A Jornada do Escritor
Os Arquétipos
"Seja ou não invocado, o deus virá."
Lema sobre a porta da casa de Carl Jung
Assim que entramos no mundo dos contos de fadas e dos mitos, observamos que há tipos recorrentes de personagens e relações: heróis que partem em busca de alguma coisa, arautos que os chamam à aventura, homens e mulheres velhos e sábios que lhes dão certos dons mágicos, guardiões de entrada que parecem bloquear seu caminho, companheiros de viagem que se transformam, mudam de forma e os confundem, vilões nas sombras que tentam destruí-los, brincalhões que perturbam o status quo e trazem um alívio cômico. Ao descrever esses tipos comuns de personagem, símbolos e relações, o psicólogo suíço Carl G. Jung empregou o termo arquétipos para designar antigos padrões de personalidade que são uma herança compartilhada por toda a raça humana.
Jung sugeriu que pode existir um inconsciente coletivo, semelhante ao inconsciente pessoal. Os contos de fadas e os mitos seriam como os sonhos de uma cultura inteira, brotando desse inconsciente coletivo. Os mesmos tipos de personagem parecem ocorrer, tanto na escala pessoal como na coletiva. Os arquétipos são impressionantemente constantes através dos tempos e das mais variadas culturas, nos sonhos e nas personalidades dos indivíduos, assim como na imaginação mítica do mundo inteiro. Uma compreensão dessas forças é um dos elementos mais poderosos no baú de truques de um moderno contador de histórias.
O conceito de arquétipo é uma ferramenta indispensável para se compreender o propósito ou função dos personagens em uma história. Se você descobrir qual a função do arquétipo que um determinado personagem está expressando, isso pode lhe ajudar a determinar se o personagem está jogando todo o seu peso na história. Os arquétipos fazem parte da linguagem universal da narrativa. Dominar sua energia é tão essencial ao escritor como respirar.
Joseph Campbell falava dos arquétipos como se fossem um fenômeno biológico, expressões dos órgãos de um corpo, parte da constituição de todo ser humano. A universalidade desses padrões é que possibilita compartir a experiência de contar e ouvir histórias. Um narrador instintivamente escolhe personagens e relações que dão ressonância à energia dos arquétipos, para criar experiências dramáticas reconhecíveis por todos. Tomar consciência dos arquétipos só pode aumentar nosso domínio do ofício.
Arquétipos como funções
Quando comecei a lidar com essas ideias, pensava num arquétipo como um papel fixo, que um personagem desempenharia com exclusividade no decorrer de uma história. Quando identificava que um personagem era um mentor, esperava que ele fosse até o fim sendo mentor, e apenas mentor. Entretanto, quando fui trabalhar com os motivos de contos de fadas, como consultor de histórias para a Disney, descobri outra maneira de encarar os arquétipos — não como papéis rígidos para os personagens, mas como funções que eles desempenham temporariamente para obter certos efeitos numa história. Essa observação vem da obra de um especialista russo em contos de fadas, Vladimir Propp, cujo livro Morphology Of The Folktale [Morfologia do conto popular] analisa motivos e padrões recorrentes em centenas de contos russos.
Olhando os arquétipos dessa maneira, como funções flexíveis de um personagem e não como tipos rígidos de personagem, é possível liberar a narrativa. Isso explica como um personagem numa história pode manifestar qualidades de mais de um arquétipo. Pode-se pensar nos arquétipos como máscaras, usadas temporariamente pelos personagens à medida que são necessárias para o avanço da história. Um personagem pode entrar na história fazendo o papel de um arauto, depois trocar a máscara e funcionar como um bufão ou pícaro, um mentor ou uma sombra.
Facetas da personalidade do herói
Outra maneira de encarar os arquétipos clássicos é vê-los como facetas da personalidade do herói (ou do escritor). Os outros personagens representam possibilidades para o herói — boas ou más. Às vezes um herói percorre uma história reunindo e incorporando a energia e os traços de outros personagens. Aprende com eles e vai fundindo tudo até chegar a ser um ser humano completo, que pegou algo de cada um que foi encontrando pelo caminho.
Os arquétipos também podem ser vistos como símbolos personificados das várias qualidades humanas. Como as cartas dos arcanos maiores do taro, representam os diferentes aspectos de uma personalidade humana completa. Toda boa história é um reflexo da história humana total, da condição humana universal de nascer neste mundo, crescer, aprender, lutar para se tornar um indivíduo, e morrer. As histórias podem ser lidas como metáforas da situação humana geral, com personagens que incorporam qualidades universais arquetípicas, compreensíveis para o grupo, assim como para o indivíduo.
Os arquétipos como emanações do Herói
Os arquétipos mais comuns e mais úteis
Para quem conta histórias, certos arquétipos são uma espécie de ferramenta indispensável ao ofício. Não é possível contar histórias sem eles. Os arquétipos que ocorrem com mais frequência nas histórias (logo, os mais úteis para que um escritor conheça) são:
HERÓI
MENTOR (VELHA OU VELHO SÁBIO)
GUARDIÃO DE LIMIAR
ARAUTO
CAMALEÃO
SOMBRA
PÍCARO
É evidente que existem muitos outros arquétipos — tantos quantas são as qualidades humanas que podem ser dramatizadas numa história. Os contos de fadas estão repletos de figuras arquetípicas: o Lobo, o Caçador, a Mãe Boa, a Madrasta Má, a Fada-Madrinha, a Bruxa, o Príncipe ou Princesa, o Estalajadeiro Cobiçoso e assim por diante, que desempenham funções altamente especializadas. Jung e outros identificaram muitos arquétipos psicológicos, como o Puer Aeternus, ou o eterno menino, que pode ser encontrado em mitos como o do sempre-jovem Cupido, em histórias de personagens como a de Peter Pan, e na vida, como homens que nunca querem crescer.
