A Jornada do Escritor
Estágio Oito: Provação
James bond: E o que você espera que eu faça agora, Goldfinger?
Goldfinger: Ora, senhor Bond, eu espero que o senhor morra.
007 contra Goldfinger, roteiro de Richard Maibaum e Paul Dehn
Agora, o herói está no aposento mais profundo da Caverna Oculta, enfrentando o maior desafio e o mais temível adversário. Este, sim, é o âmago da questão, o que Joseph Campbell chamou de Provação. É a mola-mestra da forma heroica, a chave de seu poder mágico.
Eis a hora de completar a Busca, entrar na Caverna Oculta e procurar o que irá restaurar a vida de Nossa Tribo. O caminho fica mais estreito e escuro. Você tem que prosseguir sozinho, rastejando, sentindo a terra fechar-se à sua volta. Mal dá para respirar. De repente, você vai deparar-se com o aposento mais profundo, e se encontrar, frente a frente, com uma figura imensa, uma Sombra ameaçadora, composta de todas as suas dúvidas e medos, e bem armada para defender um tesouro. Aqui, neste exato momento, está a chance de ganhar tudo ou morrer. Não importa o que você veio buscar, agora é a Morte que está tendo que encarar. Qualquer que seja o resultado da batalha, você está a ponto de sentir o gosto da morte e isso vai mudá-lo para sempre.
Morte e renascimento
O segredo simples da Provação é este: 05 Heróis têm que morrer para poderem renascer. O movimento dramático de que a plateia mais gosta, acima de qualquer outro, é o de morte e renascimento. De algum modo, em toda história os heróis enfrentam a morte ou algo semelhante: seus maiores medos, o fracasso de um empreendimento, o fim de uma relação, a morte de uma personalidade velha. Na maioria das vezes, os heróis sobrevivem, magicamente, a essa morte e renascem — literal ou simbolicamente — para colher as consequências de terem derrotado a morte. Passaram pelo teste principal, aquele que consagra um herói.
O E.T. de Spielberg morre diante de nossos olhos, mas renasce através de uma mágica alienígena e do amor de um menino. Sir Lancelot, cheio de remorsos por ter matado um galante cavaleiro, reza para que ele retorne à vida. O personagem de Clint Eastwood, em Os imperdoáveis, é espancado até perder os sentidos por um xerife sádico, e flutua pelos limites da morte, achando que está vendo anjos. Sherlock Holmes, aparentemente morto pelo professor Moriarty, atirado na cachoeira de Reichenbach, desafia a morte e retorna, transformado e pronto para novas aventuras. O personagem de Patrick Swayze, assassinado em Ghost: Do outro lado da vida, aprende a cruzar o véu que o separa dos vivos para proteger sua esposa e, finalmente, manifestar seu amor por ela.
Mudança
Os heróis não se limitam a visitar a morte e voltar para casa. Voltam mudados, transformados. Ninguém pode viver uma experiência no limiar da morte sem se modificar de alguma maneira. No centro de A força do destino, Richard Gere sobrevive a uma provação de seu ego, de vida-ou-morte, nas mãos do sargento-instrutor Lou Gossett. Essa experiência muda dramaticamente o personagem, fazendo com que fique mais sensível às necessidades dos outros e mais consciente de que faz parte de um grupo.
Axel Foley, com a arma de um bandido apontada para sua cabeça, em Um tira da pesada, parece estar certo de que vai morrer, mas é salvo pelo ingênuo detetive branco Rosewood (Judge Reinhold). Após esse resgate da morte, Foley passa a ser mais cooperativo e disposto a controlar seu ego gigantesco, em benefício do grupo.
A crise, não o clímax
A Provação é um dos principais núcleos nervosos da história. Muitos fios da história do herói conduzem a ela, e muitos fios de possibilidades e mudanças saem dela para um outro lado. Mas não deve ser confundida com o clímax da Jornada do Herói — este é outro centro nervoso, mais adiante, perto do fim da história (como o cérebro, na base da cauda de um dinossauro).
A Provação, geralmente, é o acontecimento central da história, ou o principal acontecimento do segundo ato. Vamos chamá-la de crise, para diferenciá-la do clímax (o grande momento do terceiro ato, que é o coroamento de toda história).
Uma crise, segundo o dicionário Webster's, é "o ponto numa história ou peça teatral em que as forças hostis estão no estado mais tenso de oposição". Também, numa doença, falamos de crise — um ponto, talvez um auge de febre, após o qual o paciente piora ainda mais ou começa a se recuperar. A mensagem: às vezes, as coisas têm que piorar antes de melhorar. Uma crise de Provação, por mais assustadora que seja para o herói, pode ser a única maneira de recuperação ou vitória.
Situação da Provação
A situação dessa crise, o lugar onde se coloca essa Provação, depende das necessidades da história e do gosto de quem conta a história. O padrão mais comum é que o momento de morte-e-renascimento venha perto do meio da história, como se mostra aqui, no diagrama da Crise Central.
