A Guerra dos Mascates

José de Alencar · Capítulo 12 de 33

Páginas do PDF

A Guerra dos Mascates

Capítulo X

 

TEM O LEITOR A INESPERADA FORTUNA DE SE AVISTAR COM UMA NINFA OLINDENSE

Enquanto passavam no Recife estas cenas, outras do m esm o dram a se desdobravam na próxim a cidade.

Era Olinda então a princesa daqueles m ares. Reclinada sobre os verdes outeiros, ainda olhava ela com desdém a nova povoação que surgia-lhe aos pés longe em um a nesga de terra sáfara. Ainda sorria altiva aos esforços da hum ilde serva, que tentava quebrar o preito e obediência devidas à legítim a suserana.

E tinha razão. Olinda, a fidalga, a cidade nobre e de m ais antiga linhagem naquelas partes, senão em todo o Brasil, conservava nos princípios do século XVIII a flor de sua beleza. Incendiada em bora em 1630 pelos holandeses, renascera das cinzas e aum entara com o novo influxo que recebeu a capitania depois de restaurada. Quem , pela vez prim eira, a avistava do m ar, em ergindo do seio das ondas, com preendia com o a absurda tradição de seu nom e tanto se vulgarizou. Realm ente era para exclam ar: - Oh!... linda, linda cidade!

O outeiro se elevava com o um triclínio rom ano voltada a cabeceira para o sul, e os pés estendidos pela dilatada cam pina. Aí, nesse leito voluptuoso, se recostava a am ericana cidade. Suas ruas subiam as encostas e serpej avam pela esplanada, a cavaleiro do m ar. Era este um dos encantos de Olinda, e que raras cidades possuem .

De ordinário o viaj ante que chega não vê logo senão o vulto indeciso das cidades; a sua feição está no interior das ruas e praças para conhece-la é preciso atravessar a orla de trapiches ou quintais que lhe form am a crosta. Com Olinda não era assim ; a faceira, garbosa de sua form osura vinha ao encontro do viaj ante e abria o seio para recebe-lo. Quem se aproxim ava de suas ribas alcantiladas, logo via do prim eiro lance o coração da cidade bem com o o fluxo e refluxo da vida no centro da povoação.

Provinha esta singularidade do corte abrupto da m ontanha pelo lado do m ar. Parecia que a cidade fora fendida a m eio pelo desabo da em inência. Tinha esse aspecto algum a cousa de cênico que redobrava-lhe o encanto; com o nas vistas do teatro, o ponto visual era no foco do sitio representado.

Outra graça especial de Olinda era a garridice cam pestre com que ela, cidade nobre, se adornava. Os cam panários erriçados de suas belas igrej as, assim com o os tetos verm elhos dos edifícios, surgiam de um m aciço de verdura. Não havia grupo de casas que não tivesse um a cintura de ram agem e flores. O cam po e a cidade, com o dois am antes se uniam em apertado abraço. A civilização, assim vestida à am ericana, tinha uns ares de louçania e gentileza que a em belezavam .

Dizem que tão bonita era Olinda de longe, quanto feia e incôm oda dentro. Se essa tradição nasceu de gente invej osa, filha das outras terras, ou de algum cronista vendido aos m ascates, é cousa im possível j á de averiguar-se. Mas em todo o caso não desabona a cidade; há belezas para serem adm iradas de longe; outras se querem vistas de perto.

Infelizm ente, aquele viço da altiva form osura não tardava se desvanecer. Lá estava ao sul, num a orla de praia, a m inguada povoação de pescadores, que fora crescendo desde a invasão holandesa; e devia em breve dom inar essas regiões.

Tinha Olinda todas as superioridades. Situação m agnífica, ares saudáveis, água em abundância, terreno fértil, e vegetação opulenta; esses eram os dons da natureza, aos quais o hom em j untara outros: as tradições da prim eira colonização, os edifícios bem acabados, e os m eios de defensão.

Recife era um a ponta de areia, estéril, despida de arvoredo, fétida e doentia, sem outra água potável além da péssim a fornecida por cacim bas. A próxim a Ilha de Santo Antônio estava nas m esm as condições. Mas havia ali um ancoradouro, porta aberta ao com ércio. A indústria, que j á se estreava para um dia se apoderar da civilização e subj ugá-la, devia arrastar a população do alto das verdes e risonhas colinas às praias suj as, e infetas do Mosqueiro.

