A Guerra dos Mascates

José de Alencar · Capítulo 16 de 33

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A Guerra dos Mascates

Capítulo XIV

 

 

COMO D. SEVERA ACHOU TÃO A PONTO O PAJEM DE QUE NECESSITAVA PARA ESTREAR-SE NA CAVALARIA ANDANTE

Quando à tarde o Aj udante Negreiros apartou-se do governador, tom ando pela Rua da Moeda, houve quem lhe bispasse a m anobra.

Viam -se pela ribeira, próxim os à j usante da m aré, j iraus cobertos de palha, onde costum avam os pescadores guardar as canoas, e tam bém j angadas suspensas de um lado por espeques. Aí, atrás de um a dessas anteparas se m etera o Nuno, com receio de que o avistasse de longe a com itiva do governador, e lhe pusesse o aj udante no encalço os lacaios e guardas a cavalo.

Sucedeu esconder-se o rapaz a j eito de ouvir as palavras que trocaram o aj udante é o governador, ao passarem rente com a palhoça onde se agachara.

Desde que desapareceu a com itiva, surdiu o m ascatinho sarapatando, e lobrigou o Negreiros que apeava-se na calçada da loj a. Ali naquela hora se ia decidir de sua sorte, e sabendo do em penho que punha o m ercador em agradar a D. Sebastião, tinha j á com o cousa assentada, a rem essa para Lisboa.

No prim eiro navio que se fizesse de vela para aquele porto, lá ia ele encom endado a algum tio da outra banda; e tão cedo não veria a sua Marta, nem de tão longe a poderia disputar aos que se atrevessem a pretendê-la.

Logo, sem m ais detença, cuidou em evitar o golpe; e o único m eio que tinha era desaparecer da casa, e de m odo que lhe não pudesse o pai seguir a pista e agarrá-lo.

— Não m e pilham !... disse o m ascatinho ao concluir a sua breve reflexão. Vam os rondando do lado do quintal, a ver se posso apanhar-m e dentro de casa e arranj ar a trouxa. Depois raspo-m e; e passem lá m uito bem .

Era precavido o rapaz, no que m ostrava a despontar entre os arreganhos m arciais o sangue m ascate. Com o podia ter necessidade de ganhar o sertão, lem brou-se que precisava da roupa, m as sobretudo de arm as, sem as quais não o tom ariam por hom em de guerra; o que era todo o seu desej o.

Ao avizinhar-se dos fundos da casa, escondido entre o m ata-pasto, deu com o Lisardo encostado à parede da tacaniça, perto da gelosia, e não lhe custou adivinhar o que ali fazia o am igo.

Enquanto afinava-se o trovista para recitar a sua décim a, o esperto do Nuno penetrou na casa paterna, pelo quintal, onde só encontrou a Benvinda, que estava cochilando ao borralho, em com panhia dos dois gatos da casa.

Barafustou o rapaz a correr pelo corredor, até um com partim ento que ficava nos fundos da loj a, e lhe servia de arm azém ou arca de Noé. Aí cuidou logo de escolher o m ais fornido chifarote que suspendeu à. ilharga pelo talabarte; pôs à bandoleira um a clavina; m eteu no cinturão um par de pistolas francesas e um a adaga flam enga, e na cabeça um a velha cervilheira, que ali rolava de envolta com outros cacaréus.

Assim reduzido a um cabide d'arm as, tratou o garoto de entrouxar duas ou três m udas de roupa, que tirou do arm ário das que j á vinham em obra do Reino; feito o que, foi-se pondo ao fresco sem m ais dem ora, pois no m eio dos seus aprestos vinha-lhe a raj adas, lá da entrada da loj a, um certo rum or de vozes, que o tinham alerta.

Desconfiava o rapaz, e não sem m otivo, que esse sussurro provinha da prática do pai e do aj udante, naturalm ente sentados à calçada da loj a. Por m aior que fosse a curiosidade de saber o que estavam os dois tram ando contra sua liberdade, o m edo de que o viesse encontrar o pai, arm ado em guerra dos pés até a cabeça, tirou-lhe. todo o gosto da escuta e lhe am olou os calcanhares.

