A Guerra dos Mascates

José de Alencar · Capítulo 10 de 33

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A Guerra dos Mascates

Capítulo VIII

 

A DESTRA E A SINESTRA DO HOMEM EM MAIÚSCULO

SEPARANDO-SE do nosso poeta, os dois com panheiros se dirigiram para o lado da ponte.

Cosm e tinha destino, em bora não lhe fizesse conta confessá-lo. Quanto ao Nuno, esse aproveitava a com panhia para pautear, e ter um pretexto de dem orar-se fora da loj a.

— O que você disse, Nuno, não passa de brincadeira? insinuou o Cosm e.

— Pois ainda duvida? Não tarda a estralada, e se não andarem com isso depressa, eu cá darei j eito à cousa.

— De que m odo?

— Ainda não sei; m as hei de achar.

— Em verdade nunca faltam m eios de barulhar as cousas; o acom odá-las, sim , é o difícil.

Nesse ponto do diálogo, o Nuno deu um salto, arregalando os olhos para a ponte. Sem m ais am bages, quebrou a esquina e barafustou pela rua afora, deixando surpreso o Cosm e, m as contente, porque o forrava ao trabalho de se desvencilhar dele.

O que assim espantara ao caixeiro era a cavalgada do governador, que j á de volta das Cinco Pontas, atravessava para ir ao Forte do Mar, com o costum ava.

Vinha Sebastião de Castro pensativo; o que não deixava de inquietar ao secretário e aj udante, os dois braços do governo da capitania, colocados à direita e esquerda do excelentíssim o toro.

Não será fora de propósito esboçar aquelas figuras de m inistros coloniais; até m esm o porque podem servir para o paralelo com as ilustres cariátides m odernas, que aí andam em quadros de apoteoses.

Alto, bem apessoado, o Capitão Barbosa de Lim a florescia, apesar dos anos que lhe tinham despovoado a fronte, sem fanar a rosada frescura do agradável sem blante, nem estancar o perene sorriso que m anava dos lábios suasivos, com o fio de um favo; e ele o tinha na palavra insinuante.

Dos olhos pequenos e redondos lhe escapavam as chispas de um espírito a cintilar, com o lentej oula que era do seu engenho superior e adestrado no m anej o dos negócios. A cavalo, as pernas m ais com pridas do que exigia a j usta proporção do corpo dariam a outro postura ingrata, senão ridícula; m as o secretário com tal j eito conduzia esse tram bolho, e tam anha sedução crescia em torno de si, que lhe esqueciam a prorrogação das gâm bias, para som ente verem a afabilidade das m aneiras.

As m oças, que todas têm no m indinho sua unha de Dalila e gostam da j uba para a tosquiarem , todavia achavam bonita a calva do secretário; e os rapazes invej avam -lhe a estatura pernalta, a que se atribuía o ter galgado tanto pela escada da fortuna. Quanto aos hom ens bons da governança da terra, velhos e m oços, nobres e plebeus, todos à um a o afagavam e todos o queriam por com panheiro. Razão tinham eles, pois era cavaleiro de boas m anhas, com o se dizia então: e pagava os defeitos de que ninguém está isento, com prendas de que poucos se ornam , ainda m ais em vida de tam anha porfia com o a tivera.

Fazia contraste com essa feição prazenteira a fosca e som bria carranca do Aj udante Negreiros, coberta de lívido pergam inho e crivada por espesso m olho de cerdas.

Dentre a barba hirsuta destacavam os grossos lábios de nina boca flácida e lorpa que estava debuxando na balofa carnosidade a gula insaciável de todos os apetites. Se há nos traços fisionôm icos um a expressão, essa boca fora talhada, não só para inchar a palavra, arrotando petulâncias e indigestos im propérios, com o para atolar-se no tarro da sensualidade.

Nesse hom em de pêlo híspido e couro adiposo, ressum brava certa expressão e gesto suíno, que chegava algum as vezes até o grunhir. O tronco parecia Diógenes puro, m as lardeado de D. Quixote, e trufado com Aretino. O todo afogado em grosso unto de Tartufo, m as com um a rij a côdea de Catão, que form ava os folhos do grande pastelão de carne e osso.

O antagonism o dos elem entos agregados no indivíduo o traziam em tam anha anarquia, que se lhe desarticulava o pescoço a cada instante em torcicolos e trej eitos, com o se a cabeça lutasse por despegar-se do corpo estranho ao qual por engano a tinham ligado. Desse cacoete lhe proviera um a volta do congote, que o tornava um tanto corcunda.

