A Guerra dos Mascates

José de Alencar · Capítulo 19 de 33

Páginas do PDF

A Guerra dos Mascates

Capítulo II

 

UM CAPÍTULO DE HISTÓRIA QUE PARECE TER SIDO ESCRITO PARA O ROMANCE

Por tal form a se travam os negócios da governança com os am ores de Vital Rebelo, que para m elhor com preensão desta nossa crônica, vam os dar um a resenha do estado das cousas na Capitania de Pernam buco pelo correr do ano de 1710.

Já pela ram a se falou da rivalidade que existia entre a cidade de Olinda e a recente povoação do Recife, por causa do increm ento que esse bairro com ercial im portante ainda no dom ínio dos holandeses, fora tom ando com o volver dos tem pos.

Desde a época da restauração que os m ercadores, atraídos pela vantagem de um ancoradouro côm odo e seguro, se estabeleceram de preferência nessa povoação e ocuparam os arm azéns e tercenas construídos pelos flam engos.

Os senhores de engenho que eram os principais da capitania e aqueles que form avam a nobreza pernam bucana, foram obrigados a suprirem -se do necessário para o custeio de suas fábricas nas loj as e tendilhões do Recife.

Dava-se então o que ainda hoj e acontece com pequena diferença. Onerado o agricultor com um a dívida avultada, que não podia pagar, tinha de suj eitar-se à usura do credor ou de entregar-lhe a safra a preço e condições lesivas. Assim a arroba de açúcar, o m ercador a pagava no Recife por 400 rs. para vendê-la no reino por l$400.

Mais de século e m eio é decorrido, e ainda o tacanho espírito que sob várias encarnações tem governado este país, não descobriu um m eio de proteger a lavoura contra o m onopólio m ercantil; antes parece que de todo a desam parou entregando-a à sanguessuga do Banco do Brasil que lhe exaure a seiva em proveito de certa oligarquia financeira.

Um a circunstância m uito concorria para agravar a posição da nobreza pernam bucana. Não perm itindo as ideias do tem po que os fidalgos se dessem à m ercancia por ser esse um ofício plebeu, resultava daí que os seus fornecedores eram gente inferior e anim ada do ciúm e que em todos os tem pos, m as principalm ente naquela época, dividia as classes.

O que porém m ais fom entou a rivalidade entre os povos de Recife e Olinda foi o espírito de bairrism o.

Os m oradores da capitania descendiam na m áxim a parte de portugueses, ainda que j á entrava aí grande m escla de sangue flam engo e outro de Europa, sem falar do indígena e africano. Tinham , porém , nascido ali, na terra am ericana, e consideravam -se herdeiros dessa pátria que seus m aiores haviam reivindicado do holandês pelo heroísm o e intrepidez de suas arm as.

Por isso cham avam -se eles pernam bucanos, e àqueles que vinham do reino se estabelecer na colônia davam o nom e de forasteiros, negando-lhes o foro de vizinhos e portanto o direito de tom ar parte no governo da terra.

Com poucas exceções, eram os m ercadores do Recife desses portugueses europeus, que deixavam a sua aldeia para tentarem a fortuna no novo m undo.

Já naqueles tem pos, com o nos de hoj e, tinha a colônia portuguesa duas virtudes, a que deve a sua prosperidade, e são: a perseverança e a união, dotes de raça, que todavia por um a ignota razão desm erecem no solo brasileiro e não se transm item à prole aqui nascida.

Chegava um desses garotos sem outro fato m ais do que a trouxa am arrada em lenço de Lam ego; com a cam isa de bertangil, preto de suj o, e calções de lona besuntada de alcatrão. A força de trabalho conseguiam um a dúzia de patacas, com que se proviam de algum as réstias de alho e cebola, além de outras drogas, e saíam a m ercar pelas ruas do povoado e engenhos do interior. Nesse giro m esquinho aj udavam -nos os patrícios, fiando-lhes fazendas e drogas para estenderem o seu tráfego, e assim arvorados em m ascates aqueles labregos, que no reino nem para m oços de servir prestavam , de repente se viam senhores de grosso cabedal.

Deste m odo, com pouca discordância de term os, se exprim e um m alévolo cronista pernam bucano no intuito de rebaixar os m ercadores do Recife, quando ao invés lhes tece o m aior encôm io, pondo em relevo o caráter laborioso e paciente desses hom ens, filhos de seus trabalhos e obreiros da própria fortuna.

De dia em dia, pois, ia crescendo o ciúm e entre os dois povoados, na m edida em que o plebeu Recife m edrava com o im pulso de seu com ércio florescente, e a aristocrática Olinda decaía pelo desbarato dos ricos patrim ônios outrora acum ulados pelas fam ílias pernam bucanas.

