A Guerra dos Mascates

José de Alencar · Capítulo 3 de 33

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A Guerra dos Mascates

Primeira Parte

 

(O PRÓLOG O)

 

CAPÍTULO I

 

A JANELINHA REBUÇADA DO SÓTÃO DA CASA NOVA DO PERERECA

A tarde do dia 1º de outubro de 1710 não teve cousa de m aior.

Foi um a tarde com o qualquer, em fazendo bom tem po. O sol tinha a cara dos m ais dias, aí pela volta das quatro horas que seriam então; nada m ais, a não ser um a carapuça de algodão que lá as nuvens haviam encasquetado na cabeça do astro para guardá-lo de constipar-se com o relento.

E o m ais é que assim encarapuçado, Febo, com o ainda o cham avam então os poetas e os nam orados, fazia a figura de um Xerxes traj ado à m oda de rei constitucional, de casaca e chapéu redondo.

O céu estava azul m ais ou m enos; o m ar pelo m esm o teor; levanta-se a viração e as árvores tinham o verde do costum e, m isturado com alguns ram os secos e folhas m urchas. Tam bém deviam de cantar pelos arredores alguns passarinhos; não falando das flores que sem dúvida estrelavam o cam po.

Agora, se era de cetim o m anto do firm am ento, e de safira a redom a do oceano; se as auras suspiravam am ores nos seios das boninas, e arrulhavam saudades as rolas m elancólicas, enquanto as açucenas abriam as suas caçoulas cheias de perfum es, não sei eu: que não o diz a crônica.

Mas por isso não haj a queixa. Tom e cada um de sedas, pedrarias, endeixas e fragrâncias, quanta porção queira, e vá enfeitando e arrebicando a m inha descrição a seu gosto. Eu cá prefiro a sim plicidade, que é o m ais côm odo de todos os estilos; basta ver que forra-se a gente ao trabalho de fantasiar, e deixa isso ao leitor.

Há nada com o aquele m odo chão de principiar as histórias da carocha? - Foi um dia... E cada um que im agine o tal dia à sua feição, de inverno ou de verão, de outono ou prim avera, com o lhe saiba m elhor.

Pois era um a tarde... e a j anela do sótão, na casa do. Perereca, abria m anso e m anso fazendo um a fresta, onde se m ostrou a m edo a ponta arrebitada do m ais lindo narizinho retorcido de que há notícia desde Aglaia, a qual o tinha de prim or, valha a fábula, com o a graça que era do chiste e da m alícia, donde veio cham arem -na os gregos de esplêndida.

Agora vej o que não se conhece ainda a casa, nem o lugar em que estava situada, sem falar de outras particularidades, que não deixam de ser curiosas, com especialidade o dono; pois, e não digo novidade, se em geral os prédios são cousa de seu proprietário, tam bém donos há que são acessórios de sua casa.

Estam os no Recife.

Andando a Rua da Praia dos Coqueiros, no bairro de Santo Antônio, quem ia naquele tem po do Colégio para as bandas das Cinco Pontas, quase a m eio cam inho encontrava um vasto edifício que ficava fronteiro à barra; ainda a Rua da Maré com sua casaria não se tinha prolongado até aquele ponto da ribeira.

Larga e baixa, a casa terreira acaçapava-se entre o arvoredo do quintal que a beirava de um e outro lado; m as dava logo nas vistas pela especialidade da pintura extravagante com que a haviam lam buzado, pois outra qualificação não quadraria à incrível borradela.

Tinha cerca de quatro anos o edifício. Acabada nele a obra de pedreiro e carapina, quando se teve de passar ao artigo pintura, vieram as tribulações para o dono, o digno Sr. Sim ão Ribas, m ascate de peso e m arca entre os principais do Recife.

Não sei se j á ai por essa m onarquia dom éstica tinham inventado o governo pessoal, e usavam as calças responsáveis m eterem -se por baixo da saia inviolável. Cá, no m eu alfarrábio, só vej o que houve m uita rezinga e altercação, acabando o bate-barba ou questão de alcova, com o de costum e, com o triunfo com pleto da trunfa, que era então, com o o coque é hoj e, a coroa dom éstica.

Sabidas as contas, decidira a Sr.a Rufina Ribas que a fachada fosse de um a cor farfante e para ver-se a léguas, lá do alto-m ar. Antes de surdir o navio pelo Lam eirão adentro, queria a respeitável m atrona que sua casa nova entrasse pelas vistas da gente que vinha da santa terrinha.

Nem por som bras ocorreu ao m arido a ideia de opor-se à vontade de sua dona. Era um m arido constitucional o Sr. Sim ão Ribas; e não há ai m inistro cortesão, a que ele não levasse as lam pas na arte insigne de fundir-se, com o cera, em figurinhas m oldadas ao capricho m ulheril. Não foram , pois, assom os de resistência que perturbaram a paz dom éstica; ao inverso, proveio tudo de excessos de zelo e obediência.

Cham ado a conselho o exím io borrador a fim de dar alvitre sobre o caso, foi de voto que não havia com o o zarcão, para fazer o gosto à Sr.a Rufina. Dito e feito: no dia seguinte am anheceu a parede assanhada com um a crosta do m ais coruscante verm elho.

Muito ancho de si, o digno m ascate j á se regozij ava de ter um a vez na a feito as cousas ao agrado da querida m etade, quando lhe veio ela deitar água na fervura. Esguelhando à parede um olhar im pertinente, espevitou o nariz, torceu o beiço, e deu um m uxoxo, que erriçou os cabelos ao m arido.

