A Guerra dos Mascates

José de Alencar · Capítulo 24 de 33

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A Guerra dos Mascates

Capítulo VII

 

 

D. SEVERA ACOMPANHADA DE SEU PAJEM PROPÕE-SE PELA PRIMEIRA VEZ A REPARAR UM TORTO DONDE IA SAINDO UMA TORTA

É tem po de voltarm os à entrevista em que deixam os Vital Rebelo na casa do trem .

O riso escarninho e a voz que am eaçara, bem os reconheceu o alferes, e com preendendo o passo arriscado em que se achava, cuidou em defender a vida, ou vendê-la caro aos inim igos.

Houve um m om ento de silêncio tão profundo, com o era a treva que enchia o vasto arm azém ; m as com pouco rangeram os gonzos de um a porta, e apareceram dois escravos com tocheiros acesos.

O seu baço clarão que derram ou-se pelo aposento m ostrou a Vital o Capitão André de Figueiredo à frente de seis sequazes arm ados, com as espadas desem bainhadas e prontos a atacá-lo ao prim eiro sinal.

O m ancebo m al teve tem po de reclinar sobre um velho baú que lia via ali perto, encostado à parede, o corpo desm aiado de sua querida Leonor, e cair em guarda contra as seis catanas que o assaltavam .

André de Figueiredo, de parte, com as m ãos apoiadas na cruz da espada que fincara no chão, assistia ao com bate im óvel; m as via-se-lhe no sem blante a violência que fazia sobre si em conter os ím petos de seu gênio arrebatado.

— Bem vej o que isto é um a em boscada, disse Vital Rebelo com desprezo, defendendo-se galhardam ente. Eu sabia que os fidalgos de Olinda eram peritos em arm á-las, desde os tem pos dos j udeus holandeses, seus ilustres antepassados; m as os daquele tem po usavam pelej ar nelas, e não se resguardavam com o os de agora.

A lâm ina da espada de André de Figueiredo vibrou com o estrem eção que lhe im prim iram as m ãos convulsas, m as ainda pôde o capitão dom inar este assom o, com a ideia de hum ilhar seu inim igo pelo desprezo.

— Estais enganado; isto não é em boscada, m as obra de j ustiça; é execução que se costum a fazer em réu de m orte, respondeu entre um riso de m ofa.

Com um corrupio da espada fez Rebelo recuar os assaltantes, alguns dos quais j á tinham no corpo a m arca do ferro; e aproveitou da aberta para replicar ao capitão:

— Ah! é obra de j ustiça? Mas parece que o carrasco não sai do ofício, pois está aí feito um estaferm o em vez de m anej ar o seu cutelo.

— Não quero m anchar a m inha espada de cavalheiro; hás de m orrer à m ão de tua laia, tornou o capitão com gesto de asco.

— Tem razão o nobre fidalgo; só esqueceu um ponto e é que para dizer destas cousas, se precisa de ter a espada m ais com prida do que a língua, senão...

Neste ponto, operou-se tal m utação da cena, que não é possível descrevê-la sem cortar o fio à palavra de Vital.

Desde o prim eiro assalto, curando o m ancebo de tom ar a m elhor posição para a defesa, aproxim ou-se de um grande arm ário encostado ao fundo do aposento, cerca do qual havia algum as arcas e canastras espalhadas pelo pavim ento.

Assim , tendo as costas guardadas de qualquer surpresa com as canastras, que ia arranj ando a m ão esquerda enquanto a direita com batia, fez ele um a espécie de trincheira que lhe resguardava m eio corpo; e sobre ela debruçava-se para atirar o bote certeiro da sua espada a algum dos sequazes m enos prontos em recuar.

Quando André de Figueiredo lançou-lhe o últim o insulto, ao rechaçá-lo, m ediu o m ancebo com o olhar a distância que o separava do inim igo, e quase tão rápido com o esse olhar, saltou em cim a de um a das arcas, dela em outra m ais alta, e arrem essando-se com pasm osa agilidade, veio cair em face do capitão, antes de aperceber-se este do que se havia passado.

Tudo isto porém sucedeu com tam anha velocidade, que foi apenas um a reticência na resposta de Vital.

— Senão, acabou ele, corre-se o risco de sofrer logo em cim a da palavra a correção de sua insolência.

