A Guerra dos Mascates

José de Alencar · Capítulo 20 de 33

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A Guerra dos Mascates

Capítulo III

 

ONDE SE LOBRIGA O VULTO DO BISBILHOTEIRO QUE ESCREVEU O ALFARRABIO ENCONTRADO PELO SACRISTÃO

A criação da vila do Recife, tão porfiada pelos m ercadores, devia ser o desfecho dessa contenda em que os dois povos rivais andavam em penhados, havia m ais de dez anos.

Com outro governador assim teria acontecido; m as com Sebastião de Castro não passou de um a fase nova da luta, que tornou-se m ais ardente pelo despeito de um partido e a arrogância de outro.

A indignação dos m oradores de Olinda, quando entre eles estourou a nova com o um a bom ba fulm inante, não guardou term o e prorrom peu em am eaças e assuadas. O que m ais revoltava aos pernam bucanos era a falsa fé com que o governador, adorm ecendo-os na confiança inspirada por palavras insinuantes, havia sorrateiram ente obtido do conselho ultram arino a separação do Recife.

Em verdade era com pleta a segurança dos pernam bucanos. Conversando o velho Capitão-Mor João Cavalcanti um a tarde em palácio com o governador, e trazendo a prática para o ponto que m ais lhe interessava, teve em resposta estas form ais palavras: -"Sobre este particular pode ficar descansado, senhor capitão-m or. O Recife, pelo que ouvi em Lisboa, tão cedo não será vila."

Estas palavras, referiu-as textualm ente João Cavalcanti aquela m esm a noite, no serão costum ado, e ninguém houve que se não tranquilizasse com o penhor dado por Sebastião de Castro ao venerando ancião. Não conheciam ainda a polpa do hom em que os governava.

No m eio do geral espanto, causado pela noticia, interrogavam -se todos acerca daquela prom essa; e os principais acercavam -se do capitão-m or para ouvir dele os porm enores do caso e a repetição fiel da asseveração do governador.

Não ocorria ao velho fidalgo que pudesse alguém duvidar de sua palavra; m as incom odava-o a só ideia de haverem faltado à fé por ele assegurada. Além de que essa fé tam bém lhe fora dada a ele por quem se prezava de cavalheiro e com o cavalheiro lhe devia contas severas.

Recobrando um assom o do antigo vigor, m ontou o capitão-m or a cavalo e sem m ais acom panham ento do que um paj em , deitou-se a galope para o palácio do Recife onde estava o governador inquieto com o alvoroto de Olinda.

Nessas ocasiões em que se em brulhava a política, se não m ente a crônica, o fígado de Sebastião de Castro, com o o de César, sofria a repercussão do abalo m oral; m as a bílis, prontam ente corrigida, nunca perturbava a fleum a desse organism o.

Já àquela hora andava o Aj udante Negreiros num corrupio, despej ando ordens pelos fortes e quartéis, enquanto o governador em conferência com o Secretário Barbosa de Lim a com binava nos panos quentes e cataplasm as com que se devia acudir ao desm ancho.

Pressuroso saiu Sebastião de Castro ao encontro do capitão-m or a quem recebeu com desusada afabilidade, m as com isso não desarm ou a carranca do velho, que foi direito e rij o ao ponto.

Não podia o governador ocultar a parte que tivera na criação da vila, pois a carta régia se referia positivam ente à sua inform ação; m as ainda quando houvessem om itido essa circunstância, não a negaria ele. Em sua opinião a m entira é um expediente grosseiro, que som ente em pregam os espíritos frouxos e indolentes.

Ouvida a queixa, se não am arga exprobração do velho Cavalcanti, respondeu-lhe o governador sem alterar-se:

— O que disse ao senhor capitão-m or e m antenho, foi ter ouvido em Lisboa a quem o devia saber, a asseveração de que tão cedo não seria vila o Recife.

— Mas não se dirá...

Im petuoso com o sem pre interrom pera João Cavalcanti ao fidalgo para retrucar-lhe sobre a contradição de seu procedim ento. Atalhou-o o governador:

— Quanto a haver eu representado em favor da criação da vila, com preende o senhor capitão-m or, com o cavalheiro que é e leal súdito, que eu faltaria ao m eu dever de governador desta capitania, não inform ando a El-Rei das necessidades da terra, para que Sua Maj estade as provej a de rem édio. Nem podia deter-m e neste particular o m uito que m e m erece a nobreza, pois contava infalível o indeferim ento.

