A Jornada do Escritor

Christopher Vogler · Capítulo 18 de 23

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A Jornada do Escritor

Estágio Nove: Recompensa (Apanhando a Espada)

 

"Viemos, vimos, demos um pontapé na bunda dele."

Os Caça-Fantasmas, roteiro de Dan Aykroyd e Harold Ramis

Tendo passado pela crise da Provação, os heróis agora experimentam as consequências de sobreviver à morte. Já que o dragão que vivia na Caverna Oculta foi morto ou vencido, eles agarram a espada da vitória e reclamam sua Recompensa. O Triunfo pode ser enganador, mas nesse momento eles saboreiam seus prazeres.

Nós, Buscadores, nos olhamos com sorrisos. Ganhamos o direito de sermos chamados de heróis. Por Nossa Tribo, enfrentamos a morte, sentimos o gosto dela, e apesar disso estamos vivos. Das profundezas do terror, subitamente saltamos para a vitória. É hora de encher nossas barrigas vazias e levantar nossas vozes em torno da fogueira para cantar nossos feitos. Esquecemos velhas feridas e ressentimentos. A história de nossa jornada já começa a ser tecida.

Você se separa dos outros, estranhamente quieto. Nas sombras dançantes, lembra-se dos que ficaram pelo caminho, e observa alguma coisa. Você está diferente. Parte de você também morreu e algo novo nasceu no lugar. Você e o mundo nunca mais serão os mesmos. Isto também faz parte da Recompensa por ter enfrentado a morte.

Ter um encontro com a morte é um grande acontecimento e seguramente vai ter consequências. Haverá sempre algum período de tempo em que o herói é reconhecido ou recompensado por ter sobrevivido à morte ou a uma grande provação. Muitas possibilidades se abrem quando alguém sobrevive a uma crise. A Recompensa, que se segue à Provação, tem muitas formas e propósitos.

 

Celebração

Nesse momento em que os caçadores sobreviveram à morte e trouxeram caça, é natural que queiram celebrar. As energias se esgotaram na luta e precisam ser recarregadas. A essa altura, os heróis podem fazer o equivalente a um churrasco ou uma festa, em que comem e consomem alguns dos frutos da vitória. Os heróis da Odisseia sempre ofereciam um sacrifício e faziam uma refeição para dar graças e celebrar após sobreviverem a alguma provação no mar. Vai ser preciso refazer as forças para voltar ao outro mundo, por isso se dá um tempo para descanso, recuperação, reabastecimento. Após a caçada dos búfalos (uma Provação Suprema e um encontro com a morte), em Dança com lobos, Dunbar e a tribo celebram com um churrasco de búfalo. Ali, a Recompensa por Dunbar ter salvado a vida de um menino é sua maior aceitação por parte dos índios Lakota.

Cenas de fogueira

Muitas histórias têm, nessa etapa, algum tipo de cena de fogueira, onde o herói e seus companheiros reúnem-se em volta do fogo — ou equivalente — para fazer uma revisão dos acontecimentos recentes. É também uma oportunidade de dar risada e contar vantagem. É compreensível que haja alívio por terem sobrevivido à morte. Caçadores e pescadores, pilotos e navegadores, soldados e exploradores, todos gostam de exagerar seus feitos. No churrasco de Dança com lobos, Dunbar é obrigado a contar uma porção de vezes a história da caçada do búfalo.

Pode haver conflito junto à fogueira, numa briga pelos despojos, por exemplo. Dunbar se mete numa discussão porque seu chapéu foi apanhado por um guerreiro Sioux depois que Dunbar o deixara cair durante a caçada de búfalo.

Uma cena de fogueira também pode ser a ocasião para reminiscências ou saudades. Tendo cruzado o abismo da vida e da morte, nada mais será igual. Por vezes os heróis olham para trás e relembram, em voz alta, os acontecimentos e motivações que os trouxeram a este ponto. Um herói solitário, por sua vez, poderá recordar em silêncio fatos ou pessoas que o influenciaram, ou falar sobre o código não-escrito pelo qual ele pauta sua vida.

