A Guerra dos Mascates
Capítulo XV
O NUNO ESTRÉIA-SE NA CARREIRA DAS ARMAS PELO RAPTO DAS SABINAS
Com pouco chegou um dos cam aradas trazendo um coco verde, que apanhara ali perto. A água e depois a geleia reanim aram o Lisardo, e deram -lhe forças para esperar a refeição que veio de Olinda, e constava de um a açorda e vinho.
Instado por Nuno, o poeta referiu-lhe em poucas palavras o segredo de sua desesperada posição:
— Naquele m esm o dia, em que à tua vista m e correram de Olinda, com o um ingrato e falso, tornando ao Recife. para beber nos olhos dela um conforto de que precisava, fui tam bém despedido a seu m andado com o um m endigo im portuno!
— Belinhas?...
— Ela!.
— Soube não sei com o, que eram m eus os versos contra as dam as de Olinda... E eram ; m as tinha-os feito por ordem de D. Severa; e j am ais com intenção de ofender aquela que eu adorava com o a luz de m inh'alm a.
Nuno cogitava.
— Então, concluiu o poeta, pensei que j á não tinha que fazer na terra e chegando aqui, m e deixei m orrer. Por que m e cham aste de novo a este m undo, onde nada m ais sou do que um espectro?
— Hás de ser m arido de Belinhas, que o m ando eu! exclam ou o Nuno com um entono picaresco.
Um dos cam aradas passou para a garupa do outro, e no cavalo devoluto acom odou-se o Lisardo, que apesar da fraqueza pôde m anter-se na sela.
Por ordem do azougado rapaz, seguiu a esquadra para o Recife, que achou em alvoroto com a nova do horroroso insulto feito ao governador.
Em vez de hesitar no plano que traçara, o Nuno ao contrário m ais se apressurou.
Já vim os com o chegou à casa do pai, onde não o conheceram nem a m ãe, nem a irm ã, por causa da viseira que trazia descida; pois o escudeirinho não relaxava a couraça e capacete, que apesar de j á não serem da m oda, davam -lhe ares m ais guerreiros.
Foi reconhecendo Lisardo, que a m enina Belinhas soltara o grito de espanto, que afugentou da sala, com o som bras que se evaporam , a Senhora Rosaura e o insigne Capitão Miguel Correia.
A. m enina, porém , deixou-se ficar ainda que trêm ula e perturbada. Apesar do susto, sentia um a vontade irresistível de saber o que desej ava ali aquela tropa que tinha por um dos cabos o Lisardo.
Entrou na sala o Nuno, com um trem endo espalhafato guerreiro, de arrastado de espada, batido de esporas e roncarias de peito, puxando pelo braço o Lisardo que fazia o possível por desvencílhar-se da corriola.
— A Senhora Isabel Viana, ou a m enina Belinhas, que no Parnaso é conhecida por Belisa, está presa à m inha ordem por ter praticado certa ingratidão com o seu poeta e adorador aqui presente. E com o tão bárbaro crim e não há de ficar sem punição, vai a ré deste passo acom panhar o Senhor Lisardo de Albertim á prim eira igrej a, onde conj ugará com ele o verbo m atrim ônio. Tenho dito.
Belinhas, que havia conhecido a voz do irm ão, riu-se m au grado das garotices do rapaz; e consentiu, toda envergonhada, que ele pusesse na m ão fria e trêm ula do Lisardo a ponta de seus dedos m im osos. Pensava ela que tudo aquilo não passava de um a com édia, e tinha razão; m as. a com édia não acabava ali.
Enquanto na sala isto ocorria, os cabras, entrando no arm azém por ordem de Nuno à busca de um a liteira, deram com um a pipa de torneira assentada sobre o tendal a j eito de escorrer o líquido.
Um dos cabras logo pôs-se de gatinhas a m am ar naquela teta apoj ada e os outros im pacientes esperavam sua vez. Um , porém , m ais sôfrego deitou os olhos ao redor e descobriu um pichel de lata:
— Isso de bica atrasa m uito. Eu cá vou com o. púcaro à fonte.
Dito e feito. Trepando no cavalete para deitar o tam po dentro, viu com surpresa que j á a pipa fora arrom bada; porém m aior foi seu espanto descobrindo ali um a cabeça.
— Olá, tem os conserva!
— Que história é essa?
— Um a cabeça de m olho!
— Um corpo inteiro!
— Oh! diabo!
— Não m e m atem ! m urm urou a pipa. Eu prom eto...
Sabidas as contas, era o nosso Capitão Miguel Correia que se pusera de conserva na pipa do vinho.
O que lhe valeu foi a pressa com que estava o Nuno, a quem não fazia conta a volta do pai. Bem desej ava ele dar um abraço à m ãe, porém tem ia as ternuras da velha.