Os que m ais de perto conheciam o aj udante tinham -no em conta de hom em às direitas, e fiavam tudo de sua inteireza. Tam bém disso dam os testem unho; m as era para lam entar que a natureza não tivesse virado ao avesso tão excelente pessoa, m ostrando-a antes pelo forro.

Descendia o aj udante do ilustre André Vidal de Negreiros, do que m uito se enfatuava; e havia arranj ado para seu uso um extenso rosário de nom es, que apregoavam sua antiga e rem ota linhagem .

Ao avistar a cavalgada à boca da Rua da Moeda que saía na Ribeira, volveu D. Sebastião um olhar ao Aj udante Negreiros, e perguntou-lhe com ar que se não era, bem parecia distraído e indiferente.

— Não é na Rua da Moeda que m ora o m ercador Miguel Viana?

— Aí m ora, sr. governador, acudiu o aj udante atento ao m enor gesto de D.

Sebastião. E se V. Ex.a concede, vou-m e j á à casa dele agarrar o m ariola do filho!

— Em casa do Miguel Viana? perguntou o governador no tom do m aior espanto.

— Pois que é o pai do bigorrilhas!

— Ah!

— O sr. governador não sabia?

— Deixe em paz o m oço, Negreiros, tornou D. Sebastião esquivando a resposta.

— Em paz o quero eu, atalhou o aj udante com um regougo de riso, m as é no Forte do Brum , aos tirantes de um a peça de 64. Não há com o isso, para am ansar o lom bo desta canalha de birbantes.

— Tam anho rigor não pede o caso. Um a rapazia de m oço brej eiro... Basta que o pai lhe passe um repelão e lhe traga tente as rédeas.

— Aquele?... Não tom a cam inho, a não ser o do pelourinho, onde certo vai parar, se não o am arrarem à carreta e sem dem ora.

— Se o m andassem a Lisboa estudar, não cuida o aj udante, que se havia de fazer gente? Lem bre ao m ercador, com o cousa sua; verá que ele abraça logo o alvitre. Vá, vá ter com o hom em .

Falara D. Sebastião com a habitual volubilidade; m as na leve resistência que despontara através da últim a réplica, percebeu o Aj udante Negreiros o pulso da vontade oculta, que à sem elhança da odalisca de um serralho, nunca se m ostrava a rosto descoberto.

Quando porém o fidalgo, sobre despedi-lo com a palavra e o gesto, voltou-se de todo para o secretário, im pedindo assim qualquer réplica, com preendeu nosso aj udante que a ordem era perem ptória, e rasgando um a cortesia com a cabeça inclinada a tocar as orelhas do cavalo e o chapéu desbarretado até a garupa, separou-se da com itiva para enfiar a Rua da Moeda.

Pouco faltava à com itiva para enfrentar com a Rua do Azeite em cuj a esquina ficara de plantão o Cosm e, depois da escapula do Nuno, esperando a passagem do governador para fazer-lhe a sua reverência.

Respondeu o fidalgo à zum baia do escrevente com um sorriso anim ador, e à m eia voz disse para o Capitão Barbosa de Lim a:

— Aí está um rapaz de recado, que bem m erece ser aproveitado.

— Já tinha pensado nisso, respondeu o secretário que nem vira a sonsa figura do escrevente. Consta que é de ânim o cordato; ainda que o suspeita o alm otacé de pender para os de Olinda.

— Que m al vem daí? perguntou o governador com um sorriso m elífluo.

Lem brou-se o capitão que tam bém ele, antes de tom á-lo o governador a seu serviço, andara extraviado e fora do bom cam inho, tendo sido um dos m ais respingados entre os do partido olindense.

Com o barrete na m ão, e o espinhaço reverencialm ente curvo, acom panhou Cosm e a cavalgada até que a viu sum ir-se por trás da Madre de Deus. Arrancando então um suspiro que lhe estava entalado na garganta, deitou-se o rapaz a trote na m esm a direção da cavalgada, para atravessar a ponte e ganhar a outra banda donde j á podia estar de volta, se não lho estorvasse o trapalhão do Nuno.

Seguindo de longe o governador, em balava-se o escrevente em fagueiras esperanças, e sentia lá dentro do coração um as cócegas deliciosas. Parecia-lhe que sua estrela ia enfim raiar do seio das águas turvas que se estavam encapelando.

A ocasião faz o hom em , com o o choco faz o pinto; sem ela, o hom em é um ovo goro.

Tal era o conceito em que se em bebia o espírito do nosso escrevente, pouco poético, se o quiserem , m as profundo na filosofia, não a especulativa, que se deleita em chilras utopias, m as a prática e sólida, que é a verdadeira ciência da vida.