Essas cenas são importantes para a plateia. Permitem que ela recupere o fôlego depois de ter presenciado uma batalha emocionante ou uma provação difícil. Os heróis podem, então, recapitular os acontecimentos ocorridos até esse ponto, nos dando uma chance de rever a história e perceber como eles a entendem. Em Rio Vermelho, Matthew Garth resume o enredo para uma recém-chegada à história, Tess (Joanne Dru), numa cena de fogueira. Revela seus sentimentos sobre o pai de criação e oferece à plateia uma perspectiva sobre a história, complexa e épica.

Nesses momentos tranquilos, de reflexão ou intimidade, ficamos conhecendo melhor os personagens. Um exemplo memorável é a cena do filme Tubarão em que o personagem de Robert Shaw, Quint, conta sobre sua horrível experiência com tubarões no Pacífico, durante a Segunda Guerra Mundial. Os homens comparam suas cicatrizes e cantam uma canção de festa ébria. É uma cena de travar conhecimento, construída sobre a intimidade nascida do fato de terem sobrevivido, juntos, a uma Provação.

Em alguns desenhos animados clássicos da Disney, como Pinóquio ou Peter Pan, o ritmo geralmente é frenético, mas a Disney tem o cuidado de diminuí-lo, de vez em quando, e assim chegar mais perto dos personagens, em um determinado momento emocional. Essas passagens mais calmas e líricas são importantes para criar um vínculo com o público.

 

Cenas de amor

Os momentos que se seguem a uma Provação Suprema podem, também, fornecer oportunidade para uma cena de amor. Os heróis não se tornam realmente heróis até a crise. Antes disso, são apenas aprendizes. Não merecem ser amados de verdade enquanto não mostrarem sua disposição para o sacrifício. Nesse ponto, um verdadeiro herói ganha uma cena de amor, ou algum tipo de Casamento Sagrado. A cena de Rio vermelho descrita acima é também uma cena de amor muito eficiente.

Em Arabesque, quando Gregory Peck e Sophia Loren sobrevivem juntos a uma Provação Suprema, ligam-se numa cena de amor. Ela é uma Camaleoa impressionante, que andou contando a ele uma série de mentiras, mas ele viu através dela, enxergou uma bondade essencial e agora confia nela.

A valsa romântica em A Bela e a Fera significa a Recompensa da Fera por ter sobrevivido a uma Provação com as pessoas da cidade, e a Recompensa de Belle por ter enxergado além da aparência monstruosa da Fera.

 

Tomando posse

Um dos aspectos essenciais dessa etapa é que o herói toma posse daquilo que veio procurar. Os caçadores de tesouro pegam o ouro, os espiões roubam o segredo, os piratas ocupam o navio capturado, o herói inseguro adquire a autoestima, o escravo passa a controlar seu próprio destino. Foi feita uma transação — o herói correu risco de vida ou sacrificou sua vida, e agora ganha algo em troca. O deus norueguês Odin, em sua Provação Suprema, entrega um olho e fica nove dias e nove noites pendurado na árvore do Mundo. Sua recompensa é o conhecimento de todas as coisas e a capacidade de ler as "runas", segredos em código das divindades escandinavas.

Apanhando a Espada

Eu também chamo esta unidade da jornada de Apanhando a Espada, porque muitas vezes é um movimento ativo do herói, que agressivamente toma posse do que quer que esteja sendo procurado no Mundo Especial. Muitas vezes, a recompensa será o amor que se ganha. Mas, com maior frequência, o herói toma posse é de um tesouro — ou mesmo o rouba, tal como James Bond apanhando o Lektor, o dispositivo soviético de tradução, em Moscou contra 00?

Em King Kong, a crise de morte e renascimento é seguida por um desses momentos de tomar posse. Na fase de Aproximação, ocorreu uma transformação no gorila monstruoso. King Kong deixou de ser o raptor de Fay Wray para se transformar no protetor dela, lutando contra um tiranossauro a caminho de sua Caverna Oculta. Quando chega o momento da Provação Suprema, defendendo-a numa batalha de morte contra uma gigantesca serpente, King Kong já é um herói completo. Agora, toma posse de sua Recompensa. Como qualquer bom herói, fica com a moça.

