A Guerra dos Mascates

José de Alencar · Capítulo 21 de 33

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A Guerra dos Mascates

Capítulo IV

 

SISTEMA DE NAMORO QUE A POLICIA NÃO CONSENTIRIA NOS TEMPOS DE AGORA

Foi um dia de Corpo de Deus que Vital Rebelo viu a prim eira vez D. Leonor, e ali ficou preso de seus encantos.

A gentil donzela, debruçada ao balcão da j anela, acom panhava com os olhos a procissão que passava nesse m om ento; e o m ancebo parado defronte enlevou-se na contem plação de seu form oso sem blante.

Quis o acaso que um laço de fita se desprendesse do toucado da donzela e caísse na rua alcatifada de lam béis. Correu pressuroso o nam orado m ancebo a apanhá-la, e beij ando-o cortesm ente com os olhos na dam a, pregou-o ao peito do gibão com o um a divisa.

Acom panhara Leonor com a vista ao seu tope azul até o m om ento de o levar aos lábios o cavalheiro; então um a onda de rubor lhe subiu ao rosto. Foi quando tornou a si desse desm aio que reparou a furto no galante cavalheiro, e não se pôde esquivar de achá-lo gentil e airoso.

Mas, agastada pela vergonha que lhe causava, não repôs nele os lindos olhos negros, ainda que não deixou de volver-lhe um a e m uitas vezes a vista de relance.

Nessa hora decidiu-se o destino de Vital Rebelo.

Outras donzelas tinham o Recife e Olinda, e das m ais form osas, que suspiravam entre as persianas do balcão vendo passar no seu garboso ginete o prendado m ancebo, e cuj a m ão de esposa bastaria um desej o seu para obtê-la.

Mas havia ele de prender-se àqueles negros olhos, que, se lhe prom etiam m eigos rendim entos, deviam custar-lhe tantas ânsias e aflições, com o lhe estavam reservadas na triste sina de am ante, que depois de esposo, tornou ao que era, porém desventurado.

Desde aquela tarde de Corpo de Deus avistou-se Vital m uitas vezes com Leonor, ou no bakão da casa, ou na Sé em hora de m issa, ou na rua por entre as cortinas do palanquim ; e parecia-lhe que de cada vez se apagava aquela esquivança, com o que de princípio fugiam os olhos da donzela de encontrarem -se com os seus.

Um a tarde em que ficou a donzela só por um instante no balcão, Vital, que andava espreitando essa ocasião, chegou a todo o galope do ginete, o qual ao m anej o do destro cavalheiro em pinou-se quase direito apoiando as patas na parede.

Baixos com o eram naquele tem po os andares, pode o ágil m ancebo erguer-se na sela a j eito de oferecer a Leonor um cravo encarnado m enos form oso todavia que os dois abertos àquele instante nas aveludadas faces da donzela.

Não se anim ava a tím ida m oça a tom ar a flor da m ão do cavalheiro, e foi preciso que este lha deixasse na m anga do vestido que abria-se em volta do m im oso braço, com o a folha a cingir o cálice do lírio.

Nesse m om ento assom ou à j anela André de Figueiredo, que suspeitoso observara de dentro a ousadia do cavalheiro e a indulgência da dam a. Lançando m ão à flor arrem essou-a contra o rosto de Vital, enquanto com o braço esquerdo arredava a sobrinha da j anela, falando-lhe de um m odo áspero:

— Recolha-se, Leonor!

Entretanto Rebelo que apanhara a flor no ar, trouxe outra vez o brioso ginete contra a parede.

Então com adm irável agilidade alcançou o parapeito do balcão e saltou na j anela, ao lado de Figueiredo.

Quando este apercebeu-se do lance, estava suj igado à portada pela m ão robusta de Rebelo, que desem bainhando a adaga disse para Leonor:

— Tom ai-m e este cravo, senhora, e prendei-o ao peito de vosso j ustilho, por que se o deixais cair, à fé de Deus e da m uita adoração que m e m ereceis, j uro-vos que o plantarei no coração deste cavalheiro com a ponta de m eu punhal.

Leonor espavorida obedeceu m aquinalm ente, e Rebelo, deixando o capitão ainda sufocado da gargantilha viva que lhe cerrara o pescoço, saltou na sela e afastou-se a galope.

Tão rápida correu esta façanha, que j á o alferes desaparecera no fim da rua quando André de Figueiredo se debruçava na sacada furioso, com os dentes a ranger e os lábios trêm ulos de ira.

