A Jornada do Escritor
Estágio Três: Recusa do Chamado
"Você não foi feita para isso, Joan, e sabe muito bem."
Tudo por uma esmeralda, roteiro de Diane Thomas
O problema do herói, agora, passa a ser como ele irá responder ao Chamado. Ponha-se na situação dele e verá que é um momento difícil. Estão lhe pedindo que responda "sim" a uma grande incógnita, a uma aventura que vai ser emocionante, mas também perigosa, e que pode ameaçar sua vida. De outra forma, não seria uma aventura de verdade. Você está diante de um limiar de medo, e uma reação compreensível é hesitar, ou mesmo recusar o Chamado.
Junte o que é seu, meu camarada. Pense no que vai precisar para enfrentar possíveis perigos, reflita sobre desastres já acontecidos. O espectro do desconhecido sempre caminha conosco, detendo nosso progresso neste limiar. Alguns de nós abandonam a busca, outros hesitam, outros ouvem as ponderações das famílias que temem por nossas vidas e não querem que partamos. A gente ouve dizer que
a jornada já começa errada, não vai dar certo, está fadada ao fracasso. Dá para sentir o medo que nos sufoca o fôlego e nos acelera os corações. Será que não é melhor ficar em casa, com Nossa Tribo, e deixar que outros arrisquem o pescoço nessa busca? Será que você nasceu mesmo para isso e pode sair em busca de aventuras?
Essa parada na estrada, antes que a jornada realmente comece, desempenha uma função dramática importante, mostrando à plateia que a aventura é perigosa e cheia de riscos. Não é uma brincadeira frívola, mas um jogo de alto risco, carregado de perigos, no qual o herói pode perder a fortuna ou a vida. A pausa para medir as consequências faz com que o engajamento na aventura seja uma verdadeira escolha, na qual o herói, após este período de hesitação ou recusa, dispõe-se a jogar a vida contra a possibilidade de atingir sua meta. Também obriga o herói a examinar a busca com cuidado e, talvez, a redefinir seus objetivos.
Querendo evitar
É natural que, de início, a reação dos heróis seja a de tentar evitar a aventura. Até mesmo Cristo, no Monte das Oliveiras, na véspera da sua morte, suplicou: "Afasta de mim este cálice." Estava ali tentando saber se haveria alguma maneira de evitar o sacrifício. Seria mesmo necessária aquela jornada?
Mesmo o herói dos filmes mais heroicos, às vezes, hesita, manifesta relutância ou simplesmente se recusa a ser Chamado. Rambo, Rocky e inúmeros personagens de John Wayne começam virando as costas à aventura que lhes é apresentada. Uma razão comum para essa Recusa é a experiência anterior. Os heróis alegam que são veteranos em experiências do tipo, que lhes ensinaram a loucura de se meter nessas situações. Ninguém vai conseguir que entrem em outra. O protesto continua, até que a recusa é superada, seja por alguma motivação mais forte (como a morte ou sequestro de um amigo ou parente), que aumenta o risco que está em jogo, seja pelo inato gosto por aventuras do herói, ou sua noção de honra.
Detetives e amantes podem recusar o Chamado a princípio, aludindo a experiências que os tornaram mais tristes, porém mais sábios. É delicioso assistir à relutância do herói sendo superada, e quanto mais obstinada é a sua Recusa, mais o público se deleita em vê-la vencida.
Desculpas
Geralmente, os heróis Recusam o Chamado, dando uma interminável lista de desculpas. Numa evidente tentativa de adiar o momento de enfrentar o destino inevitável, dizem que aceitariam, se não fosse por uma série premente de compromissos. Trata-se de bloqueios temporários na estrada, geralmente derrubados pela urgência da busca.
Recusa Persistente leva à tragédia
A Recusa Persistente do Chamado pode ser desastrosa. Na Bíblia, a mulher de Ló é transformada em estátua de sal por ter recusado o Chamado de Deus para deixar sua casa em Sodoma e não olhar para trás. Olhar para trás, mergulhar no passado e negar a realidade são formas de Recusa.
