A Guerra dos Mascates
Capítulo VI
NO QUAL SEBASTIÃO DE CASTRO PÕE OS PONTOS NOS II, E DÁ UMA LIÇÃO MESTRA NO ALFERES VITAL REBELO
Os dias que seguiram -se à noite das bodas, a vida de Vital Rebelo não foi senão a longa e aziaga m odorra, em que apagou-se o sonho inefável de sua ventura.
Todavia, um só instante não se arrependeu do que havia feito. Tinha ele um a alm a dessas para quem a virtude não é a cousa banal que o m undo cham a dever; m as um suprem o enlevo da consciência, que sente-se divinal quando triunfa das próprias paixões.
Para os hom ens deste tem peram ento a honra não consiste em vanglórias que insufla a vaidade; e sim no íntim o contentam ento de si m esm o, que é a seiva robusta de que se nutre sua existência.
Resolvendo ficar em Olinda, Vital não teria rom pido o fio dourado de sua felicidade, e estaria àquela hora gozando as prim ícias do am or terno e m avioso de sua Leonor. Mas no estado das cousas, aquele passo o rebaixara em sua própria consciência; e desde então, sob a vergonha dessa hum ilhação, j á sua ventura não teria a pureza. im aculada que o enchia de j úbilo; as carícias de sua noiva perderiam o sabor celeste com o travo deste pensam ento, que ele as com prara por um a vileza.
Perdera tudo quanto podia em belezar-lhe a existência, m as salvara-se a si, e podia-se dizer o hom em que fora, e não um desses espólios d'alm a que, abandonados de sua própria individualidade, andam no m undo com o vasilhas hum anas, onde se despej am e ferm entam as paixões alheias.
Nos prim eiros tem pos o tédio que tom ara ao m undo, tornando-lhe grata a solidão, o levara pelos sítios escusos onde parecia-lhe que o entendiam os rum ores do bosque sussurrante.
Por vezes na volta destes passeios encontrava-se com a cavalgada de Sebastião de Castro, que vinha tam bém da sua costum ada excursão. Respondia o governador com m uita urbanidade à cortesia do m ancebo; e correspondia-lhe de um m odo tão afetuoso, que m etia invej a aos da com itiva.
Estas repetidas m ostras de apreço, significativo a ponto de traduzir-se nos apertos de m ão e zum baias da gente de palácio, despertaram no espírito aborrido de Vital Rebelo um a ideia que, repelida à prim eira e outras vezes, tornava sem pre com insistência.
Fora o governador quem arranj ara seu casam ento pela recom endação que fizera ao Capitão-Mor João Cavalcanti; e pois bem podia ele, que vencera a m aior dificuldade, cortar agora a m ínim a exigência que sem propósito faziam os tios de Leonor.
Logo, porém , arredou este pensam ento, pela aversão que sem pre tivera de solicitar favores. Mas tratava-se de sua felicidade, porventura de sua vida; quando o governador lhe dava tantas provas de apreço, parecia-lhe dem asiada sobranceria, senão desatino, desprezar os bons ofícios que j á um a vez tanto haviam aproveitado.
No m eio desta perplexidade resolveu consultar Carlos de Eneia contando que o am igo o dissuadiria da ideia. O contrario aconteceu.
— Não só procedes com acerto falando a Sebastião de Castro, com o no teu caso é o que de m elhor podes fazer, respondeu o letrado.
— Pensas então que obterei por seu interm édio cham ar à razão os tios de Leonor.
— Algum a cousa com certeza obterás deste passo, disse Carlos de Eneia com um leve sorriso de ironia que apagou-se logo na habitual expressão do sem blante m elancólico.
No seguinte dia foi Vital Rebelo a palácio.
Sebastião de Castro o recebeu afetuoso, e indagando com vivo interesse dos porm enores da cena que passara na noite das bodas, pôs o m ancebo a cam inho do pedido que lhe vinha fazer.
— Fiado na m uita bondade de Vossa Senhoria, que j á um a vez foi servido interessar-se por m inha sorte, venho rogar-lhe a continuação do favor que espontaneam ente j á m ereci, na esperança de que tão valiosa intervenção porá um term o à birra m alfadada dos parentes de D. Leonor.
O prazenteiro sem blante do governador fechava-se ouvindo o m ancebo:
— E por que recusa o senhor obstinadam ente m orar em Olinda, na com panhia de sua m ulher? Não lhe acho razão; nem adm ira que os Cavalcantis se m ostrem ofendidos com o seu procedim ento.