Uma crise central tem a vantagem da simetria, e deixa bastante tempo para elaborar as consequências que decorrem da provação. Note-se que essa estrutura permite outro momento crítico no fim do segundo ato.
Principais picos dramáticos em uma história com uma Crise Central
Principais picos dramáticos em uma história com uma Crise Retardada
Entretanto, uma estrutura igualmente eficaz pode ser construída com o retardamento de uma crise, que só ocorra próximo ao fim do segundo ato, já havendo dois terços de história transcorridos.
A estrutura da crise retardada aproxima-se muito do ideal da Razão Áurea, a proporção elegante (aproximadamente, três para cinco) que parece produzir os resultados artísticos mais agradáveis da História da Arte. Deixa mais tempo para os preparativos e a Aproximação e permite que se vá, lentamente, construindo um grande momento no fim do segundo ato.
Mas, seja no centro da história ou perto do fim do segundo ato, pode-se dizer que toda história precisa de um momento de crise, que transmita o sentido de morte e renascimento presente na Provação.
Pontos de tensão
O segundo ato é um longo trecho, tanto para o escritor como para a plateia, com duração de quase uma hora, num filme médio. Pode-se considerar uma estrutura em três atos como uma linha dramática esticada entre dois grandes pontos de tensão, os intervalos entre os atos. Como uma lona de circo apoiada em grandes postes, a estrutura está sujeita à gravidade — a diminuição da atenção do público, no tempo decorrido entre esses pontos de tensão. Uma história que não tenha um momento central de tensão pode pesar como uma lona de circo que precisa de um poste de sustentação extra no meio. O segundo ato é um estirão no seu filme, umas cem páginas no seu romance. Precisa de uma estrutura que o mantenha tenso.
A crise no meio é um divisor de águas, uma divisão continental na Jornada do Herói, que mostra que o viajante alcançou o meio da viagem. As Jornadas se arrumam, naturalmente, em redor de um acontecimento central: chegar ao topo da montanha, ao ponto mais profundo da caverna, ao coração da floresta, ao interior mais íntimo de um país estrangeiro, ao lugar mais secreto de sua própria alma. Tudo na viagem levava a esse momento, e tudo depois de tal momento será apenas a volta para casa. Pode haver ainda aventuras maiores no futuro — os momentos finais de uma viagem podem ser os mais emocionantes e memoráveis — mas toda jornada parece ter um centro, um fundo ou um pico, em algum ponto perto do meio.
A palavra "crise" — e também "crítico, criticar" — vem de uma palavra grega que significa "separar". Uma crise é um evento que separa duas metades da história. Após cruzar essa zona, muitas vezes nos limites da morte, o herói renasce, literal ou metaforicamente, e nada jamais será igual.
Testemunha do sacrifício
A realidade de uma crise de morte-e-renascimento pode depender do ponto de vista. Uma testemunha, muitas vezes, desempenha um papel importante nesse estágio, é alguém que está perto e vê o herói parecer que morre, momentaneamente chora sua
perda, e fica eufórica quando ele revive. Alguns dos efeitos de morte-e-ressurreição, em Guerra nas estrelas, dependem da presença de testemunhas, como os dois robôs aliados, R2D2 e C3PO. Em uma elaborada sequência de Provação Suprema, eles estão acompanhando eletronicamente o progresso de seus heróis, Skywalker e companhia. Ficam horrorizados ao ouvirem aquilo que soa como o esmagamento dos heróis até a morte, num gigantesco compressor de lixo, nas entranhas da Caverna Oculta da Estrela da Morte.
Essas testemunhas representam a plateia, identificando-se com os heróis e sentindo com eles a dor da morte. Não que o público seja sádico e goste de ver os heróis morrerem. É só que todos apreciamos um gostinho de morte: de vez em quando, seu sabor amargo é que faz a vida mais doce. Qualquer um que tenha sobrevivido a uma verdadeira experiência de quase-morte, a salvação por um triz num carro ou avião, sabe que depois disso, por um bom tempo, as cores parecem mais nítidas, a família e os amigos são mais importantes, o tempo é mais precioso. A proximidade da morte torna a vida mais real.
Um gosto de morte
As pessoas pagam um bom dinheiro por um gosto de morte. Esportes perigosos, como bungee-jump e skydive, e parques de diversões aterrorizantes dão às pessoas o impulso para apreciarem plenamente a vida. Os filmes e as histórias de aventuras são sempre populares porque oferecem uma maneira menos arriscada de experimentarmos a morte e o renascimento, por meio de heróis com os quais nos identificamos.
Ainda há pouco, deixamos o coitado do Luke Skywalker sendo esmagado até a morte, no coração, ou melhor, no estômago da Estrela da Morte. Na barriga da baleia. Os robôs que testemunham ficam desolados quando ouvem o ruído que só pode significar a morte de seu senhor. Lamentam-se e choram — e a plateia com eles, sentindo o gosto da morte. Toda a técnica sofisticada do cinema dedica-se a fazer o público pensar que seus heróis foram moídos e viraram uma pasta. Mas, em seguida, os robôs compreendem: aquilo que confundiram com gritos de agonia e morte eram, na verdade, gritos de alívio e triunfo. Os robôs conseguiram desligar a trituradora de lixo e os heróis, miraculosamente, sobreviveram. O luto dos robôs e da plateia, repentina e explosivamente, se transforma em alegria.