Estava tem eroso assim o capitão, que j á de si era, ainda m esm o em sossego, de aspecto duro e carrancudo. Dobrando a m eio sobre o parapeito a alta estatura, devorava com o fero olhar o espaço em busca de Vital.

Era Leonor filha única de D. Antônia de Figueiredo, a qual depois da m orte de seu m arido Luís Barbalho de Vasconcelos, viera habitar nas casas do irm ão André de Figueiredo, onde tam bém m orava sua irm ã viúva, D. Lourença de Holanda.

Foi essa fam ília um ram o dos Holandas, a cuj o tronco se prendia por Agostinho de Holanda Vasconcelos, terceiro filho varão de Arnault de Holanda, que fundou em Pernam buco essa linhagem , casando-se com D. Brites Mendes de Vasconcelos.

Pelo casam ento de Cristóvão de Holanda, prim eiro filho varão de Arnault de Holanda com D. Catarina de Albuquerque, filha de Filipe Cavalcanti, fidalgo florentino, com eçou a aliança das três casas dos Holandas, Cavalcantis e Albuquerques, a qual daí em diante se foi ainda m ais estreitando com o volver dos tem pos por novas uniões.

Com a m orte do pai de Leonor, tom ara-lhe a autoridade o Capitão André de Figueiredo, com o cabeça da fam ília; pois além de três irm ãs, ainda tinha de dois irm ãos m ais m oços, o Tenente Antônio Tavares de Holanda e o bacharel José Tavares de Holanda, que j á encontram os à ceia do capitão-m or.

Deixou o finado Luís Barbalho em pobreza m ulher e filha, tendo-lhe devorado o j ogo tudo quanto pôde apurar de seu patrim ônio e da fazenda que levara-lhe a esposa, pois para acudir às perdas e dívidas de honra, fez barato das suas propriedades.

O capitão-m or que porventura poderia, com a autoridade dos anos e da chefia, pôr cobro a esse desm ando, abstinha-se, apesar dos rogos da sobrinha D. Antônia de Figueiredo, m ãe de Leonor.

Foi sem pre o j ogo um a das fidalguias dos Cavalcantis; por isso o velho pecador, que não era hom em de pregar com o Frei Tom ás, desconversava o caso.

Sucedeu que os prédios queim ados por Luís Barbalho fossem com prados, uns diretam ente e outros em segunda m ão, por Manuel Rebelo, pai de Vital e negociante de grande giro, que havendo acum ulado cabedal, não perdia ocasião de dar-lhe seguro e vantaj oso em prego.

Outro, se ele não se propusesse, haveria os bens e por m ais vil preço. Não obstante, aquela coincidência fortuita tornou-se crim e aos olhos dos parentes propensos a buscar um bode expiatório para as culpas de seu conj unto.

Ainda Vital não era conhecido de Leonor, que j á esta aprendera da m ãe a abom iná-lo, com o o herdeiro, no nom e e no rancor, do usurário que arruinara seu pai, reduzindo à extrem a pobreza sua casa. Mas estas sem entes de m alquerença em coração de m enina são arriscadas, porque em vez dos abrolhos, acontece as m ais das vezes brotarem rosas.

Já se vê que André de Figueiredo não podia ver de boa som bra que sua sobrinha fosse requestada por um Rebelo, que além de pífio m ercador, indigno de levantar os olhos para um a descendente dos Holandas e dos Cavalcantis, era figadal inim igo da fam ília.

Não disfarçara Rebelo os obstáculos com que tinha de afrontar-se o seu afeto; e todavia não se abateu o ânim o esforçado.

Sua condição de hom em sem nascim ento, ele a aceitara com o um a inj ustiça da sociedade; e desde m uito m oço foi seu tim bre destruir essa barreira que os prej uízos antepunham às nobres e legítim as aspirações de sua alm a.

Podia com o outros com prar um hábito de Cristo ou algum ofício dos que traziam nobreza. Mas sua fidalguia, não a queria ele m ercada e som ente conquistada por seus feitos. Assim foi que adquiriu todas as prendas e gentilezas de cavalheiro, e com tal realce, que não havia nobre em Pernam buco senão em todo o reino, capaz de lhe disputar a prim azia em qualquer exercício de corpo ou de espírito.