Dois cavalos da tropa foram m etidos nos varais da liteira, que em poucos m om entos ficou prestes.
— Toca a andar. Senhor Lisardo de Albertim , ofereça o braço á sua dam a.
O nosso poeta, que ainda não proferira um a palavra, estava alheio a quanto se passava em torno e enlevado na contem plação de Belinhas.
— Onde m e quer você levar, Nuno?
— À casa de Marta.
— Sem a m ãe?... Não vou.
— Vais, te digo eu, que não estou para ver o Lisardo m orrer segunda vez!
— Ele?... balbuciou a m enina lançando ao am ante um olhar de exprobração.
— Quem traz dentro de si m orta toda a esperança, j á não é m ais hom em ., é só fantasm a de um a alm a penada que pede a sepultura, disse Lisardo.
A m enina enxugou um a lágrim a, e Nuno aproveitando-se da com oção, tom ou-a nos braços quase sem resistência e levou-a à liteira, que logo partiu para Santo Antônio.
A m enina gritou pela m ãe; esta, porém , escondida na cozinha, não a ouviu.
A casa do Perereca estava fechada. Ao rij o bater da lança do Nuno acudiu um escravo, que ficou espantado vendo a patrulha.
— Arreda, tição, quero entrar.
— O senhor não está aí
— E a m ulher?
— Tam bém foi com ele para palácio.
— E a filha?
— Essa está ai, sim senhor.
— É quanto basta.
Entrou o Nuno com o costum ado arreganho e esparram e na sala onde estava Marta.
— Venho buscar a m enina por m andado de sua m ãe.
— Para palácio?
— Sim ! roncou o cavaleiro.
Marta, aborrecida e assustada de estar sozinha em casa, preparou-se logo e entrou na liteira onde ainda m ais contente ficou por encontrar Belinhas.
Nesse m om ento um vulto que viera da Penha e esbarrara com a casa cercada de gente arm ada se esgueirava ao longo da cerca. O Nuno o descobriu e deu ordem de agarrá-lo:
— Que é isto, Cosm e? Foge dos am igos?
— Eu... eu... Nuno...
— Tenho que agradecer-lhe um as am izades que fez aqui ao nosso Lisardo. Ponham -no de garupa; e olho no m eco.
A tropa de novo pôs-se de m archa, m as em vez de tom ar para o lado do palácio, seguiu pela praia na direção dos Afogados; e pouco depois atravessava a Boa Vista, cam inho de Santo Am aro. O Nuno preferira para voltar a Olinda esse rodeio que era m ais seguro.
Marta, que j á sabia pela am iga quem era o façanhudo cavaleiro arm ado de ponto em branco, e desconfiava da em brechada, vendo assom arem as torres do palácio ao longe, pela esquerda, abriu a cortina da liteira:
— Oh! senhor, este não é o cam inho do palácio.
— Não; m as é o da Igrej a de Santo Am aro.
— E que vam os nós lá fazer?
— A senhora vai desposar-se com o escudeiro Nuno, Peitod'Aço; sua am iga com Lisardo de Albertim , nobre trovador olindense.
— Eu não quero, não quero, não quero! disse a m enina batendo com a m ãozinha fechada na borda da liteira.
— Quero eu; e basta.
— Eu te m ostrarei!
E a gentil m enina escondeu-se am uada dentro da liteira, para fugir ao olhar do Nuno, que nesse m om ento ela detestava.
Entretanto chegava o pelotão a Santo Am aro, e acam pava em frente da erm ida.
Tinha anoitecido, m as fazia um desses luares esplêndidos do Norte que parecem auroras boreais.
O Nuno despachou dois cabras em busca do capelão, ou de qualquer outro padre m ais próxim o, com ordem term inante de trazê-lo ali, ainda que fosse am arrado.
Enquanto se fazia a diligência, deixou ele o Lisardo com alguns hom ens de guarda à liteira, e afastou-se com o Cosm e Borralho e um dos cabras para o m ato vizinho. Ali chegando, m andou pelo cam arada cortar um grande m olho de cansanção.
— Cosm e Borralho, m eu am igo, você desde certo tem po a esta parte anda cheio de m aus hum ores.
— Não há tal!... acudiu o escrevente.
— E por falta de m ezinha, essa reim a está-lhe atacando a língua com achaques de enredeiro e m aldizente.
— É um falso testem unho, Nuno; não acredite!
— Pois eu não hei de acreditar que você anda achacado? Se não fosse por m oléstia, o Cosm e, nosso cam arada, havia de andar intrigando o Lisardo aqui no Recife e em Olinda?
— Juro que não fui eu!
— É doença, não digo? Sou seu am igo, Cosm e; quero curá-lo dessa ruim praga. Dispa-se até ficar em pêlo para levar um a fricçãozinha com que você sara logo.