Soaram estas palavras ao m esm o tem po que a lâm ina da espada de Vital, batendo de chapa no om bro do capitão. Era à face que a destinara o im petuoso m ancebo aceso em ira; m as seu valente adversário, apesar do repente, logrou desviar-se a tem po.

Além de m ais pronto e destro, tinha Rebelo nesse m om ento sobre o capitão a superioridade do enleio em que o pusera a sua investida. E foi aproveitando-se dessa vantagem que de um revés da espada ele desarm ou o adversário e prostrando-o, calcou-lhe o pé sobre o peito, em ação de traspassar-lhe a gorj a.

Atalhou-o porém um grito de angústia.

Leonor, que pouco antes cobrara os espíritos, m as ainda no torpor do deIíquio, via, sem com preender, aqueles vultos a agitarem -se ao clarão baço das tochas, de súbito recordou-se do lance em que se achava, ao encarar o vulto am eaçador do seu m arido prestes a desfechar em André de Figueiredo o golpe m ortal.

O sangue de seu tio, do irm ão de sua m ãe e que lhe fazia as vezes de pai; esse sangue derram ado pela m ão do m arido, era a separação eterna, e m ais do que isso, a m orte de seu am or, que ela j á não poderia sentir, em bora apartada, pelo hom em que lançasse o luto no seio de sua fam ília.

Esta ideia horrível perpassou com o um relâm pago o ânim o da donzela, que arroj ou-se para deter o braço de Vital; m as faltando-lhe as forças ao im pulso, caiu ali m esm o de j oelhos, estalando-lhe a alm a no grito da aflição.

Voltou-se Vital; vendo sua m ulher, com os cabelos em desordem , os olhos alucinados e o sem blante convulso, adivinhou o pensam ento que a espavoria. Poupar a vida ao inim igo naquela conj untura, era entregar-lhe a sua; m as de que lhe servia esta, se cavasse um abism o de ódio entre ele e Leonor?

Um instante não hesitou. Ergueu a ponta da espada, e recuou deixando o capitão livre e escapo da m orte.

Os seis sequazes, que atacavam Rebelo, ficaram a princípio atônitos com o desaparecim ento do m ancebo, que alguns deles j ulgaram ter caído por detrás das canastras. Outros porém que haviam confusam ente entrevisto o salto, cuidaram que fora um ím peto de fuga.

Quando afinal descobriram o aperto em que se achava André de Figueiredo e corriam a acudi-lo, esbarraram -se com Rebelo que j á de volta buscava a prim eira posição. Não a pôde alcançar, que os espoletas lhe cortavam a retirada, colocando-o dessa arte em um passo difícil, pois atacado em núm ero tão desigual pela frente, ia sê-lo de costas pelo capitão.

À têm pera d'alm a sucede o m esm o que à têm pera do aço; em sendo boa, quanto m ais se lhe calca, m ais forte ela brande. Com tam anha afouteza investiu Rebelo a troça, que abriu cam inho através; e recuperou o prim eiro posto j unto ao arm ário.

A este tem po erguera-se André de Figueiredo; com a sanha de um tigre correu ao com bate.

— Arredem -se, que este vilão m e pertence; não quero que lhe toquem , pois ainda é pequeno para m e fartar de cortá-lo.

Rebelo não respondeu à bravata, senão com um sorriso de desprezo. Tolhido com o estava de m atar este hom em , e com a saída em bargada pelas grossas portas de j acarandá, o alferes reputava-se perdido; pois afinal se lhe esgotariam as forças e seria obrigado a traspassar-se com a própria espada, para se não render ao inim igo.

Todavia não o abandonara ainda a confiança que tinha na afouteza de seu ânim o, com o na força de seu braço. Em penhando o com bate com o capitão, ele concentrou-se para dividir a atenção entre o m anej o da espada e a pesquisa de algum m eio de salvação.

Por diversas vezes se precipitara Leonor para im plorar o tio em favor do m arido; m as a um aceno de André de Figueiredo, um dos sequazes conduzira a donzela a seu m au grado para o outro extrem o do aposento, colocando-se por diante para tirar-lhe a vista do com bate.

