A Guerra dos Mascates

José de Alencar · Capítulo 4 de 33

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A Guerra dos Mascates

Capítulo II

 

A LEBRE NA TOCA E O VEADO NA MOITA

Já batia a som bra no peitoril, quando se entreabrira a adufa da j anela, m ostrando a ponta retorcida do gentil narizinho.

Dir-se-ia que ele farej ava com o um a lebre arisca, tal era sua volubilidade, se não fosse m ais natural presum ir um olhar, que ainda se não distinguia, coando pela fresta, a espreitar os arredores. Com o nada aparecia de suspeito, as duas abas correram , escancarando-se de par em par com arrebatam ento igual da tim idez anterior.

Assim abrem -se tam bém as asas do passarinho, que há pouco titilava dentro do ninho, e j á talha os ares com o voo rápido.

No vão da j anela m ostrou-se o busto de um a m enina; m as o que prim eiro se viu, senão som ente, pois arrebatava os olhos todos e a alm a, foi a cabecinha cheia de papelotes, que se enroscavam entre os anéis do cabelo negro. Nunca flores, nem pérolas, ornaram um a fronte fidalga com o aqueles crespos de papel.

Trazia a m enina os bolsos do avental cheios de gom os de cana, cortados à feição de chupar; e naquele m om ento, seus dentes brancos e polidos com o o j aspe m ordiam um a talhada, que lhe arregaçava graciosam ente os lábios purpurinos. No prazer com que ela trincava a fibra da cana, sugando-lhe o m el, adivinhava-se o segredo dessa boquinha faceira.

Não era boca para em beber-se na delícia de um beij o ardente, com a ânsia da paixão que im bui um a alm a na outra, fundindo-as em delíquios de am or. Não o era decerto; m as para trincar um coração, com o se fosse um gom o de cana, ou para esgarçar a vida de um m ísero am ante, com o o bagaço que segurava entre os dedos, isto sim : podia-se j urar.

Quem adm irou a fina polpa desse lábio e não viu logo as sem elhanças da pétala de rosa cobrindo o espinho, ou do bago da pitanga onde acaso insinua-se o farpão da abelha? Desses lábios, quando ele, algum a vez se abrocham em botão, não há fiar; são beij os de m order, os que eles sabem , caricias que pungem n'alm a e a deixam em piques. Por isso estão sem pre a rir, não tanto de alegria, com o pelo gosto de m ostrar o dentezinho branco, sutil e afilado com o o dardo da áspide que se escondesse em um alj ôfar.

Mas naquele rosto gracioso, o prim or não eram nem a boca brej eira e os cabelos cacheados, nem os olhos pretos que faziam cócegas no coração, nem m esm o a covinha da barba, que um poeta cham aria o ninho das graças. Era... Adivinhem !... Era o narizinho retorcido, que no m eio daquelas gentis feições, parecia um anj o traquinas dentro de um berço de boninas.

Quando encontro um desses narizes arrebitados, j á se entende, em rosto de m oça, cuido estar vendo um passarinho, que arrufa-se de cólera e em pina a cabeça, pronto a lançar a bicada. Reparem bem ; depois digam -m e se nesse retorcido gracioso de um a ventinha rósea e transparente, não está aí esculpido na sua m ais bela form a o capricho. E se não sabem o que sej a capricho, posso confiar-lhes este segredo de m inha invenção: é um colibri que tem o ninho no coração de certas m oças, e chupa-lhes o m el de todas as flores d'alm a.

Chupando os gom os de cana, ia-os a m enina dos papelotes arranj ando um perto do outro, em fileiras, sobre o batente da j anela; no cuidado com que o fazia, e certo arzinho lesto, se estava denunciando o pensam ento de um a travessura, de que ela j á saboreava o gostinho.

De vez em quando relanceava um olhar pela praia fronteira do bairro do Recife, desde o Forte do Matos até à ponte, que unia as duas m argens, e da qual os tetos das casas e arvoredos dos quintais não lhe deixavam avistar senão a extrem idade oposta. Entretanto, se acontecia farfalharem as folhas com algum a raj ada m ais fresca da brisa do m ar ou com o arranco de algum a rola assustada, estrem ecia a fingida e punha-se alerta.

Reparando nas plantas dos vasos, que form avam seu j ardim , o narizinho arrebitado achou-as lânguidas e tristes com o calor do dia, e lem brou-se de regá-las.

Foi dentro buscar um m oringue d'água, dos boj udos e pesados com o os costum am fazer ainda hoj e; e a custo, erguendo-o com am bas as m ãos para vencer-lhe o peso, conseguiu deitá-lo no peitoril da j anela. Daí inclinando-o, tom ava ela os bochechos d'água, que deitava sobre as plantas, de bruços ao parapeito para alcançar o vaso.

Um a carriça, que tinha construído o ninho no vão de um a telha, desde instantes folgava defronte da j anela, traçando no ar os adej os, com o costum a, a voar e revoar no m esm o lugar.

Convidada pela frescura d'água, foi esconder-se entre as folhas rociadas do bogarim , e bebeu um a gota que trem ulava dentro da nívea corola da flor. Invej ou a m enina dos papelotes aquela travessura, e sentiu não ser passarinho para fazê-la.

Que é isso? Tem os novidade?

Ergueu-se rápida a cabeça dos papelotes; os olhos vivos lhe cintilaram de prazer, fitando um obj eto, lá da outra banda.

Seria acaso um rapazola que desem bocava apressado da Rua do Azeite na da Madre de Deus, e depois de quebrar a esquina, voltando a cabeça para assegurar-se que o não seguiam , deitara a correr na direção da ponte?

