A Guerra dos Mascates

José de Alencar · Capítulo 6 de 33

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A Guerra dos Mascates

Capítulo IV

 

DO PERIGO DE TIRAR NINHOS DOS TELHADOS NO TEMPO DE EL-REI NOSSO SENHOR

No m om ento em que a luzida cavalgada, avançando a passo m oderado, defrontou com a j anela do sótão, Um ligeiro sorriso perpassara nos lábios do governador, erriçando de prazer o fino bigode, que sua m ão branca e esm erada alisou com um gesto rápido.

Tinha percebido o vulto gracioso de Marta, que destacava no vão da j anela, com o a figura de um a sílfide na tela escura de exím io pintor. Ao sopro da brisa as roupas transparentes de garça verde-gaio lhe flutuavam em torno com o asas de gaturam o, especialm ente as m angas soltas, donde se lançavam os lindos braços, im itando lírios hasteados entre a folhagem . Um j ustilho preto, curto e chanfrado, cerrava-lhe a cintura m im osa, que dobrava-se com o a haste da flor, com as inflexões do talhe.

Breve se apagara nos lábios do governador o sorriso, percebendo que a m enina não estava só, m as praticando com alguém . Ao ver o intruso, a posição em que se achava, e a casta de gente que era, carregou-se-lhe o sobrolho; e por um a leve depressão do lábio superior, dir-se-ia que m ordera um fio do bigode.

Todavia não se alterou em geral a calm a de seu porte; e a ligeira perturbação passou desapercebida para todos, com exceção dos dois oficiais que ladeavam o governador.

Foi então que o Capitão Negreiros, j ustam ente irritado contra o tem erário que ousara cair no desagrado do poderoso governador, não só lançou contra o Nuno aquela apóstrofe acentuada com a m ais oca retum bância de sua voz, porém ficou-o fulm inando com a som bria catadura.

Com o não respondesse o rapaz, e estivesse lá de seu poleiro a m irá-lo com ares de m ofa, arrem essou-lhe de novo estas palavras:

— Não tens boca, m ariola! Que fazes tu ai?

— É um ninho de carriça, sim , m eu senhor!... respondeu o m enino atarantado.

— Um ninho, grandíssim o peralta! bradou o aj udante com suprem a indignação e a m ais possante ênfase oratória. Um ninho no telhado!...

No ânim o do nosso aj udante um crim e de lesa-m aj estade dos capítulos de prim eira cabeça não produziria tam anho horror, qual m ostrava, e devem os crer que às veras, diante da enorm idade desse atentado inaudito contra a inocente prole da carriça e a inviolabilidade do telhado do Perereca.

Em verdade era grave o caso; assassinato em m assa e invasão na propriedade alheia. Se um rei ou um governador se lem brasse disso para distrair-se, inventando um a guerra ou algum m onopólio que dizim asse o povo na vida e na bolsa, avisaria o nosso aj udante a excelência da m edida; pois qual é o fim da república senão divertir aos príncipes? Mas quando era um galopim que ousava atacar as telhas e os ninhos!... Oh! protérvia!...

Arrem essou o capitão o cavalo contra a cerca no intuito de alcançar o artelho do rapaz e derrubá-lo da árvore; m as este que lhe adivinhou o plano apoiando-se na beirada, galgou o telhado e se pôs a salvo.

— Safa rascada! gritou o brej eiro.

Afastara-se o governador e entretinha-se à parte com o prazenteiro secretário, parecendo de todo alheio à cena que ali se passava. Mas quem o observasse atento, perceberia o olhar rápido que a furto relanceava para a j anela do sótão, onde se eclipsara a estrela, com o aparecim ento da cavalgada.

— Desce, biltre!... intim ava furioso o aj udante.

Mas o m arotinho do rapaz gingava no telhado, bam boleando o corpo e fazendo-lhe gatim anhos de zom baria:

— Babau, sr. capitão! Babau!

— Eu te esbandalho, pedaço de um bargante! berrou o aj udante.

— Isca! Isca!.

— Olá, um ! Agarrem -m e j á este espirro de gato.

