A Guerra dos Mascates

José de Alencar · Capítulo 5 de 33

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A Guerra dos Mascates

Capítulo III

 

ENTRAM EM CENA A RONHA E A BÍLIS DO GOVERNO DA CAPITANIA

Debalde a faceira veio estouvadam ente debruçar-se à j anela; debalde com eçou a espantar os passarinhos com um certo chó dos lábios que riam -se arrem edando um psiu; debalde contrariada pela im passibilidade do rapaz, tirou do peito um a tosse fingida, que, se não m e engano, acabou por um suspiro m avioso.

Não se abalava o rapaz, que era pirracento, senão ardiloso. Mas que bigode, quando m ais buço a pungir, há aí que vença em m anha e teim a a um narizinho retorcido? Mostrem -m o, se são capazes.

Acaso tocara a m enina com o cotovelo na rum a de bagaços de cana, que alinhara sobre o peitoril, e dos quais se esquecera um instante. Segurou o prim eiro na ponta dos dedos, e zás, fez alvo no rapaz que não se m exeu. Ao quinto ou sexto tiro todavia, o inim igo incólum e, pois nenhum dos proj éteis acertara nele, deu sinal de baleado, tom bando de repente para trás.

Rodar sobre o galho com o um corrupio, virar no ar um a cam balhota, e cair de pé, em frente da j anela, foi para o rapaz negócio de esfregar um olho. Quando a travessa o procurava no ar, j á estava ele quase em baixo da j anela, fazendo-lhe por despique um m om o de sim ulado espanto.

— Hã!...

Já era tarde para fugir, se é que ela nunca teve tal ideia, e não se deixara m uito de propósito apanhar dessa calculada surpresa. Contudo fez m enção de hesitar, enleada no m elhor partido; e foi ela soltar a risada gostosa que lhe estavam provocando os gatim anhos do m oço.

Com eçou então o desafio das risadas e das ligeirezas; porque ela procurava acertá-lo com o bagaço de cana, que ele evitava com saltos e furtadelas de corpo; daí as negaças e os enliços de parte a parte, até que partia o tiro; se errava o alvo, com o quase sem pre acontecia, Nuno fazia um a careta:

— Uh! Uh!...

E eram gargalhadas da m enina e trej eitos do m oço, que se divertia com aquele folguedo apto ao seu gênio trêfego e petulante.

Acabados os proj éteis, m eteu a m enina a m ão no bolso e tirou um gom o de cana, m as em vez de o j ogar, com eçou com ele a fazer foscas ao m oço, ora fingindo que o chupava, ora acenando que lho queria dar em m ão.

— Quer? perguntou afinal.

— Atire!

— Lá vai!

Aparou o m oço nas m ãos o gom o de cana e chupou-o logo: depois outro e outro até o últim o.

— Não tem m ais! dizia a m enina virando os bolsos.

— Que pena!

Desde que não havia m ais travessuras, sentiam -se os dois enleados; j á não se anim avam a olhar um para o outro, nem a trocar palavra.

O rapaz estendia os olhos para o cam inho e suspirava; a m enina j á não se debruçava à j anela, e de vez em quando voltava-se para dentro.

Desse lado da casa havia um tapum e tosco e em m uitos pontos aberto pela gente que, para encurtar cam inho, atravessava os terrenos da quinta, na direção dos Mogados. Favorecido pelos hábitos dos m oradores que deixavam essa parte da habitação deserta naquelas horas, Nuno se aproxim ara sem despertar a atenção, e com o cada tarde ia conquistando m ais terreno, estava então j unto ao tronco de um a pinheira que lançava os galhos para o telhado.

Lem brou-se de trepar; era um a travessura. Nisso um a voz aguda cham ou do interior:

— Marta!

Correu para dentro a m enina, e com pouco voltou, com endo um a cocada que a m ãe lhe dera, e com a qual se preparava para fazer figa ao cam arada; m as não o viu. Cansada de procurá-lo entre as árvores e despeitada da peça que lhe pregara, ia retirar-se m urm urando: guerra dos mascates 171

— Deixa-te estar, m arotinho!

Eis que surge-lhe pela beirada do telhado a cabeça do estouvado rapaz, trepado na pinheira, donde conseguira alcançar com a m ão as travessas ou cachorros, com o lhes cham am os carpinteiros. Com o susto que sofrera e o receio de que descobrissem o rapaz naquela posição, Marta acenou-lhe com a m ão que descesse:

— Um ninho! disse Nuno olhando pelo interstício das telhas.

— Aonde? perguntou a m enina j á picada pela curiosidade.

— Aqui. É o da carriça!

— Tem ovos?

— Dois!

— Ah!...

— Quer?

— Não!