Uma Recusa persistente de um alto Chamado é uma das marcas de um herói trágico. No começo de Rio vermelho, Tom Dunston recusa o chamado para uma aventura de coração e começa a resvalar para uma destruição quase certa. Continua a não querer abrir o coração e envereda pelo caminho do herói trágico. Somente no terceiro ato, quando finalmente aceita o Chamado, é que ele é redimido e poupado ao destino de herói trágico.
Chamados conflitantes
Na verdade, Tom Dunston recebe dois Chamados ao mesmo tempo. O Chamado à aventura de coração vem da namorada, mas o que ele aceita vem de seu ego masculino, dizendo a ele que siga sozinho por seu caminho de macho. É possível que os heróis tenham que escolher entre Chamados conflitantes, em diferentes níveis de aventura. A Recusa do Chamado é aquele momento em que se articulam as dificuldades de escolha do herói.
Recusas positivas
A Recusa do Chamado, na verdade, é um momento negativo no progresso do herói, um instante perigoso, em que a aventura pode se perder ou deixar de acontecer. Entretanto, existem casos especiais em que a Recusa do Chamado é uma jogada sábia e positiva por parte do herói. Quando o Chamado é uma tentação em direção ao mal, ou uma sedução ao desastre, o herói é inteligente se disser que não. Os Três Porquinhos fazem muito bem em não abrir a porta para o Lobo Mau, apesar de seus poderosos argumentos. Em A morte lhe cai bem, Bruce Willis recebe vários Chamados tentadores para beber a poção mágica da imortalidade. Apesar de toda a sedução de vendedora de Isabella Rossellini, ele prefere a Recusa do Chamado e, assim, salva a própria alma.
O artista como herói
Outro caso especial em que a Recusa do Chamado pode ser positiva é quando o herói é um artista. Nós, os escritores, poetas, pintores e músicos, enfrentamos Chamados difíceis e contraditórios. Precisamos estar profundamente mergulhados no mundo a fim de encontrarmos a matéria-prima para nossa arte. Mas também precisamos ter tempo para retirarmo-nos do mundo, ficarmos sozinhos, e, de fato, fazermos nossa obra. Como muitos heróis de histórias, recebemos Chamados conflitantes, um que vem do mundo exterior, outro de dentro de nós mesmos, e temos que escolher ou conciliar. Para aceitar o Chamado superior de nos expressarmos, nós, artistas, temos que recusar o que Joseph Campbell chama de "as elogiosas seduções do mundo". Quando você está realmente a ponto de empreender a grande aventura, de alguma forma o Mundo Comum fica sabendo disso e agarra-se em você. Canta as canções mais doces e insistentes, como as sereias que tentam desviar Odisseu e sua tripulação, para que se choquem com os rochedos. Incontáveis distrações tentam afastar você do caminho, quando você está começando a trabalhar. Odisseu obrigou-se a parar e a tampar os ouvidos de seus homens com cera, para que não se deixassem atrair pelo sortilégio das sereias.
Heróis voluntários
Enquanto muitos heróis manifestam medo, relutância ou recusa, nesse estágio, outros não hesitam e não mostram nenhum medo. São os heróis voluntários, que aceitaram, ou até procuraram, o Chamado à Aventura. Propp os chama de "buscadores", em oposição aos "heróis vitimizados". No entanto, o medo e a busca representados pela Recusa do Chamado encontrarão sua expressão até mesmo nas histórias de heróis voluntários. Outros personagens manifestarão medo, advertindo o herói e o público sobre o que pode vir a acontecer no caminho futuro.