Apeou-se um dos lacaios para cum prir a ordem , o que com preendendo o Nuno e vendo a estreiteza do caso, lançou em torno um a vista indecisa; nisto sentiu que lhe puxavam a aba do gibão. Voltando-se, deu com a carinha travessa de Marta um tanto am arrotada do susto, a m ostrar-lhe a recâm era com o um asilo. Não havia hesitar.

Corriam -se as adufas da protetora j anelinha, j ustam ente quando aparecia a cabeça do lacaio por cim a das telhas. O aj udante estava no delírio da raiva; se a princípio se m ostrava irritado por conta do governador, agora era pela sua própria que esbravej ava com o um possesso.

— Marau, gam birra, fundilho de Judas, lêndea do Cão-Tinhoso, fedelho de Satanás!...

Por este j eito vociferou durante algum tem po o aj udante, notável pela fertilidade dos epítetos m ais pitorescos e originais, com que nos seus m om entos de sanhuda eloquência ele enriquecia o idiom a das regateiras.

Observando o governador que seu aj udante com eçava a exceder-se, deu de rédea ao cavalo e passou adiante com o secretário, cuj o eterno sorriso se encrespara com um ligeiro tom de ironia ao ver o destam patório do capitão.

Quando passavam pela frente da casa, abriu-se a porta, e saiu um hom únculo, arm ado com um a cabeça de pitorra e enfaixado em um quim ão de prim avera. Desbarretando-se até ao chão, desfazia-se em cortesias tão rasteiras, que m ais pareciam dirigidas ao cavalo do que ao cavaleiro.

— Boa tarde, sr. alm otacé.

— Aos pés da m uito alta plosopeia do exm o sl. govelnadol!

A esse tem po por urna fresta da gelosia do m eio, a Sr.a Rufina, que em purrara o m arido pela porta, espreitava de dentro.

— Não sabe o que acontece? perguntou o governador.

— Sabelei, m eu senhol, se a bondade de V. Ex.a concedel-m e essa glaça.

— Capitão! disse o governador com os olhos no secretário.

Este, com preendendo a intenção, tom ou a palavra:

— Agora m esm o, ao passar, vim os um galopim que trepou no telhado de sua casa e entrou pela j anela do sótão.

Ouviu-se o estrépido da gelosia que batera, e logo um a voz correndo para o interior:

— Virgem Santíssim a! No quarto de Marta! Acudam , gentes!... Quanto ao Sr. Sim ão Ribas, ficara estatelado com o caso; m as afinal, pondo as m ãos na cabeça, exclam ou em tom patético:

— Um sicálio, aflontando a m inha autolidade! Que atlevim ento!...

Voltando-se depois a custo, porque as pernas lhe fugiam , disse para a casa:

— A m inha vala, Senhola Lufina!

Entretanto Nuno e Marta espiavam pelas frestas bem conchegados pelo susto e tam bém por esse gozo inefável de transviver-se em outro, o que j á em criança todos pressentíam os com o prazer de inocente folguedo. Qual, no j ogo da m anj a, não procurava de preferência a parceria da m enina m ais bonita, para atracar-se com ela no cantinho e tão apertados, com o se quisessem esconder-se um no outro?

— Que Caifás tão feio que é aquele suj eito! dizia Marta m ostrando o aj udante. Cruzes!

— Ah! se eu tivesse j á a m inha durindana! dizia Nuno com recacho m ilitar; você veria com o eu havia de tosar o pêlo àquele barbaças de centurião. Olhe: vá a pequena lá abaixo e busque-m e o estoque do pai.

— Deus m e livre! Para a m am ã ralhar-m e!...

— Agora sim ! exclam ou o rapazinho batendo as palm as de prazer.

— O que é? perguntou curiosa Marta, enfrestando o olhar.

— Cá chega o Vital.

— O prim o?

De feito entrara na cena do quintal um novo personagem , bem disposto e elegante cavaleiro, no viço dos anos floridos, pois j á andava nos trinta. Som breavam -lhe o rosto oval fino bigode e pera que ele trazia contra a m oda do tem po, e destacavam -se com donaire na tez de suave m oreno. Os olhos, tinha-os grandes, cheios de brilho e ardim ento, com o lum es, que eram , de um coração bravo e generoso. Nos cantos da boca, apagava-se o sorriso em um a plica ligeira, indicio da preocupação constante que absorvia-lhe o pensam ento.

