala e cavalos aj aezados, os trouxera à casa do Sim ão Ribas, onde os acham os neste m om ento.
Vital Rebelo tom ou pela m ão ao Nuno e levou-o á presença do Viana, que o esperava com severa carranca. Aj oelhou o filho aos pés do pai, e balbuciou algum as palavras pedindo-lhe perdão de sua culpa e a restituição da bênção.
— Está perdoado, disse o Viana em barítono, dando ao filho a m ão a beij ar. Levante-se, e agradeça ao Sr. Vital Rebelo que intercedeu em seu favor.
Voltou-se o Nuno para o alferes o qual lhe deu um abraço. O Viana continuou.
— A pedido do m esm o Sr. Rebelo consinto que sente praça na m ilícia com o posto de alferes que ele cede em seu benefício.
Desta vez foi o Nuno que abraçou com entusiasm o seu protetor.
Agora chegue-se cá, m oço, disse a Senhora Rufina, e ouça-m e bem . Você está m uito criança ainda para casar...
— Dezoito anos... quis protestar o Nuno.
— Dezesseis, m enino! acudiu a Senhora Rosaura.
— Está vendo. Lá para os vinte, se com portar-se com o hom em , não digo que não. Até então pode ver sua noiva, na m issa aos dom ingos, ou aqui em casa nas quatro festas do ano.
Marta, ao ouvir falar em noiva, fez-se de lacre e Nuno escondeu a careta que lhe m erecera o program a da Senhora Rufina.
Entretanto Rebelo, que não concluíra ainda a sua m issão de patrono dos nam orados, fora buscar o Lisardo para apresentá-lo ao Viana.
— Quanto ao senhor, disse o m ercador, fica em m inha loj a no lugar de caixeiro que deixou o tonto de seu cam arada, e nessa qualidade, se m e servir bem e for regrado, trabalhador e econôm ico, prom eto-lhe a m ão de m inha filha Isabel aqui presente.
—Poltanto, acrescentou gravem ente o Sim ão Ribas, não plecisa m ais fazel velsos.
— Contra os de Olinda, pode fazer, acudiu a Senhora Rufina.
— Nada de versos; tornou o Viana. Aprenda-m e a fazer contas e a conhecer o valor dos algarism os. Com isso sabe-se tudo.
— Tem lazão, tem m uita lazão o m eu lespeitável am igo. Vam os pala a m esa que nos espela.
Deixem os que o excelente Senhor Sim ão Ribas e seus convidados festej em nas delícias do suculento banquete o triunfo alcançado pelos m ascates com a criação da vila; e aproveitem os estas últim as páginas para dar algum a breve noticia dos outros personagens da crônica.
Toda a nobreza abandonara Olinda e se refugiara nos engenhos, onde preparava-se não só para a resistência, com o para a desforra que em poucos dias ia com eçar com o levante do Capitão-Mor de Santo Antão, Pedro Ribeiro da Silva.
D. Severa acom panhara os parentes, inconsolável pela perda de seu poeta e de seu escudeiro, porém ainda m ais por não ter podido cham ar Sebastião de Castro a com bate singular, onde se despicasse da afronta que ele m andara fazer à sua beleza.
Poucos dias depois da criação da vila do Recife, Vital Rebelo aproveitando a saída de um navio para a Bahia, levou a sua querida Leonor às pitorescas assom adas do Salvador, onde se deslizou serena e florida a sua prim avera nupcial.
Induziu-o a esta viagem , não som ente o desej o de desvanecer no espírito de Leonor a lem brança da oposição de seus parentes, com o a previsão dos sucessos que iam enlutar. a capitania, e nos quais, ele presente, não podia exim ir-se de tom ar um a parte dolorosa ao coração de sua esposa.
Efetivam ente, a revolta dos pernam bucanos tom ara de dia em dia m aior increm ento.
Sebastião de Castro, j á de todo restabelecido dos ferim entos, com eçava a sentir em palácio o isolam ento, infalível sintom a dos desastres im inentes. As catervas de hom ens têm o m esm o instinto dos rebanhos que pressentem o tem poral, e fogem ao perigo.
Ele reconheceu, então j á tarde, o erro. Seu im enso poder e a sua política dissolvente haviam tudo esm agado e diluído em torno dele; de m odo que no dia da provança, quando se j ulgava cercado de am igos e aliados, não viu ao redor senão m iragens de sua própria vontade, que ele anim ara com seu prestígio e com este se apagavam .
Não eram hom ens aqueles vultos que ainda povoavam as salas do palácio; e sim os m anequins do governo ainda m ovidos pela m ola da am bição e da cobiça. Mas com o a corda do m aquinism o estava prestes a acabar, j á os m ovim entos eram frouxos e incertos.
O Barbosa de Lim a acom panhou-o até o últim o instante com um a fidelidade nunca desm entida; m as continuou no cargo de secretário, e nele atravessou todo o período da guerra dos m ascates, até 1712 em que partiu para Lisboa.
Espalharam então que fora a m andado dos m ascates e ganhando pingue espórtula, m as isso não passou de um a das m uitas calúnias tão frequentes naquele tem po e a que não escapou o próprio Sebastião de Castro, apesar de seu proverbial desinteresse.
Não é este o m om ento de referir os sucessos que puseram term o ao governo de Sebastião de Castro Caldas, e que pertencem à crônica seguinte. Esta term ina com o prim eiro e efêm ero triunfo dos m ascates, e com a instalação da vila do Recife.
Anteciparem os porém este ponto: que Sebastião de Castro m ostrou-se na adversidade o varão forte de Horácio, a quem as ruínas de seu fastígio não esm agam , m as ao contrário exaltam , com o um pedestal.
É o destino dos hom ens fadados para a dom inação. O poder e a fortuna os expande; e eles absorvem ou repelem quantos se lhe aproxim am . O revés e a desgraça os concentra, e então eles acham dentro em si um m undo onde se isolam .
Na noite em que Sebastião de Castro em barcava na ram pa de palácio para transportar-se a bordo do navio que devia conduzi-lo à Bahia, diversas pessoas o acom panhavam .
Destas, algum as eram os principais m ercadores que, tem endo as represálias dos nobres, fugiam à m á fortuna; outras eram gente da governança e oficiais de sala que desem penhavam pontualm ente um a obrigação de seu ofício, vindo prestar ao fidalgo aquele últim o dever.
Só um a era estranha ao governo, e desconhecida para aquela gente. Sebastião de Castro Caldas reconheceu Carlos de Eneia, seu antigo secretário, e com preendeu que o trazia ali o desej o de render a hom enagem de seu respeito à adversidade, j á que, não lhe era dado conj urá-la.
FIM
Você terminou A Guerra dos Mascates
José de Alencar
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