A Guerra dos Mascates

José de Alencar · Capítulo 28 de 33

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A Guerra dos Mascates

Capítulo XI

 

COMO O NUNO FOI ACRESCENTADO DE PAJEM A ESCUDEIRO, E O LISARDO REBAIXADO DE POETA A VAGABUNDO

A sala principal da casa de André de Figueiredo estão reunidas várias pessoas.

Da banda fronteira à entrada vê-se D. Lourença Cavalcanti, sentada em cadeira de espaldar, tendo j unto de si um bufete pequeno coberto de colgadura roxa que arrasta no chão. Aí estão os recados de que serve-se a dam a naquele m om ento para escrever cartas.

Do outro lado do bufete, a irm ã D. Antônia Barbalho, m ãe de Leonor, fia em um a roca de braúna as alvas pastas de algodão que enchem o cabaz de palha posto a seus pés. Em seu benigno sem blante está pintada a alm a tíbia e frouxa, que as irm ãs dom inam e afeiçoam com o um a cera.

À esquerda, no intervalo das j anelas, lá está em tam borete raso, para se dar ares de donzela, a ninfa olindense, a form osa Clélia, nom e este por que era conhecida no Pindo a Senhora D. Severa de Sousa. Ocupava-se ela com a leitura de seu livro favorito, o Palm eirim de Inglaterra.

À direita, no longo estrado forrado de panos de arrás com figuras e ram agens, estão de tarefa as m oças da casa e parentas, entre as quais distingue-se Leonor, pela form osura com o pela m elancolia; pois enquanto as outras vão chilreando risos e segredinhos ao ouvido, ela, de cabeça baixa, absorve-se no seu trabalho.

Um escravo de libré postado em cada porta para qualquer cham ado e o m ais que for preciso espera as ordens.

Leonor trabalha em um a touquinha de renda, que destina à neta recém -nascida de sua velha am a, a Brites. Está agora enfeitando-a de rosas de m aravalhas, e essa ocupação lhe encam inha o espírito para um as saudades, que ela esconde no refólho d'alm a para não nas adivinharem , e que são m enos o recordo de um a ventura fruída do que a viuvez de um a doce esperança.

Sem que ela se apercebesse, tão distraída estava, com eçou-lhe o seio a desafogar em suspiros, e após eles veio um com o m urm úrio de intenso queixum e que se foi desprendendo a pouco e pouco em suave e terníssim a endeixa. Cantava em voz subm issa as coplas de um rom ance antigo que lhe trouxera. à m em ória certa conform idade de pensam entos:

Filha, filha da minha alma,

Com que te batizaria?

As lágrimas de meus olhos

Te sirvam d'água da pia.

 

Chamar-te-ei minha Rosa,

Rosa, flor de Alexandria,

Que assim se chamava d'antes

Uma irmã que eu queria.

Aqui a voz feneceu para tornar pouco depois repetindo j á coplas de outra cantiga em que então se enleava a fantasia da donzela:

Nada em dor, em dor criada,

Não sei isto onde irá ter.

Vejo-vos, filha, formosa,

Com olhos verdes crescer.

 

Não era esta graça vossa

Para viver em desterro;

Mal haja esta desventura,

Que pôs mais nisso que o erro.

— Que há de você, Leonor, estar sem pre a am ofinar-se á toa, com um as tristezas tão sem propósito! disse D. Lourença interrom pendo a cantiga da sobrinha com um tom de repreensão.

— Eu?... exclam ou a donzela confusa.

— Ora, que tem que a m enina desafogue suas m ágoas, D. Lourença? Antes cante ela suas endeixas, que os zéfiros vão desfolhando pelos ares, do que as congele no seio para se derreterem em alj ôfares de sentido pranto.

Assim falou a D. Severa, que bem m ostrava na linguagem alam bicada o com ércio poético, que entretinha com o Lisardo.

— Se j á é um sestro desta m enina fingir-se desventurada e viver só a lastim ar-se desde que o dia am anhece? Não sabe outras cantigas senão essas que falam de desgraças, de pranto, e de quanta cousa há de triste?

