A Guerra dos Mascates
Capítulo VI
COMO EM TODOS OS TEMPOS SE FORMAM OS PARTIDOS
Lisardo estava sucum bido.
Era ele m ancebo de vinte anos; tinha um a cabeça grega em talhe árabe. Os cabelos castanhos anelados caiam -lhe sobre as espáduas, m oldurando o belo sem blante.
Seu gibão verde era do m elhor veludo de Alcobaça, m as j á bastante usado; os calções apenas de belbute de algodão cor de azeitona. Contrastava, pela novidade e frescura, a véstia escarlata, em bora feita de um a serafina bem ordinária.
Sem elhante anom alia no traj o, não a deve estranhar quem sabe com o viviam os rim adores daquele tem po. Se algum não se recorda, leia Nicolau Tolentino, o grâo-m estre da ordem dos poetas m endicantes do século XVIII. Que som a de engenho se não despendia então para arrancar dos ricos um a propina que hoj e se obtém com um a sim ples folha de papel e a epígrafe subscrição?
Foi o Nuno quem reatou o fio à prática interrom pida.
— Então, Lisardo, ficou você ai tão m urcho. Tudo isso é m edo?
— Ou cousa que se parece! acrescentou o fuinha piscando.
— Bem sabem vocês que eu não sou para estas cousas. A culpa, se há, m inha não é; m as de quem m e fez assim .
— Fique você descansado, que o ponho sob m inha guarda, tornou o m ascatinho em tom de im portância.
— Estava eu bem aviado! respondeu o poeta sorrindo.
— De um a cousa porém ainda não cogitaram vocês, e m e parece a principal, observou o escrevente.
— Vá dizendo!
— Dem os que se em brulhem as cousas ainda m ais do que j á estão e haj a realm ente um levante. Notem bem que eu não asseguro; é um a sim ples suposição.
— Com a breca!... Asseguro eu, exclam ou o Nuno.
— Pois sim ; caso apareça o barulho, cada um de nós há de tom ar seu partido. O do Nuno j á se sabe; há de ser o da fam ília.
— Quem lhe disse?
— Assim parece.
— Vê-lo-em os. E você, Lisardo, por quem há de ser?
O poeta estrem eceu; tinham -lhe tocado na tecla.
— Eu?... Vej o o caso bem intrincado. Todo o m eu indivíduo desde a raiz dos cabelos até a pontinha dos pés devia ser pelos senhores de Olinda, pois são eles que abrigam e m antêm este físico. O verso lá na cidade é m oeda corrente: paga o j antar na m esa dos Cavalcantis e Figueiredos, e de vez em quando rende um vestuário que o dono j á não usa, porque desm ereceu na cor, m as que ainda faz sua vista cá no Recife. Os senhores m ercadores são excelentes pessoas...
— Todos reconhecem !... atalhou o escrevente.
— Mas destas bandas os sonetos e décim as não valem um ceitil. Podia correr o bairro todo que não acharia por eles dez réis de com inho.
— Menos essa! interrom peu Nuno. Sei eu de certa pessoinha que tem seu fraco por um as rim as, especialm ente por certo acróstico... hem ! certo acróstico...
E piscou o olho para o com panheiro.
Perturbou-se o poeta, e acrescentou logo para disfarçar:
— Os senhores m ercadores, com o é de razão, preferem Mercúrio a Apolo e as nove irm ãs.
Não escapou ao fuinha nem a alusão de Nuno, nem o vexam e de Lisardo.
— Mas afinal de contas, disse ele, em que fica você?
— Sim ; dizia que todo eu estava em Olinda; m as cá m e ficou por m eus pecados neste Recife um bocadinho do tal eu, que pelos m odos pode tanto, se não for m ais do que o resto, não obstante ser este um quase todo. Ora, por m ais que eu faça para desatar este nó daqui, creio que antes de o conseguir, prim eiro m e rom peria a m im . Portanto o seguro é concertar-m e com as duas vontades, para que m e deixem ficar neutro na contenda.
— E caso não queiram elas estar pelo aj uste?
— Por que não, se bem nem m al faço a qualquer das duas?
— Não gosto de ser leva-e-traz; m as olhe que j á em casa do capitão-m or um destes dias se cochichou: "Tenho notado que o Lisardo vai m uito pelo Recife." Bem entendido, contaram -m e, que eu não ando lá pela casa desses senhores. Mas no cartório sabe-se de tudo.
— Pois se não houver outro m eio que m elhor acom ode as cousas, nesse caso vencerá a força m aior.
— A barriga? perguntou o Cosm e com um a m ím ica expressiva.