A elasticidade da emoção
As emoções humanas, ao que parece, têm certas propriedades elásticas, como bolas de basquete. Se jogadas com muita força para baixo, quicam de volta. Em qualquer história, quando você estiver tentando estimular o público, aumente seu grau de consciência, amplie as emoções. A estrutura da história age como uma bomba, para intensificar o envolvimento da plateia. Uma boa estrutura funciona através de uma diminuição e um aumento alternados da sorte do herói e, paralelamente, da emoção do público. Deprimir as suas emoções tem o mesmo efeito que segurar uma bola com força debaixo d'água. Quando a pressão é retirada, a bola pula com força para cima. As emoções deprimidas pela presença da morte podem quicar de volta, em um dado instante, a uma altura ainda não atingida antes. Isso pode se tornar a base sobre a qual você vai construir um nível ainda mais alto. A Provação é uma das "depressões" mais fundas de uma história e, portanto, leva em seguida a um dos picos mais altos.
Num parque de diversões, você é levado em velocidade pelo meio da escuridão ou pela beirada do espaço até achar que vai morrer, mas de algum modo sai de lá eufórico, porque escapou.
Uma história sem um toque dessa experiência está perdendo alguma coisa. Muitas vezes os roteiristas apanham muito da extensão do segundo ato. Pode parecer monótono, ou episódico, ou sem sentido. Pode ser porque o conceberam apenas como uma série de obstáculos ao objetivo final do herói, em vez de uma série dinâmica de eventos que levam a um momento central de morte e renascimento. Mesmo na comédia mais tola, ou no romancinho mais leve, o segundo ato precisa ter uma crise central de vida e morte, um momento em que o herói experimente a morte ou o perigo máximo do empreendimento.
O herói parece morrer
O segundo ato de Guerra nas estrelas é longo, mas em nenhum momento se esvazia, porque existe nele uma parte central de crise em que as fronteiras da morte são exaustivamente exploradas não em uma provação, mas numa série delas. Em outro ponto, na sequência da gigantesca trituradora de lixo, Luke é puxado para baixo do esgoto pelo tentáculo de um monstro que não é visto. Foi essa cena que realmente me fez entender o mecanismo da Provação.
Primeiro, a plateia e as testemunhas presentes (Han Solo, a princesa Leia, o Wookie) veem algumas bolhas subindo — um sinal de que Luke ainda está vivo, lutando e respirando. Até aí, tudo bem. Depois, as bolhas param de aparecer. As testemunhas começam a reagir como se Luke estivesse morto. Em poucos segundos, você começa a se perguntar se ele vai conseguir aparecer de novo. Você sabe que George Lucas não vai matar seu herói no meio do filme. Apesar disso, começa a encarar essa possibilidade.
Lembro de ter visto uma pré-estreia de Guerra nas estrelas, na própria Fox, e de ter sido completamente tomado pelos poucos segundos absolutamente críticos (de crise) dessa cena. Eu tinha investido algo de mim mesmo em Luke Skywalker, e, quando tudo indicava que ele tinha morrido, eu me tornei uma presença sem corpo na tela. Comecei a esvoaçar de um personagem para outro, imaginando com quem eu iria me identificar dali em diante.
Teria que atravessar o resto da história colado na mimadinha princesa Leia, no oportunista egoísta Han Solo ou no bestial Wookie? Não me sentia à vontade na pele de nenhum deles. Naqueles poucos segundos, experimentei algo parecido com o pânico. Para mim, o herói estava realmente na barriga da baleia, inacessível, efetivamente morto. Com ele morto, com quem eu estaria no filme? Qual era meu ponto de vista? Minhas emoções, como a bola de basquete mantida embaixo d'água, estavam deprimidas.
Bem nessa hora, Luke Skywalker explode na superfície, imundo, mas vivo. Morreu diante de nossos olhos, mas aqui está ele de novo, vivo, renascido para seus companheiros que o ajudam a se pôr de pé. No mesmo instante, a plateia fica eufórica. As emoções disparam para o alto, por terem sido empurradas tão para o fundo. Emoções desse tipo são o segredo de todos os filmes da série Guerra nas estrelas. Jogam os heróis e o público no limiar da morte e os pescam de volta repetidamente. As pessoas estão pagando por muito mais do que maravilhosos efeitos especiais, diálogos engraçados e sexo. Elas amam ver o herói enganar a morte. No fundo, elas mesmas adoram enganar a morte. Identificar-se com o herói que salta de volta da morte é a forma dramática de bungee-jump, de pular do alto de uma ponte, preso por um elástico.