Um herói voluntário, como John Dunbar, em Dança com lobos, pode ter deixado para trás o medo da morte pessoal. Ele já correu em busca da morte, na primeira sequência do filme, quando cavalgou de modo suicida, de frente para a fuzilaria dos rebeldes, e foi milagrosamente poupado. Oferece-se para mergulhar na aventura do Oeste, sem recusa ou relutância. Mas o perigo e a dureza da vida na pradaria ficam evidentes para a plateia, através do que ocorre com outros personagens, os quais representam a Recusa do Chamado. Um deles é o patético oficial do exército, louco, que entrega a Dunbar suas "ordens" rabiscadas, e isto expressa um dos possíveis destinos de Dunbar. A fronteira é tão estranha e desafiadora que pode levar alguém à insanidade. O oficial não foi capaz de aceitar a realidade desse mundo, retirou-se para um universo de negação e fantasia, e acabou recusando o Chamado da fronteira, ao dar um tiro em si mesmo.
Outro personagem que encarna essa energia da recusa é o carroceiro que leva Dunbar até o seu posto abandonado. O tempo todo ele manifesta seu medo dos índios e da pradaria e quer que Dunbar assuma a Recusa do Chamado, que Dunbar abandone sua missão e volte à civilização. Acaba sendo brutalmente morto pelos índios, e isto mostra à plateia outro destino possível para Dunbar. Ou seja, embora o próprio herói não expresse sua recusa, reconhece-se o perigo da aventura, e esse perigo é dramatizado em outro personagem.
Guardiões de Limiar
Os heróis que superam o medo e engajam-se na aventura ainda podem ser postos à prova por figuras poderosas que levantam a bandeira do medo e da dúvida, questionando a própria competência do herói para participar do jogo. São os Guardiões de Limiar, que bloqueiam os heróis antes que a aventura comece.
Em Tudo por uma esmeralda, Joan Wilder aceita o Chamado e está totalmente dedicada à aventura, por amor à irmã que está na Colômbia. Entretanto, o momento de medo, a estação da Recusa, apresenta-se de forma elaborada, numa cena com a agente de Joan, a qual, por sua vez, surge na temível máscara de Guardiã de Limiar. É uma mulher dura e experiente, que, de propósito, lembra dos perigos e provações, e, assim, tenta fazer Joan desistir. Como uma bruxa que pronunciasse uma maldição, ela declara que Joan não está à altura da tarefa de ser uma heroína. Joan chega a concordar com ela, mas está motivada pelo perigo que a irmã corre, e lança-se à aventura. Embora Joan não ceda à Recusa do Chamado, ficou claro para a plateia que há riscos, medo, dúvida e perigo.
A agente de Joan demonstra de que forma um personagem pode trocar de máscara e passar de um arquétipo a outro. Ela aparece, primeiro, como Mentora e amiga, uma aliada na profissão e nas relações com os homens. Mas logo se torna uma feroz Guardiã de Limiar, bloqueando a estrada da aventura com advertências terríveis. Age como uma mãe superprotetora, que não deixa a filha aprender com seus próprios erros. A função dela, nesse ponto, é testar a determinação da heroína.
Esse personagem desempenha outra função importante. Faz uma pergunta dramática à plateia: será que Joan é suficientemente heroica para enfrentar a aventura e sobreviver? Essa dúvida é mais interessante do que a certeza de que o herói está sempre à altura de qualquer situação. Essas perguntas criam um suspense emocional para a plateia, que acompanha o progresso da heroína com alguma incerteza no fundo da mente. A Recusa do Chamado, muitas vezes, serve para estabelecer essas dúvidas.
Não é raro que um Mentor troque de máscara e passe a Guardião de Limiar. Alguns Mentores guiam o herói cada vez mais ao fundo da aventura. Outros bloqueiam seu caminho, em uma aventura que a sociedade poderá não aprovar por se tratar de uma vereda ilícita, pouco ajuizada ou perigosa. Um personagem desse tipo constitui uma encarnação poderosa da sociedade ou da cultura, advertindo o herói a não ir além dos limites aceitos. Em Um tira da pesada, o chefe de polícia de Detroit fica no caminho de Eddie Murphy, ordena que ele abandone o caso, traça uma linha que Murphy não deve cruzar. É claro que ele a cruza, e sem demora.