Chegado à outra banda, encam inhou-se o Cosm e à casa do alm otacé, onde esteve de cochichos com a Sr.a Rufina, na j anela do canto.

Do que ai o levou, e da espécie de com ércio que havia entre a m atrona e o escrevente, saberem os a seu tem po; sendo que neste m om ento m al pudem os acom panhar o rapaz na disparada em que vai, j á de volta para o Recife.

Ei-lo que enfia pela Rua da Cadeia, e chegado à casa que procurava, encostou-se à om breira da porta, encolhido para que não ó avistassem de dentro; assim ficou a espreitar pelas fasquias da rótula:

Na câm era servida por essa porta achavam -se em palestra anim ada duas pessoas, um a cuj a voz fornida retum bava pelo teto, e outra de fala subm issa em bora rouquenha.

O suj eito do verbo alto trazia as vestes dos recoletos, e esquadriava o pavim ento de tij olo com um as pernadas, que nada tinham de eclesiásticas, e m ais pareciam guinadas de espadachim . As vezes parecia que a batina o tolhia, e dava-lhe tal safanão acom panhado de um trej eito da boca e dos olhos, que bem se via quanto lhe custava a arrastar aquele tram bolho. Se não fora a utilidade que lhe prestava, com certeza j á o houvera lançado às urtigas.

O árdego padre tinha a cabeça batida; o rosto largo, olhos redondos e lábios carnudos, que estavam denunciando a tem ulência da carne não castigada convenientem ente pela abstinência, e m enos pela disciplina. Apesar do freio de santarrão com que ele havia bridado o carão m oreno, e do cuidado com que lhe am ansava a braveza, não raro m ostrava-se ao natural a catadura, e via-se então que era hom em de dar e tom ar, com o se dizia no sertão.

E no sertão deixara o Padre João da Costa, no tem po que por lá andara, m em ória de suas proezas. Entre outras cousas dizia-se que na festa de um a freguesia, apresentara-se no largo, e puxando da faca, arrem etera contra uni pim pão para lhe bifar a rapariga com quem estava; e conseguiu, porque era o frade faquista de fam a, e o outro sentiu bater-lhe a passarinha. Tom ando então a m oça de garupa, saiu o fragueiro do reverendo pela povoação afora, m ui ancho de si.

É verdade que estas e outras anedotas vinham de Olinda, onde o Padre João da Costa era abom inado, com o a alm a da conspiração dos m ercadores, e o espírito daninho que o estim ulava contra os nobres e m oradores da terra. Convém portanto dar a tais m urm urações o devido desconto da paixão partidária, tão acesa naqueles tem pos.

O outro personagem era hom em de seus trinta anos, bem fornido de carnes, com um a dessas construções m aciças, que se podem bem com parar na arquitetura hum ana aos edifícios de pedra e cal, sólidos e elegantes. Tinha bela presença; e um a com postura, a que dava realce a galhardia m arcial, rara em um m ercador, com o ele era.

— Ouça o que lhe digo, Sr. Miguel Correia. Antes de três dias decide-se a cousa.

— Pois eu aposto, Padre João, que ainda não é desta vez!

O frade soltou um a risadinha:

— Verem os! Am anhã à noite em casa do Miguel Viana há de m udar de parecer!

— Qual! Os m ecos são espertos!

— São! São!... Não há dúvida!

Destas frases ditas em tom claro e com passado, pilhou o escrevente algum as palavras. Infelizm ente botando-se o Miguel Correia para a j anela, não pôde ele escutar o m ais. Bateu então à rótula devagarinho, com o quem acabasse de chegar.

— Ah! é você rapaz? disse o m ercador levantando o postigo da rótula que era de bater. Entre!

Enquanto arredava a porta .para dar passagem ao gaguinho, voltou-se para anunciá-lo ao frade:

— É o Cosm e Borralho, Reverendo!

— Bem aparecido, m oço, disse o Padre João; j á sei que nos traz algum a nova im portante!

— O reverendo e m ais o Sr. Miguel Correia dirão, respondeu Cosm e com m odéstia.

Sacando então do bolso da sotaina o m aço de papéis, escolheu um cheio de garatuj as que apresentou aos dois. Logo apoderou-se o frade do m anuscrito e acercou-se da j anela para o decifrar.

— Há!... há!... fazia o reverendo, durante a leitura. Bravo!... Que m alandros!