Ao toque de ave-m aria j á estava o Nuno outra vez escondido no m ata-pasto em frente à rótula, e a rum inar um a lem brança que lhe acudira. Era nada m enos do que sair ao encontro do aj udante, na volta deste, cham á-lo a desafio, e ali m esm o m eter-lhe na pele duas boas cutiladas, para ensiná-lo a não se introm eter com a vida alheia.

Quando tinha assentado levar por diante a traça, e j á a trazia bem concertada, saiu-lhe o negócio burlado; pois o Negreiros com a pressa de tornar a D. Sebastião, portador de boas-novas, apenas saltou na sela fincou esporas no ginete, e lançou-o a todo o galope. Ninguém o j ulgaria capaz de tal façanha, achacado com o era de várias queixas, que todas lhe provinham dos destem peros de boca. Que heroísm os, porém , não inspira a baj ulação?

Assim frustrada sua esperança de vingar-se no aj udante, se deixou ficar o Nuno oculto no m ata-pasto, à espreita do nosso poeta Lisardo, com quem contava para o plano que forj ara.

Já haviam passado o Rev. João da Costa em com panhia de Miguel Correia, e o Lisardo não se resolvia a apartar-se da rótula. Cansado de esperar, o Nuno que não prim ava pela paciência, foi-se aproxim ando agachado entre o m ata-pasto, e de repente surdiu em face do nosso poeta.

— Defende-te, vilão! gritou o m ascatinho engrossando a voz e puxando do chanfalho.

Ao ver-se atacado por um a panóplia, o Lisardo, que sofria de nervoso, ficou estatelado contra a parede, sem voz para proferir palavra; porém m aior foi a surpresa quando todo aquele fero se trocou em gargalhada, e ele reconheceu sob a viseira o rosto brej eiro do Nuno.

— Sem pre tens uns m odos!... disse o nosso poeta arrufado.

— Com que então queria o Sr. Lisardo de Albertim que eu o deixasse m uito de seu e sossegado estar aqui de requebros e segredinhos com a sonsa da senhora m inha irm ã, que aposto nos está escutando por detrás daquela rótula.

Ouviu-se um m uxoxo entre as frestas.

— Pois engana-se, tornou o m ascatinho entonando-se outra vez no seu recacho guerreiro. À espada ou lança, a pé ou encarapitado, lhe m ostrarei que... que você é um poeta das dúzias.

— E você um espalha-brasas!... atalhou com im paciência um a voz m aviosa que vinha da rótula.

Voltou-se o Nuno para dar-lhe o troco; m as em vez do rostinho de alfenim que ele esperava encontrar, lobrigou através da rótula entreaberta as m arrafas de um a respeitável m atrona, que se aproxim ava da j anela com um a curiosidade suspeita.

Essa m atrona era nada m enos do que a Senhora Rosaura, m ulher do m ercador Miguel Viana e m ãe do nosso Nuno.

Percebendo-lhe as pisadas, a m enina dos olhos negros esgueirou-se da rótula o m ais depressa que pôde. Vendo o que, o Lisardo teve o palpite de am olar as canelas, escam ando-se a bom correr pelo cam po fora.

Pensou o Nuno que era esse o m ais prudente alvitre, e apesar da durindana que lhe em baraçava as pernas e da cervilheira a dançar-lhe na cachola, lá disparou pelo m ata-pasto no encalço do Lisardo, de quem não lhe fazia conta perder a pista.

Mom entos depois cam inhavam os dois am igos pelo istm o, na direção de Olinda.

Chegados ã altura do Brum , parou o Lisardo, pensando que o Nuno desej aria separar-se dele para tornar ao Recife. O m ascatinho, porém , tinha lá sua traça, e foi despej ando o cam inho sem dar-se por entendido.

— Olhe, não fique tarde para você recolher-se, Nuno! disse-lhe o nosso trovista.

— Não lhe dê cuidado, sô m ofino!

Assim chegaram às abas de Olinda, e o Lisardo ia despedir-se do com panheiro. quando este perfilando-se disse-lhe com um tom que não adm itia volta.

— Fique sabendo o Sr. Lisardo de Albertim que vai deste passo levar-m e à casa do Capitão-Mor João Cavalcanti.

