A Jornada do Escritor
Pícaro
"Isso não faz o menor sentido, mas eu também não faço."
Patolino
O arquétipo do Pícaro incorpora as energias da vontade de pregar peças e do desejo de mudança. Todos os personagens de uma história que são principalmente palhaços ou manifestações cômicas expressam esse arquétipo. A forma especializada denominada Herói Picaresco é a figura dominante em muitos mitos e é muito popular no folclore e nos contos de fadas.
Função psicológica
Os Pícaros cumprem várias funções psicológicas importantes. Podam os egos grandes demais, trazem heróis e plateias para a real. Ao provocarem nossas gargalhadas saudáveis, ajudam-nos a perceber nossos vínculos comuns, apontando as bobagens e a hipocrisia. Acima de tudo, introduzem mudanças e transformações sadias, muitas vezes chamando a atenção para o desequilíbrio ou o absurdo de uma situação psicológica estagnada. São os inimigos naturais do status quo. A energia picaresca pode se manifestar por meio de acidentes enganosos ou lapsos de língua que nos alertam para a necessidade de mudança. Quando estamos nos levando demasiadamente a sério, a parte Pícaro de nossa personalidade pode surgir de repente para nos devolver a necessária perspectiva.
Função dramática: alívio cômico
No drama, o Pícaro serve a todas essas funções psicológicas, e mais à função dramática de alívio cômico. Uma tensão sem alívio, o suspense e o conflito podem ser exaustivos emocional-mente, e, mesmo nos dramas mais carregados, a atenção da plateia se reaviva com momentos de gargalhada. Uma velha regra do teatro assinala essa necessidade de equilíbrio: Faça-os chorar muito, faça-os rir um pouco.
Os Pícaros podem ser criados ou aliados, trabalhando para o herói ou a Sombra, ou podem ser agentes independentes, com suas próprias agendas de atuação.
Os Pícaros da mitologia nos fornecem numerosos exemplos de como funciona esse arquétipo. Um dos mais divertidos é Loki, o deus norueguês dos truques e da trapaça. Como um verdadeiro Pícaro, ele serve aos outros deuses como conselheiro e assessor, mas também trama a destruição deles, solapando o status quo. É de natureza esquentada e sua energia rápida e veloz ajuda a aquecer a energia congelada e petrificada dos deuses, empurrando-os à ação e à mudança. Também traz o alívio cômico, tão necessário aos mitos nórdicos, geralmente sombrios.
Loki, de algum modo, é um personagem cômico secundário, em histórias que apresentam os deuses Thor ou Odin como heróis. Em outras histórias, é um herói por conta própria, um Herói Picaresco que sobrevive, graças à astúcia, contra deuses mais fortes fisicamente, ou contra gigantes. Finalmente, acaba se transformando num adversário mortal, ou Sombra, chefiando as hostes dos mortos numa guerra final contra os deuses.
Heróis Picarescos
Os Heróis Picarescos proliferaram como coelhinhos nas histórias folclóricas e nos contos de fadas pelo mundo afora. Na verdade, alguns dos Pícaros mais populares são mesmo coelhos: é o caso do Quincas, do sul dos Estados Unidos, da lebre dos contos africanos, e dos inúmeros heróis coelhos do sudeste da Ásia, Pérsia, índia etc. Essas histórias pintam o coelho sem defesa, mas esperto, contra inimigos muito maiores e mais fortes, as Sombras do conto folclórico, que se apresentam como lobos, caçadores, tigres e ursos. De alguma forma, o pequeno coelho sempre consegue dar um jeito de vencer o oponente faminto, que, em geral, sofre, dolorosamente, nas mãos do Herói Picaresco.
A versão moderna do coelho Pícaro, evidentemente, é o Pernalonga. Os animadores da Warner Brothers utilizaram enredos dos contos populares para apresentar Pernalonga enfrentando caçadores e predadores que não tinham a menor chance de levar a melhor diante de sua esperteza rápida. Outros Pícaros em desenho animado são Patolino, Ligeirinho (Speedy González), Papa-léguas e Piu-piu, na Warner; o Pica-pau e o Pinguim, de Walter Lantz; o cachorro Droopy, da MGM, que está em todas e sempre derrota o otário do Lobo.
Mickey Mouse surgiu como um Pícaro animal, mas foi amadurecendo e se transformou num sóbrio mestre de cerimônias e num porta-voz institucional.
Os índios norte-americanos gostam especialmente de Pícaros como o Coiote e o Corvo. Os deuses-palhaços dos Kachina, no sul dos Estados Unidos, são Pícaros poderosos e de grande capacidade cômica.
De vez em quando, é divertido virar a mesa e mostrar que os próprios Pícaros podem ser derrotados. Um Pícaro como a Lebre pode tentar levar a melhor sobre um animal lento e mais fraco, como a Tartaruga. Nos contos folclóricos e fábulas em que as duas aparecem juntas, a mais lerda acaba vencendo a mais veloz, graças à sua persistência obstinada ou à cooperação de outros animais de sua espécie.
Os Pícaros gostam de causar confusão só para se divertir. Joseph Campbell conta uma história nigeriana, na qual o deus picaresco Exu caminha por uma estrada usando um chapéu que é vermelho de um lado e azul do outro. Quando as pessoas comentam "Quem era aquele sujeito de chapéu vermelho?", acabam brigando com os que estavam do outro lado da estrada e que insistem em dizer que ele estava de chapéu azul. O deus se diverte com a confusão, afirmando: "Arrumar encrenca é minha maior alegria."
É comum que os Pícaros sejam personagens catalisadores, que afetam as vidas dos outros, mas eles mesmos não mudam. Eddie Murphy, em Um tira da pesada, exibe uma energia de Pícaro, quando sacode o sistema existente sem que ele mesmo chegue a mudar muito.
Os heróis da comédia, de Carlitos aos irmãos Marx, são Pícaros que subvertem o status quo e nos fazem rir de nós mesmos. Os heróis de outros gêneros, muitas vezes, têm que usar a máscara do Pícaro para enganar uma Sombra ou passar por um Guardião de Limiar.
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Os arquétipos são uma linguagem de personagem extremamente flexível. Constituem uma maneira de compreendermos qual
função um personagem desempenha num determinado momento da história. Conhecer os arquétipos pode ajudar os escritores a se libertar dos estereótipos, e dar aos personagens mais verdade psicológica e maior profundidade. Os arquétipos podem ser usados na composição de personagens que são, ao mesmo tempo, indivíduos únicos e símbolos universais das qualidades que formam um ser humano completo. Podem ajudar a dar uma verdade e realidade psicológicas a histórias e personagens, fiéis à antiga sabedoria dos mitos.
Agora que já conhecemos os habitantes do mundo das histórias, podemos voltar à Estrada dos Heróis, para olhar mais de perto os 12 estágios e ver como os arquétipos desempenham seus papéis na Jornada do Herói.