Muita louçania dava a essa fisionom ia inteligente e ao garboso talhe o apuro das roupas que trazia com especial gentileza o cavaleiro. De lem iste com forro de cetim azul era a casaca bem talhada, que dobrava a gola sobre um a linda alm ilha de tela alcachofrada, e espalm ava as abas pela anca tio brioso cavalo, m ostrando os calções estreitos de veludo cerej a. Colarinhos e punhos de renda de Veneza atacados com rubis; luvas de pele acam urçada; alva plum a de garça no chapéu de castor pardo; borzeguins altos com rosetas de filigrana de prata, iguais ao tope do chapéu e às borlas do florete, com pletavam o casquilho vestuário.

Desde algum tem po que o cavalheiro, parado a curta distância, observava oculto pela ram ada das árvores, a ridícula cena ali representada pelo Aj udante Negreiros. Aproxim ando-se afinal, saudou o oficial com um gesto de m ofa.

— É certo, pois, sr. aj udante, que afinal rom peram os de Olinda?

— Donde o sabe? atalhou o Negreiros tom ando a nova ao sério e j á alvo roçado com o prazer de espatifar os do levante.

— Agora vej o que m e enganei. Ao chegar, dando com toda esta azáfam a da gente de El-Rei, devia pensar que os nobres tinham assaltado a casa do m eu parente Sim ão Ribas!

— O caso não é para chascos, nem eu sou hom em para eles, bem o sabe o senhor! replicou o aj udante com cenho de am eaça.

— Que se há de fazer à com édia, senão rir dela? Esbarra-se a gente no cam inho com um ferrabrás de espada desem bainhada, a esgrim ir contra os telhados, dando caça a um pirralho: e quer o sr. aj udante que se fique sério com o um burlão?

— Sr. Vital Rebelo! exclam ou o capitão aceso em ira.

— Sr. Aj udante Negreiros! disse o seu interlocutor sem alterar-se, com o se respondesse a um a benévola interpelação.

A ponto sobreveio um lance para atalhar a disputa que prom etia azedar-se; e foi que a j anela do sótão abriu-se de supetão e dela espirrou o Nuno acossado por um inim igo que lhe tom ara a retaguarda. Mal saltara o rapaz no telhado, que a Sr.a Rufina assom ara ao postigo, em punhando à guisa de lança um cabo de vassoura, arm ado da com petente broxa de palha.

Convencido de que, na estreiteza do caso, só um a resolução pronta e destem ida o podia salvar, o m ascatinho atravessara de corrida, m ais veloz do que um gato, a aba do telhado até a extrem idade da casa, e aí de um pulo, travou os ram os de um caj ueiro, donde alcançou facilm ente o chão, e desapareceu entre o arvoredo.

Tão rápido foi o incidente, que deixou pasm ado o Aj udante Negreiros; m as recobrando enfim o ím peto, arrancou no encalço do fugitivo, e por certo o alcançara se não lhe atravessasse o passo Vital Rebelo.

— Cam inho!

— Não se passa.

— À ordem do sr. governador!

— Da parte de El-Rei!

— E quem , estando eu, fala aqui em nom e de El-Rei Meu Senhor?

Pronunciara estas palavras Sebastião de Castro, que se aproxim ara advertido da altercação.

— Falo eu, disse Rebelo com um tom respeitoso e digno; e falo a V.Sª a quem El-Rei pôs de governador nesta capitania para reger-lhe os povos e guardar-nos os forais; que não para m ontear os filhos de seus vassalos com o caça bravia.

Pareceu o governador um instante perplexo ante aquela resposta, onde ressum brava não só a altivez dos brios, com o a consciência de um direito; logo, porém , replicou em tom m oderado e conciliador:

— Talvez tenha razão, Sr. Vital Rebelo; m as se algum excesso houve, que eu não creio, da parte de nosso aj udante, foi som ente no zelo com que se em prega no serviço de El-Rei Meu Senhor e da nossa pessoa.

Cortej ando com a m ão a Vital, voltou-se para a com itiva, com estas palavras:

— Vam os, senhores, que de sobra j á nos dem oram os.

Desfilou a cavalgada pela frente da casa onde o digno alm otacé, ainda engasgado com o caso que lhe acontecera, gritava pela vara para intim ar a sua autoridade ao m alfeitor.