Os Césares m odernos que se deixam vencer pelos m inistros quando lhes convém enfeitar-se de suas lentej oulas dem ocráticas, não responderiam com m aior dignidade e abnegação a algum favorito sacrificado: "Sou seu am igo, m as lem bre-se que tam bém sou rei constitucional." O que em gíria cortesã quer dizer: "Se agora para guardar as aparências fui obrigado a despedi-lo com o um im portuno, com j eito posso fazê-lo sota-rei m ais tarde."

— O caso é que os m ascates lograram afinal o que em dez anos não puderam .

Estas palavras soltou-as o capitão-m or com um tom m orno, pois dissipado o prim eiro assom o, j á se lhe relaxava a fibra.

Sorriu-se o governador:

— Lograriam ...? disse ele com um a entonação que não se podia afirm ar se era de interrogação, se de reticência.

— Pois Vossa Excelência ainda o põe em dúvida? exclam ou o capitão-m or.

— Por linhas tortas escreve-se direito, em havendo arte.

— Confesso que não atino.

— Mandou-m e El-Rei criar vila no Recife; m as a vila não está criada, e pode bem ser que se não chegue a criar; entretanto que, em balados nesta esperança, os m ercadores se aquietarão.

— Lá diz o ditado - "que entre a boca e a m ão vai o bocado ao chão." E assim acontecerá se tiverm os por nós a Vossa Excelência que em respeito a seus brasões, com o grande fidalgo, se deve à nossa causa que é a da nobreza contra a ralé.

— Neste posto de governador, devo-m e a El-Rei prim eiro, e aos povos depois, sem distinção de nobreza e peonagem . Mas não careceis de escudo, com os títulos que tendes. Do que precisais é de m oderação e tolerância para atrair à nobreza pessoas abastadas e preponderantes.

— Não se costum a entre nós, senhor governador, repelir os que vêm com o am igos, ainda quando não trazem cabedais, que m ercê de Deus não cobiçam os.

— Será então falso quanto m e referiram ?

— Ignoro o que fosse.

— Que o alferes Vital Rebelo requesta um a sobrinha vossa, a qual lhe corresponde ao afeto; m as vós, ou os vossos, a tendes por m odo defesa, que ao valente nam orado custa-lhe um assalto d'arm as cada vez que se avista de longe com a form osa dam a?

— Há razões particulares, respondeu João Cavalcanti reservado.

— Estas razões, senhor capitão-m or, são desarrazoadas. Se o pai de Vital Rebelo ficou senhor do engenho e m ais haveres do finado Luís Barbalho, m arido de vossa sobrinha, m ais pela prodigalidade deste do que pela usura daquele, que m elhor m eio de reparar esse revés da fortuna do que devolver por rim a acertada aliança, ao casal donde saíram os bens dissipados?

Calou-se o capitão-m or.

— Que dizeis a isto? insistiu o governador.

— Digo que pode bem ser estej a a razão da parte de Vossa Excelência.

— Neste caso, por que não m a dá o senhor capitão-m or fazendo o que lhe aconselho?

— É do agrado do senhor governador o casam ento?

— Penso, respondeu o governador elevando a voz com o para acentuar m elhor o seu alvitre, que será de grande proveito ao partido e à fam ília a aliança de sua sobrinha D. Leonor Barbalho com Vital Rebelo, pois é este, além de cavalheiro de m uitas prendas, hom em de dotes superiores.

Desde algum tem po, que um dos tom a-larguras do palácio andava rondando sôfrego de bispar algum a cousa da prática. Não escapou-lhe um a só das últim as palavras do governador, que alteara a voz a talho de ser escutado.

Nessa m esm a tarde Vital Rebelo sabia do que a seu respeito dissera o governador.

Foi extrem a a surpresa do m ancebo.

Apesar de filho de m ercador e partidário do Recife, não era ele dos que estavam nas boas graças de Sebastião de Castro; bem ao contrario, tinha im pulsos de dignidade e altivez que deviam beliscar o orgulho do fidalgo.