O prim eiro choque dessa luta de suprem acia política datava do ano de 1685. Desde sua fundação padecera Olinda da falta de boa água potável, reduzida a péssim as e raras cacim bas, pois o Beberibe, que lhe banha as fraldas e podia prove-la em abundância, era então alagado até m uito acim a pela enchente da m aré.

Desvelados os m oradores em rem ediar esse achaque, avisaram m eios de trazer água de longe. Prim eiro abriram um valado de légua para encanar um a levada do Paratibe; m as não surtiu bom efeito, porque era o terreno de m uitas areias que frustravam o trabalho, sum indo a água.

Outra vez intentaram obra sem elhante no Beberibe, tom ando-lhe a veia acim a da m aré e não tiveram m elhor resultado, porque as enlam eavam os gados soltos na várzea. Quando estavam em penhados em aperfeiçoar a obra, substituindo a lavada por um aqueduto de pedra e cal; sucedeu a invasão holandesa.

Depois da restauração, e logo que se restabeleceram os m oradores dos m aiores estragos de suas fazendas, curou a Câm ara de Olinda de prover aquela necessidade de boa água, m as por um novo arbítrio que o engenho, ensinado das m uitas lições da experiência, veio a sugerir.

Em 1685 com boa diligência se levou a efeito o plano que consistia em tapar o rio Beberibe com um reparo de pedra no ponto onde ele costum ava secar na baixa da m aré, e por isso cham ado Varadouro.

Com esse dique, em form a de ponte ou passadiço, im pedia-se a água salgada de subir além , enquanto que a represa do Beberibe form ou um vistoso lago que despej ava as sobras por dezoito canos, fartando a cidade de água doce, com o da grande cópia de peixe que ali se criava.

Desta obra se aproveitaram tam bém os do Recife, que m andavam em canoas encher as vasilhas nas bicas do Varadouro, especialm ente para as aguadas dos navios; pois suas cacim bas, com o as de Santo Antônio, eram salobras e cheias de lim o.

Não obstante foi a ponte, na frase do cronista, um a figa para os m ascates, os quais não podendo sofrer que Olinda se lograsse de tal vantagem sobre o Recife, buscaram traça para a desforra, que em m á hora lhes trouxe a fortuna adversa.

Aconteceu, seis m eses depois, que abrindo-se uns barris chegados de São Tom é dias antes, estivesse a carne que traziam corrom pida a ponto de m atar logo ali de pronto com o ram o da peste o tanoeiro e m ais quatro que o aj udavam , desenvolvendo-se em seguida um a devastadora epidem ia.

Entrou o povo do Recife a clam ar que todo o m al proviera da tapagem do Beberibe, pois estagnadas as águas onde cresciam tantas ervas, era de prever que se envenenassem aquelas com a podridão destas, infeccionando os ares de toda aquela redondeza.

Sem m ais dem ora levaram os m ercadores sua queixa a El-Rei, que m andou ouvir sobre o caso os m édicos de sua real câm ara. Parece que naquele tem po a higiene pública estava tão adiantada em Lisboa com o no Rio de Janeiro, c que os físicos-m ores do Senhor D. Pedro II de lá não tinham que invej ar aos do Senhor D. Pedro II de cá.

Reuniu-se em j unta a m estrança e conveio que efetivam ente a peste provinha da represa do rio. Houve quem notasse a coincidência de terem aparecido os prim eiros casos da m oléstia na ocasião de abrirem -se os barris de carne, assim com o a circunstância de não se haver m anifestado a epidem ia em Olinda, que tinha o Varadouro à beira.

Não toscanej aram os preclaros rabichos, e decidiram verbis magistri que era urgente rom per-se o dique e deixar que o rio despej asse livrem ente com o dantes a correnteza de suas águas, com o que cessaria o contágio. E assim o m andou El-Rei em carta à Câm ara.

Im agine-se com o receberiam os m oradores de Olinda essa ordem estulta, que vinha destruir o fruto de tam anhos esforços e econom ias; e quanto podiam o respeito e obediência à régia autoridade, pois sopitaram a revolta dos brios e dos direitos oprim idos desses povos leais.

Ficou, porém , no coração pernam bucano um entranhado ressentim ento, e crescendo todos os dias o desprezo com que os nobres tratavam a gente do Recife, passaram a designá-la pelo epíteto de m ascates.

Esse term o, derivado do nom e de um reino da Índia cuj os naturais eram dados ao com ércio, significava em princípio entre os portugueses de Goa o m esm o que m ercador am bulante que percorria várias terras à m aneira do Oriente.

Com o andar dos tem pos veio a servir unicam ente para exprim ir o m ister baixo e desprezível de bufarinheiro ou regatão que apregoa pelas ruas. Tão afrontoso era dar-se tal nom e a um m ercador desse tem po, com o seria hoj e em dia cham ar em estilo clássico de traficante a um hom em de negócio.