Determinados gêneros de histórias modernas desenvolvem seus próprios personagens especializados, como a "Prostituta de Bom Coração", ou o "Tenente Arrogante de West Point" nos filmes de faroeste, ou os pares de "Policial Bom e Policial Mau" nos policiais, ou o "Sargento Durão, mas Justo", nos filmes de guerra.
Entretanto, esses são apenas variantes e refinamentos dos arquétipos básicos que vamos discutir nos capítulos seguintes. Esses que discutiremos são os padrões mais fundamentais, a partir dos quais se configuram todos os outros, para se adaptarem às necessidades específicas de diferentes histórias e gêneros.
Duas perguntas ajudam um escritor a identificar a natureza de um arquétipo:
1. Que função psicológica, ou que parte da personalidade ele representa?
2. Qual sua função dramática na história?
Lembre-se dessas perguntas enquanto damos uma olhadela nos sete arquétipos básicos, as pessoas e energias que provavelmente vamos encontrar na Jornada do Herói.
Herói
"Estamos numa missão que Deus nos deu."
Os irmãos cara de pau,
roteiro de Dan Aykroyd e John Landis
A palavra herói vem do grego, de uma raiz que significa "proteger e servir" (aliás, o lema do Departamento de Polícia de Los Angeles). Um Herói é alguém que está disposto a sacrificar suas próprias necessidades em benefício dos outros. Como um pastor que aceita se sacrificar para proteger e servir a seu rebanho. A raiz da ideia de Herói está ligada a um sacrifício de si mesmo. (Notem que eu uso a palavra para designar um personagem central ou um protagonista, independente do seu sexo.)
Função psicológica
Em termos psicológicos, o arquétipo do Herói representa o que Freud chamou de ego — a parte da personalidade que se separa da mãe, que se considera distinta do resto da raça humana. Em última análise, um Herói é aquele que é capaz de transcender os limites e ilusões do ego, mas, de início, os Heróis são inteiramente ego, se confundem com o ego, o "eu", com aquela identidade pessoal que pensa que é distinta do resto do grupo. A jornada de muitos Heróis é a história dessa separação da família ou da tribo, equivalente ao sentido de separação da mãe, que uma criança vivência.
O arquétipo do Herói representa a busca de identidade e totalidade do ego. No processo de nos tornarmos seres humanos completos e integrados, somos todos Heróis, enfrentando guardiões e monstros internos, contando com a ajuda de aliados. Na busca de explorarmos nossa própria mente, encontramos professores, guias, demônios, deuses, companheiros, servidores, bodes expiatórios, mestres, sedutores, traidores e auxiliares, como aspectos de nossas personalidades ou como personagens de nossos sonhos. Todos os vilões, pícaros, amantes, amigos e inimigos do Herói podem ser encontrados dentro de nós mesmos. A tarefa psicológica que todos enfrentamos é integrar essas partes separadas em uma entidade completa e equilibrada. O ego — isto é, o Herói que acha que é separado de todas essas partes de si mesmo — deve incorporá-las para se tornar um ser integral.
Funções dramáticas
Identificação com a plateia
O propósito dramático do herói é dar à plateia uma janela para a história. Cada pessoa que ouve uma história ou assiste a uma peça ou filme é convidada, nos estágios iniciais da história, a se identificar com o Herói, a se fundir com ele e ver o mundo por meio dos olhos dele. Para conseguir fazer isso, os narradores dão a seus heróis uma combinação de qualidades que é uma mistura de características universais e únicas.
Os heróis têm qualidades com as quais todos nós podemos nos identificar e nas quais podemos nos reconhecer. São impelidos pelos impulsos universais que todos podemos compreender: o desejo de ser amado e compreendido, de ter êxito, de sobreviver, de ser livre, de obter vingança, de consertar o que está errado, de buscar autoexpressão.
As histórias nos convidam a investir no Herói uma parte de nossa identidade pessoal, enquanto dura a experiência. Em certo sentido, durante algum tempo, nós nos transformamos no Herói. Projetamo-nos na psique do Herói, vemos o mundo com seus olhos. Os Heróis precisam ter algumas qualidades admiráveis, para que queiramos ser como eles. Queremos ter a autoconfiança de Katherine Hepburn, a elegância de Fred Astaire, o senso de humor de Cary Grant, a sensualidade de Marilyn Monroe.
Os Heróis devem ter qualidades, emoções e motivações universais, que todo mundo já tenha experimentado uma vez ou outra: vingança, raiva, desejo, competição, territorialidade, patriotismo, idealismo, cinismo ou desespero. Mas os Heróis também precisam ser seres humanos únicos, e não criaturas estereotipadas ou deuses metálicos, sem manchas e previsíveis. Como qualquer verdadeira obra de arte, eles precisam, ao mesmo tempo, de universalidade e originalidade. Ninguém quer ver um filme ou ler uma história sobre qualidades abstratas em forma humana. Queremos histórias sobre gente de verdade. Um personagem real, como uma pessoa real, não é apenas um traço, mas uma combinação única de muitas qualidades e impulsos, alguns deles conflitantes. E quanto mais conflitantes, melhor. Um personagem dilacerado por forças opostas, que o puxam em sentidos contrários para o amor e o dever, já nasce interessante para uma plateia. Um personagem que tenha uma combinação única de impulsos contraditórios, como confiança e suspeita, ou esperança e desespero, parece mais realista e humano do que outro que apresente apenas um traço de caráter.
Um Herói bem construído pode ser decidido, dispersivo, encantador, esquecido, impaciente, forte de corpo mas fraco de coração, tudo ao mesmo tempo. É a combinação especial dessas qualidades que dá à plateia a noção de que o Herói é único, uma pessoa real, e não um tipo.
Crescimento
Outra função do Herói na história é aprender ou crescer. Ao avaliar um roteiro, algumas vezes é difícil saber qual é o personagem principal — ou quem ele deveria ser. Muitas vezes, a melhor resposta é: aquele que aprende ou cresce mais no decorrer da história. Os heróis ultrapassam obstáculos e conquistam metas, mas também adquirem novos conhecimentos e mais sabedoria. O ponto central de muitas histórias é a aprendizagem que ocorre entre um Herói e um mentor, ou um Herói e um amante, e até mesmo entre um Herói e um vilão. Todos somos mestres uns dos outros.