O herói testemunha a morte
Mas Guerra nas estrelas ainda não nos deu suficiente gosto de morte. Antes que se acabe a etapa da Provação, Luke testemunha a morte física de seu Mentor, Obi Wan, num duelo de laser com o vilão Darth Vader. Luke fica desolado e sente essa morte como se fosse a sua própria. Mas, no mundo mítico, as fronteiras da vida e da morte são deliberadamente fluidas. O corpo de Obi Wan desaparece, levantando a possibilidade de que ele possa sobreviver em algum lugar, para voltar quando precisarem dele, tal qual o rei Arthur e Merlin.
Para um xamã como Obi Wan, a morte é um limiar conhecido, que pode ser cruzado de um lado para outro com relativa facilidade. Obi Wan continua vivo dentro de Luke e da plateia, por meio de seus ensinamentos. Apesar da morte física, ele tem condições de dar um conselho crucial a Luke, mais adiante na história: "Confie na Força, Luke."
O herói causa morte
O herói não precisa morrer para que o momento da morte faça efeito. Ele pode ser uma testemunha da morte ou, até mesmo, o causador. Na Provação de William Hurt em Corpos Ardentes, o acontecimento central do filme é quando ele mata o marido de Kathleen Turner e tem que se livrar do cadáver. Mas isso também é uma morte para Hurt, no fundo de sua alma. Sua inocência morreu, vítima de sua própria luxúria.
Encarando a Sombra
De longe, a forma mais comum de Provação é algum tipo de batalha ou confrontação com uma força oposta. Pode ser um inimigo mortal, vilão, antagonista, adversário, ou mesmo uma força da natureza. Uma ideia que, de certo modo, abrange todas essas possibilidades, é o arquétipo da Sombra. Um vilão pode ser um personagem externo mas, num sentido mais amplo, essas palavras todas representam as possibilidades negativas do próprio herói. Em outras palavras, o maior adversário do herói é sua própria Sombra.
Como acontece com todos os arquétipos, há manifestações positivas e negativas da Sombra. Muitas vezes, é necessário um lado escuro, para polarizar um herói ou um sistema, para dar ao herói alguma resistência que ele seja obrigado a arredar. A resistência pode ser nossa maior fonte de força. Ironicamente, o que parece ser um vilão lutando por nossa morte pode acabar revelando-se como a força que trabalha para nosso bem.
Demonização
Em geral, a Sombra representa os medos e as qualidades desagradáveis e rejeitáveis do herói — tudo aquilo de que não gostamos em nós mesmos e tendemos a projetar em outras pessoas. Essa forma de projeção é chamada de demonização. Pessoas que, às vezes, estão numa crise emocional projetam todos os seus problemas numa certa área em outra pessoa ou grupo, que passam a ser o símbolo de tudo o que odeiam ou temem em si mesmos. Na guerra e na propaganda política, o inimigo se transforma no demônio desumano, na Sombra escura da imagem virtuosa e angelical que tentamos manter para nós mesmos. O próprio Diabo é a sombra de Deus, uma projeção de todo o potencial negativo e rejeitado do Ser Supremo.
Por vezes, precisamos dessa projeção e dessa bipolarização para vermos uma questão com clareza. Um sistema pode manter-se num desequilíbrio doentio por muito tempo caso os conflitos não tenham sido categorizados, polarizados e trazidos à tona em algum tipo de confronto dramático. Geralmente, a Sombra pode ser trazida à luz. As partes inconscientes e rejeitadas podem ser reconhecidas e tornarem-se conscientes, apesar de toda a luta para permanecerem na escuridão total. O horror que Drácula tem à luz é um símbolo do desejo da Sombra de ficar inexplorada.
Os vilões podem ser vistos como a Sombra do herói em forma humana. Por mais diferentes que sejam os valores do vilão, de alguma forma eles são um reflexo escuro dos próprios desejos do herói, aumentados e distorcidos, reflexo de seus maiores medos.
Morte de um vilão
O herói pode chegar bem perto da morte na hora da Provação, mas é o vilão quem morre. No entanto, o herói ainda pode ter que se confrontar com outras forças, outras Sombras, antes que a aventura chegue ao fim. A ação pode transferir-se da esfera física para um plano moral, espiritual ou emocional. Dorothy mata a Bruxa Malvada no segundo ato, mas enfrenta uma provação do espírito: a morte de suas esperanças de voltar para casa no terceiro ato.
A morte de um vilão não deve ser coisa que o herói consiga de modo muito fácil. Numa cena de Provação, em Cortina rasgada, de Hitchcock, o herói tenta matar um espião numa casa de fazenda, mas não tem à mão armas verdadeiras. Hitchcock prova, assim, que matar alguém pode ser muito mais difícil do que, em geral, os filmes mostram. A morte de alguém tem, também, um preço emocional, como Os imperdoáveis não cansa de mostrar. O caçador de recompensas Clint Eastwood mata, mas está dolorosamente consciente de que seus alvos são homens iguais a ele. A morte deve ser real, não apenas uma conveniência do enredo.
O vilão escapa
O herói pode ferir o vilão, na Provação, ou matar um subalterno do vilão. Nesse caso, o vilão principal escapa, para um futuro enfrentamento no terceiro ato. Axel Foley tem uma confrontação de morte-e-renascimento com os braços-direitos do chefe dos bandidos no segundo ato de Um tira da pesada, mas o confronto final com a Sombra principal é guardado para o terceiro ato.