Bem pode ser, porque os olhos buliçosos, agora atados, vieram seguindo passo a passo pela praia o suj eitinho, até passar o arco e entrar na ponte onde o esconderam as casas. Todavia continuaram os olhinhos cam inheiros a andarem pelo ar um a certa vereda que lá eles conheciam de a terem batido m uita vez, e que, era eu capaz de apostar, vinha cair aí perto, entre os caj ueiros e m angues do areal da Penha, m esm o naquele claro para onde está olhando agora a curiosa.

Debruçada sobre o peitoril, com as m ãos seguras ao batente onde apoiava o seio, o pescoço estendido e o ouvido alerta, tinha a m enina o j eito de um a lebre agachada à boca da toca sobre as patas dianteiras, com as orelhas crespas, de espreita ao perigo. Este não andava longe.

Atravessando a ponte e seguindo pela Rua da Maré, o garoto ganhara o arvoredo além da coroa de areia onde se elevava o convento de Nossa Senhora da Penha de França. Ai parou um instante, com a ligeira hesitação da esperança que receia um m alogro.

Era ele um belo rapaz de dezessete anos; não obstante a pouca idade, m ostrava no gentil parecer tal ardim ento, e no talhe bem com posto um donaire firm e e resoluto, que im prim iam em sua graça adolescente um a encantadora bizam a.

Com um m ovim ento que parecia habitual alisava um bigode ausente, o qual apenas se anunciava pela m acia pubescência do lábio superior. Em falta dos longos pêlos que repuxasse em m om entos de enfado, à m oda dos veteranos, pagavam os cantos da boca fresca e rosada.

Outro sestro que se lhe notava era dar à ilharga, em andando, certa descaída com o o soldado que traz espada à cinta e furta levem ente o quadril para não em baraçar a m archa. Bem diverso era o instrum ento de que vinha ele arm ado: sobraçava um bastão chanfrado de j acarandá com a m edida portuguesa de vara e côvado, e trazia às costas um a burj aca de couro de Moscóvia cheia de fazendas e m iudezas, obj etos estes de que não se pudera antes desvencilhar com receio de perdê-los; m as naquele m om ento vingou-se com usura.

— Arre! Não está longe o dia em que te hei de m eter no fogo! exclam ou atirando a vara ao chão e dando-lhe por cim a um pontapé; e o saco foi pelo m esm o cam inho e teor.

Vestia o rapaz, ao uso do tem po e de sua condição, j aleco, véstia e calçiles de belbute da m esm a cor parda, com m eias cruas apertadas abaixo do j oelho e sapatos grossos de couro acam urçado, com fivela de estanho. Pelo traj o via-se que era filho da gente do m eio, com o se designava então a classe que nem era a nobre, nem a m ecânica; m as. ficava entre am bas, e se com punha daqueles a quem o ofício ou arte liberal privilegiava com certa isenção. Deste núm ero eram os m ercadores de tenda aberta.

Quem , pois, visse passar pelas ruas do Recife naquele tem po o esperto garoto com a vara em baixo do braço e a burj aca ao om bro, reconhecia-o logo pelo m oço de um m ascate, ou seu caixeiro de rua e balcão.

E não se enganaria, pois tal era o m ister que tinha o Nuno na loj a de seu pai, o m ercador Miguel Viana.

Curta foi a hesitação do rapaz. Meteu-se entre as árvores e aproxim ou-se sorrateiram ente, afastando os ram os para aprochar a casa. Se do lado da casa-a lebre espiava, de cá era o cam peiro que passava sutil través da folhagem , aspirando as baforadas do ar e pressentindo um hálito suspeito de envolta com as em anações da brisa e os eflúvios das flores.

Afinal, de espreita em espreita, lá chofraram -se os olhares de am bos, a m odo de pélas que se encontrassem no ar e retrocedessem . Com o figurinhas de artifício tocadas por m ola oculta, tom aram de súbito vária postura. O rapaz, voltando costas à j anela, apanhava no chão um ram o seco e partia-o em pedaços, que lhe serviam para atirar à copa das árvores, com o disfarce de abater algum fruto. Quanto à m enina, de um ápice escondera-se atrás da om breira da j anela, debulhando nos lábios um riso m alicioso, que ralhava com o rubor derram ado pelas faces, da m esm a form a que os dedos traquinas estavam às voltas com os alam ares do j ustilho.

Passado um m om ento, com o o Nuno parecia em verdade ocupado com as árvores, o narizinho retorcido que se anim ara a espiar com o canto do olho pela quina da om breira, foi a pouco e pouco, de susto em susto, j á ousado, e j á trêm ulo, m ostrando-se pela face interior, até que afinal surdiu fora de novo, em bora um tanto arisco e desconfiado.

Aí a esperava o fingido m oço, que tendo visto de esguelha toda a m ím ica, voltou-se de supetão; m as, se ouviu um gritozinho sem elhante ao da carriça, não enxergou m ais que um a som bra a desvanecer-se na obscuridade da recam ara.

Tão viva e ligeira com o ele, a m enina frustrou-lhe a travessura, escondendo-se de novo.

Duas ou três vezes repetiu-se a pantom im a, e o rapaz sem pre logrado; até que am uou-se, e trepando em um galho d'árvore, sentou-se de costas para a j anela, a balançar as pernas e a repetir a cantiga de um folguedo m uito em voga então:

Uma, duas, argolinha,

Finca o pé na pepolinha;

O rapaz que jogo faz,

Faz o jogo do capão,

O capão sobre o capão,

Conta bem, Manuel João;

Conta bem que vinte são;

E recolhe este pezinho

Na conchinha duma mão.