Assim , a pouco e pouco m inguou a seiva à altiva cidade; suas casas foram desam paradas; tornaram -se erm as as ruas; e o cadáver da form osa Olinda perm aneceu com o seca m úm ia entre a verdura das árvores e as palm as dos coqueiros, únicas de suas galas antigas que não desbotaram ainda hoj e. Para consolo dessa velhice prem atura fizeram -na beata: deixaram -lhe a suprem acia espiritual.

Quando a vi de prim eira vez, transiram -m e o silêncio e m elancolia que a habitavam . Pareceu-m e penetrar o vasto âm bito de um tem plo cristão. Tal era o profundo abatim ento de Olinda, que não podiam reanim á-la a inexaurível j ovialidade e o habitual rum or da colônia acadêm ica, então para ali rej eitada.

Naquela tarde de 11 de outubro de 1710 resplandecia Olinda entre os fulgores do ocaso. A rósea vez das nuvens refletia na branca fachada dos edifícios, e algum as chispas do últim o raio do dia abrasavam os coruchéus das torres. Ao m eio da rua principal que se prolonga pelo dorso da m ontanha, e então com o hoj e se cham ava de São Bento, do m osteiro situado em frente, sobressaíam as outras duas casas nobres, da m elhor aparência naquele tem po.

Tinham sobrado am bas, com j anelas de sacada, revestidas de altas cortinas de rótulas, pintadas de verm elho. A prim eira, m ais larga e de cinco portas, pertencia ao Capitão-Mor João Cavalcanti, pessoa da m elhor nobreza de Pernam buco. A outra, de três portas som ente, era da propriedade e residência do Capitão André Dias de Figueiredo, m orador dentre os principais de Olinda.

Na prim eira sacada da últim a casa percebiam -se entre as gretas da rótula, por onde coavam -se as derradeiras réstias do sol cadente, dois vultos que pareciam de m ulher; e o eram de feito. Estava sentada em cadeira e m ais recolhida, um a j á revelhusca; a outra, m oça e form osa, em estrado e pendida para a sacada, a fim de aproveitar a claridade; pois trabalhava na tram a de um a bolsa de retrós.

— Não se am ofine com isto, m enina! dizia a m atrona.

— Pois, tia, não m e hei de queixar de m inha sorte, que m e fez donzela e casada, sem que o sej a nem um a, nem outra? Não m e pertenço a m im , que sou de quem m e disse o coração; não m e pertenço ao m eu m arido, que dele m e tem separada. Ah! soubera eu do que m e esperava, que não teria consentido! Afinal de contas ele é m eu esposo e eu devia acom panhá-lo...

— Que diz você, Leonor?... Queria então aj uda-lo na guerra que faz aos nossos?

— Quem fala disto, senhora? Sou tão boa pernam bucana, com o a que m elhor for; e tam bém , lhe j uro, ninguém se desvela tanto de am ores por esta Olinda, onde nasci e m e criei, e parece que tudo m e conhece, porque brincam os j untos, quando era eu criança; e vai a ponto que viver fora daqui, creio que não é m ais viver, e sim m orrer-se em vida aos poucos.

— Se pensa por esse teor, de que se arrepende então?

— Eu sei, tia? Tenho cá um a cousa com igo a dizer-m e que se não fossem ao Sr. Vital Rebelo, logo na m esm a noite em que nos desposam os, a intim ar-lhe para m orar em Olinda, ele se não havia de agastar; e depois com o tem po, pedindo e rogando, com o era m eu dever, tudo alcançaríam os dele. E agora!...

Curvou Leonor ainda m ais a cabeça, dando ao colo alvo e flexuoso um a ondulação de cisne, a fim de esconder da tia a lágrim a cristalina que trem ia nos cílios e veio a cair no regaço. Mas a voz não a pôde esconder; viera aquela últim a palavra rociada de prantos.

— Está bom , tornou a senhora; console-se que breve tudo isto acaba. Em vencendo nós aos tais m ascates...

— Contanto que lhe não façam m al! replicou prontam ente a m oça.

— Disso lhe dou fiança, m enina; basta ser seu m arido e m eu sobrinho.

— Mas quando acabará?

— Qualquer destes dias.

— Ah! Deus lhe ouça, tiazinha de m eu coração, exclam ou a donzela esposa, erguendo ao rosto as m ãos j untas para o céu.

Nesse m ovim ento as m adeixas do cabelo castanho descaindo para as espáduas m ostravam em toda a pureza natural o belo sem blante de Leonor. Entre a lím pida alvura coavam uns reflexos de luz rosada que anunciavam a aurora da esperançada ventura.