Esse não, disseram -no vivam ente os lábios de Marta, m as os olhos a desm enti-los estavam m orrendo de desej os de ter o ninho com os ovos dentro. Já este passara do vão da telha para a m ão do rapaz que o m ostrava:

— Olhe!

— Que bonito! exclam ou a m enina com o prazer suprem o da criança, que se atira para o brinquedo e parece m eter-se por ele para m elhor o possuir. É talvez por essa veem ência do gozo infantil, que os m eninos quebram logo as teteias de que m ais gostam .

— Tom e! disse Nuno fazendo m enção de levar-lhe o ninho.

— Não, não! respondeu Marta com espanto, querendo fugir da j anela.

— Então levo para Isabel.

— Pois sim !

Desconsolado m etia Nuno o ninho no peito da véstia, e preparava-se para descer, enquanto de seu lado Marta arrufada consigo m esm a, olhava à sorrelfa o cam arada, com sorriso insosso. O rapaz cogitava um pretexto para ficar; a m enina tinha m edo que ele o achasse, m as sentia que se fosse tão depressa.

De repente um a voz de tom im perioso soou perto, que produziu nos dois o natural espanto e soçobro de se verem surpreendidos em flagrante delito de travessura:

— Que fazes tu aí, garoto?

Com estas palavras, ressoou tam bém o estrépito de um a brilhante cavalgata, que se aproxim ara sem rum or por causa da areia, e estava agora parada na rua, aquém do canto da casa, onde passava a cena anterior.

A figura proem inente do troço era um cavaleiro de grande porte e alta estatura, que então ocupava o centro na testa do prim eiro grupo. Orçaria pelos quarenta anos; tinha olhos pequenos e ornava-lhe o rosto alvo densa barba cinzenta, fina e m acia, que disfarçando a aspereza das linhas inferiores, corrigia-lhe o oval do sem blante.

De perfil, porém , acentuava-se a proj eção do queixo, bem com o a proem inência da fronte, que se distinguia sob a aba do chapéu de castor, guarnecido a cairel de ouro. Nessas duas saliências da fisionom ia estava, com o em relevo, desenhado um caráter.

A pertinácia, não a da perseverança com o a praticam os ânim os robustos que sabem querer, e sim a da obstinação própria de naturezas tím idas, que se aferram ao pretexto; a resistência da dúvida, alim entada pela índole da contradição; o m olde da parte posterior do rosto o estava retratando.

Anunciava inteligência a fronte aberta; e todavia a testa bom beada acusava nesse contorno arredondado do crânio um traço fem inino. Via-se aí a fôrm a do talento do detalhe, ou m elhor, da m aleabilidade do engenho, que se presta a vários m isteres ao m esm o tem po, contanto que todos calhem na bitola.

Era nobre e viril o parecer do cavaleiro, especialm ente em repouso; m as desde que se punham em ação suas faculdades, desprendia-se delas um prurido de atividade sôfrega e volúbil, que desconcertava a com postura do sem blante, com o do talhe. Falava rápido, com a palavra difusa e a voz estridente; dem asiava-se no gesto; e em todos os seus m odos punha tal alacridade, que devia-lhe algum as vezes o espírito titubear, enleado naquela m eada de idas e vindas, de passos e voltas, em que se com prazia o seu gênio infatigável.

Casaca de veludo castanho com m angas de bota e guarnecida, com o o chapéu, de cairel de ouro; volta de renda, laçada ao pescoço, e da qual lhe caíam as duas pontas largas sobre o peito da véstia de cetim azul com ram agens brancas estam padas; talim de veludo que suspendia a rica espada; broches de pedraria na presilha do chapéu, nos punhos do cam isote e na atadura dos calções de brocado am arelo: assim vestia o cavaleiro.

Traj o esse para fidalgo de grande estado, novo e aprim orado da fazenda com o do feitio, bem longe de sobressair na com pleição bem proporcionada do cavaleiro, parecia, pelo desleixo com que o trazia ele, j á am arrotado do m uito uso.

Tal era Sebastião de Castro Caldas, governador e capitão-general de Pernam buco.

À direita ficava-lhe o Capitão Barbosa de Lim a, secretário do governo; à esquerda o Capitão Negreiros, prim eiro aj udante-de-ordens. Seguia-se o Tenente Bernardo Alem ão, segundo aj udante-de-ordens, com o alferes André Vieira, que m andava o piquete de cavalaria da guarda do governador; por últim o quatro criados em libré de seda am arela com forro verde dobrado nas golas, no canhão e ponta das abas, tendo as arm as dos Castro Caldas bordadas no alto da m anga do gibão à guisa de dragona.

Eis a cavalgada que parara no canto da casa, com espanto do Nuno, que lá de cim a da sua pinheira, quase encarapitado no telhado, esgazeava uns olhos donde coava-se através do susto o chasco ardiloso do brej eiro.