Numa cena terna, mas erótica, ele a leva para a "varanda" de sua caverna e a examina, alojada na enorme palma de sua mão. Tira as roupas dela, peça por peça, cheirando seu perfume com curiosidade. Faz cócegas nela com o dedo. Essa cena de amor é interrompida por outra ameaça, vinda de um dinossauro. Mas, sem dúvida, era um instante de Recompensa, uma compensação por ter enfrentado a morte durante a crise.

A ideia de um herói Apanhando a Espada deriva das lembranças de histórias nas quais os heróis lutam contra dragões e confiscam seus tesouros. Entre esses tesouros, pode haver uma espada mágica, talvez pertencente ao pai do herói, quebrada ou roubada pelo dragão em batalhas anteriores. A imagem da espada, tal como aparece, por exemplo, no naipe de espadas do taro, é um símbolo da determinação do herói, forjada em fogo e banhada em sangue, quebrada e refeita, batida e endurecida, afiada e feita pontiaguda, capaz de focalizar um ponto muito exato, como os sabres de luz em Guerra nas estrelas.

Mas uma espada é apenas uma das muitas imagens daquilo que o herói adquire nessa etapa. O termo que Campbell usa é "A Bênção Final". Outro conceito é o do Santo Graal, símbolo antigo e misterioso de todas aquelas coisas da alma, inacessíveis, que os cavaleiros das Cruzadas e os heróis buscam em suas andanças. Em outra história, o tesouro pode ser uma rosa ou uma joia. O rei Macaco, de lendas chinesas, vive à procura dos "sutras" (aforismos) sagrados budistas que foram levados para o Tibete.

 

O roubo do elixir

Na verdade, alguns heróis compram o tesouro, pagando-o com sua vida ou ao menos com a disposição de arriscar a vida. Mas há os que roubam o prêmio mágico no meio da história. Mesmo tendo que pagar por ele, ou ganhá-lo, o prêmio não é sempre dado. Deve ser tomado. Campbell chama esse motivo de "roubo do elixir".

Elixir é um meio ou veículo para um remédio. Pode ser um líquido doce e inócuo ou um pó ao qual se adiciona o remédio. Administrado sozinho ou misturado com outras substâncias, pode também funcionar por meio do que se chama "efeito placebo". Vários estudos têm demonstrado que algumas pessoas melhoram com um placebo, uma substância sem valor medicinal, mesmo quando sabem que se trata apenas de uma pílula de açúcar — o que atesta o poder da sugestão.

Um elixir também pode ser um remédio que cure todos os males, uma substância mágica que restaure a vida. Na alquimia, o elixir é um dos passos para a pedra filosofal, capaz de transmutar metais, criar vida e transcender a morte. Essa capacidade de superar as forças da morte é o verdadeiro elixir que a maioria dos heróis procura.

É comum que o herói tenha que roubar o elixir. É o segredo da vida e da morte, valioso demais para ser dado levianamente. Um herói pode precisar converter-se num Pícaro, ou ladrão, para conseguir o tesouro, como Prometeu, quando roubou dos deuses o fogo para a humanidade, ou Adão e Eva, quando provaram a maçã. Esse roubo pode inebriar o herói por algum tempo, mas sempre há um alto preço a pagar mais adiante.

 

Iniciação

Os heróis emergem de sua Provação para serem reconhecidos como especiais e diferentes, parte de um reduzido grupo de eleitos que enganaram a morte. Os Imortais da Grécia antiga formavam um clube muito fechado. Apenas os deuses e um punhado de humanos de muita sorte tornavam-se isentos da morte — eis os semideuses, humanos que tivessem feito algo notável ou agradável aos deuses, e a quem Zeus concedia essa honraria. Entre eles estavam Hércules, Andrômeda e Esculápio.