A Porta Secreta
Inevitavelmente, os heróis violam os limites impostos por Mentores ou Guardiões de Limiar, graças ao que chamamos Lei da Porta Secreta. Quando, em A Bela e a Fera, Belle fica sabendo que pode fazer o que quiser e mandar em tudo na casa da Fera, exceto entrar por uma porta, já sabemos que, em algum ponto da narrativa, ela será forçada a abrir a tal porta secreta. Se Pandora sabe que não pode abrir a caixa, não vai descansar enquanto não der uma olhadela no que há lá dentro. Se Psique sabe que nunca deve ver seu amado Cupido, certamente vai achar um jeito de contemplá-lo. Essas histórias são símbolos da curiosidade humana, do impulso poderoso de conhecer todos os segredos, tudo o que está escondido.
O Mágico de Oz
Dorothy foge de casa e vai até a carroça do professor Marvel, um Velho Sábio, cuja função nessa encarnação é bloqueá-la no limiar de uma jornada perigosa. Nesse ponto, Dorothy é uma heroína voluntária, e cabe ao professor mostrar à plateia o perigo da estrada. Com um pouco de magia de curandeiro, ele a convence a voltar para casa, a recusar o Chamado —por enquanto.
Na verdade, o professor está é transmitindo a ela um Chamado superior, o de voltar para casa e fazer as pazes com sua energia feminina conflitada, a ligar-se novamente ao amor de tia Em e a lidar com seus próprios sentimentos, em vez de fugir deles.
Embora Dorothy, nesse momento, ceda e volte, forças poderosas já foram desencadeadas em sua vida, Ela descobre que o poder assustador do furacão, um símbolo dos sentimentos que ela agitou, expulsou seus parentes e aliados para o subterrâneo e que estão todos fora do alcance. Ninguém consegue ouvi-la. Está sozinha, a não ser por Totó, sua intuição. Como muitos outros heróis, Dorothy descobre que, uma vez iniciada a jornada, não há como voltar ao que era antes. Em última análise, a Recusa é inútil. Já queimou pontes atrás de si e deve agüentar as consequências de ter dado o primeiro passo na estrada dos heróis.
Dorothy se refugia numa casa vazia, que, nos sonhos, freqüentemente simboliza uma velha estrutura da personalidade. Mas as forças da mudança, uma vez desencadeadas e postas em movimento, vêm varrendo tudo e nenhuma estrutura pode protegê-la contra seu poder terrível.
* * *
A recusa pode ser um momento sutil, talvez apenas uma ou duas palavras entre receber e aceitar o Chamado. (É comum que vários estágios da jornada combinem-se numa única cena, naquilo que os folcloristas chamam de "conflação".) A recusa pode ser um único degrau próximo ao princípio da jornada, ou pode estar em cada degrau do caminho, dependendo da natureza do herói.
A Recusa do Chamado pode ser uma oportunidade para redirecionar o foco da aventura. Uma aventura que entrou num desvio ou necessita escapar a alguma consequência desagradável pode aproveitar para enfronhar-se em algo mais profundo, algo do espírito.
Um herói hesita num limiar, para viver seu medo, para que a plateia perceba o tamanho formidável dos perigos que ele tem diante de si. Mas, afinal, esse medo é superado ou deixado de lado, muitas vezes com a ajuda de forças protetoras e sábias ou de presentes mágicos, que representam a energia do próximo estágio, o Encontro com o Mentor.
Questionando a Jornada
1. Como o herói recusa o Chamado, em ? Atração fatal Uma linda mulher? Uma equipe muito especial? Esse estágio de relutância ou Recusa do Chamado é necessário em toda história? Para todo herói?
2. De que os heróis da sua história têm medo? Que medos são falsos ou paranoia? Quais são verdadeiros? Como se expressam?
3. De que modos eles recusaram os Chamados à Aventura e quais são as consequências?
4. Se os protagonistas são heróis voluntários, há personagens ou forças que deixem claro para a plateia quais são os perigos?
5. Você já recusou Chamados à Aventura? Em que sua vida seria diferente, se os tivesse aceitado?
6. Você já aceitou Chamados à Aventura que preferia ter recusado?