Ação
Outra função heroica é agir ou fazer. O Herói, geralmente, é a pessoa mais ativa do roteiro. Sua vontade, seu desejo, é que empurram as histórias para a frente. Um erro frequente em alguns roteiros é que o Herói é razoavelmente ativo na maior parte da história, mas, no momento mais crítico, torna-se passivo e é salvo pela oportuna chegada de alguma força externa salvadora. E é sobretudo nesse momento que o Herói deve ser plenamente ativo, em controle de seu próprio destino. O Herói é que deve realizar a ação decisiva da história, a ação que exige maior risco ou responsabilidade.
Sacrifício
É comum que as pessoas pensem no Herói em termos de força ou coragem, mas essas qualidades são secundárias em relação à capacidade de sacrifício — esta, sim, é a verdadeira marca do Herói. Sacrifício significa "fazer sagrado". Na Antiguidade, faziam-se sacrifícios, inclusive de seres humanos, em reconhecimento do que as pessoas deviam ao mundo dos espíritos, aos deuses, ou à natureza, de modo a aplacar essas forças poderosas e a santificar os processos da vida cotidiana. Mesmo a morte se tornava santificada, um ato santo.
Lidando com a morte
No âmago de toda história existe um confronto com a morte. Se o Herói não enfrenta uma morte real, então há uma ameaça de morte (real ou simbólica), sob a forma de um jogo de alto risco, um caso de amor, ou uma aventura, em que ele pode ganhar (viver) ou perder (morrer).
Os Heróis nos ensinam a lidar com a morte. Eles podem sobreviver, provando que a morte não é tão dura. Podem morrer (ainda que simbolicamente) e renascer, provando que ela pode ser transcendida. Podem morrer uma morte de Herói, quando transcendem a morte, ao oferecer suas vidas por uma causa, um ideal, um grupo.
O verdadeiro heroísmo aparece nas histórias em que o herói se oferece no altar da sorte, disposto a correr o risco de que sua busca de aventuras possa levar ao perigo, à perda ou à morte. Como um soldado que sabe que, ao se alistar, concorda em dar a vida por seu país, se for preciso, o Herói aceita a possibilidade de sacrifício. Os Heróis que funcionam melhor são os que experimentam o sacrifício. Ao longo do caminho, pode ser que tenham que entregar a amada ou um amigo. Ou podem ter que desistir de algum vício querido ou excentricidade, como preço para entrar numa nova vida. Pode ser que tenham que devolver parte do que ganharam no Mundo Especial. Podem voltar ao ponto de partida — a tribo ou aldeia — trazendo tesouros, elixires, comida ou conhecimento, que dividem com o resto do grupo. Grandes heróis culturais, como Martin Luther King ou Gandhi, deram a vida para conseguir seus ideais.
Heroísmo em outros arquétipos
Por vezes, o arquétipo do Herói não se manifesta apenas no personagem principal, no protagonista que luta corajosamente contra os sujeitos maus e vence. O arquétipo pode também se manifestar em outros personagens, quando agem heroicamente. Um personagem sem heroísmo pode crescer e ficar heroico. O personagem-título de Gunga Din começa inteiramente sob a forma de outro arquétipo, um pícaro ou palhaço, mas lutando para ser um Herói, e se sacrificando num momento crucial, em benefício dos amigos, ganha o direito de ser chamado de Herói. Em Guerra nas estrelas, Obi Wan Kenobi é uma manifestação clara do arquétipo do mentor, durante quase toda a história. Entretanto, atua heroicamente e, com isso, veste temporariamente a máscara do Herói, quando se sacrifica para permitir que Luke escape da Estrela da Morte.
Pode funcionar muito bem quando se tem um vilão ou antagonista que, inesperadamente, manifesta qualidades heroicas.
Numa comédia de situações, como Táxi, quando o personagem negativo Louie, vivido por Danny de Vito, de repente revela que tem bom coração ou fez alguma coisa nobre, o impacto é tão forte que o episódio acabou ganhando um prêmio Emmy. Um vilão galante, heroico em alguns aspectos e desprezível em outros, pode ser muito atraente. Idealmente, todo personagem bem redondo deveria manifestar um toque de cada arquétipo, porque os arquétipos são expressões das partes que compõem uma personalidade completa.
Defeitos nos personagens
Defeitos interessantes humanizam um personagem. Podemos reconhecer pedaços de nós mesmos num Herói desafiado a ultrapassar dúvidas internas, erros de pensamento, culpa ou trauma no passado, ou medo do futuro. Fraquezas, imperfeições, cacoetes e vícios imediatamente tornam um Herói ou qualquer personagem mais real e atraente. Parece que quanto mais os personagens forem neuróticos, mais as plateias gostam deles e se identificam com eles.
Os defeitos também dão ao personagem um caminho a percorrer — o chamado "arco do personagem", em que ele se desenvolve da condição A para a condição Z, numa série de etapas. Os defeitos são um ponto de partida, feito de imperfeição e de algo a completar, a partir do qual o personagem pode crescer. Pode haver imperfeições num personagem. Talvez um Herói não tenha parceira romântica e esteja procurando "a peça que falta" para completar sua vida. Nos contos de fadas, isso muitas vezes é simbolizado pela vivência de uma perda ou morte na família do herói. Muitos contos tradicionais começam com a morte de um dos pais, ou o rapto de um irmão ou irmã. Essa subtração da unidade familiar desencadeia a energia nervosa da história, que não vai parar enquanto o equilíbrio não for restaurado pela criação de uma nova família, ou a reunião da velha.