Entretanto este prosseguia, sanhudo e furioso da parte de André de Figueiredo, sereno e atento da parte de Rebelo, que, pronto em parar os golpes, m as desdenhando as abertas que lhe oferecia a im prudência do inim igo, não cessava de perscrutar os recantos do aposento.

Tinha este duas portas, um a de saída exterior, por onde havia entrado o m ancebo; outra de com unicação interior; por onde viera D. Leonor. Am bas estavam fechadas à chave, com trancas atravessadas; e eram cham prões de lei im possíveis de arrom bar. Por esse lado, pois, não havia esperança de escapula; m enos por outro qualquer, pois não se via nas paredes, e nem m esm o no teto, qualquer fresta ou buraco por onde pudesse passar um hom em , ainda que ele tivesse o privilégio da enguia.

Nesta estreiteza, em que o ânim o de Vital j á se repartia por tantos cuidados, o da sua Leonor a lam entar-se do outro lado, o da guarda a que o obrigavam os am iudados golpes do capitão, e o da busca de um m eio de salvação, ainda assim lhe não escaparam os m ovim entos dos cinco sequazes, que apuridavam -se conchegados entre si e apartados a um canto.

Sussurrou ao ouvido sutil do m ancebo a palavra m osquete, e com ela uns ruídos significativos, que lem bravam o tinir da vareta no cano de um a arm a de fogo. Se lhe restasse dúvida, certos m ovim entos de um braço m eio oculto pelo grupo lhe denunciariam a obra em que se m ostravam tão em penhados os suj eitos.

O quer que era estava pronto, pois voltando-se continuaram os m arotos a assistir ao com bate com o sim ples espectadores; m as notou Vital que o quinto ficara atrás dos outros, e que no om bro do prim eiro, m ais à frente, aparecia um óculo negro que lhe estava olhando o peito.

No ânim o do m ancebo surgiu um a ideia: saltear de repente a André de Figueiredo forçando-o a recuar por m odo que se interpusesse à m ira do m osquete, com o que não só o faria de escudo contra o tiro, m as livrava-se do inim igo sem o ferir nem tocar, sendo m enos difícil então acabar com os outros.

Mas em todo o caso não lhe im putariam a ele só a m orte do capitão, e com ela não se levantaria um túm ulo para separá-lo de sua Leonor?

Quando ele cogitava nesta dúvida, de chofre bateu o cão do m osquete, e ao disparar-se o tiro, ouviu-se grande estrondo, m aior do que se devera esperar da explosão da arm a, ficando o aposento sepultado nas trevas.

Para explicação deste acidente, que vinha com plicar o caso, carecem os de ir em busca da cavalheiresca D. Severa.

Tinha-se a dona recolhido à sua câm era, e achava-se então j ustam ente em vestes de ninfa, com a insignificante diferença de um a anágua em vez da faixa clássica. Acabara de ler, com o costum ava, um capitulo do Palm eirim , e repassava na fantasia as aventuras do cavalheiro da fortuna.

Nisto ouviu grande rum or no pavim ento térreo, e sobre curiosa, inquieta, vestiu as pressas um a cabaia am arela com que saiu fora a inquirições, levando a candeia na m ão.

Se a visse naquele instante, com a capa de seda que na ausência das anquínhas se lhe pregava ao corpo com o um estoj o am arelo do qual saíam os dois j oelhos que serviam de castões aos caniços das pernas, abandonaria com certeza o inspirado Lisardo a com paração da rosa, e buscaria no seu arm azém poético outra im agem m ais apropriada; por exem plo a flor da abóbora, ainda que esta naquele tem po não tinha entrada no Parnaso.

O corredor estava tranquilo; pelo que anim ou-se a ninfa a chegar ao topo da escada por onde vinha o rum or.

— Quem esta aí? perguntou com desplante, ouvindo passos.

A pessoa que era galgou aos saltos a escada; e D. Severa reconheceu o Nuno, seu paj em desde a véspera.

— Acuda, senhora D. Severa, que senão acabam de m atar o Vital Rebelo!

— Pois ele está aqui?

— Na casa do trem . Não ouve? Estava a falar com a m ulher, a D. Leonor, quando o Sr. Capitão André de Figueiredo, que se pusera de espreita com os seus hom ens, deu sobre ele, e lá andam aos botes de portas fechadas.