Daí provinha o seu j usto orgulho de se haver feito a si próprio grande fidalgo, sem necessidade de brasão e linhagens, pelo único estím ulo de seus brios generosos. E tinha um pressentim ento de que sua Leonor o estim aria m ais assim , filho de suas obras, do que alapardado em ridículos pergam inhos.

Desde aquela tarde do cravo, cada vez que Rebelo queria avistar-se com a dam a de seus pensam entos, custava-lhe isso, com o dissera o governador, um assalto d'arm as ou um a batalha cam pal.

Tinha ele m ensageiros que o traziam inform ado dos passeios de Leonor, e o avisavam das ocasiões em que a m ãe lhe consentia estar à j anela, ou a levava fora, em passeio e visitas.

Então corria o m ancebo a Olinda, se j á ali não estava oculto em casa do alvissareiro, e acom panhado de dois acostados de sua confiança ia-se ao enconntro de Leonor, para cortej á-la com o respeito devido a um a rainha e significar-lhe com o gesto singelo da m ão esquerda sobre o coração, que ela continuava a reinar ali com o soberana.

As m ais das vezes, antes de aproxim ar-se da donzela, tinha ele de rom per através das espadas e adagas de André de Figueiredo e sua com itiva; outras tom ava-os de surpresa, e era na retirada que se travava a pelej a.

Nessa porfia andavam tão tribulados am ores, quando a carta régia da criação da vila do Recife levou a palácio o capitão-m or, donde resultou a intervenção de Sebastião de Castro em favor dos dois am antes.

Bem que penhorado pela ação generosa do governador, não se deixou Rebelo afagar pela travessa esperança que lhe roçava o coração com as asas verdes. Sabia ele de que têm pera era a soberba dos Cavalcantis, com o o ódio de André, de Figueiredo: não bastava para dobrar esse aço o favor de algum as palavras. em bora de pessoa de tam anha valia.

Três dias depois, sobre tarde, Vital Rebelo encam inhou-se a cavalo para Olinda, ansioso por ver Leonor, em cuj os form osos olhos se não tinha m irado desde m uitos dias.

Passou a ponte do Varadouro, subiu a ladeira, e entrou na Rua de São Bento. Estava a donzela à sacada, e debruçou-se ao avistar o galante cavalheiro, pendendo-lhe da m ão m im osa um a cândida e form osíssim a teia de Cam bray, cercada de rendas de Flandres.

Quando passava o m ancebo por baixo da j anela, soltou-se o lenço que Vital Rebelo, recebeu na palm a, beij ando-o um a e m uitas vezes, sobretudo nos em blem as que trazia bordados a fio de seda pelas m ãos de Leonor, e eram um cravo encarnado ao qual servia de vaso um coração.

Tornando a casa, ainda enlevado, agradecia o alferes a Sebastião de Castro sua ventura; pois aquela prenda. trabalhada por Leonor nas horas de saudade, não teria ela nem ânim o nem liberdade de oferecer-lha, se não houveram cessado a severidade e vigilância de que a cercavam .

De feito, o que Vital não ousara esperar veio a realizar-se, ainda que não em m uita relutância e acerbas contestações.

Relatara o capitão-m or aos principais da fam ília quanto passara em palácio, e para todos ficou evidente que o governador querendo proteger Vital Rebelo, por quaisquer m otivos, fazia do casam ento deste com Leonor a condição do prom etido favor de protelar a criação da vila do Recife, e frustrá-la sendo possível.

Sebastião de Castro tinha para si que nada prom etera, e ficara senhor de proceder com o j ulgasse m ais acertado de futuro, em face das circunstâncias. Era essa um a das sutilezas do fidalgo: persuadir aos outros de em penhos que, além de não tom ar, ele costum ava ressalvar por um as palavras ou reservas m entais a que se não dava atenção.

Largam ente se discursou no sofá acerca do que havia a fazer em tal em ergência. Logo em princípio preponderou o alvitre de repelir sem m ais exam e a possibilidade de um a aliança degradante para a nobreza e em particular para os Cavalcantis; e as razões dos m ais políticos sobre a necessidade de derrogar um tanto no lustre da nobreza pernam bucana para salvar-lhe a sum a que eram as regalias e privilégios, retrucavam que se não havia m ister de tal sacrifício, quando podiam fazer que o Senado de Olinda em bargasse a execução da carta régia obtida ob e sub-repticiam ente.