— Nisso de cantiga não há para m im com o a da Donzela Guerreira! exclam ou D. Severa com entusiasm o; e soltando a voz de flautim com eçou a gargantear estas coplas:

Sete anos andei na guerra

E fiz de filho barão,

Mas ninguém me conheceu,

Só se foi meu capitão.

 

Conheceu-me pelos olhos

Que por outra cousa não;

Foi meu capitão na guerra,

Agora o fiz meu barão.

Ouviram -se uns risos abafados, de que não fez o m enor caso a ninfa olindense.

Leonor, que tivera tem po de recobrar-se da perturbação, cuidou em disfarçar o verdadeiro m otivo de sua m ágoa.

— Pois, m inha tia, não tem os nós todos razão para afligir-nos com as desgraças que am eaçam esta terra?...

— Que desgraças são estas agora? perguntou D. Antônia à filha.

— Ainda ontem , m inha m ãe, a velha Brites m e esteve contando que pela Quaresm a, em noite clara, se viu a lua partida pelo m eio em duas bandas, um a no seu natural alum iando o céu, e a outra coberta de som bra que parecia um dó, no que bem estava m ostrando as guerras que hão de acontecer entre Olinda e o Recife, e o luto em que ficará um a das partes.

Estas palavras da m oça causaram viva com oção no ânim o das pessoas ali reunidas.

— Tal e qual sucedeu! disse D. Francisca, m ulher de André de Figueiredo.

— Eu vi com estes olhos! acrescentou D. Genoveva, casada com Antônio Tavares.

— Que tem isto? acudiu D. Lourença. Guerra havem os de fazer, que assim é preciso para defender os foros da nobreza; e sem ela decerto que não poderem os ganhar a vitória e abater a grim pa dos m ascates. Nem outra cousa significa essa conj unção dos astros, senão a glória de Olinda por um lado, e a ruína do Recife pelo outro.

— Mas há quem diga, m inha tia, replicou Leonor, que a parte escura ficava para as bandas de Olinda.

— Não acredite em abusões, m enina; que esta lua é pernam bucana e não prognostica m ales aos filhos que nasceram em sua terra.

— Olha, Leonor, que tua tia sabe estas cousas dos astros, com o ninguém .

— Sei, m inha m ãe, sei que a tia D. Lourença é m uito versada em todas as sete artes liberais, m as tenho um a cousa que está m e dizendo... E então quando m e lem bro da m ilagrosa im agem de Nossa Senhora do Ó, que o ano passado, na véspera de Sant'Ana, suou sangue, o que todos disseram logo ser presságio de grandes perturbações, com guerras, m ortes e toda a sorte de desastres!.

— E por sinal, que se passou a sua im agem do altar que teve na Igrej a de São João para a Capela do Santo Cristo da Sé, disse D. Francisca.

— Para ver se aí, perto do Senhor Crucificado, ela intercedia com seu bento Filho para arredar de nós estas calam idades, acrescentou D. Genoveva.

Ouvira D. Lourença as razões da sobrinha e das cunhadas com o m odo grave e refletido que lhe era natural; tanto m ais porque os presságios de que tratavam as dam as eram tirados de fatos notórios e atestados por pessoas de toda a fé.

Ainda hoj e dura a tradição, conservada por Sebastião da Rocha Pita e o Padre Manuel Leitão, que deles dão notícia pelo m esm o teor ou com pouca diferença.

— Sem dúvida que m uitos m ales estão a cair sobre esta terra, disse D. Lourença; e antes dos prognósticos divinos, j á era dado aos prudentes antevê-los nos hum anos desígnios, pela soberba e arrogância dos m ascates nestes últim os, tem pos. Mas esses m ales vêm m andados do céu para castigar a culpa de agasalhar m iseráveis aventureiros, e para expurgar a nossa terra dessa praga vil de forasteiros, que a está danando. Nossa Senhora do O, que é pernam bucana e tem altar erguido nesta terra que regam os com o nosso sangue para a arrancar aos hereges e flam engos, e conservá-la ao Padroado de Cristo; Nossa Senhora do Ó e sua corte celeste não hão de desam parar os defensores da fé e cavaleiros da cristandade. Se ela suou, a m ilagrosa im agem , não foi de lástim a por nós, m as sim de pesar e tristeza por ver que se estão abatendo os antigos brios pernam bucanos, por m odo tal que j á não haverá quem preserve esta terra de ser presa dos franceses, se, com o se afirm a e eu creio, andam eles correndo a costa e preparando-se com grandes em presas a acom etê-la, que, isto dizem , j á chegou aviso de Lisboa ao governador.