Os vilões são heróis de suas próprias histórias
É bom lembrar que, mesmo que algumas Sombras gostem e orgulhem-se de serem más, muitas delas não se consideram malvadas, de modo algum. Em sua opinião, estão certas e são heroínas de suas histórias. Um momento escuro para o herói é um momento luminoso para a Sombra. Os arcos de suas histórias são imagens espelhadas: quando o herói está no alto, o vilão está no baixo. Depende do ponto de vista. Quando acabar de escrever um roteiro ou romance, você deve conhecer seus personagens tão bem que possa contar a história do ponto de vista de todos: heróis, vilões, auxiliares, amantes, aliados, guardiões e personagens miúdos. Cada um é o herói de sua própria história. É um ótimo exercício caminhar pela história na pele da Sombra, pelo menos uma vez.
Como os heróis enganam a morte
Nos mitos de heróis clássicos, a Provação é construída como o momento em que se espera que o herói morra. Muitos chegaram antes a esse ponto, do qual ninguém conseguiu passar. A Aproximação de Perseu da monstruosa Medusa ocorre em meio às estátuas de heróis convertidos em pedra pelo olhar dela. O labirinto em que ele penetra está coalhado de ossos daqueles que foram devorados pelo monstro lá dentro, ou que morreram de fome tentando encontrar a saída.
Esses heróis mitológicos enfrentam uma morte certa, mas sobrevivem onde outros falharam, porque, prudentemente, procuraram ajuda sobrenatural em algum estágio anterior da história. Eles enganam a Morte, geralmente graças aos presentes do Mentor. Perseu usa o espelho mágico, presente de Atena, para se aproximar da Medusa, evitando olhá-la diretamente. Corta a cabeça dela com sua espada mágica e impede que ela continue a fazer mal, ao guardar a cabeça cortada numa sacola mágica, outro presente do Mentor.
Na história de Teseu, o herói conquistou o amor de Ariadne, a filha do tirano Minos, de Creta, na fase de Aproximação. Agora, quando Teseu deve enfrentar as profundezas incertas e mortais do Labirinto, pede a ajuda de Ariadne. A princesa vai ao Mentor da história, o grande inventor e arquiteto Dédalo, criador do Labirinto. Sua ajuda mágica é muito simples: um novelo de linha. Ariadne segura uma ponta enquanto Teseu caminha pelo Labirinto desenrolando o novelo. E ele consegue encontrar o caminho de volta dessa casa da morte graças à sua ligação com Ariadne — ou seja, graças ao amor, o fio que os liga.
O fio de Ariadne
O fio de Ariadne é um poderoso símbolo da força do amor, da ligação quase telepática que prende as pessoas numa relação intensa. É algo capaz de puxar você, como um cabo. É algo próximo à "barra do avental" ou ao "cordão umbilical" que prende os filhos, mesmo adultos, a suas mães — são fios invisíveis, mas com força de tensão maior que a do aço.
O fio de Ariadne é uma fita elástica que liga um herói às pessoas que ama. Um herói pode se aventurar bem longe, para dentro da loucura ou da morte, mas geralmente é puxado de volta por esses vínculos. Minha mãe me contou que, quando eu era criança, ela enfrentou uma emergência médica que quase a matou. Seu espírito deixou o corpo e flutuou pelo quarto, sentindo-se livre e pronto para ir embora. Somente ela ter visto a mim e minhas irmãs é que tornou possível trazê-la de volta para a vida. Minha mãe viu, então, que tinha uma razão de viver—tomar conta de nós.
Seguir de volta o fio desenrolado de um novelo é seguir uma pista para o centro, em busca de respostas ou de ordem. Os fios que ligam um coração a outro podem ser pistas vitais para resolver um mistério ou conflito.
Crise do coração
A Provação pode ser uma crise do coração. Numa história romântica, pode ser o momento de maior intimidade, algo que todos desejamos e, ao mesmo tempo, tememos. Talvez o que esteja morrendo aí sejam as defesas do herói. Em outra história, pode ser um momento escuro no romance, em que o herói vivência uma traição ou a morte aparente da relação.
Joseph Campbell descreve o que poderíamos chamar de vertentes românticas da Provação em dois capítulos de O herói de mil faces, chamados "Encontro com a Deusa" e "A Mulher como Tentação". Diz ele: "a aventura por excelência (...) é representada, geralmente, por um casamento místico (...) a crise no nadir, no zênite ou na beirada extrema da terra, no ponto central do cosmos, no tabernáculo do templo, ou na escuridão de dentro da câmara mais profunda do coração."
Em histórias de amor, a crise tanto pode ser uma cena de amor quanto uma separação de alguém amado. Crise, lembremos, vem de uma palavra grega que significa "separar".