— Leonor?

— Tam bém lá está encerrada, que lhe ouvi as aflições, um a vez, no m eio do barulho.

— Coitada!

— E o Rebelo, senhora, que gentil cavalheiro! Sete contra um ! Ele só é hom em para fazer frente a todos, m as era preciso que estivesse em cam po raso. Assim de em boscada, com certeza o acabam .

— Não há de acontecer essa desgraça.

— Se j á não aconteceu agora m esm o que lhe falo. A senhora consente que se m ate a traição, aqui dentro da sua casa, a seu sobrinho, porque ele o é?

Estava precisam ente a D. Severa pensando que era aquele um dos casos em que um a dam a, segundo as regras da cavalaria andante, devia intervir em favor do oprim ido; pelo que tom ando a generosa resolução, disse para o Nuno, com o tom senhoril de um a castelã:

— Ide arm ar-vos, paj em , enquanto m e adereço para am parar nossa form osa sobrinha e salvar-lhe o esposo.

— Mas, senhora; se perdeis um m om ento, chegarem os tarde.

— Quereis que m e apresente neste desalinho, acudiu D. Severa pudicam ente; e vós sem arm as, que aj uda podereis dar?

Só então reparou Nuno no fresco atavio de ninfa em que se achava D. Severa; e pronto a replicar acerca da sua arm adura da véspera que o esperava em baixo, não achou argum ento contra a necessidade que tinha a dam a, de um traj e m ais avaro de seus encantos serôdios.

Força foi ao m oço, resignar-se durante m eia hora em que, roído pela im paciência, descera dez vezes a escada para escutar à porta do arm azém , e dez vezes subira para espiar no cam arim da dam a se ela acabara de adornar-se.

Afinal saiu D. Severa em grande param ento, de anquinhas, cauda, trunfa, plum a e leque, pois não dispensava em ocasiões solenes nenhum desses atavios fidalgos. Podia o m arido de Leonor ter m orrido vinte vezes no tem po despendido com esse adereço; m as ela é que não podia derrogar nos seus deveres de dam a da prim eira nobreza pernam bucana.

Desceu a senhora com um andar pom poso ao rés-do-chão, onde o Nuno enfiou apressado a couraça e a cervilheira que deixara ao pé da escada para m ais ligeiro correr acim a e abaixo.

Depois que o paj em bateu debalde um a e m uitas vezes na porta do arm azém , lem brou-se D. Severa que do outro lado havia um a j anela, por onde m ais facilm ente poderiam penetrar.

Deram volta, e à sum ida luz da candeia, que o vento açoutava, acharam sem m ais dem ora o que procuravam .

Precisam ente nessa ocasião, Vital atento ao m osquete prestes a disparar, desviara-se para o lado esquerdo do arm ário, a fim de no m om ento dado abrigar-se com a quina do m óvel.

Feriu-lhe o ouvido o ceceio das vozes de D. Severa e seu paj em que avisavam no m odo de penetrarem no aposento. Notando que esse m urm úrio saía da fresta que ficava entre o arm ário e a parede, adivinhou o m ancebo a existência de um vão de j anela ou porta naquele ponto. Com um olhar calculou a posição de seus adversários, a distância em que se achavam os to cheiros, e traçou um plano.

Ao disparar o m osquete, arroj ou-se ele ao canto do arm ário, e m etendo o braço entre o fundo e a parede, em purrou com tal força o pesado traste que este despenhou-se no chão, causando um tem eroso estrondo e apagando as tochas com a violenta deslocação do ar.

Aproveitando-se da escuridão, o. intrépido m ancebo encontrou às apalpadelas a j anela; cuj a aldraba facilm ente abriu. Com o baque do arm ário, D. Severa soltara a candeia, ficando o corredor às escuras; m as percebia-se no fundo um a nesga. de céu.

Por ali desapareceu Vital.

Ao saltar a j anela, encontrou resistência que logo cedeu, e ouviu um grito; m al suspeitava que dum a peitada tinham virado de cam balhotas,. um sobre o outro, a respeitável D. Severa e seu paj em .

Mas o pior foi que, nesse rolo, a ponta do chifarote de Nuno ia vazando o olho direito da dam a, que nessa ocasião provou a. vantagem de possuir um sofrível nariz.