Promover os heróis após as batalhas ou armá-los cavaleiros são outros meios de reconhecer que eles ultrapassaram alguma prova duríssima e entraram num pequeno grupo de sobreviventes especiais. O nome genérico que Joseph Campbell dá a isso que chamamos de segundo ato é "Iniciação", um novo começo, numa nova categoria. Depois de enfrentar a morte, realmente, o herói passa a ser uma nova criatura. Uma mulher que passa pelo território do parto, ameaçador para a vida, pertence a outra ordem de ser. Foi iniciada e passa a fazer parte de outro grupo seleto, o da maternidade.

A iniciação nas sociedades secretas e fraternidades significa que você passa a participar de certos segredos e jura nunca revelá-los. Você passa por testes para provar que é digno. Pode ter que enfrentar, até mesmo, o ritual de uma provação de morte-e-renascimento. Poderá ganhar um novo nome e um novo título, que indiquem estar ali um ser que acaba de nascer.

Novas percepções

Os heróis podem descobrir que, ao vencerem a morte, ganharam novos poderes ou novas percepções. Já falamos, em outro capítulo, de como a morte aguça a percepção da vida. O conto nórdico sobre Sigurd, o matador do dragão, capta isso lindamente. A Provação Suprema de Sigurd é matar um dragão chamado Fafnir. Acontece que uma gota do sangue do dragão cai na língua de Sigurd. Ele sentiu, de fato, o gosto da morte e, por isso, adquire novas percepções. Passa a compreender a língua dos pássaros. Ouve dois deles avisando que seu Mentor, o anão Regin, planeja matá-lo. Salva-se desse novo perigo mortal graças a seu novo poder — a Recompensa que mereceu por ter sobrevivido à morte. A espada que o herói apanha pode vir representada pelos novos conhecimentos que ele adquire.

 

Vendo por trás de uma decepção

Como recompensa, o herói pode ganhar a compreensão de um mistério que o faça ver o que há por trás de uma decepção. Lidando com um parceiro camaleônico, pode conseguir ver como ele é por detrás dos disfarces, e, pela primeira vez, perceber a realidade. Apanhar a espada pode ser um momento de iluminação.

 

Clarividência

Após transcender a morte, um herói pode até se tornar clarividente ou telepata, participando do poder dos deuses imortais. Clarividente é quem vê claro. Um herói que enfrentou a morte torna-se mais consciente das conexões que reinam entre as coisas, mais intuitivo. Em Arabesque, depois da cena de amor entre Gregory Peck e Sophia Loren, os namorados estão tentando decifrar um código secreto em antigos hieróglifos. De repente, com sua nova capacidade perceptiva, Peck compreende que aquilo que os espiões estão querendo não é o código, mas um ponto de microfilme no pedaço de papel. Sobreviver à morte deu a ele uma nova clareza. Compreender isto, por sua vez, é algo tão emocionante que joga o filme para o terceiro ato.

 

Autoidentificação

Também pode ocorrer uma clareza de outro tipo. Pode ser uma sensação de profunda autoidentificação. Os heróis, finalmente, conseguem ver quem eles são, realmente, como se encaixam no esquema geral das coisas. Percebem como foram tolos ou teimosos. As fichas caem e a ilusão de suas vidas é substituída pela clareza e pela verdade. Pode não durar muito, mas por um momento os heróis enxergam a si mesmos claramente.

 

Epifania

Outros também podem ver o herói de modo mais claro. Podem ver na mudança do comportamento do herói sinais de que ele renasceu e agora participa da imortalidade dos deuses. Essa visão clara e total é o que, às vezes, recebe o nome de um momento de epifania, uma abrupta percepção da divindade. A Festa da Epifania, observada pela Igreja Católica a 6 de janeiro, celebra o momento em que os três Reis Magos perceberam, pela primeira vez, a divindade do Cristo recém-nascido. Uma das recompensas de sobreviver à morte é que os outros podem ver que os heróis estão transformados. Jovens que voltam da guerra — ou de uma provação, como o treinamento militar — parecem diferentes, mais maduros, autoconfiantes, sérios, e merecedores de mais respeito. Existe uma cadeia de experiência divina, que vai desde o entusiasmo (ou seja, ser visitado por um deus), passa pela apoteose (tornar-se um deus), e chega à epifania, que é ser reconhecido como deus.