Assim não lhe dava excelência, tratam ento que não com petia aos governadores, m as que eles recebiam de todos com prazer em vez da chata senhoria, havendo-os que o im punham de preceito, bem com o outras cortesias a que não podiam pretender, pois eram prerrogativas da m aj estade.

Guardando ao governador a reverência que j ulgava devida, o alferes cortej ava-o com o chapéu quando o encontrava, m as não ficava de cabeça ao tem po, com o usava a gente principal, que não se cobria nem voltava as costas estando ele presente e até o perder de vista.

Tam bém não era Vital assíduo em palácio onde com pareciam habitualm ente todos os que tinham oficio público ou posto de m ilícia e ordenanças. Algum a vez que lá ia de longe em longe, levava<) m era urbanidade e não lisonj a.

Passava Sebastião de Castro por filósofo e desabusado acerca dessas m aneiras palacianas. do que m uito se lastim avam os oficiais de sala, então com o agora m ais realistas do que o rei. Todavia nunca se lem brou o fidalgo de acabar com tais práticas, no que bem m ostrava não lhe serem desagradáveis e m enos incôm odas.

Mas por cim a dessas esquisitices veniais, tinha Vital Rebelo pecado m ortal. Um a ou outra vez em discurso com o próprio Sebastião de Castro, e m uitas nas práticas dos m ercadores, chegara a dizer que os governadores abusavam do, seu regim ento, j á ingerindo-se nas cousas de j ustiça, j á provendo postos que não cabiam em sua alçada.

E não andava ele m al inform ado, pois ao próprio Sebastião de Castro m andou El-Rei estranhar asperrissimamente por se introm eter nos negócios de j ustiça, e tam bém por exigir que a Câm ara de Olinda lhe desse o tratam ento de Senhor, a igual da m aj estade. Prova isto que o rei-povo é m enos que o rei-só zeloso de suas prerrogativas, e m ais bonachão com seus governadores e m inistros.

Com tais antecedentes não havia reparar na surpresa de Rebelo ao saber do conceito em que o tinha Sebastião de Castro e do em penho que tom ava pela realização do m ais ardente voto de sua alm a.

— Fui inj usto! É hom em de ânim o generoso, e um nobre coração! disse o m ancebo penhorado da fineza.

Havia então no Recife um letrado que vivia dos provarás, porém m ais da rigorosa econom ia, a que se acostum ara. Cham ava-se Carlos de Eneia e era hom em de m eia-idade, m etido consigo, que o m ais do tem po levava a rabiscar papel.

Há suspeitas de que sej a o incógnito autor da crônica m anuscrita donde extraíram -se estas m em órias, e na qual porventura se refugiava o advogado do noj o pelas m isérias públicas que o rodeavam .

Fora Eneia algum tem po secretário de Sebastião de Castro, quando este governara o Rio de Janeiro, bem que não se dem orara no cargo, pois ele, com o de D. João de Castro disse Jacinto Freire, "podiam sofrê-lo com o vassalo, m as não com o criado".

Do pouco tem po de serviço lhe ficara larga experiência do natural de Sebastião de Castro, de quem algum as vezes costum ava dizer: "que era varão insigne, porém no posto a que o subira a fortuna, andava desencontrado, desgovernando tudo pela ânsia de m uito governar".

Ligava Rebelo ao letrado um a afeição que nascera da conform idade no tem peram ento de suas alm as. Estando à noite com o am igo, referiu-lhe o alferes o ocorrido, m ostrando-se rendido à galhardia de Sebastião de Castro.

Sorriu-se Eneia, citando um verso de Sírus:

— Nisi qui sit facere, insidias nescit metuere.

— Que queres dizer com isto? tornou Vital.

— Que vês a im agem alheia no espelho de tua alm a; m as eu, que a vej o à luz da experiência, descubro som bras que te escapam .

— E quais são elas, não m e dirás?