Na maioria das histórias modernas, é a personalidade do herói que está sendo recriada ou restaurada, para voltar a ser integral. A peça que falta pode ser um elemento crítico da personalidade, como a capacidade de amar ou confiar. Os Heróis podem ter que vencer problemas, como a falta de paciência ou a indecisão. As plateias adoram ver o Herói enfrentar problemas de personalidade e superá-los. Será que Edward, o executivo rico e gelado de Uma linda mulher, vai se derreter, sob a influência da vitalidade e do amor à vida de Vivian, e se tornar seu Príncipe Encantado? Será que Vivian vai adquirir um pouco de autoestima e deixar a vida de prostituição? Será que Conrad, o adolescente carregado de culpa de Gente como a gente, vai recuperar sua capacidade perdida de aceitar amor e intimidade?
Variedades de Herói
Há Heróis de vários tipos, incluindo os que querem e não querem ser Heróis, os solitários e os solidários, os Anti-heróis, os Heróis trágicos e os catalisadores. Como todos os outros arquétipos, o conceito de Herói é muito flexível, e pode expressar muitos tipos diferentes de energia. Os Heróis podem se combinar com outros arquétipos e produzir híbridos, como o Herói Picaresco, ou podem vestir, provisoriamente, a máscara de outro arquétipo, e assim tranformar-se num Camaleão, num Mentor ou em outros — até mesmo numa Sombra.
Embora, geralmente, seja pintado como uma figura positiva, o Herói também pode expressar lados escuros ou negativos do ego. O arquétipo do Herói geralmente representa o espírito humano numa ação positiva, mas também pode mostrar as consequências da fraqueza ou a relutância em agir.
A disposição do Herói
Parece que há dois tipos de Heróis:
1. Os decididos, ativos, loucos por aventuras, que não têm dúvidas, do tipo sempre-em-frente, automotivados.
2. Os pouco dispostos, cheios de dúvidas e hesitações, passivos, que precisam ser motivados ou empurrados por forças externas para se lançarem numa aventura.
Os dois tipos são capazes de garantir histórias muito divertidas, embora um herói mais passivo no decorrer de toda a narrativa possa ser responsável por uma experiência dramática sem muito envolvimento. Geralmente, é melhor que um Herói pouco disposto mude em algum ponto da história, e se torne ligado à aventura depois que lhe é fornecida alguma motivação necessária.
Anti-heróis
O termo "anti-herói" é enganador e pode induzir a alguma confusão. Por isso, é bom deixar bem claro, de saída, que um anti-herói não é o oposto de um Herói, mas um tipo especial de Herói, alguém que pode ser um marginal ou um vilão, do ponto de vista da sociedade, mas com quem a plateia se solidariza, basicamente. E nos identificamos com esses marginais porque todos nós, uma ou outra vez na vida, nos sentimos marginais. Os Anti-heróis podem ser de dois tipos:
1. Personagens que se comportam de modo muito semelhante aos Heróis convencionais, mas a quem é dado um toque muito forte de cinismo, ou uma ferida qualquer, como os personagens vividos por Humphrey Bogart em À beira do abismo e Casablanca.
2. Heróis trágicos, figuras centrais de uma história, que podem não ser admiráveis nem despertar amor, e cujas ações podemos até deplorar — como Macbeth, ou Scarface, ou o personagem Joan Crawford em Mamãezinha querida.
O Anti-herói ferido pode ser um cavaleiro heroico numa armadura enferrujada, um solitário que rejeitou a sociedade ou foi rejeitado por ela. Esses personagens podem acabar vencendo, e podem ter, o tempo todo, a solidariedade total da plateia, mas aos olhos da sociedade são foras-da-lei, como Robin Hood, piratas, ou bandidos heroicos, ou muitos dos personagens de Bogart. Com frequência, trata-se de homens honrados, que se retiraram da corrupção da sociedade e agora operam na sombra da lei, como detetives particulares, contrabandistas, jogadores. Amamos esses personagens porque são rebeldes e torcem o nariz à sociedade, como gostaríamos de fazer. Outro arquétipo desse tipo é o personificado por James Dean em Juventude transviada ou Vidas amargas, ou pelo jovem Marlon Brando, cujo personagem em O selvagem encarnou uma insatisfação, nova e muito diferente, de sua geração contra a anterior. Atores como Mickey Rourke, Matt Dillon e Sean Penn continuam hoje essa tradição.
O segundo tipo de Anti-herói se aproxima mais da ideia clássica do herói trágico. São Heróis com defeitos, que nunca conseguem ultrapassar seus demônios íntimos, e são derrotados e destruídos por eles. Podem ser encantadores, alguns podem ter qualidades admiráveis, mas o defeito ganha no final. Alguns dos Anti-heróis trágicos não são tão admiráveis, mas observamos sua queda com fascínio, pois sentimos que "graças a Deus não me aconteceu isso, porque no fundo eu sou assim". Como os antigos gregos que assistiam à queda de Édipo, nós purgamos nossas emoções e aprendemos a evitar as mesmas armadilhas quando vemos a destruição do personagem de Al Pacino em Scarface, ou a Diane Fossey vivida por Sigourney Weaver em Nas montanhas dos gorilas, ou o personagem de Diane Keaton em À procura de Mr. Goodbar.
Heróis voltados para o grupo
Outra distinção que deve ser feita a respeito dos Heróis leva em conta sua relação com a sociedade. Como os primeiros contadores de histórias, aqueles primeiros humanos que saíam caçando e recolhendo plantas nas planícies da África, a maioria dos heróis se orienta para o grupo. Ou seja, fazem parte de uma sociedade, no início da história, e sua jornada os leva para uma terra desconhecida, longe de casa. Quando os encontramos pela primeira vez, fazem parte de um clã, uma tribo, uma aldeia, uma cidade, uma família. Sua história conta a separação desse grupo (primeiro ato), sua aventura solitária num lugar remoto (segundo ato), e, muitas vezes, sua reintegração final com o grupo (terceiro ato).