Por esta am ostra im agine-se o papel im portante que devia representar D. Lourença nas assem bleias políticas dos parentes. Se vivera em nossos dias, com a sua literatura e disposições para a oratória, com certeza j á se teria m andado anunciar a rufos de tam bor para a próxim a conferência popular.

— É desenganar, senhora, acudira D. Severa. Enquanto não aparecer nesta terra de Olinda outra heroína com o D. Clara, que arvore a gineta das dam as, os negócios hão de andar baralhados. Mas não tarda m uito que não vej am aparecer aqui m esm o em Olinda um a Ala das Donzelas com seu capitão, que há de escurecer a fam a de Mem Rodrigues e da sua dos Namorados.

— O capitão, j á se sabe quem é? tornou D. Lourença com um sorriso em que a acom panharam as outras,.

Não lhe respondeu D. Severa, porque voltando-se para cham ar o seu paj em de estrado, o qual com o se devem recordar não era outro senão o brej eiro do Nuno, que de m ascatinho virara donzel, apercebeu-se a dam a da ausência do rapaz. Levantou-se logo e foi-lhe na pista.

Pouco havia que saíra da sala, e ainda as outras se riam dos arreganhos m arciais da ninfa, quando o lacaio da entrada veio com recado de segredo a D. Lourença, a qual deitando os olhos para o corredor, viu aparecer no fio da porta fechada a m eio, um pedaço de cara de fuinha que se havia de j urar ser a do Cosm e Borralho.

— Está aí o m oço do senhor licenciado Davi de Albuquerque, disse o escravo à puridade.

— Leva-o para o oratório, que j á ai vou, respondeu a dam a.

D. Lourença deu tem po a executar-se sua ordem e saindo por um a porta do interior, dirigiu-se ao lugar indicado que era o m ais reservado e onde se tratavam os negócios de m onta.

Entretanto D. Severa corria toda a casa á busca do Nuno, m as não lhe viu nem a som bra.

O brej eiro do rapaz, que era um azougue, aborrecido da estação a que o obrigava a D. Severa, em pé atrás de sua cadeira com o paj em de estrado, não perdia ocasião de escafeder-se e ganhar a rua ou quintal. Naquele dia achando aberta a casa do trem , aproveitou a ocasião tão suspirada, e arm ando-se de um a grande catana, com eçou a esgrim ir contra um a arm adura com pleta que, posta no m eio da casa e enfiada no seu cabide, parecia um guerreiro antigo arm ado de ponto em branco.

Saltava o endem oniado m oço com o um a pulga em volta da panóplia e desfechava-lhe cada cutilada, que feria logo na coiraça e sobretudo no capacete.

— Defende-te, vilão... gritava ele. Que senão te corto em talhadas com esta espada com o um a m elancia! Em guarda, aj udante das dúzias! Olha este golpe terçado!... Zás!... E este de ponta!... Traspassado, barbudo do inferno!... Rende-te ou m orre, negro, negreiro, negrão!...

No m eio deste fero com bate em que o Nuno im aginava estar pelej ando com o Aj udante Negreiros, o hom em de sua especial birra, ouviu ele um rum or do lado da escada, e receando que lhe andassem à cata e o pilhassem na em brechada, foi espiar ao corredor, e bispou o Cosm e que subia os prim eiros degraus.

Veio-lhe a curiosidade de saber que novidade trazia o Pisca-Pisca àquela casa, onde ele afirm ava que não punha os pés; e separando-se pesaroso da catana ficou de espreita ao escrevente a quem viu entrar para o oratório, onde com pouco foi ter a D. Lourença.

Não podendo escutar o que passava dentro, pôs-se de plantão na escada para cortar a retirada ao Cosm e e falar-lhe; sobretudo desej ava ter novas do que ia pelo Recife depois que de lá se partira.