No filme Tudo por uma esmeralda, a crise tanto é uma Provação física quanto, também, uma separação dos amantes. Joan Wilder e seu companheiro Camaleão Jack Colton entram numa Caverna Oculta literal, onde se apossam da gigantesca esmeralda El Corazón. Mas isso é bem fácil e, poucos momentos depois, ambos enfrentam uma Provação Suprema literal, quando o carro em que estão despenca numa cachoeira e eles mergulham e desaparecem. Joan Wilder desaparece por várias sequências. O público vê Jack Colton nadar até a margem e, durante uns bons segundos, somos levados a acreditar que Joan morreu. Esses poucos segundos são suficientes para que funcione a mágica da Provação Suprema. Depois, Joan aparece, em primeiro plano, lutando para subir num rochedo. O diálogo reconhece explicitamente que ela morreu e renasceu. Da margem oposta, Colton grita: "Pensei que você tinha se afogado." Ela confirma: "Mas eu me afoguei."
Colton fica exultante com aquela ressurreição física, mas, para Joan, o foco da crise desloca-se para o plano emocional. Aquele Colton, em que não se pode confiar, está na margem oposta de um rio caudaloso e encachoeirado, e tem com ele a esmeralda. Vem por aí um verdadeiro teste para seu amor. Será que ele vai cumprir a promessa de encontrá-la na próxima cidadezinha ou simplesmente fugirá com El Corazón e despedaçará o coração romântico da moça? E será que ela conseguirá sobreviver sem ele na selva do Mundo Especial?
Casamento Sagrado
Em histórias com profundidade emocional e psicológica, a Provação pode trazer um momento de casamento místico, um equilíbrio de forças internas opostas. O aspecto de medo e morte da Provação pode estar em torno do casamento: e se não der certo? E se essa parte de mim com que estou indo até o altar me der as costas, ou me esmagar? Apesar desses medos, os heróis podem descobrir em si mesmos qualidades escondidas, e, até mesmo, suas Sombras, e unir-se a elas num matrimônio sagrado. Em última análise, estão em busca de um confronto com sua anima, sua alma, o feminino não reconhecido, ou as partes intuitivas de sua personalidade.
As mulheres podem estar em busca do animus, dos poderes masculinos de razão e segurança que a sociedade lhes ensinou a ocultar. Podem estar tentando se ligar novamente com um impulso criativo ou uma energia maternal, que antes rejeitaram. Num momento de crise, o herói pode fazer contato com todos os lados de sua personalidade, quando seus vários aspectos são convocados em massa, para lidar com questões de vida ou morte.
Equilíbrio
Num Casamento Sagrado, reconhece-se que os dois lados da personalidade têm o mesmo valor. Um herói desses, em contato com todas as ferramentas que lhe possibilitam ser humano, vive um estado de equilíbrio, centrado, e não se desloca nem é derrubado facilmente. Campbell diz que o casamento sagrado "representa para o herói o controle total de sua vida", um casamento equilibrado entre o herói e a própria vida.
Portanto, a Provação pode ser uma crise em que o herói se una a seu lado reprimido, masculino ou feminino, em um Casamento Sagrado. Mas pode haver também uma Ruptura Sagrada! Pode ser que os lados feminino e masculino declarem-se em guerra aberta e mortal.
O amor que mata
Campbell toca nesse conflito destrutivo em "A Mulher como Tentação". O título pode ser enganador, como ocorre com "Encontro com a Deusa", já que a energia desse momento pode ser masculina ou feminina. Essa possibilidade de Provação conduz o herói a uma encruzilhada de traição, abandono ou decepção. É uma crise de fé, que ocorre na esfera do amor.
Cada arquétipo tem, ao mesmo tempo, um lado positivo e luminoso e um lado negativo e escuro. Os lados escuros do amor estão nas máscaras de ódio, recriminação, ultraje e rejeição. É a face de Medéia quando mata os próprios filhos, a máscara da própria Medusa coroada pelas serpentes venenosas da culpa e da recriminação.
Uma crise pode surgir quando um amante Camaleão mostra, repentinamente, alguma faceta antes escondida, e isto faz o herói se sentir traído, amargurado, e morto para a ideia do amor. É um dos truques favoritos de Hitchcock. Após uma terna cena de amor, em Intriga internacional, o personagem de Cary Grant é traído por Eva Marie Saint, que o entrega aos espiões. Grant entra nessa provação no meio do filme, sentindo-se abandonado por ela. A possibilidade de amor verdadeiro, que ela representava, parece morta. Isso torna ainda mais solitária sua Provação, quando Grant quase é liquidado a bala por um aviãozinho que borrifa inseticida num milharal.
Animus ou anima negativos
Na jornada de nossas vidas, podemos enfrentar projeções negativas do animus ou da anima. Pode ser uma pessoa que nos atraia, mas que não presta para nós, uma parte sacana ou canalha de nós mesmos que de repente quer se afirmar, como o Monstro tomando conta do Médico. Um enfrentamento desse tipo pode ser uma Provação que ameaça a vida numa relação ou no desenvolvimento de uma pessoa. O herói de Atração fatal descobre que uma amante passageira pode transformar-se numa força le-
tal quando se zangar ou for rejeitada. Um parceiro ideal pode se transformar no Estrangulador de Boston, ou um pai amoroso pode virar assassino, como em O iluminado. As madrastas e rainhas más, nos contos de fadas dos irmãos Grimm, nas versões originais, foram mães cujo amor se tornou mortal.