Retaliaram os do Recife com a alcunha de pés-rapados que puseram aos naturais, não só pela circunstância de andarem eles descalços e à ligeira, com o que se desem baraçavam no m anej o das arm as e na celeridade da m archa entre o m ato fechado, com o por alusão à estreiteza de m uitos fidalgos caídos em com pleta penúria.

Soberbos os m ercadores com a prim eira vitória na questão do Varadouro, puseram a m ira em cousa de m aior m onta, com o era o foral de vila para o Recite, o qual um a vez independente de Olinda e com governo próprio, não tardaria em derrotar a velha cidade que lhe estava sugando a seiva.

Razoaram os advogados, pois j á naquele tem po os havia políticos e adm inistrativos, com o se vê da crônica desta guerra que talvez nunca rom pesse, se eles não a tivessem por form a enredado, que não houve m ais j eito de a desatar.

Foram procuradores a Lisboa com boas propinas e o preciso para azeitar as m olas da m áquina régia, seguindo no m esm o navio um a representação em que o governador D. Fernando de Lencastro expunha a El-Rei a conveniência de erigir-se o Recife em vila.

Desta vez, porém , não lograram os m ercadores a diligência. Ou porque D. Pedro II de Portugal tam bém adotasse a m áxim a política - uma no cravo e outra na ferradura; ou porque ainda não se tinha de todo apagado na corte lusitana a m em ória do heroísm o pernam bucano na restauração da capitania, resolveu Sua Maj estade pela carta régia de 28 de j aneiro de 1700 que de m aneira algum a se devia por em prática esse arbítrio de separar o Recife da cidade de Olinda, recom endando que para conservação dela, ai fizessem assistência o governador e m inistros com o em repetidas ordens havia determ inado.

Todavia não esm oreceram os m ercadores; desenganados de obter por enquanto a realização do prim eiro intento, cuidaram de se insinuar na governança da terra, esperando m ais tarde com a popularidade de suas doblas e patacões, apossarem -se dos cargos principais da vereança.

Hoj e em dia usa-se traficar à boca do cofre com os títulos e as com endas, naqueles tem pos m enos adiantados não se faziam as cousas com a sim plicidade m oderna. Os m ercadores que j untavam grosso cabedal com pravam os serviços de algum fidalgo rafado de quem se j ustificavam parentes com testem unhas quej andas às que ora servem para fazer m oço fidalgo de quatro costados a qualquer beldroegas. Com essa papelada requeriam para Lisboa um hábito de Cristo em que se enfunavam tanto com o os excelentíssim os de agora.

Assim besuntados dessa nobreza postiça, j ulgavam -se os m ais ricos dos m ascates idôneos para os cargos de oficiais da Câm ara. Mas saíram -lhe os pernam bucanos com em bargos, pela razão de não serem naturais aos quais som ente com petia o governo das terras, não podendo nela ingerirem -se forasteiros que vinham de fora buscar fortuna.

Durou este pleito até l703 em que m andou El-Rei adm itir aos pelouros todos os habitantes da cidade, sem diferença de naturais e vindiços, um a vez que

estivessem nas condições da Ord. do liv. 1º, tit. 67, e Leis de 12 de novem bro de 1611 e 6 de m aio de 1649.

Triunfantes com a decisão régia, os m ercadores em penharam quanto podiam na prim eira eleição e conseguiram alguns oficiais e alm otacés. A consequência não se fez esperar: arm ado da vara branca, o Sr. Sim ão Ribas foi taxando por preço excessivo tudo que vendiam os taberneiros, seus patrícios; e as frutas e víveres que traziam os m atutos, pô-los a real.

Foi geral o clam or em Olinda. Reunido o Senado, representou sem m ais tardança a El-Rei m ostrando o perigo de se adm itirem na governança os forasteiros.

Por essa ocasião lem braram os pernam bucanos a El-Rei que ainda estavam pagando os chapins da Senhora Infanta D. Catarina, e portanto se devia ter algum a contem plação com tão leais vassalos, não os privando dos poucos m eios de que tiravam para se quitarem dessa finta, com sacrifício de sua subsistência.

Essa história dos chapins m erece um com ento. Costum avam os reis de Portugal, quando lhes nascia filho ou casavam filha, lançarem um tributo sobre os povos de certas cidades ou vilas a pretexto de com por-lhes o enxoval.

Casando-se a Infanta D. Catarina em 1661 com Carlos II da Inglaterra coube às possessões do ultram ar fornecer à noiva os chapins, o que ainda estavam fazendo os pernam bucanos quarenta e dois anos depois.

Dignos filhos daqueles pais som os nós brasileiros que nascem os, uns para trapaceiros e outros para cangueiros. Ainda hoj e o nosso bom e paternal governo finta-nos com os im postos da Guerra do Paraguai; e j á nos am eaçam com outra guerrinha de que ficou pej ada aquela.

