A Jornada do Escritor

Christopher Vogler · Capítulo 5 de 23

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A Jornada do Escritor

Guardião de Limiar

 

"... De minha parte, algo me diz que ele nunca

vai levar essa jornada a bom termo..."

Homero, Odisseia

Todos os heróis encontram obstáculos na estrada da aventura. Em cada portão de entrada a um novo mundo há guardiões poderosos defendendo esse limiar, e ali colocados para impedir a passagem e a entrada de quem não for digno. Eles exibem ao herói uma cara ameaçadora, mas, se forem devidamente compreendidos, podem ser ultrapassados, superados, e até transformados em aliados. Muitos heróis (e muitos escritores) encontram Guardiões de Limiares. Compreender a natureza deles pode ajudar na decisão de como lidar com eles.

Geralmente, os Guardiões de Limiares não são os principais vilões ou antagonistas nas histórias. Na maioria das vezes, são capatazes do vilão, asseclas menores ou mercenários contratados para guardar o acesso ao quartel-general do chefe. Também podem ser figuras neutras, que simplesmente fazem parte da paisagem no Mundo Especial. Em alguns casos raros, podem ser ajudantes secretos, colocados no caminho do herói para testar sua disposição ou capacidade.

É comum haver uma relação simbiótica entre um vilão e um Guardião de Limiar. Na natureza, um animal poderoso como um urso pode, às vezes, tolerar que um animal menor, como uma raposa, faça a toca na entrada de sua caverna. A raposa, com seu cheiro forte e dentes afiados, tende a impedir que outros animais venham passear na caverna enquanto o urso está dormindo. E também serve como um sistema de alarme prévio, fazendo barulho se alguma coisa tentar entrar. De forma semelhante, os vilões das histórias muitas vezes se apóiam em subalternos, como porteiros, guarda-costas, sentinelas ou mercenários, para protegê-los e avisá-los sempre que um herói aproxima-se do Limiar da fortaleza do vilão.

 

Função psicológica: neuroses

Esses Guardiões podem representar os obstáculos comuns, que todos nós temos que enfrentar no mundo que nos cerca: azar, preconceitos, opressão ou pessoas hostis, como a garçonete que se recusa a atender ao pedido simples de Jack Nicholson em Cada um vive como quer. Contudo, num nível psicológico mais profundo, eles representam nossos demônios internos: as neuroses, cicatrizes emocionais, vícios, dependências e autolimitações que seguram nosso crescimento e progresso. Parece que, cada vez que a gente tenta fazer uma grande mudança na vida, esses demônios íntimos erguem-se com toda a força, não necessariamente para nos deter, mas para testar e verificar se estamos realmente determinados a aceitar o desafio da mudança.

 

Função dramática: testar

Testar o herói é a função dramática primordial do Guardião de Limiar. Quando os heróis se confrontam com uma dessas figuras, precisam decifrar um enigma, ou passar por um teste. Como a Esfinge, que apresenta um enigma a Édipo, para que ele possa continuar sua jornada, um Guardião de Limiar desafia o herói e o experimenta, em seu caminho.

Como lidar com esses obstáculos aparentes? Os heróis têm uma gama de opções. Podemos dar meia-volta e sair correndo, atacar o oponente de frente, usar a astúcia e enganá-lo, suborná-lo ou aplacá-lo, ou ainda transformar um aparente inimigo num Aliado. (Embora não pretendamos discutir o Aliado como um arquétipo separado, os heróis são auxiliados por uma variedade de arquétipos coletivamente conhecidos como Aliados.)