Infelizm ente a D. Severa que voltava desenganada de o achar, veio esbarrar com ele e arrecadou-o:

— Ora, m uito bonito! Estou eu a procurá-lo, e o senhor a peraltear! Fique sabendo que um paj em bem ensinado deve estar sem pre j unto da dam a cuj o é, com o seu caudatário e donzel, para defendê-la e servi-la a um seu aceno.

O Nuno recebeu o sabonete de cara m urcha, m as assom ando-lhe a natural petulância, levantou a crista contra as pieguices da dam a que pretendia fazê-lo de m enino.

— Saiba tam bém a senhora que eu estou pronto a servi-la e tenho nisso m uito gosto, m as há de ser com o seu escudeiro e hom em d'arm as; que lá essa história de paj em e donzel é para os pirralhetes de quatorze anos, e eu cá j á sou um hom em .

— Quede a barba?

— A barba! Isso arranj a-se, ainda que se pode bem dispensar, e a prova é que D. Antônio Filipe Cam arão, que foi insigne capitão, não tinha um fio, nem a sua descendência; e m ais eu posso com prar dois m ustachos bem fornidos para com por o rosto, com o o m oço que faz de Ferão Brigoso, na farsa do Juiz da Beira.

— Mas não vê você, Nuno, que um paj em é m ais próprio para um a dam a?

— Pois eu de paj em não fico, nem que m e serrem !

— Está bom ! Fica sendo m eu escudeiro.

— Isso é outra cousa.

Nisso esgueirou-se pelo corredor o Cosm e que saía do oratório, e desceu as escadas a trote m iúdo. Quando o Nuno se pôde desem baraçar e lhe foi no encalço, j á não o avistou.

D. Severa entrou na sala ao tem po em que D. Lourença, de volta do oratório e sentando-se de novo ao bufete, lia um papel que trouxera. Era a fatal redondilha que a m enina Marta obrigara o Lisardo a escrever na câm era de Isabel.

D. Lourença, não se podendo cham ar gorda, era um a senhora reforçada, que no seu porte cheio de dignidade dava um a ideia da m atrona rom ana. Os versos não se podiam pois referir a ela; o que a dispôs a achar-lhes chiste.

Olhou sorrindo para a D. Severa que lhe andava sem pre a disputar as prim azias.

— Quer ver, prim a D. Severa, até onde chega o desaforo da ralé dos m ascates? Pois não m andaram pregar nas esquinas estas rim as desavergonhadas?

Ouça:

Escorridas como um fuso,

As damas de Olinda são;

Por fora aquele esparrame,

Por dentro é só armação

De pano, d'osso e arame.

Foi grande o escândalo das dam as, especialm ente das m agras; nenhum a, porém , com o D. Severa, que erguendo-se de golpe e atirando para trás com um couce a longa cauda, enristou a trunfa e bateu o pé:

— É um a vingança daquele vilão descortês!... Do tal Sebastião de Castro!... Com o não achou entre as nobres dam as de Olinda os requebros das descocadas lá do Recife, m anda-nos agora difam ar por seus rim adores. Mas ele que não se m eta!

Nesse instante soou na rua tropel de cavaleiros. Um troço de gente arm ada parou à porta da casa de André de Figueiredo, e o Sargento-Mor Leonardo Bezerra Cavalcanti, com seu filho Manuel, subiram ao sobrado em busca do capitão.

Entretanto o Nuno, que voltava da caça que em pura perda tinha dado ao Pisca-Pisca, avistou lá do outro lado, à esquina da Ladeira do Varadouro, o Lisardo que vinha em busca da casa, m as que avistando a cavalgada, arrepiou cam inho.

Esperou o m ascatinho que o poeta se resolvesse a ganhar a casa, cosendo-se à parede; queria com unicar-lhe a grande nova de ter sido pela D. Severa acrescentado de paj em a escudeiro e hom em d'arm as.

O Lisardo, porém , vinha triste e abatido, para o que tinha sobras de razão. Na véspera, à ave-m aria, fora com o de costum e fazer de pé de m uro no beco, em adoração à rótula de seus am ores; m as quando ele esperava aquele rufo suavíssim o de unhas rosadas nas reixas de m adeira, e aquele coar da luz de uns olhos feiticeiros através das grades, abriu-se a gelosia com ím peto, para logo fechar-se, batendo-lhe três vezes com tanta ira, com o se o estivesse castigando. Era o que se cham a vulgarm ente bater com a porta na cara.