James Joyce explorou e expandiu o sentido da palavra epifania, usando-a para designar uma súbita percepção da essência profunda de algo, a compreensão do que está no âmago de uma pessoa, de uma ideia ou situação. Às vezes, os heróis experimentam um entendimento repentino da natureza das coisas, depois de terem passado por uma Provação. Sobreviver à morte dá sentido à vida e aguça as percepções.

 

Distorções

Em outras histórias, a conquista da morte pode levar a algumas distorções de percepção. Os heróis podem sofrer de uma inflação do ego, tornam-se convencidos ou arrogantes. Podem até abusar do poder e do privilégio de serem heróis. Por vezes, sua autoestima cresce tanto que distorce a percepção do verdadeiro valor que eles têm.

Os heróis podem ser atingidos pela própria morte ou pelo mal que foram enfrentar. Soldados lutando para preservar a civilização podem cair na barbárie da guerra. Policiais ou detetives enfrentando criminosos muitas vezes cruzam a linha que os separa e usam meios ilegais ou imorais, tornando-se tão maus quanto os criminosos que combatem. Os heróis podem entrar no mundo mental de seus adversários e ficar presos lá dentro, como ocorreu com o detetive em O caçador de assassinos, que arrisca a alma para entrar na mente deturpada de um serial killer.

O derramamento de sangue e o assassinato são forças poderosas, que podem intoxicar ou envenenar um herói. Peter O’Toole, como Lawrence da Arábia, nos mostra um homem que, após a Provação na batalha de Aqaba, descobre, horrorizado, que gosta de matar.

Outro erro que os heróis podem cometer, nesse ponto, é subestimar o significado da Provação Suprema. Alguém atingido pelos ventos da mudança pode negar que algo tenha acontecido. A dra. Elizabeth Kubler-Ross descreveu de que maneira a negação após o encontro com a morte é um dos estágios naturais do processo de luto e recuperação. Outra força é a raiva. Os heróis podem ficar furiosos após a Provação, expressando seu ressentimento justificável, contra o fato de terem tido que enfrentar a morte.

Podem ainda superestimar sua importância ou suas proezas, depois desse duelo. Mas logo descobrem que só tiveram sorte dessa vez. Terão outros encontros com o perigo, que lhes ensinarão seus limites.

 

O Mágico de Oz

Logo depois da Provação, em O Mágico de Oz, o que ocorre é um ato de Apanhar. Em vez da espada, é a vassoura queimada da Bruxa Malvada. Para tomar posse dela, Dorothy, menina muito bem-educada, não a agarra sim-

plesmente, mas, com gentileza, pede aos terríveis guardas que lhe entreguem a vassoura. Os guardas, agora de joelhos diante dela, tentam mostrar lealdade e submissão. Dorothy teria boas razões para temer que os guardas se voltassem contra ela após a morte da Bruxa. Mas, na verdade, eles se mostram contentes porque agora estão livres de uma escravidão horrível. Outra recompensa de sobreviver à morte: os Guardiões de Limiar podem passar completamente para o lado do herói. Os guardas entregam a Dorothy a vassoura com a maior boa vontade.

Dorothy e os companheiros voltam rapidamente à sala do trono do Mágico, onde ela deposita a vassoura diante da feroz cabeça flutuante. Cumpriu a sua parte da barganha com o Mágico e completou a tarefa que parecia impossível. Agora ela e os amigos pedem a Recompensa de heróis.

Mas, para sua surpresa, o Mágico reluta em pagar. Fica furioso e começa a discutir. Parece uma velha estrutura de personalidade, ou um pai que sabe que tem que ceder a um filho que está amadurecendo, mas se recusa a entregar os pontos, propondo uma última briga.