— Barriga não passa de vasilha: força é a fom e; m as vence a do coração, por m aior. Senão vej am : ainda não j antei hoj e; e contudo estou bem contente de m inha vida.
— Assim pende você decididam ente para o Recife! concluiu o Cosm e.
— Se não houver outro rem édio?
— Pois então, atalhou Nuno, erguendo-se de um salto, com igo se há de haver o Sr. Lisardo de Albertim , poeta d'água doce, que m e anda esgravatando versos no m onturo para garatuj á-los nas paredes! Está entendendo?...
Aquele pequeno repouso de um a natureza im petuosa devia ter breve sua explosão. Enquanto o m acio poeta o contem plava m aravilhado, e o escrevente lhe espreitava os m ovim entos por detrás de um a cara sonsa, o caixeiro prorrom peu:
— Que estão ai vocês em basbacados a olhar-m e? Cuidaram que por ser filho de m ascate, e dos graúdos, havia de entrar na súcia? Pois enganaram -se, digo-lhes eu. Se fosse com outra gente, nada m ais natural que aj udar os seus... Regra do Mateus! Mas com a tal m ascataria... Pensam lazer neste Pernam buco com os filhos o m esm o que lá na santa terrinha fizeram seus pais deles, que os em purraram para cá, no porão de um navio, com um a réstia de cebolas e um par de tam ancos! Vej o cavalos que nascem da m esm a besta, e uns são m archadores, outros choutões; uns levam albarda, m as outros têm arneses de veludo! Só o filho de m ascate é que há de ser m ascate por força! Um a figa!... Este m uro falará, se m e virem m ais regatear!
Neste ponto de sua vigorosa alocução avistou Nuno o pacote, e travando-o com ím peto, im prim iu-lhe tal rotação que o arrem essou na praia.
— Vai-te, perseguição! Assim hei de eu fazer a todas as drogas que m e caírem nas m ãos, e tam bém aos donos e vendedores das ditas!
Anim ou-se o poeta a introduzir um a palavra no m eio daquela im petuosa loquela:
— Mas...
— Olhe! Eu não sou versista com o você... Não tenho veia para a cousa; m as cada um se arranj a com o pode. Já fiz um m ote para m im ; há de ser m inha divisa nesta guerra! Vej am !...
Agarrando os dois cada um pelo braço, levou-os o caixeiro ao m uro onde riscara o Lisardo suas rim as. Enchera as linhas o Nuno, tendo cuidado, para lhes dar igual com prim ento, de graduar a letra. Saiu a seguinte com posição, que se rem ete aos m odernos fabricadores de poem as em todos os m etros:
Para mascate não valia a pena nascer
Não suporto mais um instante!
Oh!... sorte inconstante!
Arre! que estou cansado de tanto sofrer.
— E m ais é que tem seu j eito! exclam ou o fuinha extático ante a obra. Você dá para poeta, Nuno!
— Então, que diz à quadra, Lisardo?
O poeta estava horrorizado:
— Quadra!... Quadrada seria a sandice se a escrevesse de outra form a!
— As que você tem m andado à m ana Belinha, sô pateta, não são m elhores!...
— Nuno!... m odulou o Albertim em dois tons, sustenido e bem ol, ao m esm o tem po que lhe indicava com o olhar a presença do escrevente.
— Ora! Que bem m e im porta?
Felizm ente Cosm e naquele instante parecia m uito apurado a reler a bela produção de Nuno, a qual decididam ente lhe dera no goto. Era de j urar que nada percebera, pois m ostrou-se inteiram ente alheio ao caso. Se porém as observações fossem cousas corpóreas, o bucho do escrevente j á estaria tão boj udo, que o não pudera ele decerto conter no cós das bragas.
Seguira-se naturalm ente um a pausa no diálogo. Os nossos cam aradas form avam então um triângulo, cuj o vértice era o Cosm e ao pé do m uro. Quando este se convenceu que estava de todo passado o episódio do nam oro, voltou-se para os com panheiros:
— Lisardo, você há de ensinar-m e tam bém a fazer a m inha quadrinha. É bom a gente saber de tudo.
Não o atendeu o poeta, que estava rum inando, m as em prosa desta vez. Ao cabo saiu-se com esta:
— Ouça, Nuno; sou m ais velho que você dois anos; e portanto estou no caso de lhe dar conselhos, com o é dever dos m ais idosos para com os m ais m oços.
— Que apoquentação do diabo! gritou o Nuno. E todos eles a darem -m e com a m atraca!... Muito m oço, m uito m oço!