Nessa m anhã repetira-se a crueldade da rótula, m as com um suplem ento que pôs o rem ate à desventura do nosso trovador; e foi que, insistindo ele em abrandar com a hum ildade de sua paciência e a m elancolia de sua com postura os rigores da tirana gelosia, veio de em baixada a negra Benvinda despachá-lo por este teor:

— Moço, siga seu cam inho, aqui no Recife tudo tem perna cabeluda!

Foi um relâm pago que ofuscou a alm a do Lisardo; quando caiu em si, a negra se tinha sum ido e a rótula fechada estava m uda com o um a cam pa, e o era, de seu finado am or.

Belisa lera a quadra que ele havia feito por ordem de D. Severa, e com razão se j ulgava ofendida. Com o, porém , soubera ela do autor, é o que não atinava o Lisardo, que estava bem longe de suspeitar das inteligências do Cosm e Borralho com a Senhora Rufina no Recife e com a D. Lourença em Olinda.

— Que te aconteceu por lá, que m e pareces um farricoco, carregando tua própria tum ba, pois a cara que trazes não é doutra cousa? disse o Nuno ao poeta com a sua costum ada galhofa, que desta vez era o disfarce da com oção ao ver o sem blante abatido do am igo.

— E não te enganas, Nuno! É um a tum ba, o que estás vendo e não m ais o infeliz que ontem era. É a tum ba de um a alm a que nasceu para a dor, e não viveu senão para com eçar desde o prim eiro instante a m orrer aos poucos. Um a esperança a consolava na sua agonia e a prendia a este m undo por um tênue fio de ouro. Esse fio rom peu-se, e a alm a acabou por finar-se.

Nuno abraçou-o com efusão.

— Mas dize-m e, que houve que assim te m ortifica?

— Belisa aborrece-m e.

— Juro eu que não!

— Aborrece-m e, e tem razão, porque a ofendi.

Ia o Lisardo referir ao am igo sua desventura, quando apareceu no saguão, onde j á então se achavam os dois m oços, D. Lourença, que andava no tráfego da casa, dispondo o agasalho para os acostados de seu prim o Leonardo Bezerra, que lhe pediu o aboletasse ali até a noite.

Avistando o poeta, repuxou-se a barbelha de D. Lourença, com o assom o im perioso que tom ava o seu colo nos m om entos de rigor; aproxim ou-se a dam a com um m odo tão severo que os m oços estrem eceram :

— Os ingratos são com o as varej as, pois assim com o estas em peçonham o corpo que as sustenta, eles vendem os protetores que os agasalham . Você, Lisardo, que tantos anos foi um fam iliar desta casa onde nunca lhe faltou o necessário, acolhido pelos nossos com bondade, esqueceu todos estes benefícios, e fez-se com suas rim as fâm ulo e serviçal dos m ascates, a troco de algum a vil espórtula.

O Albertim , sucum bido, quis protestar neste ponto; não lho deixou a m atrona.

— Tão negro procedim ento devia arredá-lo para sem pre desta casa cuj as portas dora em diante lhe estão fechadas. Se foi para ouvi-lo que tornou, pode desde j á ir-se; e é o m ais prudente, porque em chegando o Capitão André de Figueiredo e sabendo da sua gentileza, não há de ter a m oderação de que usei.

Albertim sorriu-se, com o deviam sorrir os m ártires através das cham as da fogueira e, curvando a cabeça, afastou-se com a dignidade da resignação, que é m ais respeitável do que a do orgulho.

Nuno estava atônito; não atinava bem com o que se passava ali diante dele; parecia-lhe que expulsavam o Lisardo, m as por que m otivo? Nesse estado apenas pôde balbuciar um a palavra ao ouvido do am igo quando este lhe passou j unto:

— Espera-m e lá foral

Logo que D. Lourença arredou-se, correu o rapaz à rua; m as apesar de todas as pesquisas não descobriu Albertim .