Os Heróis orientados para o grupo muitas vezes enfrentam a escolha entre voltar ao Mundo Comum do primeiro ato ou ficar no Mundo Especial do segundo ato. Na cultura ocidental, são raros os Heróis que decidem ficar no Mundo Especial, mas eles são bastante comuns nos contos clássicos da Ásia ou em narrativas indígenas.
Heróis solitários
Em contraste com o Herói ligado a um grupo social, existe o Herói solitário, como os mocinhos do faroeste — é o caso de Shane, em Os brutos também amam, do Estranho sem nome de Clint Eastwood, do Ethan de John Wayne em Rastros de ódio, ou do Cavaleiro Solitário. Com esse tipo de Herói, a história começa com seu afastamento da sociedade. Seu ambiente natural é a natureza selvagem, seu estado natural é a solidão. Sua jornada é de retorno ao grupo (primeiro ato), aventura dentro do grupo, no ambiente normal do grupo (segundo ato), e retorno ao isolamento na natureza (terceiro ato). Para esses, o Mundo Especial do segundo ato é a tribo ou a aldeia, que visitam brevemente, mas na qual não se sentem à vontade. A maravilhosa tomada de John Wayne, no final de Rastros de ódio, resume a energia desse tipo de Herói. Wayne aparece enquadrado pela moldura da porta de uma cabana, do lado de fora, como um marginal para sempre cortado das alegrias e do conforto da família. Esse tipo de Herói não se limita aos filmes de faroeste. Pode ser usado com muita eficiência em dramas ou filmes de ação, em que um detetive recluso é tentado a viver uma nova aventura, em que um eremita ou alguém que vive isolado é chamado novamente à sociedade, ou quando uma pessoa que escolheu uma solidão emocional é desafiada a entrar novamente no mundo das relações.
Da mesma forma que ocorre com os Heróis orientados para o grupo, esses heróis solitários têm a escolha final de retornar a seu estado inicial (no caso, solidão) ou de permanecer no Mundo Especial do segundo ato. Alguns Heróis começam como solitários e terminam como Heróis ligados ao grupo, e optam por ficar em sociedade.
Heróis catalisadores
Um certo tipo de Herói constitui uma exceção à regra que diz que o herói é, geralmente, o personagem que sofre a maior transformação. São os Heróis catalisadores, figuras centrais que podem agir heroicamente, mas que não mudam muito, porque sua função principal é provocar transformações nos outros. Como um catalisador em química, sua presença provoca uma mudança no sistema, mas eles não mudam.
Um bom exemplo é Axel Foley, o personagem de Eddie Murphy em Um tira da pesada. Sua personalidade já está perfeitamente formada e determinada no começo da história. Este personagem não chega a desenvolver uma trajetória, porque não tem muito aonde ir. Não aprende nem muda muito, no decorrer da história, mas provoca grandes mudanças em seus colegas da polícia de Beverly Hills, Taggart e Rosewood. Graças à influência de Axel, ambos desenvolvem trajetórias consideráveis, passando de certinhos e caxias para espertos e com jogo de cintura. Na verdade, embora Axel seja a figura central, o principal oponente do vilão, o personagem com os melhores diálogos e que passa mais tempo em cena, pode-se argumentar que ele não é o verdadeiro Herói, mas o Mentor da história, enquanto o jovem Rosewood (Judge Reinhold) é o verdadeiro herói, porque é quem mais aprende.
Os heróis catalisadores são especialmente úteis para seriados. Como o Cavaleiro Solitário ou o Super-Homem, esses Heróis sofrem poucas mudanças internas, mas agem primordialmente no sentido de ajudar ou guiar os outros em seu crescimento. É claro que é uma boa ideia, de vez em quando, dar até mesmo a esses personagens alguns momentos de crescimento e mudança, a fim de que eles não cansem nem percam a credibilidade.
O caminho dos heróis
Os Heróis são símbolos da alma em transformação, e da jornada que cada pessoa percorre na vida. Os estágios dessa progressão, os estágios naturais da vida e do crescimento, formam a Jornada do Herói. O arquétipo do Herói é um campo rico para ser explorado por escritores e por quem está numa busca espiritual. O livro de Carol S. Pearson intitulado O despertar do herói interior subdivide ainda mais a ideia do Herói em arquétipos úteis (Inocente, Órfão, Mártir, Caminhante, Guerreiro, Protetor, O que Busca, Amante, Destruidor, Criador, Governante, Mágico, Sábio, Bobo), e dá gráficos do progresso emocional de cada um deles. É um bom guia para um entendimento psicológico mais profundo do herói, em suas múltiplas facetas. As avenidas especiais trilhadas pelas heroínas femininas são descritas por Maureen Murdock em The Heroine's Journey: Woman’s Quest for Wholeness.
Mentor: Velha ou Velho Sábio
"Que a Força esteja com você!"
Guerra nas estrelas, de George Lucas
Um arquétipo que freqüentemente encontramos nos sonhos, mitos e histórias é o Mentor — em geral, uma figura positiva que ajuda ou treina o herói. O nome que Campbell dá a essa força é Velho Sábio ou Velha Sábia. Esse arquétipo se expressa em todos aqueles personagens que ensinam e protegem os heróis e lhes dão certos dons. Pode ser Deus caminhando com Adão no Jardim do Éden, Merlin guiando o rei Arthur, a Fada-Madrinha ajudando Cinderela, ou um sargento veterano dando conselhos a um recruta novato. Mas a relação entre o herói e o Mentor é uma das mais ricas fontes de entretenimento na literatura e no cinema.
A palavra "Mentor" vem da Odisseia. Um personagem chamado Mentor guia o jovem herói, Telêmaco, em sua Jornada de Herói. Na verdade, é a deusa Atena que ajuda Telêmaco, assumindo a forma de Mentor (ver no capítulo "Encontro com o Mentor" uma discussão mais completa sobre o papel de Mentor).
Com frequência, os Mentores falam com a voz de um deus, ou são inspirados pela sabedoria divina. Os bons mestres e os Mentores entusiasmam, no sentido original da palavra. "Entusiasmo" deriva do grego en theos, em deus, significando "inspirado por deus, tendo um deus em si, ou estando na presença de um deus".