— Sabe Vossa Senhoria quem eu sou! respondeu Vital com altivez, e com preende que os m eus brios não m e perm item ficar em Olinda. É ponto de honra e não acinte. -
Tinham certas palavras a propriedade de arranhar o ouvido fidalgo de Sebastião de Castro; essa de brios era um a das tais.
Pelas colisões frequentes em que o colocava o seu sistem a de governo, e pelo hábito de transigir com as dificuldades em vez de as rem over, adquirira ele a adm irável m aleabilidade com que sabia aj eitar-se a todas as circunstâncias.
Dai provinha que as m elhores têm peras d'alm a, com o o sej am a firm eza, a coerência, a perseverança, eram cruezas de que se j ulgava ele isento, e que tachava nos outros com o graves defeitos que os tornava inábeis para os cargos da República.
Tom ara a sua fisionom ia um gesto desdenhoso ao ouvir as últim as palavras do m ancebo, a quem redarguiu nestes term os:
— O senhor ainda está m uito m oço. Com os anos hão de passar esses verdores do ânim o exaltado; e então aprenderá por experiência que se não sacrificam cousas de m or ponderação a m elindres e enfados do ânim o por dem ais suscetível.
— A idade há de quebrar-m e as forças do corpo e do espírito, que tal é nossa hum ana condição; m as esta isenção que Vossa Senhoria apelida m elindres nasci com ela e com ela m orrerei.
— Quer um conselho de am igo? tornou Sebastião de Castro com um m odo insinuante. Faça a vontade à sua sogra; vá para a com panhia de seus parentes, e fio-lhe eu que se não arrependerá.
— Esse alvitre é im possível; e por estar disso bem convencido foi que resolvi buscar a intervenção de Vossa Senhoria.
Fechou-se então de todo o fidalgo:
— Com o governador desta capitania, encarregado de prover às necessidades da República, veda-m e o m eu regim ento introm eter-m e no sagrado da fam ília, retrucou Sebastião de Castro.
— Neste caso não devia o senhor governador ter trazido as cousas ao ponto a que chegaram .
— Naquela ocasião o vosso casam ento resolvia graves dificuldades, e acabava com um a rixa, que turbados com o andavam os ânim os, podia ser o facho da guerra civil; estava pois na m inha alçada, pois que daí dependia a paz da capitania. Agora não é assim ; realizou-se a aliança, e só do senhor depende m antê-la.
— Todavia, esta sem ana passada, certo rapaz que desinquietara um a rapariga lá para Santo Am aro, foi obrigado a casar por ordem de Vossa Senhoria.
— Não há tal. Seria por ordem do m eu aj udante, e sem conhecim ento m eu.
Tinha Sebastião de Castro esta balda de lançar à conta dos subalternos a culpa dos atos que praticava, quando sobre eles cala a censura. Por este m odo arranj ava para si o côm odo roj ão do rei constitucional, que não pode errar; m as pouco lhe valeu isso contra os ataques dos olindenses e m ais tarde contra o achincalhe dos m ascates.
Apesar do que dizia o discreto Secretário Barbosa de Lim a, e do que trovej ava o farfalhudo Aj udante Negreiros, era corrente que não se m ovia um a palha na governação da capitania sem licença de Sebastião de Castro, o qual entendia com tudo, até com a ração da tropa e o bê-a-bá dos m eninos na escola.
De volta de palácio, passou Vital por casa de Carlos de Eneia, para contar-lhe o m alogro que ele em grande parte im putava ao am igo por havê-lo anim ado a esse passo, longe de o dissuadir.
— Disso que sucede agora, te preveni há tem pos, m as não m e quiseste crer.
— Entretanto ainda ontem m e prom etias que algum a cousa eu obteria de ir ao governador, replicou Vital surpreso.
— E avalias em pouco a lição que recebeste? Depois do que ouviste em palácio, j á não duvidarás que Sebastião de Castro quando arranj ou o teu casam ento com Leonor, só teve em m ira quebrar-te o orgulho, am arrando-te ao cepo de hum ilhação que te preparavam os parentes de tua m ulher; porque tem com o certo, que essa conspiração de alcova é obra insigne de nosso hom em .
— Presum es isso? exclam ou Vital tom ado de igual suspeita.
— Ex ungula leonem; pela tram a conheço a aranha que teceu a rede. Ele deu o fio e o teu bom am igo o urdiu com a sua consum ada perícia.