— De cansanção? exclam ou o escrevente sarapantado.
— É um a planta m edicinal; produz na pele um as coceiras que acabam com as com ichões da língua.
— Está bom , Nuno, j á você se divertiu com suas chacotas; agora deixe-m e ir.
— Alto lá! Desate os calções.
— Nuno!
— Deixe-se de sestros. Se você não quer que eu, seu am igo, lhe sirva de enferm eiro, e lhe aplique o em plastro com todo o cuidado, então deixo-o nas m ãos deste m achacaz e com ele se avenha.
O Cosm e engrolou, sofism ou, e rem anchou quanto pôde; m as afinal fazendo boa cara à m á fortuna resignou-se a levar a surra de cansanção, que o Nuno adm inistrou-lhe conscienciosam ente.
— Vá consolado, Cosm e, que você agora fica são com o um pero.
O escrevente fez um a careta de raiva, m as não a viu o Nuno, cuj a atenção nesse m om ento foi reclam ada por clam ores que partiam do lado da povoação. Correu ele à erm ida, inquieto acerca da liteira.
Ao chegar à praça a achou cercada por um bando arm ado; e viu que um a pelej a renhida se travara j unto à liteira, onde o Lisardo esgrim ia um a catana com o desespero de um cego. De um salto achou-se o rapaz ao lado do am igo, pronto a m orrer com ele.
Nesse ponto, porém , um cavaleiro que escoltava um a form osa dam a apareceu na praça.
— Que tem os? perguntou o cavaleiro com o tom im perioso.
Os assaltantes dom inados por aquela voz recuaram , suspendendo o com bate; e as cortinas da liteira abriram -se de repente, m ostrando o lindo rostinho de Marta, am arrotado do susto:
— Prim o Vital Rebelo, acuda-nos!
— A m enina Marta?
— A própria.
— Que faz por aqui?
— Isso é um a história.
Do com o ai se achava o Rebelo, vam os sabê-lo.
Testem unha do insulto que sofrera o governador, Vital depois do prim eiro m om ento dado à surpresa e desgosto que lhe causava o triste acontecim ento, pensou que seu plano ficaria frustrado se o não realizasse im ediatam ente. Correu à sua casa da Boa Vista,, fez m ontar a gente que j á tinha preparada, e correu a Olinda.
A nota do desacato j á ai tinha chegado e a todos deixara atônitos. O bispo, os principais da nobreza, e entre eles André de Figueiredo, tinham acudido pressurosos a palácio para visitar o governador e dar solene testem unho de que não tinham a m enor parte no crim inoso intento.
A escolta de Vital Rebelo chegou à Rua de São Bento sem o m enor contratem po. Leonor estava à j anela. Vital subiu, arrebatou a esposa nos braços e desceu à rua. Ai m ontou-a no palafrém que a esperava, e partiram de Olinda pelo cam inho de dentro para evitar encontros.
Na frente ia um a ronda para segurar o cam inho, e evitar a Leonor o susto de achar-se envolvida em algum a pelej a. Foi essa vanguarda que, vendo gente arm ada no pátio, cercou-o com intenção de aproxim ar-se à liteira, ao que se opôs o Lisardo.
Sabedor das façanhas do Nuno, o Vital m ais ou m enos atinou com a explicação daquela salsada; além de que o Nuno não se fez rogado para confessar. A pergunta do que ali fazia àquela hora respondeu:
— Estou à espera de um padre para casar Belinhas com Lisardo, e Marta com igo.
— E o consentim ento de m eu prim o Sim ão Ribas e do Senhor Viana, j á o deram ?
— Em tem po de guerra, não há necessidade disso. Estas dam as foram libertadas por m im e podem dispor livrem ente de sua m ão.
Riu-se Vital.
— Pois que estam os em tem po de guerra, declaro-os m eus prisioneiros, e ponho estas dam as sob a proteção de m inha esposa. Vinde D. Leonor, que vos apresento um a linda prim inha, a quem não conheceis, e sua am iga, que não é m enos form osa. Vereis que no Recife tam bém com o em Olinda viçam , as rosas.
A resistência era im possível. Nuno o reconheceu vendo os seus sequazes agarrados pela gente de Vital, m ais num erosa e m elhor arm ada. Assim teve ele de entregar-se prisioneiro com o o Lisardo, e acom panhou a liteira à casa do alferes na Boa Vista.
Marta, que estava desesperada com a diabrura do Nuno, ficou um tanto desconsolada por não ver até onde iria o atrevim ento do rapaz, e Belinhas a acom panhava nesse pesar.
Por aquele tem po eram presos ao sair de palácio o Capitão André de Figueiredo e Luís Barbalho, escapando de igual sorte m uitos outros dos principais de Olinda, que lograram fugir a tem po.