Função psicológica
Na anatomia da psique humana, os mentores representam o self, o deus dentro de nós, o aspecto da personalidade que está ligado a todas as coisas. O se//superior é a parte mais sábia, mais nobre, mais parecida com um deus em nós. Como o Grilo Falante, na versão da Disney para o Pinóquio, o se//atua como uma consciência, para nos guiar na estrada da vida quando não houver uma Fada Azul ou um Gepeto por perto, para nos proteger e nos mostrar o que é certo ou errado.
As figuras de Mentores, seja nos sonhos, nos contos de fadas, nos mitos ou nos roteiros, representam as mais elevadas aspirações dos heróis. São aquilo em que o herói pode transformar-se, se persistir na sua Estrada de Heróis. Muitas vezes, o Mentor foi um herói que sobreviveu aos obstáculos anteriores da vida, e agora está passando a um mais jovem a dádiva de seu conhecimento e sabedoria.
O arquétipo do Mentor se relaciona intimamente à imagem de um dos pais. A Fada-Madrinha, em histórias como Cinderela, pode ser interpretada como o espírito protetor da mãe morta da menina. Merlin é um pai de criação para o jovem rei Arthur, cujo pai morreu. Muitos heróis buscam Mentores porque seus próprios pais não desempenham papéis que possam ser modelos convenientes.
Funções dramáticas
Ensinar
Da mesma forma que aprender é uma importante função do herói, ensinar ou treinar é uma função-chave do Mentor. Sargentos, instrutores, professores, guias, pais, avós, velhos treinadores de boxe rabugentos, e todos aqueles que ensinam truques a um herói são manifestações desse arquétipo. É claro que ensinar é uma estrada de mão dupla. Qualquer pessoa que já tenha ensinado sabe que a gente aprende tanto com os alunos quanto ensina a eles.
Dar presentes
Dar presentes também é uma importante função desse arquétipo. Na análise que Vladimir Propp fez do conto popular russo, ele identifica essa função como a do "doador" ou provedor: trata-se de alguém que ajuda o herói temporariamente, em geral dando a ele algum presente. Pode ser uma arma mágica, uma chave ou pista importante, algum alimento ou remédio mágico, ou um conselho que pode salvar a vida. Nos contos de fadas, o doador pode ser o gato de uma bruxa, agradecido pela bondade de uma menininha, e que dá a ela um pente e uma toalha. Mais tarde, quando a menina é perseguida pela bruxa, a toalha se transforma num rio encarpelado, e o pente torna-se uma floresta, para bloquear a perseguição da bruxa.
Os filmes estão cheios de exemplos desses presentes, do bandidinho Puttynose dando a James Cagney sua primeira arma, em O inimigo público, a Obi Wan Kenobi dando a Luke Skywalker a espada de luz que fora de seu pai. Hoje em dia, o presente tanto pode ser uma senha de computador quanto a pista para o covil de um dragão.
Presentes na mitologia
A doação de presentes, ou seja, a função de doador do Mentor, desempenha um papel importante na mitologia. Muitos heróis receberam presentes de seus Mentores, os deuses. Pandora, cujo nome significa "com todos os dons", foi coberta de presentes, inclusive o vingativo presente de Zeus — a caixa que ela não deveria abrir. Heróis como Hércules também ganharam presentes de seus Mentores. Mas, entre os gregos, o herói mais bem dotado foi Perseu.
Perseu
O ideal grego do heroísmo expressou-se em Perseu, o Matador de Monstros. Ele se distingue por ser um dos heróis mais bem equipados, tão carregado de presentes recebidos das potências superiores que é até espantoso que ele conseguisse andar. Pouco a pouco, com a ajuda de Mentores como Hermes e Atena, ele foi ganhando sandálias aladas, uma espada mágica, um elmo que o tornava invisível, uma foice mágica, um espelho mágico, a cabeça de Medusa, que transformava em pedra quem a olhasse, e uma sacola mágica para guardar a cabeça. Como se isso tudo não bastasse, a versão cinematográfica da história de Perseu, Fúria de Titãs, lhe dá também o cavalo voador, Pégaso.
Na maioria das histórias, isso seria um exagero. Mas Perseu é entendido como o paradigma de todos os heróis, por isso compreende-se que ele seja tão presenteado pelos deuses, seus Mentores em sua busca.
Os presentes devem ser merecidos
Na análise que Propp faz dos contos russos, observa que os personagens dos doadores dão presentes mágicos aos heróis, mas geralmente só depois que estes tenham passado por algum tipo de teste. Essa é uma boa regra: O presente ou ajuda deve ser conquistado, merecido, por meio de um aprendizado, um sacrifício ou um compromisso. Os heróis de contos de fadas acabam ganhando a ajuda de animais e criaturas mágicas porque foram bondosos para eles, no início da história, dividindo a comida, ou protegendo-os de maus tratos.
Mentor como inventor
Por vezes, o mentor funciona como um cientista ou inventor, cujos presentes são suas descobertas, planos ou invenções. O grande inventor do mito clássico é Dédalo, que projetou o Labirinto e outras maravilhas para os governantes de Creta. Como artesão-mestre da história de Teseu e o Minotauro, ele ajudou a criar o monstro Minotauro e projetou o Labirinto como uma espécie de jaula gigantesca para prendê-lo. Como Mentor, Dédalo deu a Ariadne o novelo de lã que permitiu a Teseu entrar e sair vivo do Labirinto.
Depois, aprisionado no próprio Labirinto que criou, em castigo por ter ajudado Teseu, Dédalo também inventou as famosas asas de cera e penas que permitiram a ele e a seu filho Ícaro escapar. Como Mentor de Ícaro, aconselhou o filho a não voar perto demais do sol. Mas Ícaro, que crescera na escuridão dos porões do Labirinto, foi irresistivelmente atraído pelo sol, ignorou o conselho do pai e despencou para a morte, quando a cera derreteu. O melhor conselho não vale nada, se não for seguido.