Entrando na psicose
Um dos usos mais perturbadores e subversivos da Provação Suprema é o que Alfred Hitchcock faz em Psicose. A plateia é levada a simpatizar com Marion (Janet Leigh) e a identificar-se com ela, mesmo sabendo que Marion é uma ladra em fuga. Até a primeira metade do segundo ato, não há mais ninguém com quem seja possível identificar-se, a não ser o hoteleiro Norman Bates (Anthony Perkins), e ninguém vai querer se identificar com ele — um tipo muito esquisito. Num filme convencional, o herói sempre sobrevive à Provação e vive para ver o vilão ser derrotado no clímax. É inimaginável que uma estrela como Janet Leigh, que vive imortais heroínas na tela, vá ser sacrificada no meio do filme. Mas Hitchcock surpreende, ao realizar o que seria impensável, e mata a heroína, ali pelo meio da história. É uma Provação que se revela fatal para o herói. Não há segunda chance, nem ressurreição para Marion.
O efeito é de abalar qualquer um. A gente fica com aquela sensação de ser um fantasma fora do corpo, flutuando fora do esquadro, quando vê o sangue de Marion sendo sugado pelo ralo. Com quem nos iremos identificar? Quem seremos? Logo, o jogo fica claro: Hitchcock não nos oferece mais ninguém para identificação, a não ser Norman Bates. Relutantes, entramos na cabeça de Norman, começamos a ver a história pelos olhos dele, começamos até a nos fixar nele, nosso novo herói. Primeiro, somos levados a pensar que ele está acobertando a mãe insana, mas acabamos descobrindo que o próprio Norman foi o assassino. O fato é que estivemos andando de um lado para outro na pele de um psicótico. Só um mestre como Hitchcock consegue desafiar dessa maneira todas as regras sobre herói, mortes e Provações.
Enfrentando o medo maior
A Provação pode ser definida como o momento em que o herói enfrenta seu maior medo. Para a maioria das pessoas, isto é a morte, mas em muitas histórias é apenas o momento que o herói mais receia — pode ser uma fobia particular, o desafio de um rival, uma tempestade ou uma crise política. Indiana Jones, inevitavelmente, se vê cara a cara com o que ele mais teme: cobras.
Dos inúmeros medos que o herói tem que encarar, o de maior poder dramático parece ser o que vem do medo de enfrentar um pai, mãe ou figura de autoridade. O ambiente da família está no âmago de muitos dramas sérios, e uma cena dessas pode ser uma Provação muito forte.
Enfrentando os pais
No filme Rio vermelho, o personagem Matthew Garth, vivido por Montgomery Clift, enfrenta esse medo, lá pelo meio da história, quando tenta tirar o controle de uma boiada das mãos de seu pai de criação, Tom Dunston (John Wayne), o qual, a essa altura, já constitui uma formidável figura de Sombra. Dunston começou a história como herói e vilão, mas, na fase de Aproximação, trocou essas máscaras pela de um tirano. Tornou-se um deus demente, ferido e bêbado, um pai abusivo, um chefe cruel para seus homens, levando o dever a sério demais. Quando Matthew desafia seu Mentor e modelo (o pai adotivo), está enfrentando seu maior medo numa Provação.
Dunston decreta que vai bancar o deus e enforcar quem não cumprir as leis de seu mundinho. Matthew fica contra ele, mesmo com risco de levar um tiro. Dunston, o Senhor da Morte se erguendo do trono, puxa a arma para matá-lo. Mas os aliados de Matthew, conquistados na fase dos testes, adiantam-se ao tirano e, com um tiro, jogam longe a arma da mão de Dunston. O poder de Matthew como herói, nesse ponto, é tão grande que ele já nem precisa erguer um dedo contra o adversário. Basta a vontade dele para derrotar a morte. E ele acaba destronando Dunston e se tornando o rei da caravana que leva a boiada. Deixa o pai de criação sem nada além de um cavalo e um cantil. Em histórias desse tipo, o confronto com o maior medo é pintado com as cores do enfrentamento entre a juventude e a geração mais velha.
Juventude contra velhice
O desafio da geração mais velha pela mais jovem é um drama que atravessa os tempos. A Provação Suprema de desafiar um pai proibidor é tão velha quanto Adão e Eva, Édipo ou o rei Lear. Esse conflito ancestral tem grande força na dramaturgia. A peça Num lago dourado lida com os frenéticos esforços de uma filha para agradar o pai, e as Provações se agigantam quando ela enfrenta o pai, ou quando o pai experimenta a própria mortalidade.
O conflito entre gerações é representado, certas vezes, até mesmo fora dos palcos. Os estudantes chineses dissidentes que tomaram a Praça da Paz Celestial, em Pequim, e que, com o próprio corpo, impediram o avanço dos tanques, estavam ali desafiando o status quo imposto por seus pais e avós.