Uma das maneiras mais eficazes de lidar com um Guardião de Limiar é "entrar na pele" dele, assim como um caçador procura entrar na mente de um animal perseguido. Os índios das planícies usavam peles de búfalo para se aproximar da manada de bisões numa distância que lhes permitisse atirar com o arco. O herói pode conseguir ultrapassar um Guardião de Limiar penetrando no seu espírito ou adquirindo sua aparência. Um bom exemplo ocorre no segundo ato de O Mágico de Oz, quando o Homem de Lata, o Leão Medroso e o Espantalho vão ao castelo da Bruxa salvar Dorothy, que fora raptada. A situação parece sem esperanças: Dorothy está dentro de um castelo fortificado, defendido por um regimento de soldados de aspecto ameaçador que marcham de um lado para o outro, cantando. Não há possibilidade de que os três amigos consigam derrotar uma força dessas.

Contudo, nossos heróis são emboscados por três sentinelas e, no entanto, os derrotam e se apossam dos uniformes e armas. Disfarçados de soldados, juntam-se ao final de uma coluna em marcha, e assim entram no castelo. Transformaram um ataque numa vantagem, literalmente entrando na pele de seus oponentes. Em vez de tentarem, inutilmente, derrotar um inimigo de força superior, eles se transformam, provisoriamente, no inimigo.

É importante que um herói reconheça que essas figuras são uma manifestação do Guardião de Limiar. Na vida cotidiana, provavelmente você já encontrou resistência quando tenta fazer uma mudança positiva. As pessoas em volta, mesmo as que gostam de você, muitas vezes relutam em vê-lo mudar. Estão acostumadas às suas neuroses e sabem conviver com elas, às vezes até se beneficiando disso. A ideia de uma mudança em você as ameaça. Se elas resistem, é importante que você perceba que estão apenas funcionando como um Guardião de Limiar, testando você, para verem se está mesmo determinado.

 

Sinais de um novo poder

Os heróis bem-sucedidos aprendem a reconhecer que o Guardião de Limiar não é um inimigo ameaçador, mas um Aliado útil, e um indicador prévio de que está a caminho um novo poder ou acontecimento. Guardiões de Limiar que parecem estar atacando, na verdade, podem estar fazendo um favor ao herói.

Os heróis também aprendem a reconhecer a resistência como uma fonte de força. Assim como na ginástica, quanto maior é a resistência, maior é a força. Em vez de atacar de frente o poder de um Guardião de Limiar, os heróis aprendem a usá-lo, para que não o prejudique. Pode até reforçar o Guardião. As artes marciais ensinam que a força de um adversário pode ser usada contra ele. Assim, o ideal é que um Guardião de Limiar não seja derrotado, mas incorporado (literalmente: trazido para dentro do corpo). Os heróis aprendem os truques dos Guardiões, os absorvem, e seguem adiante. Em última análise, os heróis plenamente desenvolvidos se compadecem de seus inimigos aparentes, e preferem transcendê-los a destruí-los.

Os heróis devem aprender a ler os sinais de seus Guardiões de Limiar. Em O poder do mito, Joseph Campbell ilustra essa ideia lindamente, com um exemplo do Japão. Muitas vezes, as entradas dos templos japoneses são guardadas por estátuas de demônios de aspecto feroz. A primeira coisa que se vê é uma mão erguida, como a de um policial que ordena "Pare!". Mas, olhando mais de perto, nota-se que a outra mão convida a entrar. A mensagem é: os que se assustam com a aparência exterior não podem entrar no Mundo Especial, mas aqueles que sabem ver além das impressões superficiais e enxergar a realidade interna são bem-vindos.

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Nas histórias, um Guardião de Limiar pode assumir uma fantástica variedade de formas diferentes. Podem ser guardas de fronteira, sentinelas, vigias, guarda-costas, bandidos, editores, porteiros, professores que aplicam exames de admissão, qualquer um cuja função seja bloquear temporariamente o caminho do herói e testar seus poderes. A energia de um Guardião de Limiar pode até não estar encarnada num personagem, mas pode ser encontrada num adereço, num elemento arquitetônico, num animal ou numa força da natureza que impeça o progresso do herói e o ponha à prova. Aprender a lidar com o Guardião de Limiar é um dos maiores testes da Jornada do Herói.