A consciência do herói
Alguns Mentores desempenham um papel especial, como consciência do herói. Personagens como o Grilo Falante, em Pinóquio, ou o Groot, de Walter Brennan, em Rio vermelho, tentam manter viva no herói a lembrança de um código moral. Entretanto, o herói pode se rebelar contra uma consciência insistente. Convém lembrar aos Mentores em perspectiva que, na versão original de Collodi, Pinóquio esmaga o Grilo para que ele cale a boca. O anjo no ombro de um herói nunca consegue apresentar argumentos tão sedutores quanto os do diabo no outro ombro.
Motivação
Outra função importante do arquétipo do Mentor é motivar o herói e ajudá-lo a vencer o medo. Muitas vezes, basta o presente para lhe transmitir confiança e motivação. Em outros casos, o Mentor mostra algo ao herói, ou arruma as coisas de tal modo que ele fica com vontade de agir e se lança à aventura.
Em alguns casos, o herói está tão relutante ou temeroso que deve ser empurrado à aventura. Um Mentor pode ter que dar um leve pontapé na bunda do herói, para que a aventura, enfim, se desenvolva.
Plantar
Uma função comum do arquétipo de Mentor é plantar informação, um adereço ou um indício que, depois, vai se tornar importante. Os filmes de James Bond têm uma cena obrigatória, na qual Q, o mestre de armas, um dos Mentores recorrentes de Bond, descreve o funcionamento de alguma nova engenhoca incluída na pasta, a um entediado 007. Essa informação é plantada, e se destina a que a plateia tome conhecimento dela, mas a esqueça, até o momento do clímax em que o truque vai salvar a vida do herói. Essas construções ajudam a amarrar o começo e o fim da história, e mostram que, em algum momento, tudo o que foi aprendido com um Mentor se torna útil.
Iniciação sexual
No campo amoroso, a função do Mentor pode ser nos iniciar nos mistérios do amor e do sexo. Na índia, fala-se do shakti — um iniciador sexual, um parceiro que ajuda a experimentar o poder do sexo como veículo para um estágio superior de consciência. Um shakti é uma manifestação de Deus, um Mentor que conduz o amante a experimentar o divino.
Os sedutores e os ladrões da inocência ensinam lições da maneira mais dura. Pode haver um lado de sombra em Mentores que levam o herói pela estrada perigosa do amor obsessivo ou do sexo manipulativo e sem amor. Há muitas maneiras de aprender.
Tipos de mentor
Como os heróis, os mentores podem se dispor, ou não, a esse papel. Algumas vezes, podem ensinar sem querer. Em outros casos, ensinam por meio do mau exemplo. A derrocada de um Mentor enfraquecido e tragicamente cheio de defeitos pode mostrar ao herói as armadilhas que deve evitar. Assim como acontece com os heróis, alguns lados obscuros ou negativos podem se expressar por meio deste arquétipo.
Mentores escuros
Em certas histórias, o poder do arquétipo do Mentor pode ser usado para desorientar a plateia. Nos thrillers, a máscara do Mentor algumas vezes é uma isca, usada para atrair o herói ao perigo. Ou então, em filmes de um anti-herói gângster, como O inimigo público ou Os bons companheiros, em que todos os valores heroicos convencionais estão invertidos, aparece um anti-Mentor para guiar o anti-herói no caminho do crime e da destruição.
Outra inversão da energia desse arquétipo é um tipo especial de Guardião de Limiar (arquétipo que será discutido no capítulo "Guardião de Limiar"). Um exemplo se encontra em Tudo por uma esmeralda, em que tudo indica que a agente literária de Joan Wilder, falante e provocadora, é um Mentor que orienta a carreira dela e lhe dá conselhos sobre os homens. Mas quando Joan está a ponto de cruzar o limiar da aventura, a agente tenta detê-la, avisando-a dos perigos iminentes e a enchendo de dúvidas. Em vez de motivá-la, como um verdadeiro Mentor, a agente transforma-se num obstáculo no caminho da heroína. Isso é psicologicamente muito verdadeiro, na vida real, pois com frequência temos que ultrapassar ou superar a energia de nossos melhores professores, de modo a podermos passar ao próximo estágio de desenvolvimento.
Mentores caídos
Alguns Mentores ainda estão trilhando seu próprio caminho, em sua Jornada de Herói pessoal. Podem estar vivendo uma crise de confiança na vocação. Podem estar enfrentando problemas com o envelhecimento, ou se aproximando do limiar da morte, ou ter se afastado da estrada do herói. O herói pode precisar do Mentor para lhe dar apoio mais uma vez, e há sérias dúvidas de que o Mentor possa conseguir dar essa força. Em Uma equipe muito especial, Tom Hanks faz o papel de um antigo herói esportivo marginalizado por uma contusão e transformado em Mentor muito contra a vontade. É um personagem que decaiu, e a plateia fica torcendo para que ele se endireite e esteja à altura de sua tarefa de ajudar os heróis. Um Mentor desses pode ter que atravessar todos os estágios de sua própria Jornada de Herói, em seu próprio caminho para a redenção.
Mentores continuados
Os Mentores também são úteis para designar missões e desencadear a ação das histórias. Por esse motivo, são muito frequentes nos elencos de seriados. Esses Mentores Continuados incluem Mr. Waverly, em O Agente da U.N.C.L.E., "M", nos filmes de James Bond,"O Chefe", em Agente 86, Will Geer e Ellen Corby como os avós de Os Waltons, Alfred em Batman, o funcionário da CIA vivido por James Earl Jones em Jogos patrióticos e Caçada ao outubro vermelho etc.