Exultava o gaguinho por baixo da sonsa, vendo o efeito que produzia o papel. Quanto ao m ercador, depois de ter debalde tentado soletrar as garatuj as do escrevente por cim a do om bro do frade, achou m ais proveitoso consultar as reverendas bochechas; e com o elas se espraiavam em riso gostoso que serpej ava enroscando a papada, tam bém o bom do m ercador se pôs a gargalhar, esfregando as m ãos de contente.

— Aposto que são obras do m atreiro do entrevado?

— Foi o licenciado que o escreveu ainda esta m anhã, respondeu Borralho.

— O Davi de Albuquerque? perguntou o m ercador.

— Grande ronha!... Tem m ais peçonha por dentro do que lhe sai por fora das chagas do corpo! prosseguiu o reverendo tornando à leitura.

O m ercador tentou segunda entrada nos gregotins do m anuscrito, porém debalde.

— Ótim o!... continuava o Padre João.

— Boas noticias, hem ?... Bem dizia eu que o Borralho era um rapaz de truz. Mas então as cousas vão bem ?...

— As m aravilhas, Sr. Miguel Correia, futuro procurador do Senado recifense! exclam ou o frade com ênfase, term inada a leitura.

Arrufou-se o m ercador de prazer, com o um peru de roda quando o garoto rapaz lhe assobia no terreiro.

— Qual!...

— Digo-lho eu. O m ês se não acaba sem que tenham os pelouros abertos neste Recife.

— Pois j á tão próxim o?... tornou o Miguel. Pelo que vej o este papel é algum arranj o que os pés-rapados nos propõem ?

— Este papel?...

Um riso desdenhoso borrifou a respeitável belfa do frade, que inchou as bochechas, para soltar a palavra retum bante com a ênfase do costum e.

Aqui para nós, leitor, o reverendo preparava-se para representar o papel de tribuno, que é o apostolado político; e por isso não perdia ensej o de pôr os pontos á sua eloquência.

— Este papel?... É o mane, thecel, phares da orgulhosa Olinda!... Com o Babilônia cairá para não se levantar m ais, a fam igerada cidade! Este papel?... É o docum ento da conj uração que tram am os fariseus deste Pernam buco, contra a autoridade do Rei, na pessoa de seu governador, a quem trabalham com danada tenção por deitar fora da terra, a fim de porem a governança na m ão de seus apaniguados, em bora se derram e o sangue de inocentes, contanto que satisfaçam ao seu nefando propósito de abater esta Sião do Recife, o que tenho fé não hão de consegui-lo...

O reverendo tom ou fôlego, e enroscando no dedo índex o fim do longo período à m aneira de carapito, outra vez encheu os foles da bochecha para apontuar devidam ente o fim daquela raj ada de eloquência.

— ... j am ais!...

Saiu o gaguinho dos biocos hum ildes e silenciosos em que se m etera, para m anifestar por m odos significativos sua adm iração à oratória do Padre João. Piscando os olhos de entusiasm o, e batendo a cabeça com o o lagarto, anim ou-se a m urm urar à m eia voz:

— Nem o Padre Vieira!

Lançou o frade ao gaguinho o olhar de proteção com que hoj e em dia o m inistro na Câm ara afaga os íntim os que engastam em 'apoiados" e "m uito bem " as pérolas, por ele desfiadas na tribuna.

Entretanto passava o Miguel Correia um m om ento bem atribulado. De todo aquele soberbo j acto da reverendíssim a eloquência, não tirara o seu bestunto senão um a cousa; m as essa de arrepiar.

Era o tópico de sangue derram ado tão j unto ao nom e do Recife. Ora, havia no digno m ascate invencível repulsão por tudo quanto atentava contra a integridade da pele hum ana, e sobretudo da que lhe forrava o indivíduo.

Não se conhecia ainda naquele tem po a causa de sem elhante fenôm eno. Medo; nem por som bras podem os conj eturar que o sentisse um hom em da polpa do Sr. Miguel Correia Gom es, capitão no terço dos brancos, e escolhido pelos m ascates com o um de seus cabeças, para levar a cabo a grande em presa em que se haviam em penhado.

Atualm ente, abençoado progresso, qualquer estudante de Medicina explicaria de um a m aneira clara e decorosa aquela esquisitice, diagnosticando um a afecção nervosa. Fique pois assentado que o Sr. Correia, bem apessoado de corpo, era, não obstante a fartura de m úsculo e fêvera do seu todo, um organism o essencialm ente nervoso.

Tal frouxidão produziram nele as palavras referidas, que as pernas faltaram ao tronco; os om bros afundaram sob a cabeça; e o hom em se aboborou sobre o tam borete.