— Do... do capitão-m or?... m urm urou o poeta gago de surpresa.

— De que se espanta você?

— Pois, Nuno, o filho de um m ascate do Recife...

— Que tem isso?... D. Francisco de Sousa, que é nobre e dos m ais nobres, não está com os m ascates?

Em batucou o Lisardo com o exem plo, m as não se deu por vencido:

— E seu pai?

— Ele que se arranj e! Não; que para Lisboa não m e levam nem em postas.

— Que m e diz você, Nuno?

— A tram oia foi arm ada pelo m anhoso do governador e m ais o paparrotão do aj udante que o leve o dem o! Mas hei de pregar-lhes um m ono, que não im aginam .

— Então é ponto decidido?

— Com a breca!... Eu cá não sou hom em de voltar atrás! Dito e feito!... Desem bainhando o chifarote com um arreganho de ferrabrás, o Nuno cresceu para o Lisardo gritando-lhe:

— Leve-m e j á à casa do capitão-m or se não quer que o leve eu espetado na ponta desta espada!

Já abalado pela noticia do desterro que am eaçava o am igo, o nosso poeta rendeu-se ante aquele argum ento perfurante.

Eis porque m om entos antes o Lisardo atravessava a casa do sofá de um m odo tão original, e surdira na casa da ceia, no m eio da surpresa geral dos convivas, que o viram entrar à guisa de boneco de engonço.

Passada a prim eira surpresa. as vistas se fitaram no vulto de Nuno, que atado ao form idável chanfalho e coberto pela enorm e cervilheira, fazia um a figura grotesca. As risadas estrugiram pelo âm bito da sala de envolta com o tinir da louça e dos cristais.

Susteve Nuno im passível e sem pestanej ar o fogo rolante daquela estrepitosa gargalhada, ainda que por seu gosto preferia afrontar um a descarga de m osquetaria.

Afinal, passado o frouxo de riso, veio a curiosidade de saber por que artes aparecera ali aquela estram bótica figura; e voltou-se a atenção para o Lisardo que, aproveitando a hilaridade, tratava de esgueirar-se pela copa, onde contava achar os rem anescentes da opípara ceia.

— Oh! Lisardo! Não nos dirá onde foi desencavar este palerm a?

— Querem ver que é algum fedelho dos flam engos, que ai ficou enterrado no m angue!

— Mais parece um bugio arm ado em guerra!

— Ora qual! É o Pança do D. Quixote do nosso Lisardo! Pois não sabiam ! Enquanto assim os convivas trauteavam o nosso poeta, ele estava sobre espinhos; e não se anim ando a abrir a boca, encolhia-se de m odo que parecia querer sum ir-se dentro de si próprio.

Foi o Nuno quem , revestindo-se de sua natural petulância, pôs term o ao suplício do am igo.

— Querem saber quem eu sou; pois j á lhes digo. Sou o filho do m ercador Miguel Viana!

— Do m ascate!...

— O m ais atrevido da súcia!

— Que veio cheirar aqui, sô m ariola?

— Oral Anda bisbilhotando para ir m eter no bico dos labregos!

— É espião, não tem que ver!

— Pois enganam -se, acudiu Nuno decidido. Deixei o Recife e o pai; porque sou por Olinda e quero com bater com a nobreza, em pró de sua causa, que é a dos legítim os senhores de Pernam buco.

Acolheram os convivas estas palavras do Nuno com um , silêncio cheio de suspeitas, apesar de serem elas proferidas em tom firm e e sincero.

Não assim D. Severa, que atravessando o aposento, veio ao encontro do m ascatinho:

— Bravo, m oço. Com o se cham a você?

— Nuno! respondeu o caixeiro.

— Nuno, doravante pertence à m inha casa. Faça-o m eu paj em de estrado para o serviço especial da m inha pessoa.

Nessa ocasião entrava na casa de j antar o Filipe Uchoa; e consultado sobre o caso, aprovou com um riso j âm bico a resolução de D. Severa.

— Não podíam os inventar m elhor polé para o Miguel Viana, respondeu ele.

FIM DA PRIMEIRA PARTE