Mentores múltiplos
Um herói pode ser treinado por uma variedade de Mentores que lhe ensinam habilidades específicas. Seguramente, Hércules é o mais bem treinado de todos os heróis, pois tem como Mentores especialistas em luta, arco-e-flecha, montaria, manuseio de armas, sabedoria, virtude, música. Chega até a fazer, com um dos Mentores, um curso de treinamento sobre como conduzir uma carruagem. Todos nós aprendemos o que sabemos com uma série de Mentores, incluindo pais, irmãos e irmãs mais velhos, amigos, amantes, professores, patrões, colegas de trabalho, terapeutas e outros.
Os Mentores Múltiplos podem ser necessários para exprimir as diferentes funções do arquétipo. Nos filmes de James Bond,
o agente 007 sempre volta à base para se reunir e aconselhar-se com o Velho Sábio, o espião-mestre "M", que lhe confia tarefas, dá conselhos e advertências. Mas a função de dar presentes a esse herói é delegada a "Q", o senhor das armas e truques secretos. Além disso, a senhorita Moneypenny também oferece a Bond algum apoio emocional, bem como conselhos e informações críticas, e com isso representa outro aspecto do Mentor.
Mentores cômicos
Um tipo especial de Mentor aparece nas comédias românticas. É comum que seja o amigo ou colega do herói, geralmente do mesmo sexo. Aconselha sobre o amor: vá em frente e esqueça essa tristeza; finja que tem um caso, para seu marido ficar com ciúmes; faça de conta que está interessada nas coisas de que ele gosta; impressione a amada com presentes, flores ou belas palavras; seja mais agressivo etc. Esses conselhos quase sempre acabam levando o herói a uma situação temporária que parece ser o maior desastre, mas, no fim, tudo acaba dando certo. Esses personagens estão sempre presentes nas comédias românticas, principalmente as dos anos 1950, quando filmes como Confidencias à meia-noite ou Volta, meu amor tinham sempre um papel para atores como Thelma Ritter ou Tony Randall, que desempenhavam essa versão divertida e sarcástica de Mentores.
Mentor como xamã
O personagem do Mentor, nas histórias, está intimamente ligado à ideia do xamã ou curandeiro das culturas tribais. Da mesma forma que os Mentores guiam o herói pelo Mundo Especial, os xamãs guiam as pessoas pela vida. Viajam a outros mundos, em sonhos e visões, e de lá trazem de volta histórias que vão curar suas tribos. Muitas vezes, uma das funções do Mentor é ajudar o herói a procurar uma visão que lhe sirva de guia, numa busca de um outro mundo.
Flexibilidade do arquétipo do mentor
Como os outros arquétipos, o personagem do Mentor ou doador não é um tipo rígido e previsível, mas uma função, um trabalho que pode ser desempenhado por vários personagens diferentes, no decorrer de uma história. Um personagem que manifesta primordialmente outro arquétipo — o herói, o camaleão, o pícaro, até mesmo o vilão — pode usar, provisoriamente, a máscara de Mentor, para ensinar ou dar algo ao herói.
Nos contos de fadas russos, o maravilhoso personagem da bruxa Baba Yaga é uma figura de Sombra que, às vezes, põe a máscara do Mentor. Na superfície, é uma bruxa horrenda e canibal, que representa o lado escuro da floresta, seu poder devorador. Mas, assim como a floresta, ela também pode ser aplacada e cumular o viajante de presentes. Se o príncipe Ivan for bondoso e respeitoso para com ela, Baba Yaga pode lhe dar o tesouro mágico de que ele necessita para salvar a princesa Vasilisa.
Embora Campbell tenha chamado essas figuras de Velha ou Velho Sábio, às vezes elas não são velhas nem sábias. Muitas vezes, os mais jovens, em sua inocência, são capazes de dar lições aos mais velhos. O personagem mais tolo de uma história pode ser justamente aquele com quem mais aprendemos. Da mesma forma que ocorre com outros arquétipos, a função de um Mentor é muito mais importante do que sua mera descrição física. São os atos do personagem que determinam qual dos arquétipos está se manifestando naquele momento.
Muitas histórias não têm um personagem específico que possa ser identificado como o Mentor. Não apresentam nenhuma figura de barbas brancas e cara de mago e que ande de um lado para outro no papel de Velho Sábio. No entanto, quase toda história, em algum ponto, recorre à energia desse arquétipo.
Mentores internos
Em alguns filmes de faroeste ou noir, o herói é um personagem experiente e calejado, que não precisa de Mentor ou guia. Já internalizou esse arquétipo, que agora vive dentro dele, como um código íntimo de comportamento. O Mentor pode ser o código de conduta de um pistoleiro, ou as noções secretas de honra respeitadas por Sam Spade ou Philip Marlowe. Um código de ética pode ser a manifestação não-personificada de um Mentor, guiando as ações do herói. Não é raro que um herói refira-se a um Mentor que significou algo para ele, anteriormente na vida, mesmo se não aparece na história nenhum personagem de Mentor. Um herói pode recordar "Minha mãe / meu pai / meu avô / meu sargento-instrutor costumava dizer..." e então exprimir a sabedoria contida no conselho que será crucial para resolver o problema da história. A energia do arquétipo de Mentor também pode estar investida num adereço, como um livro ou outro objeto, que guia o herói em sua busca.
Colocação dos mentores
Embora a Jornada do Herói, muitas vezes, encontre o Mentor já no primeiro ato, a colocação do Mentor numa história é uma consideração prática. Pode ser necessário, em qualquer ponto da história, a presença de um personagem que saiba tudo sobre cordas, que tenha o mapa de uma região desconhecida, ou que possa dar ao herói a informação vital no momento exato. Os Mentores podem surgir no começo de uma história ou esperar na coxia até que sejam necessários, no instante crítico do segundo ato ou do terceiro ato.
Os Mentores fornecem aos heróis motivação, inspiração, orientação, treinamento e presentes para a jornada. Todo herói é guiado por alguma coisa, e uma história que não reconheça isso e não deixe um espaço para essa energia estará incompleta. Quer se exprima como um personagem concreto ou como um código de conduta interno, o arquétipo do Mentor é uma arma poderosa nas mãos do escritor.