As lutas contra lobos e bruxas, nos contos de fadas, podem ser maneiras de expressar conflitos com os pais. As bruxas representam o aspecto obscuro da mãe, e os lobos, ogros ou gigantes são o aspecto escuro do pai. Dragões e outros monstros podem ser o lado de Sombra de um dos pais. Ou de uma geração que se manteve tempo demais no poder. Campbell falou do dragão como um símbolo ocidental de um tirano que tomou posse de um reino ou uma família até espremer toda a vida que havia antes.
O conflito entre juventude e velhice pode se manifestar também internamente, e não apenas nas batalhas externas entre pais e filhos. O combate ferrenho que inflama a Provação pode ser uma luta íntima entre uma estrutura de personalidade velha e confortável, bem defendida, e uma outra nova, que é fraca, incompleta, mas está louca para nascer. Mas esse novo "eu" não poderá nascer enquanto o velho não morrer — ou, pelo menos, enquanto não se retirar e deixar espaço no centro do palco.
Em raros casos, a Provação pode ser a ocasião de curar velhas feridas abertas, que latejam entre o herói e um de seus pais. Campbell chama essa possibilidade de "Acerto de contas com o pai". Ao sobreviver a uma Provação, ou ousar desafiar a autoridade de uma figura parental, um herói pode ganhar a aprovação paterna e assim resolver os aparentes conflitos entre eles.
Morte do ego
A Provação nos mitos significa a morte do ego. Agora o herói se torna, plenamente, uma parte do Cosmos, morrendo para a velha visão limitada das coisas e renascendo para uma nova consciência de conexões. Os antigos limites do "Eu" foram ultrapassados ou aniquilados. De certa maneira, o herói torna-se um deus, possuidor da capacidade divina de pairar acima dos limites normais da morte, e é alguém capaz de ter aquela visão mais ampla que revela como todas as coisas estão ligadas. Os gregos chamam esse momento de apoteose — um degrau acima do entusiasmo, quando meramente se tem o deus dentro de si. No estado de apoteose, somos o deus. Ter experimentado o gosto da morte permite que nos sentemos na cadeira de Deus por algum tempo. O herói que enfrenta a Provação mudou-se do ego para o self, mudou-se para sua parte mais semelhante ao deus. Pode haver também um deslocamento do self para o grupo, na medida em que o herói aceitar maior responsabilidade, em vez de ficar apenas cuidando de si. Um herói arrisca sua vida individual por amor à vida coletiva maior e conquista o direito de ser chamado Herói.
O Mágico de Oz
Dorothy e os amigos, encurralados pela Bruxa Malvada e por seu exército de Guardiões de Limiar, agora enfrentam a Provação Suprema. A Bruxa está zangada com eles, porque penetraram em sua Caverna Oculta e roubaram seu maior tesouro, os sapatinhos de rubi. Abate-se sobre os quatro e ameaça matá-los um a um, deixando Dorothy para o fim.
A ameaça de morte deixa bem claro o que está em jogo. A plateia sabe que ali se dará uma batalha entre as forças da vida e as forças da morte.
A Bruxa começa pelo Espantalho. Acende a vassoura e a usa como uma tocha para incendiá-lo. As palhas começam a queimar e parece que tudo está perdido. Todas as crianças na plateia acreditam que o Espantalho está liquidado e sentem com ele o horror da morte.
Dorothy age pelo instinto e faz a única coisa em que é capaz de pensar para salvar o amigo. Agarra um balde d'água e o esvazia sobre o Espantalho. Apaga o fogo, mas também molha a Bruxa. Dorothy não tinha a intenção de matá-la, nem sequer sabia que a água faria a Bruxa Malvada derreter, mas é isso o que acontece, e Dorothy a mata. A morte estava no aposento, e Dorothy simplesmente a desviou para outra vítima.
Mas a Bruxa não faz apenas "puf" e desaparece. Sua morte é adiada, agonizante e patética. "Ai, minha linda maldade! Que mundo, que mundo!" Quando finalmente se acaba, a gente já está com pena da Bruxa Malvada e sentindo um verdadeiro gosto de morte.
Nossos heróis encontraram a morte frente a frente, e podem sair dali para contar como foi. Depois de um momento de espanto, ficam eufóricos. Seguem adiante, para colher as consequências de terem desafiado a morte, na próxima etapa: a Recompensa, ou Apanhando a Espada.
Questionando a Jornada
1. Qual é a Provação em O silêncio dos inocentes? O príncipe das marés? Uma linda mulher?
2. Qual é a Provação na sua história? Sua história tem mesmo um vilão? Ou é simplesmente um antagonista?
3. De que modo um vilão ou antagonista é a Sombra do herói?
4.0 poder do vilão está canalizado em seus parceiros e subalternos? Que funções especiais esses papéis cumprem?
5. O vilão pode ser um Camaleão ou um Pícaro? Que outros arquétipos um vilão pode manifestar?
6. De que modo seu herói enfrenta a morte, na Provação? Qual é o maior medo de seu herói?