— Disso tenho certeza, ainda que não posso atinar com o interesse que pudesse ter ele em m agoar-m e.
— O de agradar ao governador, ao passo que te privava de um bem de que ele não podia gozar; queres incentivo m aior do que esse da am bição abraçada com a invej a?
Vital calou-se, tom ado do tédio que lhe inspiravam estes m anej os, e Carlos de Eneia continuou:
— Se aceitasses com a precisa coragem a prova a que Sebastião de Castro subm eteu a tua docilidade, ficava teu am igo, e não tardaria m uito que atirasse fora o aj udante com o um sapato acalcanhado para calçar-te ao pé. Com o porém te m ostraste exaltado, intolerante, sem traquej o e até m alcriado, podes contar que doravante estás no índex expurgatório.
Desde então Vital Rebelo não contou senão consigo, e buscou m odo de falar a Leonor para concertar nos m eios de tirá-la da casa de André de Figueiredo, onde se achava guardada com a m aior vigilância.
Ao recordar os acontecim entos da noite fatal de suas bodas, doía ao m ancebo no fundo d'alm a a fraqueza com que se houvera Leonor. Supunha-se querido com m ais ardente afeto, desse que faz as heroinas do am or. Esperava, porém , que a donzela, livre da suj eição em que a trazia a m ãe, havia de ser a esposa carinhosa e terna que ele sonhara.
Um a tarde, Leonor, aproveitando um instante de liberdade, saiu à cerca e estava a cism ar à som bra do arvoredo, quando apareceu-lhe de repente Vital Rebelo que aj oelhou a seus pés.
Com o se ante ela houvera surgido um espectro, a m ísera donzela espavorida e fora de si deitou a correr para a casa, sem dar tem po a que lhe dissesse o m arido um a palavra.
O abalo que sentiu Vital escureceu-lhe a vista; arrim ou-se ele ao tronco de um a árvore e perm aneceu im óvel o espaço de m uitas horas, a ver se vinha alguém que o acabasse ali onde se acabara a sua esperança. Quando dai tornou, era no seu pensar um viúvo; e desde esse dia trouxe luto por seu am or. que se finara.
Ignorava que André de Figueiredo, j á de volta a Olinda, protestara a Leonor m atá-lo, a ele Vital Rebelo, à sua vista, se ela tivesse a infelicidade de dirigir-lhe um a palavra ou consentir que ele se lhe aproxim asse.
Esta am eaça que não lhe saía da m ente, obrigara-a a repelir com horror o único bem que lhe haviam deixado, a doce esperança de rever o m arido. Assim que, no m om ento de avistá-lo depois de tão longa ausência, o que a dom inou foi a ideia atroz de que sucum bisse aos golpes traiçoeiros.
Correram os m eses e com pletou-se um ano depois do casam ento de Vital Rebelo; durante esse período, em vez de se disporem as causas para um a solução favorável, ao contrário m ais se baralhavam com as com plicações políticas e as anim osidades entre os nobres e os m ascates.
Não era Rebelo e nunca fora dos em penhados na luta, porque cedo aprendera a desgostar-se dos partidos que são um a am álgam a de toda a casta de gente e de paixão. Mas não obstante carregava para os nobres com a culpa dos m ercadores, a quem não quisera renegar.
Por esse tem po foi que veio à noticia do m ancebo um aviso de terem os Holandas m andado a Rom a im petrar do Papa um breve de anulação do seu casam ento.
O pensam ento cruel de que Leonor livre podia pertencer a outro venceu o ressentim ento de Vital. Voltou a Olinda, onde não fora desde oito m eses, e achou nos grandes olhos castanhos de Leonor a m esm a ternura de outrora, ainda que tocada de um a som bra m erencória das saudades tão longam ente curtidas.
Tornou um a e m ais vezes, e se nem sem pre era tão feliz que encontrasse Leonor á j anela, ou a visse de longe na cerca, com um a troca de sinais rápidos e quase im perceptíveis chegaram os dois nam orados esposos a com binar a entrega do bilhete em que Vital pedia a entrevista.
André de Figueiredo soubera das vindas de Vital Rebelo a Olinda; m as o Capitão-Mor João Cavalcanti, apesar do que havia ocorrido, proibira que se tirassem razões com o m arido de sua sobrinha, que seu sobrinho era, salvo se ele form alm ente as provocasse.
Por isso o capitão. roendo o freio com im paciência, redobrava de vigilância à espreita do m om ento da desforra da vingança.