Destes últim os eram os m ais assom ados, com o de razão, André de Figueiredo que as públicas estim ações j untava as particulares das afrontas recebidas, e tam bém o ouvidor Arouche. No outro partido estava o Sargento-Mor Cristóvão de Holanda, que era de natural brando e conciliador.

Acudiu então Filipe Uchoa com o seu peco de reduzir diferenças e sugeriu o alvitre de se não em baraçar pelo enquanto o casam ento, sem todavia aceitá-lo definitivam ente, e assim ganhando-se tem po, o que era de toda im portância para o caso, diferia-se a dificuldade que m ais tarde se resolveria com o pedissem as circunstâncias.

Era o bacharel cam arada de Vital Rebelo ou inculcava-se aí; m as esse favor de Sebastião de Castro pelo alferes estava-lhe fazendo cócegas à vaidade, pelo que m aquinava cinzar ao governador o qual nessa bisca da política era hom em para dar-lhe sota e ás.

Tão vários e encontrados pareceres, ouvia-os João Cavalcanti com sem blante de j uiz que pesa o pró e o contra. Às vezes, em bora raras, cobrava esse ânim o alquebrado o vigor prim itivo, e m ostrava a efígie do galhardo e leal cavalheiro que fora.

Tom ou ele a palavra com autoridade, e todos o escutaram reverentes.

— Se nesse casam ento está o penhor de nossa vitória e portanto da conservação de Olinda e de sua nobreza, que m uito é tão pequeno revés em com paração da desafronta de nossos brios enxovalhados pela m ascataria do Recife? E um a vez que havem os de passar por essa prova, cum pre sofrê-la com ânim o de cavalheiros, sem despeitos nem subterfúgios.

Neste ponto Filipe Uchoa corando ao de leve, enfrestou o olhar por cim a dos óculos para exam inar o efeito que produzira no sem blante dos outros a indireta do tio.

— Esse Rebelo, continuou o capitão-m or, não é nobre; m as tam bém por seus cabedais e trato de vida j á se não pode dizer um peão. E os descendentes dos Cavalcantis, Coelhos, Albuquerques e Holandas, tem os fidalguia dem ais, que sobra sem dúvida para repartir com os m aridos de nossas filhas e sobrinhas:

Ficou pois decidido que se deixaria o cam po livre ao m ancebo para cortej ar a donzela, com o que ele infalivelm ente se afoitaria a pedir-lhe a m ão, sôfrego da honra insigne dessa aliança, ainda m ais do que dos arrebatam entos da paixão.

Não se atreveu André de Figueiredo a opor-se de frente ao capitão-m or. Arrancou desabridam ente, com o quem se não podia conter, e entrando por casa, foi-se à irm ã:

Querem casar Leonor com o filho do j udeu que desgraçou-lhe o pai. Com o m eu Voto, nunca o fareis. E tam bém vos digo que, eu vivo, aquele vilão não passará a soleira desta casa. Nem j am ais terei por m eu sobrinho e vosso filho o perro que eu j urei de coser com esta adaga.

Parece que D. Antônia contou ao tio as am eaças do irm ão, pois nessa m esm a tarde, antes de m ontar a cavalo, buscou o capitão-m or a André de Figueiredo.

— Sabereis, m eu sobrinho e senhor Capitão André de Figueiredo, que m e veio ao conhecim ento vossa intenção de desafiar-vos com Vital Rebelo; e então ocorreu-m e dizer-lhe que doravante, visto ser por m inha vontade que o rapaz cortej a Leonor, não é com ele, m as com igo, que vos tereis de haver, do que vos dou aqui por ciente.

Estas palavras as proferira o velho desem penando o grande talhe com o garbo m arcial de outros tem pos; e rem atou-as batendo com a palm a da m ão direita nos copos da espada suspensa ao quadril. Depois cortej ou, tocando com donaire na aba do chapéu:

— Ao seu dispor, senhor capitão.

André de Figueiredo, de cabeça baixa, não abriu boca, tem endo ao descerrar os lábios que lhe rom pessem , não palavras, m as todas as pragas do inferno que lhe ferviam no coração. Quando se foi o tio, rugiu de cólera, arrancando um punhado de barbas.

Desde esse dia sum iu-se de casa. Soube-se depois que partira para seu engenho do Cairá, onde conservou-se por m uito tem po ferm entando sua ira.

Tais eram as ocorrências que nos dias anteriores haviam conduzido os am ores de Vital à feliz conj unção em que ele os achara na sua ida a Olinda, e em que perm aneceram até o dia dos desposórios.