D. Severa lançou-lhe um olhar de castelã.

— Ai! Quem m e dera outra vez aqueles bons tem pos em que as dam as e donzelas sabiam arrostar os perigos e davam aos senhores hom ens o exem plo do heroísm o? Tam bém por isso eram m ais respeitadas e queridas do que são hoj e, que vivem encostadas ao canto que nem traste velho e fora de uso. Se não era outra cousa bem diferente das de agora um a fidalga, ainda m esm o do tem po de m inha avó, que pelej ou em Porto Calvo com D. Clara? E por sinal que atravessou dois holandeses com um a só lançada!

— Jesus!... Que m ulherzinha!

— E eu sou capaz de outro tanto; o ponto é m e acom panharem .

— Ui! tia não se lem bre disto. Já estas cousas andaram tão baralhadas sem nós m ulheres andarm os aí às voltas, quanto m ais se nos fôssem os tam bém m eter com elas? Então é que ninguém m ais se entenderia; por força que havia de vir m uita desgraça, sem contar a que j á estou prevendo de m e ver casada e descasada tão sem graça e de repente!

— Não digo! Para choram ingas e rezas é que servem hoj e as m ulheres. Se fosse um a dam a do bom tem po, que se apartasse com o você, Leonor, de seu esposo para seguir a seus parentes, em vez de ficar em casa a fazer m eias ou bolsas, punha-se em cam po com seus acostados e gente d'arm as; e havia de não m enos vencer o inim igo à ponta de espada, do que render o esposo com um bote de lança, que não com um requebro d'olhos.

— Nossa Senhora m e defenda de tal tentação!

— Ai, saudades!... Aquilo é que era viver! continuou D. Severa entusiasm ada. A gente sem pre adorada, cavaleiros de todas as partes que cercavam a dam a de seus pensam entos, e bastava um aceno para que eles fossem ao fim do m undo, e isso só em troca de um sorriso de longe em longe, ou quando m uito de um a flor, de m odo que assim a form osura de um a fidalga podia chegar para fazer a tantos felizes; e não é com o hoj e, que vive fechada dentro de casa para um só, e este m esm o nem com ela se im porta!... Ai, tem pos, belos tem pos dos torneios, das j ustas, das cruzadas! Tem pos de constância em que a gente não se dava de esperar dez, vinte, trinta anos, que seu esposo voltasse da Palestina! É para se com parar!...

Aqui vej o-m e obrigado a dizer algum a cousa sobre o físico da Sr.a D. Severa de Sousa, para que o leitor não se deixe ir a suposições arriscadas!

Tinha a fidalga cinquenta anos bem puxados: os cabelos, ainda não grisalhos, m as de um preto ruço, trazia-os ela em diadem a enastrado de fitas verdes, am arelas e escarlates. Nas faces, onde a natureza pôs aquele doce pom o rubescente, que nossos pais com propriedade cham aram as m açãs do rosto, havia outra variedade de fruto, duas nozes.

Form avam estas saliências em conj unção com o queixo não m enos proem inente a triangulação da beleza de D. Severa, que se contava no rol das ninfas olindenses. E não era vaidosa, não. O nosso am igo Lisardo que tinha entradas no Parnaso e privava com as m usas, lhe dedicara há tem pos um m adrigal neste gosto:

Onde vais correndo assim?

Pergunto à Flora chorosa.

Diz-me a deusa: "Busco a rosa

Que fugiu do meu jardim."

Acode amor: "Oh! não penses,

Que volte a ser flor mimosa,

Clélia, a ninfa mais formosa

Entre as ninfas olindenses.

Ah! poetas, poetas. Por que vos deu a natureza um estôm ago?... Sem essa víscera exigente não seríeis forçados, vós, os sacerdotes do belo, a cantar as Donas Severas de todos os tem pos; e a incensar as torpezas de am bos os sexos, que por ai pululam corno rãs, neste grande charco, cham ado m undo!

Observava Leonor com um arzinho zom beteiro o entusiasm o cavalheiresco da tia, e o sorriso que lhe brincava nos lábios j á abrochava para soltar algum rem oque inocente, quando uni tropel de cavalo soou na rua, que a distraiu. Enfiando o olhar pela fresta da gelosia, teve um sobressalto e se arrem essou de encontro à rótula com irresistível im pulso.

— O que é? 0 que é? perguntou D. Severa estendendo o longo pescoço, que no m adrigal do Lisardo devera representar o pedúnculo da rosa.