— O elogio é um m eio m uito usado, m as sem pre novo, de render a vaidade; e neste caso tem outra serventia, qual é convencer-te da gentileza de quem os faz. Se até agora nutrias um a prevenção contra Sebastião de Castro, de hoj e avante vai ele tentar-te pela m ais perigosa das seduções, que é a da virtude. Acatando nele, j á revestido das dignidades do governo, um m odelo de honradez e sím bolo de j ustiça, que não exigirá de tua veneração que tenhas força para recusar? Serão em com eço cousas de pouca m onta que não assustarão teus escrúpulos; m as esse cam inho é assim talhado, que em tropeçando nele, j á ninguém se pode erguer, e para subir não há outro j eito senão ir de rastos ou às gatinhas.

— Estou à prova! disse Vital com sobranceria.

— Ainda não; por ora pertences ao am or, que é capaz de todos os raptos e entusiasm os com o de todas as loucuras, que faz herói ao cobarde e m ártir ao egoísta. É na idade da am bição que se prova a têm pera aos hom ens.

— E qual é essa idade? Não dirás que sej a a tua, pois nela te condenas ao esquecim ento.

— Não se trata de m im , que j á não pertenço ao m undo, nem cuido senão de m irrar a m úm ia deste espírito para deixá-la à posteridade. Não que eu creia nisso que se cham a pom posam ente a j ustiça da história; m as creio no sarcasm o retrospectivo do futuro; creio no desprezo póstum o pelas torpezas que j á não aproveitam , e nessa gargalhada eterna que desde o princípio do m undo atravessa as idades fustigando com o um látego todas as grandezas ridículas e grotescas.

Caindo em si, o advogado reprim iu esse rasgo, com o hom em que j á não perm itia à sua palavra austera as flores da eloquência:

— E eu a falar de m im , quando é de ti e do governador que m e devo ocupar! Quer-te ele casado...

— Tam bém entra nisso um plano? perguntou Rebelo gracej ando.

— E o m ais perigoso. Moço, rico, benquisto, brioso, ornado de prendas tão luzidas que o próprio Sebastião de Castro não as pode esconder, és um m anj ar de rei. Tua altivez j á passa a escândalo e faz som bra em palácio. Neste m om ento não tem o governador com que fascine teu coração de nam orado. Suas insígnias de capitão-general não valem para ti o requebro d'olhos e o sorriso de tua dam a. Mas casado e com um a fidalga de Olinda, tu, m ercador e filho de m ercador, podes responder por tua isenção?

— Juro-te que sim ; e se m e conhecesses, não o duvidarias.

— Não te conhece ele, e por isso espera que tua m ulher será a chave com que os Cavalcantis te abrirão a consciência e se apossarão dela até fazerem de ti um a criatura sua. Eis por que Sebastião de Castro se em penha por teu casam ento.

— Tenho na m elhor estim ação o teu voto em tudo, m as neste ponto cuido que exageras a habilidade do hom em ; não o suponho capaz de tal argúcia, e nisso faço m enos j ustiça à sua virtude, do que ao seu engenho.

Estavam os dois am igos no gabinete do advogado, que seguia a prática andando de um a outro lado. Passava ele por diante da livraria e acertou de cair-lhe sob os olhos um volum e.

— Conheces este livro? perguntou apontando o rótulo com o índex.

— O Príncipe?

— Anda em m oda com pará-lo com Sebastião de Castro; e j á ouvi de alguém , que o governador não era senão o livro encadernado em pergam inho hum ano. Com essa m aledicência cuidam deprim i-lo, e o absolvem . Maquiavel foi o político de seu tem po, com o este o é de sua escola. Observa-se em am bos a estranha fusão das m áxim as severas da m oral com os m anej os de um a astúcia desabusada. Agora a dedicação ao bem público; logo após um frio egoísm o. A razão disto, querem sabê-la? É que para eles, que têm os povos em conta de crianças, pois os conheceram assim , o governo do Estado não é outra cousa senão a arte de enganar os hom ens para o bem de todos.

Essa convicção robusta não deixou de abalar o m ancebo, que m ovido em parte dela e em parte da deferência com que tratava ao am igo, disse-lhe em ato de despedir-se:

— Que m e aconselhas então?

— Nada. Segue teu cam inho; serás iludido por tua vez e aprenderás à tua custa. Aqui hás de tornar cedo, porque não és dos que aprendem a grim par e se agacham para subir.