É então que o cachorrinho Totó cumpre seu propósito na história. Sua curiosidade e intuição animal é que puseram Dorothy nessa encrenca toda, lá no começo, quando ele cavou o canteiro de flores da srta. Gulch. Agora, curiosidade e intuição serão seu instrumento de salvação. Xe-retando atrás do trono, Totó descobre um velhinho insignificante atrás de uma cortina. Deste esconderijo, o velho controla toda a monstruosa ilusão de Oz, o grande e poderoso. Esse homem — e não a imensa cabeça tonitruante — é que é o verdadeiro Mágico de Oz.

Trata-se de um típico momento de percepção pós-prova-ção ou de insight. Os heróis enxergam, pelos olhos do intuitivo e curioso Totó, que, atrás da ilusão da organização mais poderosa de quantas existem, ali está apenas um ser humano, com emoções que estão ao alcance de qualquer um. (Essa cena sempre me pareceu uma metáfora para Hollywood, que tenta ser imponente e assustadora, mas que é feita de pessoas comuns, com seus medos e defeitos.)

De início, o Mágico afirma não poder ajudá-los, mas, com um pouco de encorajamento, ele acaba dando os Elixires para os ajudantes de Dorothy: um diploma para o Espantalho, uma medalha de bravura para o Leão, um coração de corda para o Homem de Lata. A cena tem um certo tom de sátira. Parece dizer: os Elixires são placebos, símbolos sem sentido que os homens trocam entre si. Muitas pessoas ostentam medalhas, certificados e graduações e, entretanto, nada fizeram para merecê-los. Os que nunca sobreviveram à morte podem passar o dia inteiro tomando o Elixir que, mesmo assim, isto em nada vai ajudá-los.

O verdadeiro Elixir, que tudo cura, é a conquista de uma mudança interior, mas a cena em Oz admite que é importante ter também o reconhecimento externo. Assim, como um pai postiço de todos eles, o Mágico de Oz dá aos heróis a bênção final de uma aprovação paterna, uma Recompensa que pouca gente ganha. Coração, cérebro e coragem estão dentro deles mesmos — e sempre estiveram —, mas os objetos físicos servem como lembretes.

Nesse momento, o Mágico vira-se para Dorothy e diz, tristemente, que não há nada que possa fazer por ela. Ele próprio chegara a Oz num balão que o vento soprou, a partir de um parque de diversões em Nebraska, e não tem a menor ideia de como conseguirá, ele mesmo, voltar para casa. E tem razão. Somente a própria Dorothy pode garantir a si mesma a autoaceitação, que significa "voltar para casa", ou seja, estar feliz dentro de si mesma, onde quer que esteja. Mas o Mágico concorda em tentar alguma coisa e ordena aos cidadãos de Oz que construam um grande balão cheio de ar quente. Os heróis conseguiram tudo, menos o fugidio prêmio de voltar para casa, que deve ser procurado no terceiro ato.

* * *

Enfrentar a morte tem consequências que transformam a vida e os heróis as experimentam Apanhando a Espada. Mas, depois de sua plena Recompensa, é preciso voltar à busca. Há mais provações pela frente, e é hora de fazer as malas e partir para enfrentá-las, na próxima etapa da Jornada do Herói: o Caminho de Volta.

 

Questionando a Jornada

1. Qual o equivalente moderno da cena em volta da fogueira, no filme Thelma & Louise? Mudança de hábito? Ghost: Do outro lado da vida?

2. O que os heróis de sua história aprendem ao observarem a morte? E causando a morte? Experimentando a morte?

3. De que tomam posse os heróis de sua história depois de enfrentarem a morte ou seus maiores medos? Qual é a consequência do principal acontecimento do segundo ato? Seus heróis absorveram qualidades negativas da Sombra ou vilão?

4. Sua história muda de direção? Revela-se alguma nova meta ou plano de ação na fase de Recompensa?

5. Após a Provação, na sua história, há oportunidade para uma cena de amor?

6. Seu herói percebe que mudou? Existe um autoexame ou a percepção de uma consciência ampliada? Ele aprendeu a lidar com suas próprias falhas internas?