— Você não pode tom ar nesta contenda as partes de ninguém m ais, senão daqueles com que estão os seus. Não lhe parece, Cosm e?
O fuinha atento à altercação foi surpreendido por aquela interpelação direta, da qual bem desej ava fugir. Mas Nuno de seu lado voltara-se para ele esperando seu alvitre: força era dá-lo.
— Eu, sim , eu, quero dizer... pensando bem , entendo que... você (para o poeta) ... você (para o caixeiro) tem razão.
— Está ouvindo? exclam ou Nuno.
— Estou!... O Cosm e concorda com igo!
— Não há tal.
— Justa... m ente!... disse o fuinha gaguej ando e escandindo a palavra de m odo a endereçar cada sílaba a um dos com panheiros.
Tinha o Cosm e esse hábito de gaguej ar nas ocasiões difíceis.
— A prim eira pátria, continuou o poeta sentenciosam ente, é a nossa casa; pois está m ais j unto de nós. Traz-nos dentro dela toda a m eninice, com o nos traz no ventre durante nove m eses aquela que nos deu o ser. Que se diria de um a criança que rasgasse por vontade o seio m aterno para sair à luz antes de tem po? Pois este é o caso do filho m enor que abandona a casa de seu pai. É um m au filho: e Deus lhe retira a bênção.
Tais palavras ditas com sinceridade e energia não deixariam de com over o caixeiro em outra ocasião; m as naquela tarde estava ele tocado da fúria guerreira.
— Por que não fazes tu outro tanto do que dizes?
— Bem atirado! m urm urou em aparte o fuinha.
— Não tenho casa, nem pai, Nuno! respondeu o poeta com sorriso m erencório.
— Mas tem lá em Olinda quem lhe agasalha, e não obstante.
— É diferente!
— Qual diferente! Diga que o coração lhe puxa de cá!...
— Ele o confessou! acudiu o Cosm e.
— Pois coração, tam bém eu tenho, que bem m e puxa, e a arrebentar.
— Lá para Olinda? replicou Lisardo pasm o.
— Para lá m esm o!... Ah! você não sabe ainda, que lhe não contei. Pois o alm otacé não teve o descoco de m e dizer ontem quando lhe falei de casar com a filha, a Marta, que eu ainda era um criançola, e que havia de contar ao pai para ele ralhar com igo!...
— Ora essa!... ponderou Cosm e, e acabou a frase com um j eito que fez rir a um dos olhos, o do lado do poeta, e choram ingar o outro, que pusera ao serviço de Nuno.
— Tam bém você m adrugou! disse o Lisardo.
— Com os seiscentos! Ando nos dezoito anos!...
— Dezesseis, Nuno!...
— Que sej a! Já m e nasceram todos os dentes, tenho m ais um palm o de altura do que este carrapeta do Cosm e!
— Nem tanto! replicou o escrevente em pertigando-se.
— E não sou um hom em ?. . . Que m e falta?... Barba?... Não é essencial; o Cam arão tem a cara lisa com o um a m elancia e j á está m adurão!
— E o prim o, o grande Cam arão, dizem que era o m esm o. Nem um fio na cara; na cabeça, sim , com fartura.
— Com isso que nos conta, Nuno, m ais m e enche você de razão. Se o seu cuidado está cá no Recife, não é pelo cam inho de Olinda que há de chegar.
— Isso depende do m odo de caçar de cada um . Você, Lisardo, vai se chegando devagarinho para não espantar a rola. Eu cá atiro de longe, em cam po aberto. O Perereca tem de haver-se com igo, e m ais o pato choco do governador, com o seu aj udante. A pé, na estacada, à lança ou à espada, com o ferro na gorj a os obrigarei a restituir-m e a dam a de m eus pensam entos. Sem pre desej ei um a guerra; e a queixa que tenho de m inha m ãe é não m e haver parido no tem po dos holandeses. Aquilo, sim , é que foi tem po!
— Com esta m e vou! disse a rir o escrevente.
— Mas você, Cosm e, ainda não disse por quem é? Olinda ou Recife?
— Eu sou por am bos!
— Com o pode ser isso?
— Se cada um de vocês vai para sua banda, que rem édio senão dividir-m e por am bos? Eu cá não tenho quem m e prenda a estes ou àqueles, e nada espero de uns nem de outros. Pelo m eu gosto deixava a terra. Mas vocês podem precisar de m im , e então careço de estar em posição de lhes prestar.
Dois apertos cordiais cerraram ao m esm o tem po na m ão que o Cosm e levantava para enxugar os cantos dos olhos, um edecidos por um líquido hum oral que em anatom ia se cham a lágrim a.