Acudiu D. Pedro II a seus vassalos pernam bucanos, declarando que não podiam servir cargos da vereança os m ercadores, visto ser esse um ofício peão, na conform idade das leis do reino; depois, entrando a governar com o regente na m oléstia de seu pai a Infanta D. Catarina, Rainha de Grã-Bretanha, a tal senhora dos chapins, aproveitou a ocasião para agradecer a condescendência dos pernam bucanos.

Pela provisão de 8 de.m aio de 1705 declarou que por m ercadores se havia de entender unicam ente os que assistissem de loj a aberta, vendendo, m edindo e pesando ao povo.

Sendo em núm ero lim itado os m ercadores de grosso cabedal que j á se não ocupavam com o m eneio de seus negócios, m ercando no balcão ou trapiche, ficaram os de Olinda tão superiores ainda, que j á não podiam tem er-se dos contendores na eleição.

Quanto aos m ascates, essa últim a derrota não fez senão aferrá-los ainda m ais à prim eira ideia da separação,. na qual desde ai trabalharam sem descanso, dispondo na capitania, com o na m etrópole, os elem entos para o favorável despacho de sua pretensão.

Foi nestas circunstâncias que a 9 de j unho de 1707 tom ara conta do governo da capitania Sebastião de Castro Caldas.

Com o de costum e, os nobres de Olinda e os m ercadores do Recife porfiaram em obsequiar o novo governador à sua chegada, com a m ira de ganhá-lo a seu partido. Durou m ais de ano essa cortesia hospitaleira, pelo j eito com que soube o fidalgo trazer am bas as parcialidades em baladas em esperanças.

A saliência do caráter político de D. Sebastião de Castro Caldas era um a suscetibilidade de proem inência. Elevado ao alto posto de capitão-general de Pernam buco, sob um a aparência de filosofia e abnegação, ele não tolerava em torno de sua pessoa vultos que pudessem disputar-lhe um a parcela m ínim a do respeito e até m esm o do em baim ento público.

Qualquer superioridade fazia-lhe som bra, e sua preocupação incessante era abatê-la, não derrocando-a, pois era avesso ao estrondo e a violência, m as aluindo-a aos poucos. Essa obra subterrânea, seu espírito a prosseguia com um a tenacidade fria e inflexível, apesar da indecisão e m aleabilidade de que pareciam envoltos os seus atos.

Se algum hom em granj eava por seu m erecim ento a estim a geral, cuidava logo D. Sebastião de o cham ar a si, não só para que aos olhos da gente essa elevação parecesse m ero efeito de um a liberalidade que ele podia retirar quando lhe aprouvesse, com o para respirar o puro incenso das alm as superiores. Além de que assim ficavam -lhe essas papoilas a j eito de ceifar.

Desde os prim eiros tem pos que através das m ostras de respeito e term os corteses sentiu o governador a têm pera do caráter altivo e independente dos pernam bucanos, os quais prezando-se de súditos leais, tinham o nobre e legítim o orgulho de haverem pelo esforço de seu braço restituído à coroa portuguesa esse im portante estado ultram arino.

Brios e escrúpulos eram asperezas que arranhavam a cútis m oral de Sebastião de Castro. Ele não se acom odava senão com as alm as flácidas e dúcteis, que tom am todas as feições e prestam -se à guisa de pelica para um a luva com o para um chinelo. Destas gostava de apossar-se, a ponto de torná-las aderências da sua.

De tal quilate, não faltavam exem plares entre os m ascates, pois o balcão era o berço onde se criavam , com o o dinheiro o leite de que se am am entavam . Por isso, continuando a favonear a nobreza, o novo governador prelibava o suave prazer de fazer do Recife um espinho para cravá-lo no orgulho de Olinda.

Em segredo representou a El-Rei m ostrando a urgência da separação do Recife; e tão avisadas foram suas razões que, finalm ente, por carta régia de 19 de novem bro de 1709 foi criada a vila.

Digam os em abono da verdade que foi essa um a m edida de toda j ustiça. O Recife, a prim eira praça de guerra do Estado do Brasil, com o se pode ver do inventário feito em 1654, ao tem po da sua evacuação e entrega pelos holandeses; o ponto com ercial m ais im portante ao norte do Cabo de Santo Agostinho, com um a população de cerca de oito m il alm as, e as m elhorias que lhe tinham ficado do dom ínio flam engo quando era corte do Conde de Nassau; o Recife não devia com a restauração ter perdido o seu título de cidade.

Mas apesar de todas estas razões políticas, Sebastião de Castro descobriria algum a conveniência para adiar a criação da vila, se não estivesse nisso em penhado o seu am or-próprio.