Barulh0 no caso: novo apelo ao borrador que gizou a combinação do verdete com o zarcão; e assim , de rezinga em rezinga, chegou-se àquele espalha. fato de todas as cores, onde o azul brigava com o encarnado, o verde com o verm elho, e o roxo-terra com o am arelo da oca. Era cousa indescritível, que o prospeto de algum as tabernas de hoj e ainda não conseguiu im itar.

Nos prim eiros dias esteve a casa de m ostra aos basbaques e pascácios que por lá iam , para se pasm arem diante daquela m aravilha. Por um m ês não se falou no Recife doutra cousa; até que um dia lá apareceu pela m anhã escrito a carvão, na frente, este dístico m aligno - Perereca.

Lavou-se da parede a tisna, m as a alcunha ficou ai fisgada à casa, com o se a tivessem gravado em bronze. Fora o brej eiro de um rapaz que, voltando a ave-m aria da escola e ouvindo cantar a rã num a touça de bananeiras, lem brou-se da sem elhança que tinha com a frente da casa, e escreveu-lhe o nom e na parede. Ao outro dia, antes que apagassem as letras, sucedeu passarem ai um frade, um a com adre e um soldado. Leu o franciscano em voz alta, se j ulgando a sós, e riu-se: ouviram -no os dois que atinaram com a graça.

Tanto bastou para que ao m eio-dia se soubesse em todo o Recife do acontecido; e, pelo plebiscito do m otej o unânim e, a casa sarapintada ficou sendo conhecida pelo nom e expressivo de - Casa do Perereca.

Cobria o edifício um telhado de largas abas e alto cocuruto, que lançava em cada quina um a ponta de barro com pretensões a figura de m arreca. Nas duas faces laterais erguiam -se as águas-furtadas do sótão, que rasgava duas j anelas, um a para cada banda.

Na j anela da direita, que durante o dia estava aberta sem pre, de costum e estendiam em um cordel passado de um a à outra om breira certa colcha de chita de ram agens, que ao sopro do vento desfraldava-se à guisa de estandarte. Quem tinha a dita de conhecer a Sra. Rufina Ribas, acertando de passar por aqueles sítios e dando com o espantalho da tal coberta, adivinhava logo que era da garrida m atrona essa j anela.

Tinha outro ar e outros m odos a j anela da esquerda. Com eçava logo por um a latada que lhe haviam arm ado em volta, e lhe servia com o de capuz, com as ram adas do m aracuj azeiro, entrelaçada pelos escaques do caram anchel. Dava-lhe isso, à tal j anelinha, uns biocos de freira, m as de freira m oça e bonita, que lá do rem anso do claustro enfia pela grade um a olhadela curiosa e ávida do burburinho do m undo.

Outra diferença vinha de estarem as adufas da direita sem pre cerradas, em horas soalheiras; nisso pareciam -se com o cálice de certas flores e com os cílios da j uriti, que fecham -se pela m uita luz e só abrem ao doce toque do crepúsculo. Todavia não eram elas tão recatadas do sol, que não se descerrassem lá um a ou outra vez, na calm a do dia, sobretudo aos dom ingos, para deixar que entrasse algum raio fagueiro pela câm ara do sótão.

No estreito eirado, rente com o peitoril, havia três vasos de barro onde cresciam várias plantas. A m ão que reunira ai o alvo bogarim , a rubra cravina, o goivo am arelo e os bagos escarlates da pim enta, esse conj unto singular lhe estava denunciando a travessura. Se é verdade, e eu creio, que a alm a im prim e nos obj etos que a cercam a sua própria feição, podia-se ver naquele grupo de plantas o enigm a de um coração.

Não seria o alvo bogarim o reflexo da candidez, com o as pétalas da cravina a im agem dos vivos rubores de um a petulante castidade? O goivo, ali na m ansão da j uventude, não exprim ia a descuidosa alegria, que orvalha de risos até as horas aziagas? E naqueles bagos verm elhos e brilhantes da pim enta, não havia quiçá o em blem a das unhas de nácar, habituadas a insinuar no afago o belisco traiçoeiro?

Afinal de contas, quem sabe se apesar de todas as suas m ostras encantadoras não estava a tal sonsa da j anelinha enganando a gente que passava, com o certas m oças do tem po de hoj e, cuj o fraco é porem -se às vessas; quero eu dizer, e sem m alícia, que se em penham com todas as forças para fazerem -se outras, das que as criou a natureza.

Assim tosquia-se para fazer cachos, aquela que Deus ornou com a túnica m ais bela, que é um a soberba m adeixa. Se não a possuísse, havia de esm agar a cabeça com um a trouxa enorm e de cabelos postiços. Estufa-se a m agra com enchim entos para sim ular contornos, com o a gorda se espartilha e acocha para figurar de esbelta. E nesse teor, enganando-se a si e aos outros, vai o m undo a rolar com o um a bola que é, levantando estes e abaixando aqueles, m as por fim esm oendo a todos.

Eis porque não seria caso de espantar, se naquela j anelinha tão louçã viesse a aparecer um a velha encarquilhada, descobrindo-se afinal que o nosso narizinho retorcido não passava da ponta fungada do cavalete setuagenário de um respeitável par de óculos de tartaruga.

Tudo pode ser.